Em 18 de setembro de 1979 cheguei a Budapeste, cidade da
minha vida
Palavras escritas em Budapeste, 2026
Para o livro "De mim ficam as
Palavras"
Em 18 de setembro de 1979 cheguei a Budapeste, cidade da
minha vida
Palavras escritas em Budapeste, 2026
Para o livro "De mim ficam as
Palavras"
Sem a taça de prata, a infusão e a cicuta
tal como sabemos e nos contou Platão
pode ser que ao contrário de Sócrates
impiedosa a morte não lhe entre pelos pés.
Ou seja, que a morte não se comece
a sentir nos dedos gastos dos pés.
Se bem que com o frio que está a fazer
e como está sem meias no terraço
de certeza que desta vez não se escapa.
Esta nova realidade faz-nos parar e pensar
mas não é aconselhável perder muito tempo.
Há cada vez mais pessoas conhecidas a morrer
por isso tanto faz, não vale a pena correr
na sua hora, a nossa também vai chegar.
Foi ele que cortou e acertou as tábuas de madeira
da escadaria que levava às flores do seu perfume
às águas limpas e lisas do jardim da sua nascente.
Na clausura, pela janela era de longe a mais bela.
A jovem freira que nasceu no baixo Alentejo
e em pecado perdidamente se apaixonou
soube pelo seu coração e com o seu corpo
aprendeu pelas cartas que ficaram sem resposta
para a dor, a separação definitiva é remédio santo.
Em flor deixou-se murchar dia após dia
a secar vazia e a morrer aos poucos
a ser bombo da festa e escárnio das outras
sem vida nenhuma, umas vivas mortas.
Foram apenas algumas noites guardadas por Deus.
Se aquelas caras de pau e barrigas de milho
rios secos que nem uma azeitona ali cabia
com muito pó e areia seca no meio das pernas
soubessem o bom que foi e o bem que soube.
A chuva quando chega vem quente e vem nua
eles ficam molhados como se estivessem na rua
ficam abraçados e escondidos pela luz da lua.
É do amor que se escreve não de verbos-de-encher.
Filhas da Babilónia, uma de vocês
venha de TGV ter comigo a Paris
para no fim-de-semana prolongado
vermos juntos o museu d'Orsay
museu de Arte Moderna e Petit Palais.
Passearmos pelo jardim do museu Rodin.
Escolhi Paris porque era uma jura antiga.
Vem de Nice, Bruxelas ou da Bretanha
lá estarei na estação à tua espera.
Eu vou de avião de Budapeste
a minha cidade adoptiva que me recebeu
e onde fiquei não tarda há meio século.
Vinho, com queijo e chouriços para comer
e cachimbo ou cigarros para descontrair.
O cheiro espalhava-se e chegava cá acima
não eram as pernas, as coxas que fumavam
era a dona que na relva mostrava quase tudo
para não se perder tempo com a imaginação
Olhando para trás parecia ser um mapa
ou os sentimentos da minha passagem
o espelho ousado da nossa migração tardia.
A minha peregrinação pela vida em viagem.
Filhas de Babilónia (1920) de Aquilino Ribeiro.
Falam de iluminismo e da sabedoria
cidadania, superstição e da subordinação
da noite das trevas rumo à luz libertadora.
Mas não bate a bota com a perdigota
nem os lobos com o focinho do cão.
Estes carreiristas e estas anedotas
quando finalmente chegam lá acima
a ministros ou secretários de estado
pensam que são e falam como profetas!
Se o problema é grande pega na vassoura
não te preocupes varre para debaixo do tapete
se não se vê não existe, assunto arrumado.
Era mesmo nisso que eu estava a pensar
mas estava calado, não sabia como me expressar.
Se fosse cenoura seria como uma beringela
de berbequim na mão e de volta da donzela
com um quilo de berbigão afogado na panela
para condimentar a tristeza do soldado sentinela.
Diria cosmopolita, que são couves de Lisboa
com grelos e nabiças azedas de Varsóvia
calções às riscas e blusas curtas de Barcelona.
a fazer sol e levar com a chuva em cima.
Cada país tem as suas coisas difíceis de entender.
Na Hungria quando faz sol e chove ao mesmo tempo
diz-se que o diabo está a dar porrada na mulher.
Não, em nenhuma, nem mesmo à mulher do diabo!
Diabo sê por uma vez um gajo porreiro.
Aproveita e toma banho com a chuva
põe-te ao sol para secares depressa.
Corre para a cozinha e faz tu o almoço.
Numa conversa de amigos que escrevem
ou escreverem poesia por necessidade e prazer
para se conhecerem ou darem-se a conhecer
cruzaram as mãos sobre a mesa da cervejaria
e fizeram mais um brinde com canecas de cerveja.
Com estilo, alguma solenidade e bem bebidos
declaram que não se é menos poeta
por se ser feliz e se ter uma vida normal
uma vida completa como outra pessoa qualquer.
Decidiram que continuariam a ser felizes e a escrever.
- A nova geografia é a minha nova residência
a narrativa e o silêncio da nossa resiliência.
Enfeitadas com pedras de calcário branco
rodeadas de muros baixinhos de basalto negro.
A casa, nosso refúgio quando me sentir sozinho.
Inteligência Artificial (IA) que recentemente o
Extra-Terrestre (ET)
- infelizmente não é o de Spielberg e amigo de Elliott -
mas o outro, eleito pela maioria dos norte-americanos
inquilino da Casa Branca rebatizou de Super Inteligência (SI).
É a corrida desenfreada da humanidade para o abismo
do feudalismo da tecno-oligarquia com a ocupação das nossas almas
com a subordinação das nossas mentes ao deus-algoritmo
ou será o começo de mais um maravilhoso mundo novo?
Até a nossa imaginação é transacionada em bolsa
muda de acionista como quem muda de camisa.
Para escrutinar falta-nos o ânimo, tempo e vontade
dia após dia estamos a perder a indignação da rua.
Eu quando tenho dúvidas, penso e pergunto
quando não tenho, organizo as ideias e afirmo.
Somos uns ganhadores abençoados
ou estamos fodidos, meus amigos?
Era ela a moça da estação de serviço
que a maioria das vezes me atendia
quando depois de atestar o depósito
pagava com cartão e pedia a fatura.
Era alta e esguia, bonita e muito simpática
há que ter em atenção, de levar em conta
que por estes lados muitas vezes a simpatia
é um bem escasso, item que se vê pouco.
Arranja sempre tempo para falar comigo
gosta Portugal que já visitou várias vezes
e como naturalmente sabe que sou português
não se cansa de repetir - adoro o seu país.
Ontem estava especialmente vistosa
com calças e blusa coladas ao corpo
uma bomba na bomba da gasolina.
Fiquei a pensar que estava assim vestida
por ser sexta-feira e depois do trabalho
ia-se encontrar e dançar com o namorado.
Essa imperfeição da curiosidade que ao longo dos anos
fomos descobrindo, selecionando e guardando em nós
sempre nos levou mais longe e a terras mais escondidas
desconhecidas, hospitaleiras como é raro de encontrar.
Que se mostravam como se fossem do sul profundo
com muita gente nas ruas em mangas de camisa
ou em tronco nu com corpos belos ou nem tanto.
Terras onde as mulheres para surpresa de quem chega
novas ou velhas, passam e mostram os peitos fartos
e ao sol ou à chuva andavam de seios à solta
de manhã cedo ou tarde no crepúsculo do anoitecer.
Quando a cor de avelã se mistura com a cor do vinho
com a cor da pele dos seus olhos em repouso
com o lindo arco-íris da vida, a festa pode começar.
As maçãs eram a fruta preferida do meu pai
que comia e dava a comer a toda a família
depois de com a sua navalha da vida inteira
sem pressas as cortar em quatro e descascar.
Em casa tinha de haver maçãs para a refeição acabar.
Ritual que filhos, netos e bisnetos nunca vão esquecer.
Até comia maçãs quem gostava mais de outras frutas.
As maçãs reinetas eram as preferidas da minha mãe.
Nenhum deles sabia da frase feita e do bem que fazia
que uma maçã por dia mantinha o médico à distância.
Cinco anos depois da partida de ambos
uma forma simples de com muita ternura os recordar
nos confortar neste mundo em que a tendência é piorar.
Ao Jorge Alberto, aliás João Abrunhosa
Como escrever sobre a química ou filosofia da
amizade?
Sobre este sentimento e certeza de sermos amigos
e de ficarmos melhor por sabermos que é de verdade?
Nesse mês de julho longínquo do século passado
com transfer em Frankfurt regressamos a Lisboa
e cada um foi para o seu lado, eu feito Pedro
para Santarém e o Jorge Alberto para o Porto.
Depois de termos passado juntos seis meses em Moscovo
protegidos com pseudónimos, com nomes de clandestinos.
estivemos mais de quarenta e sete anos sem nos vermos
e sem sabermos qual era o nome verdadeiro um do
outro.
Eu estava tão feliz, que depois do nosso primeiro
reencontro
quando ia no táxi que me levou ao hotel, contei ao
taxista
que tinha estado a jantar com um amigo que não via
há quase meio século e que foi um momento fantástico.
Que pusemos a conversa em dia, ficamos
grosso modo
a saber o que cada um tinha feito neste interregno de
tempo
falamos como se nos tivéssemos visto na
semana passada.
Senhor, só por ouvir de si essa história
já valeu a pena ter vindo trabalhar no domingo à noite!
- Exclamou o taxista
Não sei se não foi já em Moscovo que começamos
o nosso caminho contra o totalitarismo comunista
mas o culto da personalidade ao morto-vivo Brejnev
com cartazes e fotografias por todo lado, ajudou.
Não foi só estudar, fizemos também várias visitas
uma semana em Leningrado com as noites brancas
dez dias na República autónoma Ossétia do Norte,
no Cáucaso.
Para ‘sol da terra’ do velho camarada, na URSS fazia muito
frio!
João, vais ser o primeiro leitor deste texto
e se não quiseres não será publicado. Um abraço
Olhou para o relógio de parede da cozinha.
Estão a aparecer aqui não tarda nada
disse com um sorriso meigo de quem espera
que apareçam filhos e netos para almoçar.
Era assim em família cada segundo domingo
para durante a semana recordar e comentar.
Por vezes conhecermos jovens e temos dificuldades
de os imaginar adultos e casados, pais a criar filhos.
Ouvi há dias de uma colega e por ser tão bonito
senti que tinha de guardar e deixar aqui
escrito
que se deve sempre confiar e acreditar no futuro.
- Vem a casa passar o Natal connosco
dizia a mãe ao filho que vive no estrangeiro
e está separado da mãe dos seus filhos pequenos
- Não leves a mal, mas não vou.
A minha casa, o meu país é onde estão os meus
filhos.
O mundo de ontem há muito que ruiu e se
afundou
legitimado pelas escolhas da opinião pública.
No regresso apressado à escuridão do passado
já nem se lembram como era antes do dilúvio.
Na caminhada solitária ao interior da vida
de juntar os trapos que o futuro deixou
o que é que eu posso dizer ou acrescentar?
Feito rã disfarçar-me entre as folhas do charco?
Ficar de pé encostado às árvores do bosque?
Ficar mudo como uma cigarra morta de fome?
Esperar que as coisas mudem por si como milagre?
Até ao último dia é não se deixar render
não se calar, é ser grilo e não obedecer.
- Vá com Deus e fique por lá, não volte.
Ouve, não me fales de nobreza nem de linhagem
mas dos códigos enganadores da vossa linguagem
dos negócios que fazem a que chamam arte e coragem
com vocês pode-se aprender tudo o que é sacanagem.
Armado em franco atirador manhoso
se não queres ir para a corte de Viena
tens bom remédio vai para Moscovo
escolhe Ankara ou a Cidade Proibida.
Já que estou com as mãos na massa
deixa-me falar claro sem ironia ou ameaça
vai, corre para o diabo que te carregue
sem ti a nossa terra fica bem entregue.
A menina tem um corpo bonito e bem feito
vestida com um vestido trapalhão que atrapalha
quando tem de descer as escadas a correr
e enfiar-se pela ranhura no carro pequeno.
Entornava as águas mornas do seu peito
pela brecha da janelinha das águas-furtadas.
O vizinho de baixo atento não perdia uma
imaginava-se a secá-la com a sua toalha branca.
Pedra no sapato, dedo no dedal e carne de cão
à mesa sente-se fresca como um carapau ao sol
sardinha no gelo com sal à espera de ser comida.
Leva-me e faz-me com a cozedura do teu pão.
Sim, o mundo já esteve muito melhor.
A normalização do populismo violento
como a relativização do terrorismo
deixa-me cada vez mais angustiado.
Pactuar com a vulgarização do genocídio
como Eichmann e a Banalidade do Mal
que Hannah Arendt tão bem descreveu
deixa-me cada dia mais amargurado.
O presságio das más notícias, da desgraça
que nos traz essa ave de mau agoiro vestida
com as penas da morte e as bombas de Netanyahu
e do seu governo extremista e neofascista.
Não podemos calar perante a demonização
que é feita do Estado de Israel e ao mesmo tempo
temos de levantar a voz e afirmar sem medo
estar contra o sionismo radical não é ser antissemita.
A poesia escreva-se na primeira pessoa do singular
às vezes do plural e a duas mãos, a dois corações
mas para não nos enganarmos a nós, nem aos outros
devemos esclarecer que nem tudo é o que parece.
- Nem tudo o que se diz, o que se escreve, acontece.
No caminho longo de viver a vida, fazer amigos
continuar a que recebemos e construir uma família
por vezes os nossos filhos para saberem quem são
e para onde querem ir têm de chamar pai a outro.
São a forma de ficarmos nos mundos do mundo
a nossa primeira prioridade e preocupação maior
porque é mais fácil dizer: é sábado e estou com fome.
Felizmente nem tudo é: sou eu, somos nós e o destino.
Estava a nevar em Budapeste.
O meu neto Beni do pijama azul-claro
dos seus três anos e uns trocos
dizia aos pais que ele não podia ir dormir.
Tinha de ficar acordado a guardar a neve
para ela não se derreter e desaparecer.
Fomos passear à floresta que fica perto
e que tem à entrada um grande pedregulho.
Nesse dia tinha em cima uma pedra pequena
que de brincadeira alguém tinha ali colocado.
Com aquela doçura natural de criança
disse o nosso Beni - É o papá e o Simi!
Há uns dias estava em casa dos avós
e com cara de novidade informou-nos
- Sabem que o Simi vai para o estrangeiro?
Vai viver para o país onde falam a sua língua
e onde vão entender o que ele diz.
Não é filosofia, mas pode ser o futuro.
Na Estónia pequeno país do Báltico
a digitalização da vida no dia a dia
assume níveis impressionantes.
Durante da nossa visita fiquei a saber
que apenas em três situações
não é possível fazer de forma digital.
É obrigatório a presença física,
para casar, comprar casa e se divorciar.
Quanto à digitalização do amor,
daquele que nem precisa de cama
para arder, mas com cama é melhor
o guia foi omisso e eu não perguntei.
Uso a narrativa fina da minha profissão:
- Métrica da importação e da exportação
métrica da indústria pela urgente inovação
métrica da inércia que leva à capitulação.
Para outros é a arte e o talento de saber medir
o ritmo da esperança e a narrativa da ilusão
ainda antes de desistir desta labuta e partir.
A métrica da parvoíce mal medida da avaliação.
Não sei se é da idade, se é da inquietação
se da impressão e nervosimo da minha percepção
mas cada vez acho menos graça à nova aurora.
Nunca foi tão fácil espalhar a mentira como agora.
Em 18 de setembro de 1979 cheguei a Budapeste, cidade da
minha vida
Palavras escritas em Budapeste, 2026
Novo "capitulo" para o livro De mim ficam as
Palavras
(Em breve vou começar a publicar aqui)
Deixar de escrever, Barátom
Diálogo poético bilingue com Bognár Károly, meu amigo desde o tempo da Universidade MKKE (1980-1985)
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Külvárosi vágy
Feri
elhagyott, most dug a Béla,
Lök egy kis
lóvét piára néha.
Hogy miért?
Igazán nem is értem,
De így megy
ez itt, ezen a téren.
Feri ütötte-verte a testem,
Bélától
gyorsan teherbe estem.
Most itt
növekszik bennem a vérem,
Ezen a
szürke, elhagyott téren.
A napot
szinte sohase látom,
Az éjszaka a legjobb barátom.
Itt állok
nyáron, itt állok télen,
Ezen a
kibaszott, sivár téren.
Nem vagyok
szép, és nem vagyok csúnya,
Nem vagyok szűz, és nem vagyok kurva,
Hogy kerültem ide? Nem is értem,
Miért dekkolok ezen a téren.
Nézz meg jól! Én is egy ember vagyok,
Ha nem
szeretnek, én is megfagyok.
Néha a Jóistent magát kérem,
Ne hagyjon
elveszni itt, a téren.
Szeretni
akarok, ahogy mások,
Ezért is
mosolygok néha rátok.
Nagyon
várom, hogy elgyere értem,
Itt várlak,
ezen a tetves téren.
Bognár
Károly
Desejo da periferia da cidade
O Feri deixou-me, agora fode-me o Béla,
De vez em quando, dá-me dinheiro para a bebida.
Porquê? Na verdade, nem eu entendo
Mas é assim que as coisas acontecem nesta praça.
O Feri batia-me por tudo e por nada,
Com o Béla engravidei rapidamente.
Agora dentro de mim cresce o meu sangue,
Nesta praça cinzenta e abandonada.
Quase nunca vejo o sol,
A noite é a minha melhor amiga.
Aqui estou no verão, aqui estou no inverno,
Nesta desoladora praça de merda.
Não sou bonita, nem sou feia
Não sou virgem, nem sou puta
Como é que vim parar aqui? Nem eu sei,
Porque é que me escondo nesta praça.
Olha bem para mim! Também sou uma pessoa
Se não me amarem também vou congelar.
Por vezes peço ao próprio Deus
Que não me deixe perder aqui nesta praça.
Quero amar, tal como os outros
É por isso que às vezes vos sorrio.
Estou ansiosa que venhas buscar-me
Aqui te espero nesta miserável praça.
(Tradução Joaquim Pimpão)
Estaria em Viena
Se eu não fosse de raça cigana
já há muito que estaria em Viena
a trabalhar num lar de idosos
ou a fazer limpeza na Alemanha.
Mas se nem no meu país me aceitam
como é que me vão aceitar lá fora
com este aspecto tão pouco europeu
e sem saber falar a língua que falam.
Quem nasce numa família organizada
com tudo no sítio e dinheiro que chegue
vai estar sempre à frente da pobreza
da penúria e privações da criança cigana.
Resta-nos fazer filhos como quem lava a loiça
à espera de que comovido Deus faça um milagre
de vez traga à terra o paraíso do céu
sagrado
e acabe com os sacrifícios de quem espera a sua hora.
Pedro Assis Coimbra
Elbújnék
Ráncaim alól szinte ki se látszom,
Rám dől múltamnak szétmálló tűzfala,
És mégis még mindig fiatalt játszom,
Pedig sántikálva kullogok haza.
Szememből lassan elfogynak a fények,
Hajamat vastagon belepi a dér,
Asztalomon hófehér gyertyák égnek,
Törött ablakomon kopogtat a tél.
Testemben
őrjöngve tombol a halál,
Robbannak
mirigyek, rothadnak sejtek,
Elbújnék, de tudom, úgyis megtalál,
Nem rejt el előle semmilyen rejtek.
Készülődni kezdek a hosszú útra,
Bőröndöm és szívem üresen tátong,
Elindulok a végtelenen túlra,
Hol jöttömet már epekedve várod.
Bognár Károly
Gostaria de me esconder
Quase não se vê nada por baixo das minhas rugas,
A parede de fogo em ruínas do meu passado desaba sobre mim,
E, no entanto, continuo a fingir que sou jovem,
Embora vá a coxear quando volto para casa.
Lentamente a luz vai-se esvaindo dos meus olhos,
O gelo cobre fortemente o meu cabelo,
Na minha mesa ardem velas brancas como a neve,
O inverno bate à minha janela partida.
Furiosamente a morte assola o meu corpo,
As glândulas rebentam, as células apodrecem,
Gostaria de me esconder, mas sei que ela me vai encontrar,
Dela nenhum esconderijo me vai proteger.
Começo a preparar-me para a longa viagem,
A minha mala e o meu coração estão vazios,
Vou partir para além do infinito,
Onde já me esperas ansiosamente.
(Tradução Joaquim Pimpão)
O vinho que eu cá deixei
Foi um pensamento que iluminou a noite
uma curta mensagem que dizia apenas
- É agora, é tempo de mudar de vida.
Se fosse uma curta-metragem seria
estou onde mereço estar, em lado nenhum
e passava à tarde no cinema da esquina.
Foi bom, mas acabou. Adeus, inverno. Bem-vinda,
primavera.
Fica em paz com o destino, com a tua peregrinação
que o amor é como a própria vida, dura até acabar.
Uma última informação, mas sem data
- Quando eu morrer por favor não se esqueçam
de beber todo o vinho que eu cá deixar.
Pedro Assis Coimbra
Eljöttél hát
Kopogtatnak.
Ajtót nyitok.
Eljöttél hát értem.
Azt hittem,
hogy nem félek majd,
de remeg a térdem.
Kilépek és elindulok
oda,
ahonnan jöttem.
Hóban,
sárban botladozom,
az egyre
sűrűbb ködben.
Bognár
Károly
Foi então que vieste
Alguém bate à porta.
Abro a porta.
Então vieste buscar-me.
Pensava que não teria medo,
mas os meus joelhos tremem.
Saio e ponho-me a caminho
daquele lugar de onde vim.
Tropeço na neve e na lama,
no nevoeiro cada vez mais denso.
(Tradução Joaquim Pimpão)
Voltar a viver
Dizia, sabes o que é viver de alma vazia?
É melhor morrer para encurtar o caminho
antecipar a partida e a chegada ao deserto.
E se há vampiro ameaçador por perto
esmaga na pedra umas cabeças de alho
que vai fugir dali como diabo foge da cruz.
Se for vampira oferece-lhe uma cebola menina
que surprendida fica mais meiga e apetitosa
que um frasquinho de doce de framboesa.
Ter a ilusão de ser notícia na televisão
e que a solidão não faz mal ao coração.
Morrer para ressuscitar e voltar a viver.
Pedro Assis Coimbra
Budapeste, 15 de agosto de 2026
Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas.
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)
2024 - 2025
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Uma segunda com sabor a feriado
Com cara de haver tempo para tudo.
Com um sorriso vermelho nos lábios
E uma promessa de entrega nos olhos.
“Vinha dizer que já não estou contigo
Que este amor singular já não é nosso
Vinha dizer adeus, mas já não digo
Vinha dizer adeus, mas já não posso”*
Nestes dias de incertezas e alvoroço
O que diz e sente o teu pensamento?
Fala-me de lembranças, solidão e alento
Sentimentos de um passeio domingueiro.
Caminhávamos para a floresta passo apressado
E os pássaros em dezembro e com este frio
Continuavam a cantar para nos aquecer as almas
Para nos comover e nos levar até às lágrimas.
Uma certeza no meio da minha imensa gratidão
- Aqui tens o mapa, o trilho do meu coração.
*Da Poetisa Rosa Lobato de Faria
Da angústia que subia pelos pensamentos
pelas veias acima e à volta tudo inundava
do seu mundo que até ontem funcionava
e que de súbito perdeu a luz, perdeu o brilho
e inesperadamente começou a desmoronar-se.
Foi nesses momentos de grande aflição
de procura de uma mão, de uma voz amiga
que nada terá ficado da vida, das palavras fraternas
e solidárias que por falta de tempo não disseram
e das mensagens em privado que não trocaram.
Mesmo que se esteja no fim da jornada
a imaginação faz avivar o calor dos olhos
faz sentir a doçura da pele, o cheiro dos corpos.
Amanhã pode bem começar uma outra aventura.
Há histórias que são tristes, mas bonitas de contar
e não são todos que vivem uma paixão sem limites.
A história que aqui vos trago ouvi-a ontem na rádio.
Tudo fizeram para se descobrir, conhecer e seduzir.
Não descansaram enquanto não se encontraram.
Quando já tinham tudo o que havia um do outro
para dar e receber, para partilhar e multiplicar.
Quando faziam como quem chegou à terra bem cedo
e livres se instalaram no bairro onde era bom viver.
A àgua parecia ferver e a alegria não parava de crescer.
Foi quando no caminho de regresso às suas casas
deixaram a flor da magia, o fascínio cair no chão
e sem olhar ou voltar atrás seguiram as suas vidas.
Pelos atalhos e ruelas, por bermas e avenidas
ficou um sentimento vazio de amor e saudade.
De um romance que não terá uma segunda tiragem
não será divulgado, não terá uma nova edição.
Dizia, não podemos negar quem fomos
o que juntos fizemos, como nos amamos.
Sabemos que chegou a hora, a partir de agora
o caminho faz-se dia a dia, mágoa a mágoa.
Faz-se lágrima a lágrima, passo a passo
mas não podemos negar as nossas vidas
apagar o nosso amor nem o nosso passado
pois é tudo o que fica do nosso património.
De certeza que as cinzas da fogueira
da nossa paixão ardente e verdadeira
por muito tempo ainda vão ficar mornas.
Vão ficar quentes, vão continuar nossas
como foram na descoberta do primeiro dia
no fogo da primeira tarde, da primeira noite.
Há muitos anos atrás o inverno estava ameno.
Decidiram perder-se por Lisboa, pelo Rossio.
Felizes e anónimos pareciam dois adolescentes.
O amor é assim, rejuvenesce e contradiz a idade.
No segundo dia compraram dois cartuchos de castanhas
da época, que acompanharam com copinhos de ginjinha
bebida à porta, em frente de "A Ginjinha" da nossa
história
no Largo de S. Domingos, onde sem vergonha se beijaram.
Soube tão bem a degustação vadia ao cair da tarde
que regressaram a casa a pé e acabaram por esquecer
que cúmplices no largo pelo olhar tinham combinado
a celebração, até lhes dar a fome para uma ceia tardia.
A doce bebida fez tanto sono que a festa foi adiada
para o despertar, para a manhã do dia seguinte.
Podia ser atrasada algumas horas, mas não anulada.
Nenhuma ginjinha era tão saborosa e tão excitante
como o licor amargo da ginjinha de moça madura.
Dias que iluminaram a vida, alimentaram o sonho
momentos e promessas que recordam com emoção.
Hoje quase tudo mudou, até as castanhas assadas
ou em pleno inverno, os beijos tórridos de verão.
Aqueles eram tempos de provar as deliciosas ginjinhas.
Pode parecer uma ideia semeada à pressa
para acalmar a alma e afastar os remorsos
que não se importa com a má sorte dos outros
que dá pouca atenção à pobreza dos pobres
a esse inferno diário de estar na rua a pedir.
Não vai o machado nem descansam as costas.
Eu estava a pensar no heroísmo dos ucranianos
que quase quatro anos depois da brutal invasão
pela Rússia, continuam a resistir sem capitulação
a defender a sua soberania e os seus direitos.
Com tantos idiotas úteis foi o que me ocorreu.
Depois da corrida da neta de 5-6 anos e do avô
para apanharem o autocarro que os esperava
de porta aberta com um sorriso e a saudação
do motorista do bairro que já os conhecia
foi a melhor cena que hoje podia ter visto.
Meus amigos, esta só pode ser uma boa semana.
Quando se chega à idade da reforma
faz-se um novo balanço da vida vivida
olha-se mais para trás, para o que foi feito
e menos para o presente que parece fugir
para o que está por começar e por concluir.
Estamos em dezembro, penso e escrevo
é último mês do ano, não o último da vida
sem resignação, com ideias e com esperança.
Lúcido sem arrependimentos nem amarguras
pronto para abrir a janela, a porta que me
leva
para o quintal, para o jardim das lembranças.
Uma longa introdução para chegar onde queria.
Há uma canção francesa com mais de
meio século
para a qual desde criança guardei como um desejo
de inventar a tradução que falasse do meu coração.
O que valeria a vida sem os sonhos da melancolia?
São tempos de dar ao chinelo, sem isso
não temos sopa e algum conduto na mesa
muitos não sabem o que é ter tão pouco.
Ouvi tantas vezes à minha avó, à tia Olinda.
E agora? Está melhor, mas não para todos.
Vivemos tempos de pressas, de dar ao tamanco
à sandália de cortiça, de andar à chinelada
dar ao pedal enquanto nas pernas houver força.
Pasteleira para pastar, para andar mais devagar
a pisar ovos, em lento pastelar, a fazer tempo
bem na vida a fazer que faz, correr para quê?
Pôr tudo em pratos limpos para poder descansar.
Acabar por dormir sentado ou ficar firme de pé
a dormir deitado, inquieto de olho meio aberto
como um cão, com um precioso tesouro ao lado
e para poder rimar, beber uma boa xícara de café.
Sabedoria tinha mais num só dedo
do que acumulado o saber bafiento
das pontas do cabelo à ponta dos pés
à narrativa do calmeirão macambúzio.
Raramente sabia como se comportar
e pela antecipação tentava impressionar
com frases sonantes de conteúdo vazio
dos que pensam pouco, mas falam muito.
Diz, quem foi que ao ouvido te convenceu
que até já a formiga tem catarro e as pulgas
nascem com asas de minhocas voadoras
são avós de moscas e netas de morcegos.
“Egy kút csak fölülről kap fényt. Az öregség csak a
múltból.
Um poço apenas de cima recebe a luz. A velhice só do passado.”
Örkény István. Vozeirão e tu de onde recebes a luz?
Para Ricardo Farrú, Poeta e Irmão do Chile
Lembro-me na universidade das manhãs e tardes bem passadas
das noites dos encontros poéticos com exilados e
amigos
em castelhano e regados a tinto Bikavér, o nosso vinho
magyar.
A importância decisiva dos sapatos, das botas se
inverno
conhecerem o caminho mais direito para casa, para a cama.
Apesar de haver um lá longe e um cá, de muita coisa para
mudar
éramos muito mais livres do que nos dias de hoje
convém escrever.
A vida nunca parou e mudou para melhor, depois com o
tempo
à vez, fomos despindo e vestindo as ilusões e o
seu contrário
ou nem uma coisa nem outra, apenas a experiência da idade.
Meus caros, aqui e agora gostaria de deixar escrito
sem medo nem capitulação do politicamente correto
porra para a ditadura da manada, para a submissão dos
rebanhos
a obediência ao pensamento vigente do que pensam
os outros.
A vergonha nenhuma, que se junta ao nojo e a má-fé do
sofismo.
Talvez seja do algoritmo digital enfurecido do
troglodita
palavra tantas vezes usada pelo nosso amigo
Daniel
ele que nem podia olhar nos olhos porque não havia
porta
que não se abrisse e onde ele com gosto entrava.
Partiu muito cedo, mas ficou para sempre na nossa
memória.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver
resposta
continuarei a escrever. Clarice Lispector
2024 – 2025
Para o livro “De mim ficam as Palavras”
“Paga-me um café e conto-te a minha vida”
(Em “Murmúrios do mar”)
De José Tolentino Mendonça, Cardeal e Poeta
Nasci em casa nos meados do século passado
em Amiais de Baixo, lugar de gente orgulhosa
da sua terra que cresceu nas margens da ribeira.
Uma aldeia entre cabeços no Ribatejo profundo.
Ali, durante 3 semanas frequentei a escola primária
e mal sabia quem era quando mudamos para a cidade.
Foi em Santarém que fiz os 7 anos e os 21 em Budapeste
e aos 70 anos se ainda cá estiver por aqui vou continuar.
Membro de uma feliz empresa familiar luso-húngara
sou pai de 3 filhas e 1 filho e avô de 2 netos
e espero que com o tempo venha mais gente nova.
Em nome de Portugal, nos últimos trinta e tal anos
fiz da diplomacia económica a minha profissão.
Jovem, desde 1974 que nunca esqueci ou desertei
as palavras da poesia e não será com esta idade
e os cabelos brancos que vou desistir de escrever
histórias vividas ou inventadas para me entreter.
Acabou-se a inspiração? Parece que não
apenas mudou de terra, mudou de posição
sentou-se no banco à beira da estrada
olhou ao longe e regressou ao seu coração.
Vai de bicicleta pelos atalhos da imaginação.
Ali sol da vida era o nome
de um antigo barco de pesca
relíquia recuperada ao passado
a descansar na praia da Nazaré
nas areias que me são tão familiares.
Era uma linda recordação do tempo
em que me escrevia todos os dias
como quem escreve no seu diário
dos seus sonhos e dos seus desejos.
Mas o passado não faz parte do futuro.
O presente agora é tão breve e tão curto
não lembra a flor que se abria de um olhar
o nevoeiro desaparecer e a vida recomeçar
para ver o dia nascer e o sol subir no céu.
Para o mar acalmar e o barco voltar ao mar.
Dizem que as saudades do vento
se perderam nos terrenos escuros
nas algibeiras rotas onde guardava
a tristeza que se espalhava pelo alcatrão.
Que nada ficou para lembrança
desses dias e meses tão intensos
da antiga fascinação e juras eternas
da alegria sem amarras nem fronteiras.
Sim, falam as memórias de outros tempos
com as geografias ternas de outros ventos
com pôr de sol e fins de tarde prolongados.
- A quietude que trouxesse o fogo de volta.
Olhos nos olhos bem do fundo da alma
dizia, decorando as palavras uma a uma
- O melhor amigo do amor é a admiração
e o seu pior inimigo a apatia da resignação.
O tempo passou muito depressa
Passeou-se em passo de corrida.
Pelo contrário o tempo não ata nem desata
Como a lesma, não passa, há tempo de sobra.
O tempo tem tempo que dá para dar e vender
Porque o tempo passa o tempo a pisar ovos
Aqui para nós é tempo de o tempo esquecer.
Aproveita enquanto podes e tens tempo
Não tenhas pena do tempo que não viveste
Do tempo vivido, mas em parte desperdiçado.
Pensa se é pouco o tempo que ainda te resta
Se é suficiente e antes de ires desta para pior
Desfruta o tempo e escolhe a melhor companhia.
Tens razão nunca o tempo foi tão raro e tão caro
É urgente libertar e democratizar o tempo.
Envolve-te com o tempo e verás como é bom
Casa-te com ele e terão uns bonitos tempinhos.
Com o tempo, o tempo arde até queimar os sonhos
avança e faz dos sonhos a vida, traz os sonhos de volta.
Se para ti é importante vai ao médico, passa pela
farmácia
com cremes e cirurgias disfarça as partes
gastas do tempo
mas nada como dar um bom pontapé no traseiro do tempo.
Vá lá, ganha coragem e troca as voltas ao
tempo
espera por ele à porta do cemitério com uma vela acesa
chama-o pelo nome e oferece-lhe um copo de vinho.
Bebam juntos à minha saúde na taberna mais próxima.
Atenção, recusa negócios suspeitos com o tempo
seja para antecipar, seja para atrasar a partida.
Cuida do tempo de modo que o grande universo
não te caia em cima e não te parta a cabeça.
Aparece em casa e almoça connosco
para acabar em beleza temos fruta bíblica
umas romãs turcas com muito boa pinta.
Vem de autocarro para poderes beber
toda a água da torneira que te apetecer.
Introdução tristonha e algo resignada
de quem anda no mundo de olhos abertos
alguém de carne e osso que como muitos outros
já olha mais para trás do que para diante.
Entre tanta gente na paragem do autocarro
um velhote de bengala caminhava inseguro.
Uma velhinha com o carrinho das compras
sem ajuda e com dificuldade subia o elétrico.
Os tempos mudaram e a vida também.
Eu estou aqui para assumir essa realidade
e para a trazer para as minhas palavras
para o meu mundo, o mundo de muitos.
A vida que também para mim se aproxima.
O mundo em que vive grande parte dos nossos
na solidão com os filhos espalhados e sobrecarregados
o tempo é o artigo mais dispendioso para os idosos.
- Metidos à pressa num lar da terceira idade
da terceira temporada: nascer, viver e morrer.
A história começa no degrau à saída da porta
A vida não pára na rua onde estava a sua casa
No canto das aves, nas árvores da sua memória.
Não se pode só assim despachar, oferecer a alguém.
O que viveram juntos é deles e de mais ninguém.
Para que a vida não tenha pressa em se esquecer de nós
Deixo-te as chaves do meu apartamento e o meu cão
O meu lugar cativo no teatro e as minhas botas de
competição
Guarda como se fossem os teus, os restos do meu coração.
Põe o microfone na boca
e o dedo no nariz
a palhinha no travesseiro
e os olhos na perdiz.
Se não te sentes bem da azia
bebe uma água das pedras
mais um chá de erva cidreira
e antes de adormeceres
faz uma boa caminhada
por entre a fila das panelas.
Não penses que estou a brincar
mas os mortos que eu conheço
e que são uns grandes armários
aos sábados passeiam barulhentos
pelas avenidas em grandes grupos.
Gente que gosta de dar nas vistas
mais resmungões que os meus amigos
- Malta de pé ligeiro e fraternidade ao alto.
Percebe-se bem porque preferimos os vivos.
Olha, vai ver se chove, meu capitão.
Dorme dorme velho boi manso.
Há tanta calma no supermercado.
Só lá vamos com nova insurreição.
Padre e sacristão
Papaia ou enteada
Popular, mas não populista
Pintassilgo feito grande pavão.
Mais a puta que os pariu
As mães são umas santas
Não têm culpa nenhuma
De terem parido merdas destas.
A morte anda por aí, pela rua
À procura, à caça dos caídos
Sabe quais são os mais indefesos
Discriminados desde a nascença.
Quem paga é que escolhe a música
Dizia o barrigudo com ar de gozão
Gordo o regente da orquestra do país
Sorria cínico com o seu ar de aldrabão.
Padre e sacristão, merdas ou patos bravos
Vivos a cheirar a morte, foda-se que são tantos.
Nenhum tirano se escapa ao chamamento divino
Cair no abismo é apenas uma questão de tempo.
Em novembro a meio da manhã
não se via nem uma nesga do céu
um vaga-lume, as luzes de um avião.
Será o sinal do próximo infortúnio
a mensagem das trevas e da escuridão?
Hitler foi a eleições, ganhou e de seguida
proibiu todos os outros partidos políticos.
Se Stálin tivesse ido a eleições multipartidárias
ganhava de caras com maioria absoluta.
Querem-nos convencer que o gajo se eleito
pelos portugueses será um missionário legítimo.
É tempo de dizer chega a esse filho da truta!
Ou está na hora de rasurar a alma, fechar a boca
de esconder os olhos e partir para bem longe?
O estado em que as coisas estão
Para o Meu Velho Amigo e Antigo Colega Manuel Alexandre, Viena
Não haja dúvidas que com o estado em que as coisas estão
O melhor é usar a cabeça como se estivesse no congelador
talvez assim tenhamos hipóteses de não sermos
submetidos
nem sermos esmagados pelo cilindro impiedoso e facínora
dos fantasmas antigos com as roupas de gala da mentira.
Quando as rotundas livres dos nossos dias
estão a ser bloqueadas pelo passado criminoso
com discursos e narrativas cada vez mais perigosas
é normal andarmos com as dúvidas e as angústias
sobre o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos.
Se ajuda, arranja um canivete suíço e fura-lhe os pneus
espalha tachas e pregos pelas estradas de acesso
e pelas ruas da cidade da nossa última esperança
em perigo de ser ocupada pelos inimigos da liberdade.
Os abutres e as hienas esperam pacientes pelo
autoflagelo
pelo definhar da elitista democracia em passo
apressado
para o abismo, por vulnerável e
corrupta, ingénua e indefesa.
- O melhor regime político criado pela inteligência humana.
Pergunto, quem foi o espertalhão que disse
que as manhãs mais frias não ajudam a viver
e o azarado outubro não dá para aprender?
Quem foi o pastor profeta-mor que afirmou
que as derrotas dolorosas não ajudam a crescer?
Fica a saber vigarista bem-falante da aldrabice
O nosso tempo não foi ontem nem é amanhã.
O nosso tempo é hoje para ser vivido aqui e agora.
Não vamos permitir a vossa marcha sobre Lisboa.
O vosso passeio anunciado até às varandas do poder
Olha que ainda há muito para caminhar até lá chegar.
Ó suas folhas da faia estão muito enganadas!
Múmias do mais rasca, perfumadas e mascaradas
de jovens, eles de gravata e elas de blusas apertadas
esqueceram-se que o primeiro milho é para os pardais?
Sexta de manhã e o sol brilha simpático
mas em dia bastante frio para o outono.
Eu estou sentado no elétrico de costas
à direção para a frente é que é o caminho.
Permito-me atalhar, fazer um desvio
ao itinerário principal do meu pensamento.
Não há cores com esta variedade e intensidade
um tal colorido como nesta estação do ano.
É porque o Bom Deus tinha e tem bom gosto
e com a sua bondade e empatia quer partilhar
e tornar acessível a todos a beleza natural
a deslumbrante natureza que Ele próprio criou.
Neste meu divagar lembrei-me de Dostoievski
figura maior da literatura russa e mundial.
“Se Deus não existisse, tudo seria permitido".
Francamente, quem sou eu para contradizer.
Não é preciso estar muito bem informado
para dizer, tanto mal que foi e continua a ser feito
em nome de Deus, tanta atrocidade e tanto crime
que nem o pior diabo tinha, tem talento para tanto.
O riacho do bosque não corria, estava parado
parecia ser um manto, um tapete dourado e roxo
amarelo com os seus tons avermelhados do outono
que volta sem falhar todos os anos, cada ano
para nos mimar e animar, para nos deslumbrar.
O pensamento levou-o para muito longe.
Talvez ela já não se lembre onde e como
que por acaso sem saber nem se conhecer
pela primeira vez passearam lado a lado.
Foi no conhecido e concorrido passeio pedonal
que começa junto ao muro do velho paredão
do São Miguel e segue sempre pela marginal
que antecede as areias húmidas do seu coração.
Entre guerras, invasões e bombardeamentos
num mês de junho que merecia muito mais
o primeiro período de férias tinha acabado.
Era segundo as previsões, sem uma brisa
o começo da semana mais quente do ano
com as máximas muito acima dos trinta.
Apesar disso deixei o carro e a gravata em casa
fui de transportes públicos até ao escritório
e poder ler o semanário sobrevivente da oposição.
Esperei na paragem e entrei pela porta da frente
era uma senhora e como costume disse bom dia
sentei-me em frente lugar que dá uma boa visão.
Chamou-me a atenção a sua cuidadosa condução
e mais ainda as suas mãos esguias e elegantes
- As unhas pintadas da motorista do autocarro.
Se fosse noutros tempos não lhe teria apenas dito
obrigado
pela agradável viagem e profissionalismo que demonstrou.
- Teria perguntado se aceitava um café depois do trabalho.
Para a Marta
Itinerários, Pensamentos e Palavras Soltas.
Recolhidas e escritas durante e depois de O Caminho.
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Perante o desafio da minha filha Marta, até ao Porto
fomos de avião, ela de Amesterdão e eu de Budapeste
e continuamos de autocarro até Valença do Minho.
Depois, durante seis dias foi a pé e de mochila às costas
grande parte do tempo à chuva até à Praça do Obradoiro
à Catedral de Santiago, fim do Caminho Central Português.
Sem saber vimo-nos no Mercado Medieval de Valença
que decorria na Fortaleza onde estava o nosso alojamento.
- O bem que comemos naquele real e abençoado mercado.
Feliz coincidência, o tema era a Peregrinação do Rei D. Manuel I
a Santiago de Compostela em 1502. Segundo as crónicas
acompanhado por uma grande comitiva de peregrinos-poetas.
Li que dois séculos antes, em 1325, Isabel de Aragão
- Sobrinha da Rainha Santa “Szent Erzsébet” da Hungria -
a nossa Rainha Santa Isabel, padroeira de Portugal
e dos pobres, também fez o Caminho até Santiago.
Deixamos Valença do Minho e iniciamos a nossa peregrinação
O Porriño, Redondela, Pontevedra, Caldas de Rei, Padrón e Santiago.
Gostamos muito da passagem por Tui, depois de atravessarmos
a velha ponte sobre o rio Minho, antiga fronteira entre Portugal
e o Reino de Espanha antes do actual Espaço Schengen.
A O Porriño chegámos sábado à tarde e muito esfomeados
como viria a acontecer em todos os dias seguintes.
O Porriño estava em festa e era ainda maior o contraste
entre a elegância dos locais e os peregrinos malvestidos.
Agora que já sei como acabou esta aventura única
como se fosse a antecipação da chegada anunciada
a um velho cais ao qual antes de morrer teria de voltar.
Como aprendi em jovem vale mais tarde do que nunca.
O passado é meu, o futuro para viver um dia de cada vez.
Pontevedra. Belíssima cidade
com a Basílica de Santa Maria Maior
Igreja barroca da Virgem Peregrina
Colégio da Companhia de Jesus
ou o Convento de San Francisco...
Sentia-se um ambiente nosso, familiar, latino
e depois de tanto palmilhar, soube muito bem
em pleno centro histórico sentar numa esplanada
pedir um café Delta, uma cerveja Estrella Galicia
conversar, olhar a vida e deixar passar o tempo...
As badaladas do sino da torre da igreja vizinha
pareciam tão distantes que se tu estivesses aqui
irias sentir como eu sinto, saudade dos velhos amantes
cantados por Brel e que eu sempre quis reescrever.
Padrón. “Os pementos de Padrón, uns pican e outros non”
dito popular galego que aprendi na preparação da romaria.
Aqui nasceu Camilo José Cela, viveu e morreu Rosalía de Castro
Mãe da língua e literatura galega. Autora de “Cantares
Galegos."
Além dos pimentos comemos o melhor polvo desta viagem
num restaurante dos 2 que àquela hora tinham a cozinha aberta.
Na rádio ouvia-se não é contigo que vou cozer pão esta noite
passear à beira-rio, colher uma flor, dançar na festa da vila
mas como é resiliente o coração percorre um longo deserto
e na sombra do oásis e nos seus braços, o longe se faz perto.
Há mais de vinte quilómetros que chovia como na rua
sem dó nem piedade de nós que apesar dos ponchos
éramos todos caminhantes encharcados até aos ossos.
Quando ao longe ouvimos a música de um piano
e parecia ser uma peça musical muito conhecida.
Era “O Pianista do Camiño” que numa passagem
para os caminhantes, por debaixo da autoestrada
tocava “Mariage d’amour”, de Paul de Senneville
um grande sucesso mundial por Richard Clayderman.
Comentário a condizer e do fundo do coração
Jeitosa, o nosso também é um casamento de amor
Flor bela e resistente de toda a minha vida.
Chegámos a Santiago de Compostela no dia 11 de setembro
a meio da tarde e com muita chuva. Festejamos o feito.
Lorca: “Chove em Santiago…
Soma e cinza do teu mar
Santiago, lonxe do sol.
Ãgoa da mañán anterga
trema no meu corazón.”
Ficamos alojados no icónico Albergue Seminário Menor
na ala onde não era dormir em beliche, em sala para muita gente
era o luxo de um quarto individual onde cabia um divã e uma mesa.
Sentia-me como um frade, uma freira em clausura. Silêncio e oração.
Somente no dia seguinte fomos à Missa do Peregrino
celebrada no Altar-mor da Catedral. Gostei muito da homilia
e da mensagem de humildade, humanismo e tolerância transmitida.
Foi anunciado que nesse dia tinham chegado 3.500 peregrinos.
À chuva e ao sol, com céu encoberto ou nevoeiro
estamos todos, todos a remar no mesmo barco
na mesma alma, no trilho do mesmo caminho.
Recordo a Taberna a Fuego Lento, encontrada pela fome e cansaço
e onde pedi chouriço assado em álcool. Um grande sucesso!
A Tenda da Rosa em Teo que nos permitiu comer e abrigar da chuva.
“Em cada gota de água há uma história de vida“, li numa fonte pública.
Por aqui bebem e servem o vinho tinto gelado em taças de barro.
Nestes dias vimos muitos gatos, sobretudo todos brancos ou pretos
casas com muitas parreiras de uva e a Marta sempre que podia
tirava uma esgalha e dividia comigo. Tão doces, tão saborosas.
O último café foi no aeroporto de Santiago Rosalía de Castro. Bonito!
Com a minha primeira experiência do Caminho
e com as leituras que fiz, houve um conjunto de ideias
de pensamentos e palavras que mexeram comigo
de forma mais insistente do que é costume.
- Compaixão. Esperança. Essência. Contemplação
Verdade. Serenidade. Tolerância. Peregrinos. Peregrinação.
Os sentimentos nobres da alma ajudam a dormir melhor.
É tempo de ser autêntico, de não esquecer a verdade
a quem sempre te quis e te ama. Não sei se venho do avesso
se muito ou pouco mudado, sei que não venho o mesmo.
Finisterra. Será que é aqui, sentado neste penhasco negro
que o meu coração acaba, que o meu coração começa?
Caminhar e deixar o pecado em Santiago
como cordeiro de Deus e homem do povo.
Do incenso, sair dali purificado por dentro
e por fora, limpo como uma pomba branca
como um melro negro firme como o granito.
Confissão. Por muito que custe fazer andar para trás
o filme da nossa história, não faz nenhum sentido
nem com recurso ao marketing mais barato, sair de Santiago
para o mundo com a dignidade e a consciência empacotadas.
Destacar a nobreza plebeia da alma
quando em voz baixa diz o que pensa
não se esconde nem tem medo de ser sincera.