sábado, 9 de janeiro de 2010

PELO TEU CORPO ATÉ ÀS FALÉSIAS


Contador de histórias incompletas
que recolho nos sorrisos dos outros
como fotógrafo de olhar furtivo
na aventura de uma impressão apenas.

Prefiro ler nos teus ombros
interpretar os contornos da penumbra
dizer que é nas descidas acentuadas
pelo teu corpo até às falésias
a costa abrupta e definitiva do prazer
que gosto de me perder de cansaço.

As palavras ficam em silêncio
na margem insegura
que antecede as águas fundas
sobre as quais a cidade eu
e tu estamos suspensos da chuva
nos edíficios que não construímos.

Notícias do cais ao abrigo das vagas
que cedeu com a última tempestade
e se tornou perigoso quaseimune
para o telemóvel da bondade.

HAVIA UM NAVIO PARADO


Havia uma boca de pedra macia
aberta ao sol da erosão
e uma ilha de pedra picada
para provar antes da degustação.

Havia um navio parado
afundeado ao largo
a mover-se sobre si mesmo
a olho nú à distancia
à espera de coisa nenhuma.

Numa ilha feita de nada
dura só rocha só pedra
vinda não se sabe de onde
estrangeira talvez elevada
pela vontade de deus
pelo desejo vulcânico do fogo.

Um momento intenso assim
como o nosso de ontem
faz prolongar a vida
reescrever na pedra aa alegria.
Repousar na paixão.
Aprofundar a poesia.

AO SOL SALGADO DO SAL


Ao sol salgado do sal luminoso
no prolongamento do gozo guardado
detector dissimulado da ferrugem
e dos metais ancestrais do sonho.

Na previsão contígua da meteorologia
no vinagrete desse forte paladar
da paixão vigilante corpo que incendeia
que afaga e que nos faz renascer.

Dissimulada na ondulação do pó
nas águas da recusa e da entrega
nos nós cegos das cordas e das redes
onde peixe vivo é bom ser pescado.

Ali descansa resguardada na esperança
da dança na vida das tuas gargalhadas
vestidas de sal e tu sorridente ao sol
na pele amor de xisto ardente.

A POESIA NÃO ENTENDIA O SILĒNCIO


A poesia não entendia o silêncio
que aquela hora da manhã
deveria estar longe do pão
e da mesa das metáforas
que no armário tinham acabado.

Próximo do comedor dos pássaros
colocado com muita antecedência
debaixo da velha macieira
para quando gelado o inverno
não oferecer alimentos ao povo.

De tanta fome dissimulada tanta sede
não tinham resistência para mais
era o sono inerte sobre o corpo
até aos limites da quinta
do peso dos olhos sobre os lábios
que chuva cedem contentes
à pressão dos serviços postais.

E vida deslizava da dialéctica
como quem nem escondida
sabia caminhar nua na poesia
mas permitia à água potável
na mina de sal no céu do seu corpo
aberto para fazer crescer o desejo
e aumentar intensamente o silêncio do fogo.

BOA GENTE COMO SEMPRE


Quando amanhã como no ano passado
o outono preguiçoso se atrasar
malandro e brincalhão com aquele sorriso
explicar o que só pode não ser verdade.

De ter tropeçado num balde de zinco
tombado no meio das sombras
caído em cheio no barril de carvalho
quase ter morrido afogado
e ainda se sentir um pouco tonto.

Tu vais acreditar como aconteceu
quando a primavera de tão ousada
na acidez do vinagre de Modena
se meteu cuidadosamente
a fundo no meio do teu corpo.

Quase sem dor segundo se sabe
garantindo que só assim
poderia atravessar a ponte.
Para chegar até nós à beira da estrada
a vender ilusões e paises inxistentes
disfarçados de vendedores de melancias.

Certo é que se tu chegares
em primeiro lugar deitas-te e ficas
à espera que o céu desta vez ainda mais baixo
faça que não sabe que as outras árvores
não estão a ver e eu te abrace intensamente
e te transforme em basalto.

Como canta comovido o povo crente
boa gente como sempre
que acredita em tudo e se deixa levar
pelas falas mansas dos cantores.

SĂO ILHAS COM MUITA HISTÓRIA


São ilhas de pedra com muita história
caminhos de acácias e figueiras
os repolhos e os pimentões do mercado de Rovinj
que me fazem lembrar outras paragens
outros momentos de amor, diferentes do nosso.

O mundo finito ou é de deus
ou então não é de ninguêm
seja imperador regente ou regedor
sejam mercadores templários ou salteadores.

Aquele fazer que anda com camelos calmeirões
que vinham horas a fio quilómetros sem fim
não passava de um engano
para aguçar o apetite europeu
em Florença Génova ou Veneza
- se fosse agora eu tambêm queria.

Por essas rotas de seda
que até pêssegos e ameixas traziam
para aumentar a tentação da superfície lisa.

Por debaixo da seda até os sapatos
condiziam com a blusa azul-turquesa
da água mais funda dos teus olhos.
Muito para lá da Turquia
muito para cá do horizonte.

Ilsa mesmo longe de Casablanca
repete assim a preto e branco
esse beijo despedida de todos os beijos.

Do disfarçe e contra-espionagem
da paixão em tempos de guerra
no tempo de Rick não ficar em terra
de voar contigo e nunca mais te deixar
com as lágrimas do mundo nos teus olhos.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

3. PRÓXIMA AVENTURA DIURNA


“Eu escrevo versos ao meio-dia”
António Ramos Rosa

PARA A CIDADE NÃO ADORMECER


Haverá um dia bem sei
em que partirei de vez
e no meu coração quase seco
em mim tu partirás comigo.

Não sei se será logo na manhã
das horas refrescantes da maresia
se será pelas horas quentes
do meio-dia da vida lá fora
ou no interior da casa alugada.

Se será na calmia da noite
depois do trabalho o banho tomado
dos filhos todos na cama
as janelas abertas ao prazer
a falar em voz baixa
para a cidade não adormecer.

Haverá meu amor um dia
mesmo que não queira
em que terei de partir dizer adeus
e na ilusão virás comigo
nos recibos já pagos do sonho
que cresceu nas nossas mãos.
O último, o nosso primeiro património.

ENTRETIDA COM OS LOBOS


Ligeira e leve como o vento
salta à corda sem parar
a ponta atada à torre da igreja
entretida com os sintomas dos lobos
daqueles que só sabem fazer bem.

Salva de vez salta em declive
sobre os troncos de prata da caridade
das moedas recolhidas para os pobres
calor que refresca a casa fria
desse julho onde a superfície se inunda
do axioma, a profundidade do olhos.

Desconhecida solta o sonho alheio
talvez se arranje como uma galinha recheada
de condimentos e pão-ralado
comida à medida da mesa-de-cabeceira.
Esta semana a maior oferta da paróquia.

Solta das amarras das profecias modernas
desce a corda com cuidado pelo escadote
de metal do carpinteiro saltimbanco
que lhe faz a cama e para não ter medo.
Pega-lhe a cintura e salta com ela.
Salta para a outra margem do mundo.

CULTIVAR A ETERNIDADE


O seu sorriso de bronze
que inexplicavelmente se misturava
com o estanho colorido das nádegas
os dedos que recriavam o centro da vila.
Com as pontes antigas de pedra
das visitas guiadas a pé
pelos jardins privados do hospital militar.

O seu sorriso de prata
fetichismo visual adorno jovem
das nódoas no rosto mais lindo
iluminado a velas de cera
pelo perene chamamento da noite.
Chegava de manhã transpirada ao trabalho.

Sorriso polido pelas ferramentas
pelas luvas que protegiam as mãos
nem sempre fortes às vezes ousadas
na boa-aventura de quem gostaria
decifrar os segredos da soberania.
Recordar a primeira planície
para cultivar nas calmas a eternidade.

LONGE DE SABER OS SEGREDOS


No início longe de saber os segredos
da lua cheia para quem pensava
em se amar até ao último dia
e se prender na transparência dos fios.

Não era por causa dos convidados
contentes com a qualidade do serviço
a discrição perfeita dos olhos gratuitos
a postura doméstica dos criados.

A tensão que se sentia e perturbava
vinha nos troncos e nos braços dos cedros
para a construção a crédito do palacete
importados directamente do produtor.

Acasalavam-se nas águas da trovoada
nas brincadeiras sem fim das metáforas
com perfumes de ricas herdeiras
de areias douradas trazidas pelo vento.

Finalmente já muito perto de se saber
longe dos olhares curiosos e timídos
que na lua nova ou na lua cheia o amor
é o arquitecto paciente de todos os dias.

PRÓXIMA AVENTURA DIURNA


A água em cascata caía
sobre a pele de pedra verde
inesgotável intensa e acessível
sobre a barriga do mundo
que o poeta da ilha cantou
antes da falsa avaria do helicópter
da violação do espaço dos sentimentos.

Da mentira da noticia de abertura
num tempo que seria muito melhor
viver trabalhar e escrever
com as mãos pegajosas dos amantes.

Próxima aventura diurna
sem saber de patriotismos a vulso
a água em cascata caía doce
sobre os lábios molhados do bosque.

Mas quem sabe dar beijos assim
está livre de multas e coimas
de diplomacias de castigos corporais
está autorizado a pôr as mãos
as mesmas mesmo por limpar
em qualquer enseada do seu corpo.

PARA ESCREVER DO AMOR


Sabes para escrever do amor
que senti e que sinto por ti
para te descrever não preciso de ler
te designar interpretar os sinais da luz.
Não preciso de inventar nem de partir.

Basta fazer como hoje
com as aventuras do quotidiano
os automatismos que cansam.
Assumir a monotonia das semanas
que ilumina e supera as dúvidas.

Preparar os filhos para a vida
que é tambêm a nossa a prolongar-se.
Chega pensar na negação da morte.

Até porque se não fosse por ti
se não fosse por vocês diz-me
que andaria eu a fazer por aqui?

AREIAS PARA QUE SEJAM


Sem ler o texto a roda-pé
as instruções na planificação do sonho
sem medo nem consentimento
buscava em alvoroço para os dedos.
Os caminhos que levam as uvas
até a mulher dos seios de palha.

Pelas íngremes curvas fechadas
sem parar até à pedra fria
das coxas com sal a mais
transportadas no porão do avião.
Marinheiro sentia como ninguêm
na vertigem do naufrágio.

Para nós a vida fica redonda
junto ao muro na geometria dos pátios
e alguns rios do paraíso.
A sedução que não se acaba
quando os olhos que se conhecem
combinam discretos com a noite.

Depois em contacto com esse amor
infinito e irreversível escrevem do mar
da baía de linho, do céu dos joelhos.
Areias salgadas serão para que sejam
o próximo encontro na pedra
que aos poucos se desfaz em erosão.

COMO O ETERNO É MORTAL


Para interpretar as pedras anteriores
da subjectividade da história
da convicção inabalável dos deuses
fragilidade imperial do tempo
como o eterno é efémero e mortal.

Pela primeira vez na minha vida
à sombra das tílias passeava em Berlim
com as dioptrias dos meus óculos
que ajustava para ver melhor.

Imperial em Portugal é boa cerveja
ali caneca maior era ainda melhor
nem esperei pela argumentação do sol
da colecção das bases para os copos.

Ficou a lição da diversidade
que entendi por bem sublinhar
diluir com uma dose servida de paixão
e embrulhar em metáforas de gratidão.

Depois de tanto tempo parada junto ao rio
usava o sabão azul para despegar
o musgo agarrado aos joelhos
empenhada na pureza das margens.

Para limpar a alma até ao fim
usava o esfregão de arame com areia.
A hidráulica simples do seu sorriso
cruzou-se na irrigação dos canais de madeira.
Ali ficaram abrigados da chuva inesperada.

QUEM LHES DERA PROVAR


Quem lhes dera poderem provar
os queijinhos frescos de cabra
que submergiam o relevo
e acentuavam a morfologia.

Musgo nas pedras enfeitadas
que séculos depois talvez fossem
classificados de bustos e monumentos
património mundial do queixume.

Templos de tempos sem produtos
sem tempo para festas populares
pastores a pastar bezerros mansos
tão ao gosto doscapatazes.

Coma a bela Salomé a dançar
a melhor dança do ventre à mostra
um exclusivo do jovem rei republicano
que guardava as ilhas só para si.

Salmos provérbios e bom augúrio
de Mileto grávida de três gêmeos
todos rapazes dois de gesso
e um o último de ferro-forjado

Por muito que doa dizer
a infelicidade é uma das almas
que o sonho a vida finita
com gosto habita e escurece.

AS PALAVRAS DESFAZEM-SE


Caminhando pelo museu
observando o passado
anotava no papel amarrotado.

Sitiados na cidade os defensores
argila do rio de barro fresco
das redes do sistema defensivo.

Defendendo como ninguêm
como se fossem o último soldado
dessa razão que nos assiste
se fosse justo pensar assim.

Os nomes e os homens passam
e as palavras desfazem-se
na escuridão das ideias
no texto aldrabão da distância.

Enquanto a igreja sábia e previdente
decepava os sexos das estátuas
não fosse o diabo tecê-las
dar-lhes vida e sentimentos.

Com tanta fenda por aí
tanto telhado virgem de vidro
seria o bom e o bonito.

Nas acessibilidades da morte
no erro da avaliação do futuro
nem a escrita me faz imortal.
Mas é por ti que eu escrevo
é para ti a poesia.



Budapeste, Istria (Croácia) e Berlim, 2009
(Projecto – AS PALAVRAS CONTINUAM)

PALAVRAS À LUZ


CONTEMPLAÇĂO A TRÊS: DO CÉU DA LUA DO SOL
Às minhas filhas Gabi, Anna e Marta.


SETE ALIMENTOS DA TERRA - SETE PROMESSAS



DA ÁGUA ATÉ À LUZ : NOVE ELEMENTOS



Pedro Assis Coimbra. 2007-2008
(Projecto - AS PALAVRAS CONTINUAM)

1. CONTEMPLAÇĂO A TRÊS: DO CÉU DA LUA DO SOL


Às minhas filhas Gabi, Anna e Marta.

DO CÉU – INTENSA A LUZ DO CÉU


Quando intensa a luz do céu
iluminou as portas fechadas
junto às pontes de madeira
dos mastros do pensamento.

Recordei esse beijo de biblioteca
framboesa de cultivo delicado
e do livro que conta o segredo
da origem das chaves do céu
guardadas no cacifo de Pedro.

No céu de palácios suspensos
à imagem de coisa nenhuma
eram pontes portas e chaves
prados de papoilas e margaridas.

Janelas decoradas de giestas
para a salvação do Filho de Deus
celebrada com harpas e violinos
madalenas ousadas e alguns pecadores
na corrida ao ouro dos mal-amados.

Na contemplação furtiva do amor
olhos que iluminam a escuridão
com a cor que o céu espalha
e a luz libertadora da erva-sidreira.

Senti os ventos das palavras de Pedro
que traziam parábolas e metáforas
que atento o povo ouvia e seguia
quando à sombra de cedros e oliveiras
indicavam o caminho da alegria.

DA LUA - LINDA A LUA DESCE A RUA


Linda a lua desce a rua
lisa e nua lua tão bela
e baila lamparina linda
bailarina bailarina
sobre o rio com um fio.

Vai mais linda vai mais bela
no baile de rio sadío
no fio do amor de safío
pela rua com a lua.

Baila linda bela bela
como a luz forte da lua
que ilumina que ilumina
dentro da mina perto da rua.

Lamparina e candeeiro
mensageiro do coração
mel de princesa rainha
da ilusão do tempo inteiro
água lisa nas mãos da rua.

Linda de mel do mel
pois mel-linda lia lia
vêm mais linda vêm mais bela
baila baila bailarina.

Lia que queria e não sabia
ler o livro ser tão bela
era melhor Raquel que ela
mas Lia sorría sorría
feliz do país que tinha.

Sabia o seu tempo já era
de Raquel nova rainha
plebeia nua como a rua
caminhando pelo rio.

Véu aberto água lisa
veste linda o céu tardío
boca azul nas mãos da rua
vai mais linda vêm mais bela
a bailarina feita rainha.

DO SOL - FORTE O SOL FOI SUBINDO


Forte o sol foi subindo o tempo
devagar sem pressas até tocar
os muros as paredes da vida
com todo o tempo do mundo
como diria Gaudi de Barcelona.

Ao de leve com as palmas húmidas
as pontas das mãos nas pedras
quase secas nas areias douradas
do caminho marítimo desconhecido
até ao grande mar azul escuro
ao prefácio do sol na boca pintado.

Esse sol distante do pensamento
do calor intenso de diamante do mar
pérola brilhante daqui desta margem
com todas as palavras perenes
a claridade que indica pacientemente.
os vocábulos que da luz transparente.

Com o sol suavemente aquecendo
as costas esquecendo os ombros
misturando a vontade divina
com a simplicidade dos homens
no desejo de alcançar a vida eterna.

Pois esta chega do sol na paixão
com a brisa salina da madrugada
com a humidade espelho da prata
quando o sol fechado se faz escuro
e difuso pela neblina da felicidade.

Troca as urtigas das utopias
pelos tapetes de nuvens e lírios
que ao sol crescem ao sol recordam
ao sol desejam ter sol no sorriso.
De terem escritas nos rostos claros
as tardes das palavras mais lindas.



Budapeste, 2007-2008

2. SETE ALIMENTOS DA TERRA - SETE PROMESSAS

AZEITONAS

(Com azeite no prato azeitonas no pão)

Oliveira em flor do alentejo rural
oliva raiana junto à fronteira
do nordeste frio que arrefece
e diz-se que olívia era tradicional.
Gostava muito de refrescar a pele
na acidez do azeite extra-virgem
se perfumado com alho esmagado.

O tecido fino e suave no corpo
de paladares e gostos simples
que afinal o seu prato favorito
era comer pão de trigo já duro.
A pele dura como o pau às fatias
remolhada em azeite aquecido
sobre o tampo largo e liso da mesa.

Em tempo de ser comida sem pressas
no pratinho de barro bem azeitada
que era o melhor petisco que havia
Olívia no início da noite mais longa.
Limpava com os dedos com a língua
por isso chegou ao largo tarde demais
à procissão da paixão do menino.

Com o atraso da promessa por pagar
perturbada deixou a gata aluada em casa
e mal vestida mal comida mal amada
veio para a rua do oriente do sonho.
Passear devota quase nua no olival
com ramos de oliveira nos cabelos.
Com azeite no prato azeitonas no pão.

CEVADA

(Porque ali diluída a cevada)

A escrita é feita de sonhos
de audácias descontínuas
nas supresas dos sentidos.
A escrita é feita de silêncios
de frutos e pensamentos maduros
fruta verde colhida à socapa
sem ser acusada de ladra.

Na arca guardada das palavras
das ideias ao alcançe das mãos
na imperfeição recolhida nos textos
das vozes pela viagem da erosão.
Na luminosidade próxima dos corpos
parecia ser das mágoas da canção
ainda do tempo de águas antigas.

Porque ali diluída a cevada
e na eira a secar a castidade
criada para bebidas sagradas.
As promessas de povos escolhidos
faziam lembrar a primeira madrugada
escritas nos novos textos das searas
mesmo mesmo à entrada da cidade.

FIGOS

(os figos ainda quentes)

Antes do naufrágio virtual da história
do sonho da ilusão do século anterior
e para não ter que interpretar
as desgraças tardías e algum bem fazer.

Analisar com o cuidado da geografía
cada uma das palavras desenhadas
fora da página e do contexto da quinta privada
o mapa das alegrias de trabalhador que aprende.

Para surpreender cada metáfora distante
mesmo se na tarde fría mesmo se toda nua
desnudada na luz intensa dos sentimentos
no abandono que anuncia desejada a escuridão.

Deixem-me ficar de boca fechada
como se estivesse ainda debaixo da figueira-mãe
na sombra da minha escola primária da Portela
entre a ala das raparigas e a horta da Faustina.

Comendo sózinho sem fome nem pressas 
os figos ainda quentes lavados e limpos
nas palmas das mãos e nas calças pelo cuspo
antes de passear a dois até ao inverno do cais.

Sei que trocariam a longevidade dos sentidos
a forma do vento norte pelo colorau em pó
feitos à medida das águas da minha sorte
do milagre exacto na marginal dos teus lábios. 

Escrevem que há sapos no lago sem fundo
persiana opaca feita de flores aquáticas
daquele que foi amor à primeira vista
pelas sapas dos olhos sapudos de Voltaire.

ROMĂ

(lá na Terra Prometida)

Quando em casa à sobremesa
em vez de gelados ou chocolates 
com golpes curtos seguros e breves
abria uma ou duas romãs que dividia
em partes quase iguais pelos seis.
 
Romãs compradas no mercado
importadas da Itália ou da Turquia
solene dizia como parte da cerimónia
- não se esqueçam que a romã
é um fruto bíblico do Antigo Testamento.

Quando penso nas romãzeiras
primeiro em flor depois carregadas
dos seus frutos tão belos recordo
se as lembranças não me enganam.

Na ldeia onde nasci não havia 
frutos mais vulgares que as romãs
marmelos e figos eram os frutos do povo
todos podiam colher e comer logo ali.

Mais tarde imagens da ousadia juvenil
logo depois do mensageiro da salvação
escreveram sobre tintos muitos maduros
do profeta junto ao Muro das Lamentações
lamentam a taça perdida do vinho do passado.

O encorpado vinho de romã do Rei Salomão
que aumentava a fertilidade da terra
a desejada mãe lá na Terra Prometida
prometida a muito mais gente
que a lotação máxima permitida.

Graciosa despia-se sem pudor
junto à torre à praça-forte do sentinela
na encruzilhada dos dois rios muito famosos
um Tigre salgado e um Eufrátes mais doce
para adocicar na pele os desejos do prazer
e guardar as roupas para o dia seguinte.

TĂMARAS

(menina linda nome de tâmara)

Ainda agora meu amor
no largo dos sem destino
nem fado nem abrigo
tantos séculos depois

citam textos antigos
dos livros mal guardados
roubados ao alfarrabista
antes das cinzas eternas.

Mil milhares de formigas
peregrinas e devotas
caminham indiferentes
às armas dos salteadores

pelas pedras do caminho
indiferentes às feridas abertas
à negação profunda da vida
caroços verdes das tâmaras.

Na terrina terra de xisto
sobre a mesa decorada
em pequenos potes de barro
mel de pétalas das flores

onde se lava levanda
da poeira branca da tristeza
e do pó preto da alegria.
São em si a própria vida.

Inquilina do meu coração
ressalva doce em roda-pé
epílogo e dia de semana
te recordas das tâmaras

no sonho em chávenas de café
que algum dia pude provar
pois não há quem te não queira
menina linda nome de tâmara.

TRIGO

(Na esquina do trigo da manhã)

Na esquina do trigo da manhã
ao longo dos seios femininos
com ousadia o corpo baloiçava
com ritmo e evidente bom gosto.

Com o canto alegre dos pintassilgos
bandos que povoam as searas.
Baloiçava à esquerda e à direita
melhor que os cabelos do vento.

Seios de terra castanhos claros
talvez brancos por fora
brancos da blusa côr de trigo
da côr das mãos ali esquecidas.

Na demora prolongada da noite
a máquina de lavar roupa
moderna não parava de trabalhar
com detergente e amaciador.

Os seios esses repousavam a casa
pratos de comidas para pássaros
onde se amacia e se embebe
o trigo ou o milho ainda por apanhar.

Seios de palha quase seca
no farol inventado da ilha
lua da antevisão do fumo
após o fogo de alma cansada.

Pela seara imensa do trigo
com as primeiras águas do dia
os primeiros sons do povo
no trabalho amanhece a poesia.

UVAS

(e nos cachos de uva preta)

Pensam à noite voltar à vinha
fábulas de uvas e de gatos bravos
a picada profunda da serpente
da sede sedenta de água salgada.

Segundo os manuscritos sagrados
estão protegidos pelo oleado verde
das horas agrícolas da paixão.

Inventam à noite uvas de mesa
da natureza morta na tela pintada
das roupas arrumadas na cadeira
que queria como ausente querida.

Ficava quieta na quietude do silêncio
da tarde do verão mais quente
na cidade à beira rio erguida.

Calam à noite no lagar de pedra
o vinho do prazer colectivo
na liberdade da arte antiga
dos que trabalham as cepas e as parras.

Amantes do erotismo excomungado
saladinha de atum dentes de alho
e as folhas de rúcula da santa igreja.

Cantam à noite antes da vindima
depois do mosto grosso da alegria
e da visita às caves do coração
no regresso ao futuro adiado.

Escrevem à noite as passas secas
dos desejos para o ano novo que aí vêm
do lado de lá do mundo: o milho
do lado de cá do poema: a espiga


Budapeste. 2007-2008

3. DA ÁGUA ATÉ À LUZ : NOVE ELEMENTOS

ÁGUA

(dos seus olhos lindos da chuva)

Brincava com as palavras as de sempre
como quem despejava baldes de água
na areia seca da praia.

Construía sonhos e vertigens
castelos com essas palavras molhadas
património íntimo da paixão reiventada.

Contava os dias e as noites
todos os meses certos do ano
nos caminhos da nascente
de pedras por agora ainda verdes
até ao canavial do seu coração
ao sol o local mais próximo do poente.

Com o primeiro contacto do medo
escondia o sorriso envergonhado
das papoilas das tempestades
trazidas pelos ventos fortes
por cima das mãos gretadas
até aos lábios salgados das dunas.

Secava os seus olhos lindos da chuva
côr dos abetos-de-aquém-mar
para lá do condominio azul da água.

Brincava com as palavras
e não esquecia as metáforas
repetidas quase até à exaustão.

Depois deixava o bar em segredo
e regressava pela noite ao navio
com histórias de batota para contar
do dinheiro perdido do jogo do engate
das peças de roupa de contrabando
e das redes de pesca mais fortes do prazer.

A nudez transparente colhida do fundo do mar.
Quem poderia resistir a um chamamento assim?
Perguntava à poesia mesmo antes de a abraçar.

METAL

(Esqueciam a pele do metal mais duro)

A chuva de pedra da tempestade
pelas nuvens há muito prometida
grossa chegou de súbito furiosa
quando já ninguêm a esperava.

Caíu sobre as telhas sujas do beiral
a chapa de zinco do telheiro
com vontade de ser útil de lavar
e de moderno a terra a frio tatuar.

Esqueciam a pele do metal mais duro
o coração na laminação do ferro
húmido da dor pelas mãos moldado
aos novos tempos da inquisição.

Dizia que no mercado de reposição
das peças e ferramentas de corte
de metal do trabalho internacional
não se ouvia uma só voz solidária.

Como as viagens de comboio
que da emigração sempre associei
aos exilados e aos perseguidos
que nem a poesia defender sabia.

Longe do fogo-posto do passado
na contra-luz mestiça da metáfora
com mestria o chefe-da-estação
com a chave-de-fendas no bolso.

Recordava a campainha da bicicleta
roubado ao melhor cinema italiano.
Regressava com o sonho quase perdido
da consciência colectiva da cidade
distante do dia de merecer o futuro.

CORPO

(Madalena madalenas chocolate branco)

Vestida de branco na bicicleta
naquela hora terna da manhã
esguia pedalava à minha frente
com energia para aproveitar
o sinal aberto da passadeira.

O perfume devia ser de rosas
hálito e gosto de capuccino
sabores de madalenas doces.
Mas eu distraído não sentia
tinha os vidros fechados
e atento ouvia Haydn na rádio.

Em casa no sofá da televisão
e a família numerosa por perto
pensava - cão que ladra não morde.
Que atire o primeiro olhar
quem não tenha telhados de madeira
ou guiadores de papelão

De reencontrar na pesca
nas margens brancas do rio
a minha preferida Madalena
da Pimentinha de Elis Regina
de véu de túnica ao vento
na voz do anel apertado no dedo.

E ainda havia bem sabia
outra Maria ou Madalena Pecadora
que não tinha sido mulher de Cristo
não tinha nascido nem chegado pagã
dos livros do Livro Sagrado
- abençoada ousadia do olhar.

Esta gostava vestir-se de branco
por cima e por baixo eu via
na transparência opaca da luz
para prazer visual ou multibanco.

 Não era nada má não senhora
os brincos de cereja pareciam
e o baton intenso da mesma côr
a gata mansa de unhas perfeitas.

Mais tarde eu soube aí soube!
Madalena madalenas chocolate branco
junto ao mar serrote funcho ou punhal
a pouca distância da terra
da nossa Madalena do Mar.
- Deus que susto anjo me guarde!

Do gelo formatado dos olhos
ao fogo as setas de peito aberto
quem nos dera fosse o dela
- dizia sábio Pedro ao meu lado.

Era o gelo de boneco-de-neve ao sol
derretido no tremor tenso dos lábios
assim que abria a bela boca pequena
e fazia ouvir a sua voz afiada de tesoura.
Ó Madalena da encosta a lenha que pena!

FOGO

(Se do fogo nasce a luz)

Se a longitude da noite deitada
sobre o tecido mais fino das sílabas
sem lençóis leves nem cobertores
no tapete vadío de cão sem dono
jamais sofria da fome e das rugas do frío.

Espojadas no chão as palavras
com as pulgas de estimação
água bebiam nas poças das chuvas.

Se do fogo nasce a luz
e com a liberdade das mãos
se fecunda a terra do povo
castidade cativa na catedral do prazer.
que é afinal cópia perfeita da criação.

Na deserção dos dedos de carvão
cortina escura da mina afirmava:
irmão eu sou assim e outros nem assim são.

Sazonal lentamente o fogo
aquece as paredes da casa
das sílabas da barríga vazía
da malícia da palavra perdida
com o refogado condimentado.

Na nave central da nossa alegria
de tanto texto tanta declaracão de amor
escrevia de Matilde primavera francesa.
Nome de musa. Flor de poesia.

MADEIRA

(A madeira povoando o nosso coração)

Aqui estrela de pinho em fogo-posto
o fogo-morto já se apagou de vez
no casco no sub-solo salino
da traineira marítima do sonho.

Era feito do carvalho mais resistente
da madeira cúmplice da cumplicidade
das cinzas do povo que ilumina
e que nos indica na noite o caminho.

Como a rota do vinho a rota do vento
a brisa da impossível paixão eterna
do rapaz criado da cavalariça
pela formosa filha mais nova
do dono de todos os cavalos
de todas as éguas mais lindas.

Paixão que crescia sem parar
como a famosa árvore do tal rei
que acabou árida sobre as rochas
das mais antigas palavras redondas.

Madeiras duras e macias
como esse ventre morno
de aparas e colas prensadas
no forno a altas temperaturas
essa pele pintada da amada
a óleo pai de pintor anónimo.

E nós do lume por vezes pela manhã
escrevia Eugénio de Andrade
somos mais frágeis que o vidro do sorriso
do que a pedra ou o vidro do silêncio.

Neste último assomo de país-floresta da ilusão.
de mudar voluntário de cidade e de insurreição
escrevo ao ar livre a secar perto da serração.
A madeira da cama povoando o nosso coração.

AR

(Era o ar puro da liberdade)

Enquanto a terra se cobria
de mil mares de água salgada
o frío de pescar à linha o futuro
percorria os bairros insurectos
recolhia cada um dos pensamentos
sem medo do falatório e da má-língua.

A água que subia depressa
na casa clandestina da conspiração
apagava a chama o fogo intenso
essa maldição madrasta da fogueira
com algumas pedrinhas de sal
que fazia do ar as cinzas mais opacas.

Perto da devoção da praça de toiros
do abismo jovem da luta final
enquanto a terra se mexia
com a colher de pau das ideias
pelas janelas abertas da cozinha
o almoço que mais parecia uma canjinha.

Perto da casa da papoila-mocinha
mais formosa de década da utopia
era o ar mistério da igualdade
servida em pratos de ingenuidade
os pacotes-mãe de bolacha maria
e as nêsperas das nespereiras do povo.

Quando este país Portugal
mostrava à Europa ao mundo
que ainda não estava morto.
Era o ar puro da liberdade
que inundava o largo principal
que envolvia a nossa cidade.

TERRA

(Terra de todos e mais alguêm)

Terra de todos e mais ninguêm.
Terra de poucos e mais alguêm.
Terra extensa de pastos e baldíos
charruada gradada e destorroada
pelos torrões e dedos desnudadaa
no erotismo do feno aos molhos.

Talvez o passarinho rabo-de-palha
da erva recolhida quase seca
e armazenada ainda verde
para a formiga do longo inverno
do amor que a terra fértil cultive
com o fertilizante dos primeiros amantes.

Terra quente terra aquecida
pela fogueira do formigueiro
por terras que seriam movedíças.
Terra fértil fertilizada e renascida
pelo fertilizante inóspito da química
do prazer dos primeiros amantes.

Terra de vespas de veludo perigoso
pragas insectos e ervas daninhas
que crescem sobre o formigueiro
que escrevem com comichão
nas costas nos dedos nas mãos
na árvore da formiga feiticeira.



Sedução jovem de pão preto

do amor alado da única rainha.
Formiga de asas brancas caídas
de princesa nascida ainda virgem
amada vir à praça ser fecundada
pelo formigão que não resiste.

A água-benta de acasalar a formiga
a rainha com o plebeu mais negro
o mais robusto do formigueiro
triste a morrer deserdado da paixão.
Em fila um e depois outro e outro.

Mas a hora era da rainha e do formigão
para que a dinastia se mantivesse azul
nas terras de sequeiro e de regadío.
Terra de formigas escolhidas.
Terra de poucos e mais alguêm.
Terra de todos e mais ninguêm.

PALAVRA

(se tiver pão e circo)

A condessa segunda
sem dar nas vistas
discreta e distraída
mas com as medidas
certas nos olhos
roçava sem ninguêm ver.

A pele da barriguinha lisa
ao tecido da farda
das calças coçadas
de fecho fácil de abrir
do motorista da empresa
mais novo que o filho doutor.

Eram as primeiras frases
do guião já aprovado
pelo director de ficção.
A história prometia êxito
grande sucesso de audiências
mais receitas publicitárias.

Pudera com um caldinho assim
- mulher madura podre de rica
mas ainda uma brasa a arder
cá com umas curvas um corpinho
um par de pernas de catálogo
e uns lábios carnudos
que qualquer revista masculina
pagaria uma fortuna
por uns semi-nus exclusivos.

Assistir ao lançamento
de mais um jovem talento
no papel de motorista
de serviço all-inclusive
das compras ao escritório
da garagem à cama da viúva
as cenas tórridas hardcore
para gula dos outros olhos
do lado de lá do filme.

Sabem se tiver pão e circo
o povo ficará grato
e se o pão não chegar
haverá circo a dobrar
que virtual esta vida
é um show cada vez maior.

Metáfora que antecede a poesia
e que passou ao lado da vida
entre paredes e muros de pedra.
A poesía extraída da pedreira
onde se constroem com gasolina
as estradas mais longas da ilusão.

LUZ

(a luz dentro de nós um dia)

Na mais comum das madrugadas
que anunciava a manhã
os barcos e braços da poesia
procuravam os caminhos da luz.

Do vermelho do sangue diziam
ser por vezes água do mar
de não saberem a tabuada
tabu de não saberem navegar.

Mas quando a luz naufragou
todas as mulheres do povo
cobriram-se da côr da noite
desde a ponta dos pés até ao céu.

O povo em mim é metáfora
não é vaca sagrada malhada
nem vitela nem bezerro
de basalto ou de granito.

Não é filosofía alemã
renascimento italiano
capítulo categoria da história.
Aqui o povo é apenas metáfora!

E na poesia meu amor
densa leitura há um dogma
ainda que vulgar frase feita
de vitrine da cidade terna

na sede da formosura não sei quando
mas em que simplesmente acredito
- um dia a luz da nossa cancão
será mais forte que a escuridão.

Budapeste, 2007-2008

FADOS DESTINOS E ALGUMAS PALAVRAS



"La tristesse durera toujours" Vincent van Gogh

GOSTARIA QUE FOSSE UM FADO

Ainda agora meu amor
algures longe do mar
longe das origens do vento
é sobre a mesa decorada
com pequenos potes de barro
do mel que as mãos esquecidas
repousam sobre a toalha
no tecido azul das palavras.

Ainda agora meu amor
tantos séculos depois
no largo dos sem destino
onde sem abrigo nem fado
citam textos muito antigos
dos livros mal guardados
roubados ao alfarrabista
antes das cinzas eternas.

Mas quando a luz naufragou
todas as mulheres do povo
cobriram-se da côr da noite
dos pés até às portas do céu.
E é bom sentir os meus dedos
nos teus dedos de inverno
e sei que não os trocaria
por nenhuma plena primavera.

POR DENTRO DO NOSSO PASSADO

Que seria de mim sem ti cantavas
tão perto do mar tão longe da serra
muitas promessas de alegrias eternas
as mentiras finitas do xaile de pedra.

Na esquina do sol havia uma praça
onde os cães vadios dormiam a tarde
vestígios dessa ousadia tão nossa
quando em mim ainda eras tu a cidade.

Percorre a luz na sombra da rua
da sedução aberta pelas mãos do acaso
e junta com cuidado os dedos à porta
fechada por dentro do nosso passado.

Esconde os bem silêncios na boca
e levanta os sentimentos do chão
senta-te à mesa na minha casa
mas não troques as jóias do coração.

E uma vez mais te recebi com paixão
com promessas de carícias gratuitas
dividimos a festa a cama e o pão.
Que seria de mim sem ti cantavas.

MEU AMOR MEU DIOSPIRO

Se um dia soubesse escrever
as palavras de um só poema
com as metáforas mais intímas
usando a rima perfeita

Sei que não seria um poema
serias meu amor tu mesmo
comigo quem sabe por perto
para te aquecer as mãos

Para me proteger do frío
e te oferecer um fado
meu refúgio sorriso claro
meu amor meu diospiro.

Eu que fui mina e fui de pedra
tenho ainda mármore nos dedos
e na voz guitarras de prata
memórias de muitos segredos.

Se um dia pudesse cantar
no verso frágil um único fado
serias tu eu estaria por perto
amêndoa doce amor perfeito.

OS TEUS LÁBIOS SALGADOS

Vêm e traz as tuas mãos verdes
colhidas com ramos e folhas
e aves bebem juntas às vezes
na fonte das pedras húmidas.

Traz os teus lábios salgados
do sal do saleiro das dunas
que juntei para ti nas ondas
ao sol e nas redes alguns mitos.

Vai e leva a luz matinal
bem lá no fundo dos teus olhos
marmita do amor intemporal
que ilumina os meus sonhos.

Leva os meus lábios salgados
do sal que bebem em ti as aves
que saboreiam ainda os teus olhos
nas asas das minhas mãos verdes.

A ALMA CELTA DO FADO

Diz que seria da nossa cidade
sem as festas sem a tua ternura
como poderia viver viver sem ti
a vida toda à tua procura.

Sim sorri assim sorri para mim
pássaro azul saído do mar
toutinegra do meu país a sul
nesse voo que prende o meu olhar.

Quando naquele dia sonhei
que chegavam barcos doces e beijos
na abundância da água provei
o melhor medronho dos teus lábios.

Entreabre as portas do destino
à alma celta do fado antigo
no litoral no cais do violino
vertigem da noite passada contigo.

Sorri assim olha assim para mim
em viagem prolongada sobre o mar
andorinha da nossa primavera
lua nova que apetece cantar.

GENTE BOA DE LISBOA

Há paises com muita história
e outros com muita geografia
há sonhos perdidos nas águas
e fados esquecidos na poesia.

Pois a vida chega do sol da paixão
com a brisa salina das madrugadas
olhos que iluminam a escuridão
ervas pecadoras e outras madalenas.

Com as primeiras mãos da maresia
com os sintomas seguidos do fogo
o amor é teu é meu e se fosse nosso
braços fechados e laços de seda teria.

Ali seria sem ninguêm esperar
na demora da noite tardía
do farol sonânbulo da ilha
os sinais abertos do verbo amar.

Nas avenidas novas da cidade
na textura da minha alma profunda
de tanta gente boa de Lisboa
do barco preso nas mãos da tempestade.

Há povos com muita geometria
e outros com muita matemática
há fados com saudade da poesia
e poesia desenhada mesmo para o fado.

PALAVRAS MAIS ÍNTIMAS

Foi ainda antes do meio-dia
quando o sol brilhava azul
no rio dos seus lábios.
Fraterno o sol brilhava
como não nao seria possível
em nenhuma outra parte do mundo.

Cúmplice temporário do fado
acariciava as promessas
de amor eterno dos amantes.
Palavras das ideias mais intímas
no sol da fascinação primeira
que subia azul nos seus lábios.

O sol pelo corrimão da tarde
que estava apenas a começar
seduzido brilhava na água
do lago verde do seu sorriso
entre as pedras lisas da noite
e barcos parados à espera.

Junto ao beiral da casa fluvial
fado surpresa da madrugada
o sol brilhava na terra preta
do seu sorriso mais aberto.
O sol crescia nos seus lábios
como em nenhum outro sítio.

Ainda antes do meio-dia
o sol brilhava nos seus lábios
em todas as terras do mundo
azul e fraterno sedutor e verde.
No último canto da terra preta
tu eras a visita que iluminava o sol.

TRISTE SERIA LISBOA SEM FADO

Sei que sem hesitar trocariam
a traineira marítima do sonho
mão-morta abre a janela da vida
pela voz tecida pela luz fina
para guardar com muito cuidado
no fundo do coração do oceano
pelo fado que conta o segredo
das chaves do céu no cacifo de Pedro.

Sei que sem hesitar trocariam
as palavras mais lindas da tarde
a longevidade dos sentidos
a forma exacta do vento norte
pelos tapetes de nuvens e utopias
as varandas decoradas de giestas
pelo colorau em pó dos teus lábios
feitos à medida das águas da sorte.

Sei que sem hesitar trocariam
as amêndoas amargas do silêncio
feito ternura da madeira mais dura
pelas guitarras macias dos dedos
os rostos mais claros da madrugada
pelas cinzas povo que ilumina
e a nós nos indica o caminho.
Que triste seria Lisboa sem fado!

NOITE NUNCA MAIS TE SONHEI

À saída sub-urbana da noite
dessa estação quase vazía
que tinha sido da alegria
olhei uma ave sózinha
na escadaria da tristeza.
Em voz baixa em teu nome
dizia que era a mim que queria.

Mas na noite desse dia
que era já da solidão
de quem como nós com paixão
nos habituámos a partilhar
cada batida mais rápida do coração
entao eu ainda não sabia.

Que o comboio onde ía
mais moderno que o amor
e mais antigo que a dor
tinha um destino único
e nunca mais iria voltar
para te voltar a encontrar
para te poder abraçar.

Sonhar o teu amor só meu
pássaro morto antes da vida
intensa de noite acesa de dia
fria de inverno quente de verão.
Mas a estação estava vazía
tão vazía como o meu coração.

Na verdade do nosso amor
na hora exacta dos sentidos
e no jardim em verso da tristeza
nem a tua sombra encontrei.
No coração do meu fado do nada
já não vi nada nem ninguêm.
Noite escura nunca mais te sonhei.

NAVEGAVA CONTRA O VENTO

Junto com a maresia
do prazer das palavras
cantava com alegria
as histórias do nosso fado.

Com a metáfora mais pura
das marés vindas do mar
avela enfeitava o navio
que navegava contra o vento.

Já na cidade a do destino
que cedo deixou à porta
do lado de fora da luz
do lado de dentro do sonho.

Era povo e era diva
era dor e era noite
encontro ao fim do dia
símbolo maior da paixão
da eterna canção de Lisboa.

Deixou-se prender nas vagas
desse povo amor verdadeiro
que nem é preciso cantar
pois está tão perto de nós
que até dói mas faz viver.

NO BAIRRO ALTO DO POVO

Enquanto a terra se cobria
de mil mares de água salgada
o barco deixou-se caír nos braços
contra as rochas sem uma palavra.

Brava a água depressa subia
pelas mãos lisas a secarem ao sol
e apagava as chamas do fogo
com algumas pedrinhas de sal.

Era o mistério da igualdade
era o ar puro da liberdade
que enfeitava a praça principal
desejo que envolvia a cidade.

E percorria tabernas e bares
os bairros insurrectos do sonho
ali no Bairro Alto do povo
onde ainda hoje se canta o fado.

O fado é feito também de silêncios
de frutos e pensamentos maduros
fruta verde colhida à socapa
lua nova sem ser acusada de ladra.

Com as primeiras luzes do dia
com as primeiras palavras do povo
na voz fadista amanhece a poesia
no trabalho anoitece o fado.

A FOME DA TUA BOCA

Juntámos os ventos do vento
que misturam o sol e a sombra
quando trazem morno o sonho
e cultivam as terras da terra.

Porque o trigo da tua boca diurna
aproxima-me aos poucos da vida.
O barco chega na voz que navega
nessa água que queres mais pura.

Breve veste-se frágil da ilusão
dos desejos da paixão que perdura
no silencio da sede da sombra
de tanto beber na fonte nocturna.

Na frescura d'areia com sabor a sal
e na baixa-mar deixa o amor cantar.
Por vezes há silêncio nos segredos
que nem a dormir se deve sonhar.

Amor janela aberta do teu corpo
e enganar a sede profunda da fonte
na seara doce da fome ma tua boca.
A imagem mais clara do nosso fado.

FADO JOĂO E MARIA DA CONCEIÇĂO

Com os dedos secos quase gastos
toca sem parar arranca a melodia
da concertina francesa que um irmão
da Maria da Conceição comprou
a um bom preço em segunda mão
quando passaram a viver juntos
em Alfama numa casa arrendada.

Boa ajuda no ganha-pão dos dois
poder comprar o pastor-alemão.
Desafinada como a sua voz rouca
arrastada que podia ser de palhaço
de circo pobre sem eira nem beira
de trapezista sentado na escuridão
de voz conhecida da rua de Lisboa.

Junta algum João da Concertina
leva-a a passear de comboio foguete
até à cidade do Porto ao rio Douro
do bom vinho e do melhor futebol
para três dias sem a grande a lotaria
onde não tenha que vender a sorte
sem sorte nenhuma para ela diria.

Saí com ela de barco da Ribeira
com bar e restaurante manda vir
uns torresmos pataniscas uns rissóis
pede ainda um cimbalino à maneira
que a ginginha é oferta do capitão
da mãe da tua poesia do nosso fado.

Pela bengala branca do destino
mesmo no escuro não te esqueças
o homem dela és tu João da Concertina
que entre plágios e tanta seduçao
o único brilho do sol que ela quer
é aquele que aquece a tua mão.

AMADURECIA NAS TUAS MÃOS

Amadurecia nas minhas mãos
como se não houvesse ramo
nenhum tronco de árvore sombra
do pomar entre altos muros
visita frequente do meu sonho
que descansa bem lá ao fundo.

Amadurecia quando distante
porque se afastava ousado
no bico desse pássaro tão belo
que se imaginava dono de tudo
dono até dos caminhos e campos
baldios perdidos de frutas e frutos.

Amadurecia nas tuas mãos
que conseguiam parar o vento
onde se confundiam abraços
meu amor apenas minha flor
frutos e ilhas repletas de chuvas
ilhéus no coração dos caminhos.

AO AMOR DA NOSSA CIDADE

As mãos ternas da liberdade
passavam horas a fio
nas margens brancas do rio
ou perto do campo das cebolas
na mais comum das madrugadas
que anunciam a manhã.
Os barcos e os cais da tarde
segredavam na noite secreta.

Se da luz nasce a vida
com a fraternidade das mãos
se fecunda a terra do povo.
Na Rua da Madalena
se acomodam às pedras
ao coração de mármore
na erosão do vento
ao amor da nossa cidade.

E nós por vezes escrevia
para depois eu poder cantar
se lume somos mais frágeis
que o vidro do sorriso
que o vidro do silêncio
que o silêncio do fado.

NA TABERNA DA DIAMANTINA

Na taberna da Diamantina
ao vinho chamavam bela pomada
e à água-pé linda menina.
Na mercearia da esquina
cheia com os fregueses de sempre
juntavam as palavras ao fado
a jogarem à bisca mandada.

Na Praça da Figueira ao fim da tarde
com o sol na eira e chuva no nabal
eram na emissora nacional
as notícias finalmente sem funil.
Andava de véu na túnica ao vento
na emoção jovem dos sentidos
cativos na catedral do prazer.

Escondia a vergonha disfarçada
não bate a bota com a perdigota
e peças de roupa de contrabando.
Pois sabia que estava à espera
estaria sempre à sua espera
com a água do lago bica da fonte
afluente que ao céu quer chegar
do rio que não desagua no mar.

Budapeste, 2007-2009
(Projecto – AS PALAVRAS CONTNUAM)

segunda-feira, 23 de março de 2009

METÁFORAS DO QUE FOI - PALAVRAS DO QUE NĂO É


"Não posso adiar o coração." António Ramos Rosa


1.   Os Gatos e as Palavras
2.   Miguel Hernandéz na Fronteira Portuguesa
3.   As Pedras do Taller Literário
4.   Talleres de Poesia da Nicarágua
5.   Talheres Leite e Safo
6.   A Minha Cidade e Outras Histórias
7.   Havana Fidel e o Antigo Testamento
8.   Napalm Rima com Vietnam
9.   Margarete e Milena de Praga
10. O Descanso de Deus e a OPA do Céu
11. Stálingrad a Poesia e Stálin
12. Em Atenas com o Péter
13. Che Camilo & Budapeste
14. Sofia de Sófia e Outros Álibis
15. Nelson Mandela – Amangla!
16. A Cabeleireira o Pintor e a Fronteira
17. Notícias de Londres: Dogmas e Revolução
18. Clara Blanca Alba
19. Auschwitz: 2 Toneladas de Cabelo da Endlösung
20. Amiais de Baixo e o Arcanjo S. Miguel


Budapeste, Outubro de 2007 – Março de 2009
(Projecto: As Palavras Continuam)

OS GATOS E AS PALAVRAS


“Eu não tenho gato, mas se tivesse
quem lhe abriria a porta quando eu morressse”
António Gedeão

1. Na casa dos meus pais sempre tivemos gatos.
Ainda hoje é assim. Um deles dormia a sesta
numa das pernas das calças enquanto o meu pai almoçava
no tempo em que as calças da farda de cobrador
eram suficientemente largas para abrigar um gato adulto.

2. Mais tarde esse mesmo gato adoeceu
e morreu em dois dias. Eu tinha onze anos
a minha irmã inconsolável chorava. Morávamos
na Portela das Padeiras andava no Liceu
e o meu pai já era emigrante em França.

Assim como único homem da família
fui eu que com uma pequena enxada abri a cova
onde enterrei o gato morto numa caixa de sapatos.
Foi ao fundo da horta do feijão verde e dos tomatais
das couves e dos repolhos das cenouras
salsa e alface que a minha mãe cultivava.

3. Foi com Neruda que comecei a procurar os gatos
na poesia deve ter sido em Outubro de 1974.
Continuei com Pessoa e com Eugénio de Andrade
e foi assim com António Gedeão – Poema ao Gato –
tão pessoal e do mais comovente que li em verso.

4. Antes quando ainda viviamos nos Amiais
em frente moravam os meus avós e no verão
mais quente a melhor sombra era a da parreira
das parras grandes que ligava as duas casas.

Estava o gato agarrado ao tronco quando a Lurdes
e o Joaquim José meus vizinhos se lembraram
de puxar os bigodes e o rabo ao bichano.

Ao contrário da fama de rabos de gatas e da má-língua
na verdade o pudor é levado muito a sério
a auto-estima. A vítima daquela afronta fui eu. Grande
rebuliço a correr para o doutor Fialho o médico da aldeia.

Tive muita sorte. O meu olho esquerdo não ficou escuro
porque as unhas atingiram apenas o branco do olho.

5. Nos anos da revolução e da militância para que o sol
brilhasse aqui na terra para todos – pensávamos nós –
entrava em casa todos os dias já alta madrugada.

Tinhamos um gato que como dizia a minha mãe
só lhe faltava falar. Todas as noites me esperava à entrada
do prédio encostava-se às minhas pernas com o rabo alçado
recebia umas festas à porta da casa e esperava o interesseiro.
Todas as noites uma rodela revolucionária de chouriço

6. E havia o Zé Gato era guarda-redes do rival Benfica
para gato era pequeno mas entre os postes um enorme campeão.

7. Anos depois em Budapeste numa rua perto da residência
havia um bar chamado Fekete Macska (Gato Preto).
Estive lá muitas vezes com o Barry da Guiné-Conacry
e às vezes sózinho ou mal-acompanhado. Como estava perto
da cama podia abusar e abusava com frequência.

Foi ali entre copos de cerveja e copinhos de aguardente
que comecei a série do Gato Preto. No verão seguinte
o Zetho convenceu-me a publicar em edição para amigos.
“Até que um belo dia, pegámos num certo gato preto,
e atirámo-lo a rua. Foi em Setembro,
menos de um mês depois, morria a minha mãe, lembras-te?”

8. Mas em Budapeste minha única cidade adoptiva
mais do que pretos eram azuis verdes louros castanhos
eram gatas gatinhas claras que faziam tão bem à vista
ao coração. Era tão bom poder passar-lhe a mão pelo pêlo.

9. Durante 20 anos de amor e em siléncio
sem poesia recriei as minhas verdadeiras palavras.

A minha cachopa sabe muito de rebentos
filhos e flores mas não lhe falem de animais domésticos.
Numa ocasião de ronron e mimos de gato
dizia-me que quando era pequena pensava
que o cão era o pai a gata a mãe e o ratinho o filho.

Anda dizem que não se pode reescrever a história
e a luta de classes não dar lugar a uma atípica família feliz.

10. Nas férias grandes quando as minhas filhas
ficavam mais tempo em Portugal a Anna Melinda
era o terror dos gatos dos avós. Durante as semanas
em que elas estavam só apareciam de fugida para comer.
Para os pobres gatos o mel era bem amargo e de linda
só o nariz arrebitado sem arranhões daquele diabinho.

11. O Miguel na já longa dinastia felina recebeu
com justiça o cognome de Príncipe solidário da família.
Não havia gato abandonado que não levasse
para casa para o quintal dos avós. Foi assim durante anos.

Na minha própria casa nunca tive nem gatos nem cães
mas talvez o Picas acabe por nos convencer.
Poder partilhar o luto as saudades do gato do Chocolate
do seu único amor bruscamente interrompido
numa rua de Santarém atravessada em hora de má-sorte.

MIGUEL HERNÁNDEZ NA FRONTEIRA PORTUGUESA


1. Quando muitos anos depois fiquei a saber
por um livro que me trouxeram da Galiza
que já no final da guerra civil Miguel Hernández
do lado de cá da fronteira portuguesa
tinha sido preso pela polícia política de Salazar
e entregue à guardia civil de Franco.

Senti uma vergonha e uma revolta
uma tristeza e uma impotência sem limites.
Ainda hoje me sinto em dívida profunda
para com o poeta do país vizinho.

Miguel nasceu em 30 de Outubro de 1910
era escorpião como eu sou e quando morreu
na prisão de Alicante ainda não tinha
a idade com que Cristo do povo foi crucificado.

2. Dizem-me que se perdeu
um táxi nos teus olhos
porque a noite estava escura
e na rua os candeeiros pűblicos
dos seixos estavam todos fundidos.

Que os teus olhos castanhos
retocados de luar tão comum
como o cão fiel do nosso amor
eram as pinhas mansas mais lindas
nas margens frescas do teu caniçal.

Mas eu não sei caseiro de barro
da planície privada da casa de electricista 
na tristeza plural da Península
do corpo sentimento translúcido
agora que seco o rio vazio
inunda as terras as areia do infortúnio.

Se é verdade o que escreveram no muro
que ao contrário do que diz o vento
não foram os teus dedos
que me abriram os lábios secos
com ofertas de morangos inteiros
e pedacinhos de carícias diluídas na boca.

3. “Con la boca cubierta de raíces.”
Miguel Hernández

Não! O nosso não foi amor
à primeira promessa literária
do nosso próximo encontro.
Foi antes do dia mais claro
quando pacientemente tu sabias
que há já muito que esperava por ti.

AS PEDRAS DO TALLER LITERÁRIO


1. Tenho uma pequena pedra polida
no fogão-de-sala da minha casa
onde está escrito kő-kurá
oferta do Carlos aliás Tito Rodríguez
na festa surpresa dos meus 50 anos.

Com amigos fiz parte de um taller literário
camaradas exilados do Chile um do Uruguai
e um irmão do Perú. Ali era o único
latino que representava um outro idioma.

Kő-Kurá e uma revista com o mesmo nome
pedra em húngaro e adaptação
fonética de pedra em mapuche.
Tito era a alma do taller e o tipógrafo!

2. Repeti mil vezes depois do sonho
da ousadia e alguma libertinagem
antes do amor abraçar outros ventos
madrugadas intensas que não queria
partilhar-me com a poesia
com a ilusão de não ser imortal.

É tarde demais eu sei
mas tenho de confessar
sempre que me encontro
nas palavras que escrevo
nas metáforas que recolho
deixo aberto todo o meu coração.
O desejo mais intímo foi esse
era de ter sido apenas poeta.

3. Era assim tu vinhas descalça
e começavas a despertar me lentamente
sem eu saber a sonhar contigo
que não tinha fechado a porta do quarto
que fazias com o dedo en tus labios rojos.

Sinal para não fazer barulho
para não despertar a cobiça dos vizinhos
a suspeita do novio tan buena gente.

Era assim eu comia te sem têmperos
tu mais adulta mais vivida comias me
e acabávamos tremendo de frio com medo
de não haver futuro nem cheiro a alho e hortelã.

Incenso e alecrim a arder no quarto
de saudade com a porta fechada por dentro
e a escuridão permanente da tua ausência.

TALLERES DE POESÍA DA NICARÁGUA


1. Tenho um livro Antologia – Talleres de Poesía
documento essencial de uma experiênçia única
a poesia cultivada em oficinas organizadas
para jovens gente simples poetas populares.

Sobre esta aventura escreveu-se:
“por primera vez se han socializado
los medios de producción poética.”
Poeticamente assim até soa muito bem.
É menos prejudicial e mais dificil que a dita
a colectivização dos meios de produção.

A Nicarágua a Revolução Sandinista
fez parte do meu itenerário romântico-
-libertário de um mundo melhor para todos.
Doce ilusão. Sei muito bem. Pura ilusão.

2. No “Ciclo das Palavras” com 82 textos
vários foram dedicados à Nicarágua
ao Comandante Zero Eden Pastora
à Comandante Dois Dora María Téllez
ao poeta e sacerdote católico Ernesto Cardenal
à cidade de Esteli e a outros momentos
dos avanços e recuos no cerco libertário a Somoza.

Os três há muito que optaram pela dissidência activa
por coerência e em ruptura com o sandinismo oficial.

3. “Me contaran que estabas enamorada de otro
y entonces me fui a mi cuarto
y escribi ese artículo, contra el gobierno
por el que estoy preso.” Ernesto Cardenal

A palavra para alisar a madeira do corpo
estrutura ambulante da madrugada serena
para serenar e desenhar os nós e contra-nós
as saliências da alegria das amendoas de ontem.

Se para o fado as palavras seriam:

- Já tinha nas mãos o passado
quando esqueci o perfume do teu nome
que levava as flores do anoitecer 
até ao cais do dia mais claro.

4. “Dora María
la aguerrida muchacha
que hizo temblar de furia
el corazón del tirano” Daisy Zamora

Na demarcação do tempo
quando os lobos da cidade
as noites brancas adormeciam

havia uma mão faminta
que inquieta se afundava no lodo
quente na bela mulher do povo.

TALHERES LEITE E SAFO


"Colares atei para o terno
pescoço de Átis; os perfumes
nos cabelos, os óleos raros” Safo

1. Dizia Daniel dos seus longos
cabelos louros e barba à patriarca
contava com um sorriso malandro.

Maria outra vez? É o sétimo?
Senhora que possa eu fazer
a mim basta-me lavar
as cuecas do meu Juan.

2. Coleccionava ferros a lenha
saiotes de todas as cores
e saias com pregas curtas.

Gratuita repartia fraterna
mamicas com leite meio amargo
sítios brancos de muito alimento.

3. Um jovem dos talleres da Nicarágua
o soldado instrutor Jose Manuel Aguirre
falava da descoberta dos poetas
Roque Dalton Ruben Dario da poetisa Safo.

Não sei se dela terá lido o excerto do resto
do que ficou da perseguição obscura da igreja
“Se o meu peito ainda pudesse dar leite
e o meu ventre frutificasse” teria gostado?

4. Deixem passar as vacas
que vão para a ordenha
dar leite aos meninos
levam cheias as tetas.

5. É a única mercadoria com mercado
vende o leite que traz nos peitos
genuíno na origem sêlo de qualidade.

6. Talher não é colher
de trigo limpo farinha amparo
como o leite em pó
amparado no consolo
no vale pós-pasteurizado
das vacas ao dispôr
dos vaqueiros famintos.

É o garfo e a faca
ao serviço da barriga
das barriguinhas unidas dos povos
dos alimentos comprometidos
com a verdade da poesia.

7. Tocam ao de leve nos seus seios
demoram sobre a costa rugosa dos mamilos
bebem com gosto o café no leite morno.

A MINHA CIDADE E OUTRAS HISTÓRIAS

    
1. Tenho tanto para fazer
que não me chegam nem as noites.
Três filhas para acompanhar ao altar.
Um filho last-minute com quem aprendo a ser
bombeiro mecânico de automóveis e limpa-chaminés
canalizador fura-paredes de berbequim em punho.
Tanto para fazer que nem tempo tenho de morrer.

Nesta Budapeste-amante cidade dos meus amores
e também de muita desilusão lá em casa já sabem
que um dia quando acabar que metade das cinzas
seja lançada ao Danúbio e a outra metade
espalhada pelo mar da Nazaré perto das areias
ondei dei os primeiros passos da minha vida
que partida fluvial do destino me fez recriar.
Chegar a outro cais tão longe do mar de Pessoa.

2. Fresca e formosa fazia como se fosse tímida
caminhava servia entre as mesas
como quem sózinha dançava o mundo
sorria e dançava como servia.
Entre fumo e mesas parecia ela se refrescava.

Teresa empregada de mesa
fugia da exclusão urbana
na grande cidade onde nasceu
orfã precoce de mãe solteira
casou-se jovem sem boda
entre a sede de pertencer
no milagre do primeiro amor
e a fome partilhada dos tapetes 
que sentia serem seus
na desejo de ser feliz.

Já depois do fecho fumou o primeiro cigarro
do dia seguinte limpava o balcão e as mesas
arrumava as cadeiras com pressa de ir para casa.
O patrão não descansava a mulher desconfiava.

3. Há uns anos atrás por causa
do negócio das telecomunicaçôes
de visita a Budapeste conheci László.

Português com cabelos brancos húngaros
mais que os meus de um húngaro que fala melhor
a língua de Camões que a língua do pai
apoiante convicto da monarquia
e origem na antiga aristocracia magyar.

Bem eu que nasci humilde numa pequena aldeia
do Ribatejo revolucionário quando jovem
ganhei o hábito de a 5 de Outubro lhe esccrever
por e-mail Viva a República!

Racionalmente nenhuma premissa indicaria
mas é por não sermos blackberry computador
sem coração sem sentimentos e sem razão
que partilho uma bela amizade com o László.

4. Tributo aos Hubay:

Lembrar a porcelana antiga de saber
as saudades do pai peregrino da tarde
aceitar a sorte e o destino viver
dessa linda metáfora do vento norte.

A viagem do amor com final feliz
no fogo perene da neve do seu país.
E a paixão se fez rei se fez princesa
milagre de vida Ó rosa portuguesa!

De barcos e ilhas pátrias e mitos
campos de milho searas de trigo do pão
celeiro do império altar dos povos
mãos de pedra nas memórias da solidão.

Secreta a alegria na sedução primeira.
Sim na tentação da luz do vosso olhar!
Sabem há festa na quinta da ribeira
das acácias com junquilhos a cantar.

Diz aos filhos do jardim magiar
do palácio antigo da família junto ao rio
e leva a boa nova de ser deste povo
cantar neste mar os fados por inventar.

HAVANA FIDEL E O ANTIGO TESTAMENTO


1. Havia um pano
que pendia da fachada
de uma velha casa renovada
restaurada para a revolução
pintada de muito cor-de-rosa
devia ser na Havana antiga.

Eu sentado em frente do ecrã
à espera do jantar colectivo 
no apartamento do Baleal
no dia 13 de Agosto de 2006.

Um pano onde se lia
Viva Fidel 80 más!

2. Ainda que o desejo se cumpra
mesmo assim não chega às sandálias
dos Profetas do Antigo Testamento
mais maduros e mais vintage
como Matusalém que viveu até aos 995 anos
contados com a tabuada da época
e Noé que foi pai com a idade de meio milénio.

Por vintage não sei se Catherine terá tido
algum affaire com o sedutor Fidel.

Sei que com o aproximar do fim
não basta afirmar que é o ópio do povo
acreditar nos milagres de Deus
se é da cocaína acreditar na eternidade
nas profecias dos Profetas
na hora em que se volta a ser cinza
que o vento espalha pelo vermelho dos céus.

3. O Comandante do assalto ao Moncada
da aventura da Sierra e da entrada triunfal
em Havana no Primeiro de Janeiro.

O Fidel Castro do mundo que veio a seguir
- sempre são 50 anos não são cinco dias -
o general com o seu uniforma garbo-rigoroso
das tentativas falhadas da CIA
da medicina e da educação para todos
do el Paredón e a prisão de tantos
apareceu várias vezes jovem barbudo
vestido de revolucionário de verde oliva.

4. Lembrei-me de novo das azeitonas
quando andava no rabisco
com a minha mãe e a minha avó
como as levavam ao lagar
os garrafões na loja de terra batida
a amentolia de onde o azeite escorria
que me fazia recordar os mouros míticos
que me faz lembrar as histórias da Bíblia
contadas aos domingos na catequese.

5. Recuperei da memória partes de um texto
com quase 30 anos – teria Fidel 50.

- Não não é o grelo oleado da Clarisse
que podia ter sido a primeira namorada
da minha vida mas preferiu o Zé Adrião.

São os grelos tenrinhos bem azeitados
escolhidos um a um pela ti’Alice
entre potes de azeite barris de água-pé
e alguidares com bacalhau demolhado.

É o erotismo molhado e comido a dois.
no pratinho azul riscado do pão de milho

NAPALM RIMA COM VIETNAM


1. Eram vestígios de escamas viscosas da cobra
sintomas do agressor feitos víbora e serpente
das tetas pendentes e ressequidas da cabra
sem pingo de leite e a dormir da aguardente.

As flores livres nas raízes podres da terra
caíam abandonadas no perfume do napalm
bombas lançadas pelos pássaros da guerra
sobre os braços e os olhos do povo do Vietnam.

Depois das ideias da renovação dos mastros
dos barcos afundados eu nem sei a claridade
que devo retirar aos dias dos textos mais antigos
metáfora que devo escrever para libertar a cidade.

Ao fundo do jardim sobre a mesa de pedra capitel
morrem viúvos sente-se o cheiro da dor na noite.
Junto as forças com os crisântemos de Brel
que chegam com a esperança de limão verde.

Disse adeus à luz da rua e não trouxe
Ho Chi Minh que ilumina as bruxas velhas
os fantasmas malditos da quimíca desfolhante
pernas partidas de gafanhotos de almas negras.

2. Morreram 5 milhões de vietnamitas
a grande maioria civis inocentes.
Perdoar talvez esquecer nunca!

Nem que o Nobel da Paz Heinz aliás Henry
falcão da morte no Vietnam Chile e Argentina.
se pinte de pombinha oliveira branquinha.

Será por acaso que napalm rima com Vietnam?
Ou é a má-sorte amarela do agente laranja
e a exportação ilegal da democracia com bombas?

Cantava nua para mim quando linda se banhava
- a esperança é a última a morrer
porque é imortal como a vida.
O pensamento e os sonhos que nos liberta.

3.“CREPÚSCULO

No rebolo dos montes a espada dos ventos se afia.
Um frio de lâmina atravessa a carne dos maciços.
Soa ao longe um sino … Apressa-te peregrino!
A criança recolhe o búfalo soprando a flauta.” Ho Chi Minh

MARGARETE E MILENA DE PRAGA


1. “Oui, tu es l’avenir, la grande aurore
qui point des plaines de l’éternité.”
Rainer Maria Rilke. (Trad. Maurice Betz)

Escondi-me no silêncio
na carruagem vazía
das ranhuras do teu corpo
depois da merecida festa
de aventuras jovens
e bebedeiras visuais.
Da escrita arriscada
nas palavras sensuais
tão do interior do frio
no templo de Deus ausente.

E ninguêm soube de mim
da emboscada furtiva das dálias
do tempo lamparina solitária
até à noite mais sombria
quando finalmente descobriram
e a vieram buscar em matilha.

Lobos nem o nome me perguntaram
não era suspeito ainda não era pecado
acordar todas as manhãs
a sonhar com a insubmissa
a traidora da raça a inimiga do povo.

2. Um dia disfarçei-me no silêncio
com vergonha de ter sido crente
e ter acreditado na verdade dita cientifica
que o comunismo o futuro libertaria.
Hoje estou em paz com a minha consciência.

Há um abismo de finisterra de ruptura
definitiva com os dos lenços encarnados
e de enfrentar os das camisas castanhas
contra quem estive sempre contra.

Já não preciso de máscaras das metáforas
rebuscadas com medo de ser excomungado.
Queimei atrás de mim todas as pontes
que me pudessem levar aos rios das ditaduras
ou às margens dos que em nome do realismo
político e dos interesses estratégicos da nação
estão sempre dispostos a pactuar com a morte.

3. Poderia com o pudor de não ter vinte anos
a vida à minha procura procurar no café Milena
de Praga a linda Maléna da sonolenta Castelcuto
na Itália de Mussolini e do fim do regime
que aos rapazes desejos e sonhos desperta.
Que ainda hoje Monica Bellucci mais bela
do feitíço faz crescer cabelos aos calvos
e enfeiticar maduros sejam brancos ou tintos.

4. Poderia pensar e escrever de Helena
de Esparta não de Tróia do seu príncipe
encantado coração de contrabandista.
Páris em perigo raptor de amada princesa
Helena de pai certo e duas mães incertas
que o amor mesmo perseguido não morre.

5. Mas trata-se de Milena Jesenská
Milena de Praga militante anti-fascista
casada umas vezes divorciada outras tantas
famosa por ter sido tradutora e paixão de Kafka
presa pelas víboras da gestapo em 1939
e que morreu em 17 de Maio de 1944
no campo de concentração de Ravensbrück.

6. Recordar Margarete Baber-Neumann
comunista alemã exilada em Moscovo
sete anos prisioneira primeiro de stálin no Gulag
de Karaganda depois com base em artigos secretos
do pacto molotov-ribbentrop entregue pela nkvd
aos ss de hitler. Passou cinco anos em Ravensbrück.

Sobreviveu à morte e foi até ao último dia da sua vida
em Frankfurt - 3 dias antes da queda do Muro de Berlim -
porta-voz da pequena minoria na denúncia do totalitarismo
que não tinha acabado com a derrota da Alemanha
contra a performance da propaganda perfeita
melhor que as mentiras mil de goebbels e do nazismo.

7. “e banho-me de suor, e tremo toda
e logo fico verde como as ervas,
e pouco falta para que eu não morra
ou enlouqueça” Safo

Pela ilusão dos nossos sonhos expessos
estenderam um lençol de pano forte
na húmida rua das pétalas pequenas
na cave habitada pelo pai e pelo povo.

Humilde era intenso o cheiro dos goivos
das rosas casas de dedos coladas com cuspo
uma criança que na madrugada não dormia.

8. “Eu agradeço ao destino de me ter conduzido
a Ravensbrück porque assim pude encontrar Milena.”

Margareta quase não resistiu à morta da sua amiga
que sentido a vida sem Milena diria após a libertação.

9. Em Karaganda em Ravensbrück:

Prisioneira enfraquecida
trabalha e produz menos
com ração reduzida
recebe menos comida
fica ainda mais fraca
mais doente trabalha menos.
A escrava do estado
recebe menos pão menos caldo
exausta fica mais fraca
até se extinguir.

Se perde o estado
os braços da condenada
se perde a siemens
a mão-de-obra mais barata
do mercado de trabalho
ganha o estado a dobrar
uma inimiga viva a menos.

10. Nos olhos dança em jeito de entrega
ausente uma bailarina de mar quase nua
entre marés vazias dizem à hora certa.

As espigas com sal grosso na fresta
crescem no peito entre carícias e lágrimas
postigo nocturno na praia-mar da sua ferida.

A bailarina cansada abandona-se na tarde
longe as mãos ajeitam-se ternas ao perfume
silêncio guardadado no abrigo do silêncio.

O DESCANSO DE DEUS E A OPA DO CÉU


1. Pelas paróquias dos simples
muitos dos novos apóstolos
apregoam a contenção a água da torneira
mas não se cansam de beber
vinhos-prime das melhores colheitas.

O mercado é genialmente formatado
por providenciais deuses-gestores
e a verdade aceita-se não se questiona.
Quanto mais liberalismo melhor.

2. Pelo que dizem do Reino do Paraíso
a eternidade não começa nem acaba
com a primeira democracia e o postulado
do novíssimo testamento mais virgem
e mais sagrado da economia perfeita
liderada pelo CA da sociedade anónima.

Se assim fosse seria de esperar uma OPA
hostil e com o céu privatizado
os accionistas de referência
donos disto tudo teriam a garantia
da felicidade eterna ficando as outras alminhas
todas à porta à espera do TGV
para o purgatório ou o inferno. Safa!

3. Que pena não saber escrever
textos poéticos refazendo artigos de jornal
com as metáforas do futebol e rimar
alquímia financeira com engenharia estatal
capitalização bolsista com a demagogia social
esperar uma bom prato e ser eleito do povo.

4. Até Deus que é Deus Pai de todos os deuses
à semelhança dos homens que o sonharam
de tanto trabalhar se cansou
e ao sétimo dia já depois de ter criado Adão
- a tentação original do prazer e do pecado -
Deus descansou. Porque a Deus o que é de deus
e a César o que é de césar. Recordo.

5. Por fim em nome de Cristo o poema de Villon*
a diluir na lava as imagens proibidas
pela inquisição castradora da Santa Igreja.
Um boi morto sacrificado como se carneiro
no ritmo do jogo da roleta do casino

nos sabonetes ensaboados da escalada
aos corpos às arreatas do macho
- o traseiro belo e peludo da fêmea.

A nós que somos burros ibéricos de estimação
conforta saber que foi montado num burro
que Jesus entrou na cidade santa de Jerusalém.

* “Je suis pecheur, je le sçay bien;
Pourtant ne veult pas Dieu ma mort
Mais convertisse et vive en bien”

STÁLINGRAD A POESIA E STÁLIN


1. A Batalha de Stálingrad a vitória esmagadora
dos soldados da Grande Mãe Rússia sobre o exército
invasor foi o princípio do fim da barbári nazi.
Foi o início do longo pesadelo para muitos povos.

2. “Et Stáline pour nous est présent pour demain
et Stáline dissipe aujourd’hui le malheur
la confiance est le fruit de son cerveau d’amour”. Paul Éluard.

Quando estive na URSS 25 anos depois da morte de Stálin
visitei o Cáucaso a Ussétia do Norte subimos e descemos
as altas montanhas da região como nunca voltei a fazer na vida
num autocarro muito velhinho com uma foto muito velhinha.

Escavado na rocha duma montanha estava um desenho
gigante do Pai dos povos que se via a muitos kms de distância.

No autocarro a foto não era de Nossa Senhora ou Coração
de Maria era do Generalíssimo o Zé dos Bigodes recordo
foi desenhado por Picasso. Só não foi expulso do PCF
porque fez a sua purificadora auto-crítica redentora.

A liberdade a mais dos artistas trouxe sempre problemas!

3. O criminoso soviético da Geórgia pode no inferno
ficar descansado. A ingenuidade de acreditar em castigo igual.
Não! Na terra redonda dos engenheiros das almas
dos arquitectos da mistificação e da mentira não acredito
que na terra dos vivos alguma vez seja possível à história
de o condenar como fez com o seu irmão-inimigo
o criminoso nazi da Austria. Filhos da mesma puta.

Até porque Stálin morreu como grande vencedor
depois da bandeira hasteada no Reischtag.
Hitler foi de vitória em vitória até ao suicídio à derrota final.
Sabe-se da história que os vencedores
e os vencidos não recebem nunca tratamento igual.

4. “Stalin alza, limpia, construye, fortifica
preserva, mira, protege, alimenta,
pero también castiga.
Y este es cuanto queria decirlos, camaradas:
hace falta el castigo.” Pablo Neruda

Poeta do Chile só de ler dói até ao coração!
Hoje de Stálin com o que se sabe
contra Stálin não se pode apenas escrever
com palavras com metáforas da poesia.

A grande pena é que o guia da humanidade
o jovem poeta e seminarista não se ficou
pelo seminário não continuou poeta
não se fez sacerdote como queria a criada sua mãe.

5. Zbrodnia Katyńska – o Massacre de Katyn
20 mil pessoas o absurdo de tantos anos
para que a verdade fosse finalmente apenas verdade.
A cegueira quase colectiva de tantos
- nem Roosevelt nem Churchil acreditavam.

Em 5 de março de 1940 os membros do politburgo
do PCUS: Stálin, Molotov, Vorochilov e Beria,
- ausentes Kalinin e Kaganovitch apoiaram a decisão -
assinaram a ordem de execução dos "nacionalistas
e contra-revolucionários" polacos. Parte da elite do país.

6. Às qualidades divinas de Stálin seguiu-se o silêncio
a obediência e o medo a submissão e a renúncia
o terror ilimitado e gratuito da tcheka gpu nkvd kgb.
Era o cinísmo na sua perfeição máxima
fazer precisamente o contrário do que era declarado.

7. Quis apenas escrever para mim estas verdades vulgares
para pelo menos por omissão não ficar cumplice do crime.

EM ATENAS COM O PÉTER


1. Viajava com a Lufthansa para Frankfurt destino Munster
com um ambíguo sentimento de preocupação e algum alívio
interrogava-me do motivo de ter permitido a quase falência
- de tão endividada - da minha liberdade da minha dignidade.

Quando não se está só nesta passagem linda mas curta
o pão é o mais importante e não só para os mais pobres
respondia para me justificar para me acalmar. Aí mesmo
decidi que de tantos sapos tantas rãs teria de vomitar.

2. Ouvia e via e não acreditava. Ali na cidade de Atenas
a negação brutal da matemática sem a mínima vergonha.
0 vezes 0 não era = a zero era igual a opus-dei da ilustre
cadeira do novo CEO - pai do sol e mãe da luz pensava.

3. Ao vivo nunca vi um Jacques tão tonto e tão vulgar
um de la Palisse - será que o chairman prefere la Palice?
Têm mais charme mais classe de palacete? - como o barrete
comum a cuspir postas de pescada e baboseira a toda a hora.

4. Se o copo têm pouca água então não está vazio
e se não está vazio até pode estar cheio de coisa nenhuma.
Em caso de dúvida digam ao PM para ligar cá ao Péter!

5. Ali estava vergado pela vergonha do açoite público
por não ser sector privado toupeira de pasta preta gravata azul
mais os sapatos por engraxar as horas de perder tempo
toupeira nos pisos menos do imponente hotel intercontinental.

6. Eu ia pensando na Marta de comboio para Munster
com Eszter para a operação há longos meses marcada.

7. Péter nosso guia maior - não Coreia do Norte do Líbano -
à grego pagou-nos a todos um excelente typical-lunch-almoço.
De restaurantes já devia saber que não há almoços gratuitos
faltava a sobremesa os pratos por lavar. A dolorosa?
Foi paga com um cartão dos impostos dos contribuintes.

8. No tempo livre que nos ficou até à hora da partida do avião
com três amigos – Pedro Ernesto e Carlos – demos um belo passeio
por Atenas e ainda tivemos tempo de ir a Acrópole com guia local.

9. O lábio da minha Martinha ficou perfeito e ela ainda mais bonita.
Custa a acreditar mas passei mais frio em Munster que em Moscovo.

10. Se há deus e deve haver pelo que me diz convicto o grilo
da consciência do Pinóquio que pedi emprestadoao velho Gepeto
se há deus mesmo com cartão de platina e duplo password
do santo ofício deveria saber que milagre o Pai não dorme.

11. Mr. Piėrre rien ne vas plus rien ne vas plus senhor do nada
talvez um dia o Deus de todos – plebeu e colectivo –
diga para que finalmente seja cumprido. Por mais pequeno
que seja o camelo não vai caber no buraquinho da agulha.

12. Dizia para mim de cabeça baixa um dia vou voltar
só para dizer que estive ali sem este falso profeta do século XXI.
Estive em Atenas milenar sem aquele PLM-cherne de piscicultura.

13. Na cidade da matemática do amor à sabedoria e de Sócrates
que só sabia que nada sabia das maiorias nas praças da cidadania
sentia o cheiro do nosso grande péter. A merda da sua alquímia.