segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Palavras Escritas em Budapeste

 

Em 18 de setembro de 1979 cheguei a Budapeste, cidade da minha vida

 

Palavras escritas em Budapeste, 2026

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Taça de prata

 

Sem a taça de prata, a infusão e a cicuta 

tal como sabemos e nos contou Platão 

pode ser que ao contrário de Sócrates

impiedosa a morte não lhe entre pelos pés.

 

Ou seja, que a morte não se comece 

a sentir nos dedos gastos dos pés. 

Se bem que com o frio que está a fazer

e como está sem meias no terraço 

de certeza que desta vez não se escapa.

 

Esta nova realidade faz-nos parar e pensar

mas não é aconselhável perder muito tempo.

Há cada vez mais pessoas conhecidas a morrer

por isso tanto faz, não vale a pena correr

na sua hora, a nossa também vai chegar.

 

A jovem freira

 

Foi ele que cortou e acertou as tábuas de madeira 

da escadaria que levava às flores do seu perfume 

às águas limpas e lisas do jardim da sua nascente.

Na clausura, pela janela era de longe a mais bela.

 

A jovem freira que nasceu no baixo Alentejo

e em pecado perdidamente se apaixonou

soube pelo seu coração e com o seu corpo 

aprendeu pelas cartas que ficaram sem resposta

para a dor, a separação definitiva é remédio santo.

 

Em flor deixou-se murchar dia após dia 

a secar vazia e a morrer aos poucos

a ser bombo da festa e escárnio das outras 

sem vida nenhuma, umas vivas mortas.

 

Foram apenas algumas noites guardadas por Deus.

Se aquelas caras de pau e barrigas de milho 

rios secos que nem uma azeitona ali cabia 

com muito pó e areia seca no meio das pernas

soubessem o bom que foi e o bem que soube.

 

A chuva quando chega vem quente e vem nua

eles ficam molhados como se estivessem na rua 

ficam abraçados e escondidos pela luz da lua.

É do amor que se escreve não de verbos-de-encher.


Filhas da Babilónia

 

Filhas da Babilónia, uma de vocês 

venha de TGV ter comigo a Paris

para no fim-de-semana prolongado 

vermos juntos o museu d'Orsay

museu de Arte Moderna e Petit Palais.

Passearmos pelo jardim do museu Rodin.


Escolhi Paris porque era uma jura antiga.

Vem de Nice, Bruxelas ou da Bretanha 

lá estarei na estação à tua espera.

Eu vou de avião de Budapeste 

a minha cidade adoptiva que me recebeu 

e onde fiquei não tarda há meio século. 

 

Vinho, com queijo e chouriços para comer

e cachimbo ou cigarros para descontrair. 

O cheiro espalhava-se e chegava cá acima

não eram as pernas, as coxas que fumavam

era a dona que na relva mostrava quase tudo 

para não se perder tempo com a imaginação 

Olhando para trás parecia ser um mapa 

ou os sentimentos da minha passagem 

o espelho ousado da nossa migração tardia. 

A minha peregrinação pela vida em viagem.

Filhas de Babilónia (1920) de Aquilino Ribeiro.

 

Carreiristas e anedotas

 

Falam de iluminismo e da sabedoria 

cidadania, superstição e da subordinação 

da noite das trevas rumo à luz libertadora.

Mas não bate a bota com a perdigota

nem os lobos com o focinho do cão.

 

Estes carreiristas e estas anedotas 

quando finalmente chegam lá acima

a ministros ou secretários de estado

pensam que são e falam como profetas!

 

Se o problema é grande pega na vassoura 

não te preocupes varre para debaixo do tapete

se não se vê não existe, assunto arrumado. 


Era mesmo nisso que eu estava a pensar 

mas estava calado, não sabia como me expressar.

 

Corre para a cozinha

 

Se fosse cenoura seria como uma beringela 

de berbequim na mão e de volta da donzela 

com um quilo de berbigão afogado na panela 

para condimentar a tristeza do soldado sentinela. 

 

Diria cosmopolita, que são couves de Lisboa

com grelos e nabiças azedas de Varsóvia 

calções às riscas e blusas curtas de Barcelona.

a fazer sol e levar com a chuva em cima. 

 

Cada país tem as suas coisas difíceis de entender.

Na Hungria quando faz sol e chove ao mesmo tempo 

diz-se que o diabo está a dar porrada na mulher.

Não, em nenhuma, nem mesmo à mulher do diabo! 

 

Diabo sê por uma vez um gajo porreiro. 

Aproveita e toma banho com a chuva 

põe-te ao sol para secares depressa.

Corre para a cozinha e faz tu o almoço.


Conversa de amigos

 

Numa conversa de amigos que escrevem 

ou escreverem poesia por necessidade e prazer 

para se conhecerem ou darem-se a conhecer

cruzaram as mãos sobre a mesa da cervejaria 

e fizeram mais um brinde com canecas de cerveja.

 

Com estilo, alguma solenidade e bem bebidos

declaram que não se é menos poeta 

por se ser feliz e se ter uma vida normal

uma vida completa como outra pessoa qualquer.

Decidiram que continuariam a ser felizes e a escrever.

 

- A nova geografia é a minha nova residência 

a narrativa e o silêncio da nossa resiliência.

Enfeitadas com pedras de calcário branco

rodeadas de muros baixinhos de basalto negro.

A casa, nosso refúgio quando me sentir sozinho.


Inteligência Artificial ou Super Inteligência

 

Inteligência Artificial (IA) que recentemente o Extra-Terrestre (ET)
- infelizmente não é o de Spielberg e amigo de Elliott -
mas o outro, eleito pela maioria dos norte-americanos
inquilino da Casa Branca rebatizou de Super Inteligência (SI).

É a corrida desenfreada da humanidade para o abismo
do feudalismo da tecno-oligarquia com a ocupação das nossas almas
com a subordinação das nossas mentes ao deus-algoritmo
ou será o começo de mais um maravilhoso mundo novo?

Até a nossa imaginação é transacionada em bolsa
muda de acionista como quem muda de camisa.
Para escrutinar falta-nos o ânimo, tempo e vontade
dia após dia estamos a perder a indignação da rua.

Eu quando tenho dúvidas, penso e pergunto
quando não tenho, organizo as ideias e afirmo.
Somos uns ganhadores abençoados
ou estamos fodidos, meus amigos?


A moça da estação de serviço

 

Era ela a moça da estação de serviço

que a maioria das vezes me atendia 

quando depois de atestar o depósito 

pagava com cartão e pedia a fatura.

 

Era alta e esguia, bonita e muito simpática 

há que ter em atenção, de levar em conta

que por estes lados muitas vezes a simpatia 

é um bem escasso, item que se vê pouco.

 

Arranja sempre tempo para falar comigo 

gosta Portugal que já visitou várias vezes 

e como naturalmente sabe que sou português  

não se cansa de repetir - adoro o seu país.

 

Ontem estava especialmente vistosa

com calças e blusa coladas ao corpo 

uma bomba na bomba da gasolina.

 

Fiquei a pensar que estava assim vestida 

por ser sexta-feira e depois do trabalho 

ia-se encontrar e dançar com o namorado.


O arco-íris da vida

 

Essa imperfeição da curiosidade que ao longo dos anos

fomos descobrindo, selecionando e guardando em nós

sempre nos levou mais longe e a terras mais escondidas

desconhecidas, hospitaleiras como é raro de encontrar.

 

Que se mostravam como se fossem do sul profundo

com muita gente nas ruas em mangas de camisa

ou em tronco nu com corpos belos ou nem tanto.

 

Terras onde as mulheres para surpresa de quem chega

novas ou velhas, passam e mostram os peitos fartos

e ao sol ou à chuva andavam de seios à solta

de manhã cedo ou tarde no crepúsculo do anoitecer.

 

Quando a cor de avelã se mistura com a cor do vinho

com a cor da pele dos seus olhos em repouso

com o lindo arco-íris da vida, a festa pode começar.

 

As maçãs do meu pai

 

As maçãs eram a fruta preferida do meu pai

que comia e dava a comer a toda a família

depois de com a sua navalha da vida inteira

sem pressas as cortar em quatro e descascar.

Em casa tinha de haver maçãs para a refeição acabar.


Ritual que filhos, netos e bisnetos nunca vão esquecer.

Até comia maçãs quem gostava mais de outras frutas.

As maçãs reinetas eram as preferidas da minha mãe.

Nenhum deles sabia da frase feita e do bem que fazia

que uma maçã por dia mantinha o médico à distância.

 

Cinco anos depois da partida de ambos

uma forma simples de com muita ternura os recordar

nos confortar neste mundo em que a tendência é piorar.


Amizade

Ao Jorge Alberto, aliás João Abrunhosa 

 

Como escrever sobre a química ou filosofia da amizade? 

Sobre este sentimento e certeza de sermos amigos

e de ficarmos melhor por sabermos que é de verdade?

 

Nesse mês de julho longínquo do século passado

com transfer em Frankfurt regressamos a Lisboa 

e cada um foi para o seu lado, eu feito Pedro

para Santarém e o Jorge Alberto para o Porto.

 

Depois de termos passado juntos seis meses em Moscovo

protegidos com pseudónimos, com nomes de clandestinos.

estivemos mais de quarenta e sete anos sem nos vermos 

e sem sabermos qual era o nome verdadeiro um do outro. 

 

Eu estava tão feliz, que depois do nosso primeiro reencontro 

quando ia no táxi que me levou ao hotel, contei ao taxista 

que tinha estado a jantar com um amigo que não via

há quase meio século e que foi um momento fantástico.

 

Que pusemos a conversa em dia, ficamos grosso modo 

a saber o que cada um tinha feito neste interregno de tempo

falamos como se nos tivéssemos visto na semana passada. 

 

Senhor, só por ouvir de si essa história 

já valeu a pena ter vindo trabalhar no domingo à noite!

- Exclamou o taxista 

 

Não sei se não foi já em Moscovo que começamos 

o nosso caminho contra o totalitarismo comunista

mas o culto da personalidade ao morto-vivo Brejnev 

com cartazes e fotografias por todo lado, ajudou.

 

Não foi só estudar, fizemos também várias visitas 

uma semana em Leningrado com as noites brancas 

dez dias na República autónoma Ossétia do Norte, no Cáucaso.

Para ‘sol da terra’ do velho camarada, na URSS fazia muito frio!

 

João, vais ser o primeiro leitor deste texto 

e se não quiseres não será publicado. Um abraço

 

Vem a casa passar o Natal

 

Olhou para o relógio de parede da cozinha.

Estão a aparecer aqui não tarda nada 

disse com um sorriso meigo de quem espera 

que apareçam filhos e netos para almoçar. 

Era assim em família cada segundo domingo 

para durante a semana recordar e comentar.

Por vezes conhecermos jovens e temos dificuldades 

de os imaginar adultos e casados, pais a criar filhos.

Ouvi há dias de uma colega e por ser tão bonito 

senti que tinha de guardar e deixar aqui escrito 

que se deve sempre confiar e acreditar no futuro. 

- Vem a casa passar o Natal connosco

dizia a mãe ao filho que vive no estrangeiro 

e está separado da mãe dos seus filhos pequenos 

- Não leves a mal, mas não vou. 

A minha casa, o meu país é onde estão os meus filhos.


O mundo de ontem

 

O mundo de ontem há muito que ruiu e se afundou 

legitimado pelas escolhas da opinião pública.

No regresso apressado à escuridão do passado 

já nem se lembram como era antes do dilúvio.

 

Na caminhada solitária ao interior da vida 

de juntar os trapos que o futuro deixou 

o que é que eu posso dizer ou acrescentar?

 

Feito rã disfarçar-me entre as folhas do charco?

Ficar de pé encostado às árvores do bosque?

Ficar mudo como uma cigarra morta de fome? 

Esperar que as coisas mudem por si como milagre?

 

Até ao último dia é não se deixar render 

não se calar, é ser grilo e não obedecer.

- Vá com Deus e fique por lá, não volte.


Franco atirador

 

Ouve, não me fales de nobreza nem de linhagem

mas dos códigos enganadores da vossa linguagem

dos negócios que fazem a que chamam arte e coragem

com vocês pode-se aprender tudo o que é sacanagem.

 

Armado em franco atirador manhoso

se não queres ir para a corte de Viena

tens bom remédio vai para Moscovo

escolhe Ankara ou a Cidade Proibida.

 

Já que estou com as mãos na massa

deixa-me falar claro sem ironia ou ameaça

vai, corre para o diabo que te carregue

sem ti a nossa terra fica bem entregue.


Cozedura do pão

 

A menina tem um corpo bonito e bem feito 

vestida com um vestido trapalhão que atrapalha

quando tem de descer as escadas a correr 

e enfiar-se pela ranhura no carro pequeno.

 

Entornava as águas mornas do seu peito 

pela brecha da janelinha das águas-furtadas. 

O vizinho de baixo atento não perdia uma 

imaginava-se a secá-la com a sua toalha branca.

 

Pedra no sapato, dedo no dedal e carne de cão 

à mesa sente-se fresca como um carapau ao sol 

sardinha no gelo com sal à espera de ser comida.

Leva-me e faz-me com a cozedura do teu pão.

 

A vulgarização do mal

 

Sim, o mundo já esteve muito melhor.

A normalização do populismo violento 

como a relativização do terrorismo 

deixa-me cada vez mais angustiado.

 

Pactuar com a vulgarização do genocídio 

como Eichmann e a Banalidade do Mal

que Hannah Arendt tão bem descreveu

deixa-me cada dia mais amargurado.

O presságio das más notícias, da desgraça

que nos traz essa ave de mau agoiro vestida

com as penas da morte e as bombas de Netanyahu 

e do seu governo extremista e neofascista. 

 

Não podemos calar perante a demonização

que é feita do Estado de Israel e ao mesmo tempo 

temos de levantar a voz e afirmar sem medo 

estar contra o sionismo radical não é ser antissemita.


Por vezes os nossos filhos

 

A poesia escreva-se na primeira pessoa do singular

às vezes do plural e a duas mãos, a dois corações

mas para não nos enganarmos a nós, nem aos outros

devemos esclarecer que nem tudo é o que parece.

- Nem tudo o que se diz, o que se escreve, acontece.

 

No caminho longo de viver a vida, fazer amigos

continuar a que recebemos e construir uma família

por vezes os nossos filhos para saberem quem são

e para onde querem ir têm de chamar pai a outro.

 

São a forma de ficarmos nos mundos do mundo

a nossa primeira prioridade e preocupação maior

porque é mais fácil dizer: é sábado e estou com fome.

Felizmente nem tudo é: sou eu, somos nós e o destino.


Beni e Simi

 

Estava a nevar em Budapeste.

O meu neto Beni do pijama azul-claro

dos seus três anos e uns trocos

dizia aos pais que ele não podia ir dormir.

Tinha de ficar acordado a guardar a neve

para ela não se derreter e desaparecer.

 

Fomos passear à floresta que fica perto

e que tem à entrada um grande pedregulho.

Nesse dia tinha em cima uma pedra pequena

que de brincadeira alguém tinha ali colocado.

Com aquela doçura natural de criança

disse o nosso Beni - É o papá e o Simi!

 

Há uns dias estava em casa dos avós

e com cara de novidade informou-nos

- Sabem que o Simi vai para o estrangeiro?

Vai viver para o país onde falam a sua língua

e onde vão entender o que ele diz.


A digitalização da vida

 

Não é filosofia, mas pode ser o futuro.

Na Estónia pequeno país do Báltico 

a digitalização da vida no dia a dia 

assume níveis impressionantes.


Durante da nossa visita fiquei a saber 

que apenas em três situações 

não é possível fazer de forma digital. 

É obrigatório a presença física, 

para casar, comprar casa e se divorciar. 

 

Quanto à digitalização do amor, 

daquele que nem precisa de cama

para arder, mas com cama é melhor 

o guia foi omisso e eu não perguntei.

 

Métrica da capitulação

 

Uso a narrativa fina da minha profissão:

- Métrica da importação e da exportação 

métrica da indústria pela urgente inovação

métrica da inércia que leva à capitulação.


Para outros é a arte e o talento de saber medir 

o ritmo da esperança e a narrativa da ilusão

ainda antes de desistir desta labuta e partir.

A métrica da parvoíce mal medida da avaliação.

 

Não sei se é da idade, se é da inquietação 

se da impressão e nervosimo da minha percepção

mas cada vez acho menos graça à nova aurora.

Nunca foi tão fácil espalhar a mentira como agora.


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Palavras escritas em Budapeste


Em 18 de setembro de 1979 cheguei a Budapeste, cidade da minha vida

 

Palavras escritas em Budapeste, 2026

Novo "capitulo" para o livro De mim ficam as Palavras

(Em breve vou começar a publicar aqui)


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Tilos (Proibido)

Deixar de escrever, Barátom

 

Diálogo poético bilingue com Bognár Károly, meu amigo desde o tempo da Universidade MKKE (1980-1985)  


Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Külvárosi vágy (Desejo da periferia da cidade) / Estaria em Viena

 

Külvárosi vágy 

 

Feri elhagyott, most dug a Béla,

Lök egy kis lóvét piára néha.

Hogy miért? Igazán nem is értem,

De így megy ez itt, ezen a téren.

 

Feri ütötte-verte a testem,

Bélától gyorsan teherbe estem.

Most itt növekszik bennem a vérem,

Ezen a szürke, elhagyott téren.

 

A napot szinte sohase látom,

Az éjszaka a legjobb barátom.

Itt állok nyáron, itt állok télen,

Ezen a kibaszott, sivár téren.

 

Nem vagyok szép, és nem vagyok csúnya,

Nem vagyok szűz, és nem vagyok kurva,

Hogy kerültem ide? Nem is értem,

Miért dekkolok ezen a téren.

 

Nézz meg jól! Én is egy ember vagyok,

Ha nem szeretnek, én is megfagyok.

Néha a Jóistent magát kérem,

Ne hagyjon elveszni itt, a téren.

 

Szeretni akarok, ahogy mások,

Ezért is mosolygok néha rátok.

Nagyon várom, hogy elgyere értem,

Itt várlak, ezen a tetves téren.

Bognár Károly

  

Desejo da periferia da cidade 

 

O Feri deixou-me, agora fode-me o Béla,

De vez em quando, dá-me dinheiro para a bebida.

Porquê? Na verdade, nem eu entendo 

Mas é assim que as coisas acontecem nesta praça.

 

O Feri batia-me por tudo e por nada,

Com o Béla engravidei rapidamente.

Agora dentro de mim cresce o meu sangue,

Nesta praça cinzenta e abandonada.

 

Quase nunca vejo o sol,

A noite é a minha melhor amiga.

Aqui estou no verão, aqui estou no inverno,

Nesta desoladora praça de merda.

 

Não sou bonita, nem sou feia

Não sou virgem, nem sou puta

Como é que vim parar aqui? Nem eu sei,

Porque é que me escondo nesta praça.

 

Olha bem para mim! Também sou uma pessoa

Se não me amarem também vou congelar.

Por vezes peço ao próprio Deus

Que não me deixe perder aqui nesta praça.

 

Quero amar, tal como os outros

É por isso que às vezes vos sorrio.

Estou ansiosa que venhas buscar-me

Aqui te espero nesta miserável praça.

(Tradução Joaquim Pimpão) 

 

 

Estaria em Viena

 

Se eu não fosse de raça cigana

já há muito que estaria em Viena 

a trabalhar num lar de idosos 

ou a fazer limpeza na Alemanha.

 

Mas se nem no meu país me aceitam 

como é que me vão aceitar lá fora 

com este aspecto tão pouco europeu 

e sem saber falar a língua que falam.

 

Quem nasce numa família organizada 

com tudo no sítio e dinheiro que chegue 

vai estar sempre à frente da pobreza 

da penúria e privações da criança cigana.

 

Resta-nos fazer filhos como quem lava a loiça 

à espera de que comovido Deus faça um milagre 

de vez traga à terra o paraíso do céu sagrado 

e acabe com os sacrifícios de quem espera a sua hora.

Pedro Assis Coimbra


Elbújnék (Gostaria de me esconder) / O vinho que eu cá deixar

 

Elbújnék 

 

Ráncaim alól szinte ki se látszom,

Rám dől múltamnak szétmálló tűzfala,

És mégis még mindig fiatalt játszom,

Pedig sántikálva kullogok haza.

 

Szememből lassan elfogynak a fények,

Hajamat vastagon belepi a dér,

Asztalomon hófehér gyertyák égnek,

Törött ablakomon kopogtat a tél.

 

Testemben őrjöngve tombol a halál,

Robbannak mirigyek, rothadnak sejtek,

Elbújnék, de tudom, úgyis megtalál,

Nem rejt el előle semmilyen rejtek.

 

Készülődni kezdek a hosszú útra,

Bőröndöm és szívem üresen tátong,

Elindulok a végtelenen túlra,

Hol jöttömet már epekedve várod.

Bognár Károly

 

Gostaria de me esconder

 

Quase não se vê nada por baixo das minhas rugas,

A parede de fogo em ruínas do meu passado desaba sobre mim,

E, no entanto, continuo a fingir que sou jovem,

Embora vá a coxear quando volto para casa.

 

Lentamente a luz vai-se esvaindo dos meus olhos,

O gelo cobre fortemente o meu cabelo,

Na minha mesa ardem velas brancas como a neve,

O inverno bate à minha janela partida.

 

Furiosamente a morte assola o meu corpo,

As glândulas rebentam, as células apodrecem,

Gostaria de me esconder, mas sei que ela me vai encontrar,

Dela nenhum esconderijo me vai proteger.

 

Começo a preparar-me para a longa viagem,

A minha mala e o meu coração estão vazios,

Vou partir para além do infinito,

Onde já me esperas ansiosamente.

(Tradução Joaquim Pimpão) 



O vinho que eu cá deixei 

 

Foi um pensamento que iluminou a noite 

uma curta mensagem que dizia apenas 

- É agora, é tempo de mudar de vida.

 

Se fosse uma curta-metragem seria 

estou onde mereço estar, em lado nenhum

e passava à tarde no cinema da esquina.

 

Foi bom, mas acabou. Adeus, inverno. Bem-vinda, primavera. 

Fica em paz com o destino, com a tua peregrinação

que o amor é como a própria vida, dura até acabar.


Uma última informação, mas sem data

- Quando eu morrer por favor não se esqueçam 

de beber todo o vinho que eu cá deixar.

Pedro Assis Coimbra


Eljöttél hát (Foi então que vieste) / Voltar a viver


Eljöttél hát 


Kopogtatnak.

Ajtót nyitok.

Eljöttél hát értem.

Azt hittem, hogy nem félek majd,

de remeg a térdem.

 

Kilépek és elindulok

oda, ahonnan jöttem.

Hóban, sárban botladozom,

az egyre sűrűbb ködben.

Bognár Károly

 

Foi então que vieste

 

Alguém bate à porta.

Abro a porta.

Então vieste buscar-me.

Pensava que não teria medo,

mas os meus joelhos tremem.

 

Saio e ponho-me a caminho

daquele lugar de onde vim.

Tropeço na neve e na lama,

no nevoeiro cada vez mais denso.

(Tradução Joaquim Pimpão) 

 

 

Voltar a viver

 

Dizia, sabes o que é viver de alma vazia?

É melhor morrer para encurtar o caminho 

antecipar a partida e a chegada ao deserto.


E se há vampiro ameaçador por perto 

esmaga na pedra umas cabeças de alho 

que vai fugir dali como diabo foge da cruz.


Se for vampira oferece-lhe uma cebola menina 

que surprendida fica mais meiga e apetitosa 

que um frasquinho de doce de framboesa.

 

Ter a ilusão de ser notícia na televisão 

e que a solidão não faz mal ao coração.

Morrer para ressuscitar e voltar a viver. 

Pedro Assis Coimbra

 

Budapeste, 15 de agosto de 2026


segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Palavras avulso e a granel / 6

 

Segue o teu destino 

Rega as tuas plantas 

Ama as tuas rosas. 

Fernando Pessoa (Ricardo Reis) 

 

 

2024 - 2025 

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Aqui tens o mapa

 

Uma segunda com sabor a feriado

Com cara de haver tempo para tudo.

Com um sorriso vermelho nos lábios

E uma promessa de entrega nos olhos.


“Vinha dizer que já não estou contigo

Que este amor singular já não é nosso

Vinha dizer adeus, mas já não digo

Vinha dizer adeus, mas já não posso”*


Nestes dias de incertezas e alvoroço

O que diz e sente o teu pensamento?

Fala-me de lembranças, solidão e alento

Sentimentos de um passeio domingueiro.


Caminhávamos para a floresta passo apressado

E os pássaros em dezembro e com este frio

Continuavam a cantar para nos aquecer as almas

Para nos comover e nos levar até às lágrimas.


Uma certeza no meio da minha imensa gratidão

- Aqui tens o mapa, o trilho do meu coração.

*Da Poetisa Rosa Lobato de Faria


Uma outra aventura

 

Da angústia que subia pelos pensamentos 

pelas veias acima e à volta tudo inundava

do seu mundo que até ontem funcionava 

e que de súbito perdeu a luz, perdeu o brilho 

e inesperadamente começou a desmoronar-se.

 

Foi nesses momentos de grande aflição 

de procura de uma mão, de uma voz amiga 

que nada terá ficado da vida, das palavras fraternas

e solidárias que por falta de tempo não disseram 

e das mensagens em privado que não trocaram.

 

Mesmo que se esteja no fim da jornada 

a imaginação faz avivar o calor dos olhos

faz sentir a doçura da pele, o cheiro dos corpos.

Amanhã pode bem começar uma outra aventura.


Há histórias tristes


Há histórias que são tristes, mas bonitas de contar

e não são todos que vivem uma paixão sem limites.

A história que aqui vos trago ouvi-a ontem na rádio. 

Tudo fizeram para se descobrir, conhecer e seduzir.

Não descansaram enquanto não se encontraram. 

 

Quando já tinham tudo o que havia um do outro 

para dar e receber, para partilhar e multiplicar. 

Quando faziam como quem chegou à terra bem cedo 

e livres se instalaram no bairro onde era bom viver.

A àgua parecia ferver e a alegria não parava de crescer.

 

Foi quando no caminho de regresso às suas casas

deixaram a flor da magia, o fascínio cair no chão 

e sem olhar ou voltar atrás seguiram as suas vidas.

Pelos atalhos e ruelas, por bermas e avenidas 

ficou um sentimento vazio de amor e saudade.

 

De um romance que não terá uma segunda tiragem 

não será divulgado, não terá uma nova edição.


Primeira noite


Dizia, não podemos negar quem fomos

o que juntos fizemos, como nos amamos.

Sabemos que chegou a hora, a partir de agora 

o caminho faz-se dia a dia, mágoa a mágoa.

 

Faz-se lágrima a lágrima, passo a passo 

mas não podemos negar as nossas vidas

apagar o nosso amor nem o nosso passado 

pois é tudo o que fica do nosso património. 

 

De certeza que as cinzas da fogueira 

da nossa paixão ardente e verdadeira 

por muito tempo ainda vão ficar mornas.


Vão ficar quentes, vão continuar nossas 

como foram na descoberta do primeiro dia 

no fogo da primeira tarde, da primeira noite.  


A festa da ginjinha

 

Há muitos anos atrás o inverno estava ameno.

Decidiram perder-se por Lisboa, pelo Rossio.

Felizes e anónimos pareciam dois adolescentes.

O amor é assim, rejuvenesce e contradiz a idade.

 

No segundo dia compraram dois cartuchos de castanhas

da época, que acompanharam com copinhos de ginjinha

bebida à porta, em frente de "A Ginjinha" da nossa história

no Largo de S. Domingos, onde sem vergonha se beijaram.

 

Soube tão bem a degustação vadia ao cair da tarde

que regressaram a casa a pé e acabaram por esquecer 

que cúmplices no largo pelo olhar tinham combinado  

a celebração, até lhes dar a fome para uma ceia tardia.

 

A doce bebida fez tanto sono que a festa foi adiada

para o despertar, para a manhã do dia seguinte.

Podia ser atrasada algumas horas, mas não anulada.

Nenhuma ginjinha era tão saborosa e tão excitante

como o licor amargo da ginjinha de moça madura.


Dias que iluminaram a vida, alimentaram o sonho

momentos e promessas que recordam com emoção.

Hoje quase tudo mudou, até as castanhas assadas

ou em pleno inverno, os beijos tórridos de verão.

Aqueles eram tempos de provar as deliciosas ginjinhas.


Uma boa semana

 

Pode parecer uma ideia semeada à pressa 

para acalmar a alma e afastar os remorsos

que não se importa com a má sorte dos outros 

que dá pouca atenção à pobreza dos pobres  

a esse inferno diário de estar na rua a pedir. 

Não vai o machado nem descansam as costas.

 

Eu estava a pensar no heroísmo dos ucranianos 

que quase quatro anos depois da brutal invasão 

pela Rússia, continuam a resistir sem capitulação 

a defender a sua soberania e os seus direitos. 

Com tantos idiotas úteis foi o que me ocorreu.

 

Depois da corrida da neta de 5-6 anos e do avô 

para apanharem o autocarro que os esperava 

de porta aberta com um sorriso e a saudação 

do motorista do bairro que já os conhecia 

foi a melhor cena que hoje podia ter visto. 

Meus amigos, esta só pode ser uma boa semana.


Idade da reforma


Quando se chega à idade da reforma

faz-se um novo balanço da vida vivida 

olha-se mais para trás, para o que foi feito 

e menos para o presente que parece fugir 

para o que está por começar e por concluir.

 

Estamos em dezembro, penso e escrevo 

é último mês do ano, não o último da vida 

sem resignação, com ideias e com esperança.

 

Lúcido sem arrependimentos nem amarguras  

pronto para abrir a janela, a porta que me leva 

para o quintal, para o jardim das lembranças.

 

Uma longa introdução para chegar onde queria. 

Há uma canção francesa com mais de meio século 

para a qual desde criança guardei como um desejo 

de inventar a tradução que falasse do meu coração. 

O que valeria a vida sem os sonhos da melancolia? 


Dar ao chinelo

 

São tempos de dar ao chinelo, sem isso 

não temos sopa e algum conduto na mesa 

muitos não sabem o que é ter tão pouco.

Ouvi tantas vezes à minha avó, à tia Olinda.

 

E agora? Está melhor, mas não para todos.

Vivemos tempos de pressas, de dar ao tamanco 

à sandália de cortiça, de andar à chinelada

dar ao pedal enquanto nas pernas houver força.

  

Pasteleira para pastar, para andar mais devagar 

a pisar ovos, em lento pastelar, a fazer tempo 

bem na vida a fazer que faz, correr para quê?

Pôr tudo em pratos limpos para poder descansar.

 

Acabar por dormir sentado ou ficar firme de pé 

a dormir deitado, inquieto de olho meio aberto 

como um cão, com um precioso tesouro ao lado

e para poder rimar, beber uma boa xícara de café. 


E tu de onde?

 

Sabedoria tinha mais num só dedo

do que acumulado o saber bafiento

das pontas do cabelo à ponta dos pés

à narrativa do calmeirão macambúzio.

 

Raramente sabia como se comportar

e pela antecipação tentava impressionar

com frases sonantes de conteúdo vazio

dos que pensam pouco, mas falam muito.

 

Diz, quem foi que ao ouvido te convenceu

que até já a formiga tem catarro e as pulgas

nascem com asas de minhocas voadoras

são avós de moscas e netas de morcegos.

 

“Egy kút csak fölülről kap fényt. Az öregség csak a múltból.

Um poço apenas de cima recebe a luz. A velhice só do passado.”

Örkény István. Vozeirão e tu de onde recebes a luz?


Na nossa memória

Para Ricardo Farrú, Poeta e Irmão do Chile


Lembro-me na universidade das manhãs e tardes bem passadas  

das noites dos encontros poéticos com exilados e amigos 

em castelhano e regados a tinto Bikavér, o nosso vinho magyar.

A importância decisiva dos sapatos, das botas se inverno 

conhecerem o caminho mais direito para casa, para a cama.

 

Apesar de haver um lá longe e um cá, de muita coisa para mudar 

éramos muito mais livres do que nos dias de hoje convém escrever.

A vida nunca parou e mudou para melhor, depois com o tempo 

à vez, fomos despindo e vestindo as ilusões e o seu contrário 

ou nem uma coisa nem outra, apenas a experiência da idade.

 

Meus caros, aqui e agora gostaria de deixar escrito 

sem medo nem capitulação do politicamente correto

porra para a ditadura da manada, para a submissão dos rebanhos 

a obediência ao pensamento vigente do que pensam os outros.

A vergonha nenhuma, que se junta ao nojo e a má-fé do sofismo.

 

Talvez seja do algoritmo digital enfurecido do troglodita 

palavra tantas vezes usada pelo nosso amigo Daniel 

ele que nem podia olhar nos olhos porque não havia porta 

que não se abrisse e onde ele com gosto entrava.

Partiu muito cedo, mas ficou para sempre na nossa memória.


quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Palavras do eléctrico ou o eléctrico das Palavras / 5

 

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta  

continuarei a escrever. Clarice Lispector 

 

2024 – 2025

Para o livro “De mim ficam as Palavras”


Conto-te a minha vida

 

“Paga-me um café e conto-te a minha vida”

(Em “Murmúrios do mar”)

 De José Tolentino Mendonça, Cardeal e Poeta

 

Nasci em casa nos meados do século passado 

em Amiais de Baixo, lugar de gente orgulhosa 

da sua terra que cresceu nas margens da ribeira. 

Uma aldeia entre cabeços no Ribatejo profundo.

 

Ali, durante 3 semanas frequentei a escola primária

e mal sabia quem era quando mudamos para a cidade. 

Foi em Santarém que fiz os 7 anos e os 21 em Budapeste

e aos 70 anos se ainda cá estiver por aqui vou continuar.

 

Membro de uma feliz empresa familiar luso-húngara 

sou pai de 3 filhas e 1 filho e avô de 2 netos 

e espero que com o tempo venha mais gente nova. 

Em nome de Portugal, nos últimos trinta e tal anos 

fiz da diplomacia económica a minha profissão.

 

Jovem, desde 1974 que nunca esqueci ou desertei

as palavras da poesia e não será com esta idade 

e os cabelos brancos que vou desistir de escrever

histórias vividas ou inventadas para me entreter.

 

Acabou-se a inspiração? Parece que não 

apenas mudou de terra, mudou de posição 

sentou-se no banco à beira da estrada 

olhou ao longe e regressou ao seu coração.

Vai de bicicleta pelos atalhos da imaginação.


Sol da vida

 

Ali sol da vida era o nome 

de um antigo barco de pesca 

relíquia recuperada ao passado 

a descansar na praia da Nazaré 

nas areias que me são tão familiares.

 

Era uma linda recordação do tempo 

em que me escrevia todos os dias 

como quem escreve no seu diário 

dos seus sonhos e dos seus desejos.

Mas o passado não faz parte do futuro.

 

O presente agora é tão breve e tão curto 

não lembra a flor que se abria de um olhar 

o nevoeiro desaparecer e a vida recomeçar 

para ver o dia nascer e o sol subir no céu.

Para o mar acalmar e o barco voltar ao mar. 


As saudades do vento

 

Dizem que as saudades do vento

se perderam nos terrenos escuros 

nas algibeiras rotas onde guardava 

a tristeza que se espalhava pelo alcatrão.

 

Que nada ficou para lembrança  

desses dias e meses tão intensos 

da antiga fascinação e juras eternas

da alegria sem amarras nem fronteiras.

 

Sim, falam as memórias de outros tempos 

com as geografias ternas de outros ventos 

com pôr de sol e fins de tarde prolongados.

- A quietude que trouxesse o fogo de volta.

 

Olhos nos olhos bem do fundo da alma 

dizia, decorando as palavras uma a uma 

- O melhor amigo do amor é a admiração 

e o seu pior inimigo a apatia da resignação.


O primeiro tempo

 

O tempo passou muito depressa 

Passeou-se em passo de corrida.

Pelo contrário o tempo não ata nem desata

Como a lesma, não passa, há tempo de sobra.

 

O tempo tem tempo que dá para dar e vender

Porque o tempo passa o tempo a pisar ovos 

Aqui para nós é tempo de o tempo esquecer.

 

Aproveita enquanto podes e tens tempo 

Não tenhas pena do tempo que não viveste

Do tempo vivido, mas em parte desperdiçado. 

 

Pensa se é pouco o tempo que ainda te resta 

Se é suficiente e antes de ires desta para pior 

Desfruta o tempo e escolhe a melhor companhia. 

 

Tens razão nunca o tempo foi tão raro e tão caro

É urgente libertar e democratizar o tempo. 

Envolve-te com o tempo e verás como é bom 

Casa-te com ele e terão uns bonitos tempinhos.


O tempo segundo


Com o tempo, o tempo arde até queimar os sonhos 

avança e faz dos sonhos a vida, traz os sonhos de volta.

Se para ti é importante vai ao médico, passa pela farmácia 

com cremes e cirurgias disfarça as partes gastas do tempo 

mas nada como dar um bom pontapé no traseiro do tempo.

 

Vá lá, ganha coragem e troca as voltas ao tempo 

espera por ele à porta do cemitério com uma vela acesa

chama-o pelo nome e oferece-lhe um copo de vinho. 

Bebam juntos à minha saúde na taberna mais próxima.

 

Atenção, recusa negócios suspeitos com o tempo 

seja para antecipar, seja para atrasar a partida. 

Cuida do tempo de modo que o grande universo 

não te caia em cima e não te parta a cabeça. 

 

Aparece em casa e almoça connosco 

para acabar em beleza temos fruta bíblica 

umas romãs turcas com muito boa pinta. 

Vem de autocarro para poderes beber 

toda a água da torneira que te apetecer.

 

Terceira temporada

 

Introdução tristonha e algo resignada 

de quem anda no mundo de olhos abertos

alguém de carne e osso que como muitos outros 

já olha mais para trás do que para diante.

 

Entre tanta gente na paragem do autocarro 

um velhote de bengala caminhava inseguro.

Uma velhinha com o carrinho das compras

sem ajuda e com dificuldade subia o elétrico.

 

Os tempos mudaram e a vida também. 

Eu estou aqui para assumir essa realidade 

e para a trazer para as minhas palavras 

para o meu mundo, o mundo de muitos.

A vida que também para mim se aproxima.

 

O mundo em que vive grande parte dos nossos 

na solidão com os filhos espalhados e sobrecarregados

o tempo é o artigo mais dispendioso para os idosos.

- Metidos à pressa num lar da terceira idade

da terceira temporada: nascer, viver e morrer.


Guarda os restos



Que guia ou manual devemos deixar aos amantes

Quando chega ao fim a sua viagem a dois?

Rasgar uma a uma as palavras que inventaram 

Fazer arder todos os sonhos que partilharam

Amaldiçoar o bom tempo que passaram juntos?

 

A história começa no degrau à saída da porta

A vida não pára na rua onde estava a sua casa 

No canto das aves, nas árvores da sua memória.

Não se pode só assim despachar, oferecer a alguém. 

O que viveram juntos é deles e de mais ninguém. 

 

Para que a vida não tenha pressa em se esquecer de nós 

Deixo-te as chaves do meu apartamento e o meu cão 

O meu lugar cativo no teatro e as minhas botas de competição 

Guarda como se fossem os teus, os restos do meu coração.

 


Uma água das pedras


Põe o microfone na boca 

e o dedo no nariz 

a palhinha no travesseiro 

e os olhos na perdiz.

 

Se não te sentes bem da azia 

bebe uma água das pedras 

mais um chá de erva cidreira 

e antes de adormeceres 

faz uma boa caminhada 

por entre a fila das panelas.

 

Não penses que estou a brincar 

mas os mortos que eu conheço 

e que são uns grandes armários

aos sábados passeiam barulhentos

pelas avenidas em grandes grupos.

 

Gente que gosta de dar nas vistas

mais resmungões que os meus amigos 

- Malta de pé ligeiro e fraternidade ao alto. 

Percebe-se bem porque preferimos os vivos.

 

Olha, vai ver se chove, meu capitão. 

Dorme dorme velho boi manso.

Há tanta calma no supermercado. 

Só lá vamos com nova insurreição. 


Nenhum tirano se escapa

 

Padre e sacristão 

Papaia ou enteada

Popular, mas não populista 

Pintassilgo feito grande pavão. 

 

Mais a puta que os pariu 

As mães são umas santas 

Não têm culpa nenhuma 

De terem parido merdas destas.

 

A morte anda por aí, pela rua 

À procura, à caça dos caídos 

Sabe quais são os mais indefesos 

Discriminados desde a nascença.  

 

Quem paga é que escolhe a música 

Dizia o barrigudo com ar de gozão 

Gordo o regente da orquestra do país 

Sorria cínico com o seu ar de aldrabão.

 

Padre e sacristão, merdas ou patos bravos

Vivos a cheirar a morte, foda-se que são tantos.

Nenhum tirano se escapa ao chamamento divino 

Cair no abismo é apenas uma questão de tempo.


Rasurar a alma e partir para longe

 

Em novembro a meio da manhã 

não se via nem uma nesga do céu 

um vaga-lume, as luzes de um avião.

Será o sinal do próximo infortúnio 

a mensagem das trevas e da escuridão? 

 

Hitler foi a eleições, ganhou e de seguida

proibiu todos os outros partidos políticos.

Se Stálin tivesse ido a eleições multipartidárias 

ganhava de caras com maioria absoluta.

 

Querem-nos convencer que o gajo se eleito 

pelos portugueses será um missionário legítimo. 

É tempo de dizer chega a esse filho da truta!

Ou está na hora de rasurar a alma, fechar a boca

de esconder os olhos e partir para bem longe?


Status quo

O estado em que as coisas estão 

Para o Meu Velho Amigo e Antigo Colega Manuel Alexandre, Viena


Não haja dúvidas que com o estado em que as coisas estão

O melhor é usar a cabeça como se estivesse no congelador

talvez assim tenhamos hipóteses de não sermos submetidos 

nem sermos esmagados pelo cilindro impiedoso e facínora

dos fantasmas antigos com as roupas de gala da mentira.

 

Quando as rotundas livres dos nossos dias 

estão a ser bloqueadas pelo passado criminoso

com discursos e narrativas cada vez mais perigosas

é normal andarmos com as dúvidas e as angústias 

sobre o futuro dos nossos filhos e dos nossos netos.

 

Se ajuda, arranja um canivete suíço e fura-lhe os pneus

espalha tachas e pregos pelas estradas de acesso 

e pelas ruas da cidade da nossa última esperança 

em perigo de ser ocupada pelos inimigos da liberdade.

 

Os abutres e as hienas esperam pacientes pelo autoflagelo 

pelo definhar da elitista democracia em passo apressado 

para o abismo, por vulnerável e corrupta, ingénua e indefesa.

- O melhor regime político criado pela inteligência humana.


O nosso tempo é agora

 

Pergunto, quem foi o espertalhão que disse 

que as manhãs mais frias não ajudam a viver

e o azarado outubro não dá para aprender? 

Quem foi o pastor profeta-mor que afirmou 

que as derrotas dolorosas não ajudam a crescer?

 

Fica a saber vigarista bem-falante da aldrabice 

O nosso tempo não foi ontem nem é amanhã. 

O nosso tempo é hoje para ser vivido aqui e agora. 

 

Não vamos permitir a vossa marcha sobre Lisboa.

O vosso passeio anunciado até às varandas do poder

Olha que ainda há muito para caminhar até lá chegar. 

 

Ó suas folhas da faia estão muito enganadas!

Múmias do mais rasca, perfumadas e mascaradas 

de jovens, eles de gravata e elas de blusas apertadas 

esqueceram-se que o primeiro milho é para os pardais? 


Quem sou eu para contradizer

 

Sexta de manhã e o sol brilha simpático

mas em dia bastante frio para o outono.

Eu estou sentado no elétrico de costas

à direção para a frente é que é o caminho.


Permito-me atalhar, fazer um desvio

ao itinerário principal do meu pensamento.

Não há cores com esta variedade e intensidade

um tal colorido como nesta estação do ano.


É porque o Bom Deus tinha e tem bom gosto

e com a sua bondade e empatia quer partilhar

e tornar acessível a todos a beleza natural

a deslumbrante natureza que Ele próprio criou.


Neste meu divagar lembrei-me de Dostoievski

figura maior da literatura russa e mundial.

“Se Deus não existisse, tudo seria permitido".

Francamente, quem sou eu para contradizer.


Não é preciso estar muito bem informado

para dizer, tanto mal que foi e continua a ser feito

em nome de Deus, tanta atrocidade e tanto crime

que nem o pior diabo tinha, tem talento para tanto.


Tapete dourado do outono

 

O riacho do bosque não corria, estava parado  

parecia ser um manto, um tapete dourado e roxo

amarelo com os seus tons avermelhados do outono 

que volta sem falhar todos os anos, cada ano 

para nos mimar e animar, para nos deslumbrar. 

 

O pensamento levou-o para muito longe.

Talvez ela já não se lembre onde e como 

que por acaso sem saber nem se conhecer

pela primeira vez passearam lado a lado. 

 

Foi no conhecido e concorrido passeio pedonal 

que começa junto ao muro do velho paredão 

do São Miguel e segue sempre pela marginal 

que antecede as areias húmidas do seu coração.


As unhas pintadas da motorista


Entre guerras, invasões e bombardeamentos

num mês de junho que merecia muito mais

o primeiro período de férias tinha acabado.

 

Era segundo as previsões, sem uma brisa

o começo da semana mais quente do ano

com as máximas muito acima dos trinta.

 

Apesar disso deixei o carro e a gravata em casa 

fui de transportes públicos até ao escritório 

e poder ler o semanário sobrevivente da oposição.

 

Esperei na paragem e entrei pela porta da frente 

era uma senhora e como costume disse bom dia 

sentei-me em frente lugar que dá uma boa visão.

 

Chamou-me a atenção a sua cuidadosa condução 

e mais ainda as suas mãos esguias e elegantes

- As unhas pintadas da motorista do autocarro.

 

Se fosse noutros tempos não lhe teria apenas dito obrigado 

pela agradável viagem e profissionalismo que demonstrou.

- Teria perguntado se aceitava um café depois do trabalho.


segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Bom Caminho


Para a Marta

Itinerários, Pensamentos e Palavras Soltas.
Recolhidas e escritas durante e depois de O Caminho.

 

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Valença do Minho

 

Perante o desafio da minha filha Marta, até ao Porto

fomos de avião, ela de Amesterdão e eu de Budapeste 

e continuamos de autocarro até Valença do Minho.


Depois, durante seis dias foi a pé e de mochila às costas 

grande parte do tempo à chuva até à Praça do Obradoiro 

à Catedral de Santiago, fim do Caminho Central Português. 


Sem saber vimo-nos no Mercado Medieval de Valença 

que decorria na Fortaleza onde estava o nosso alojamento.

- O bem que comemos naquele real e abençoado mercado.


Feliz coincidência, o tema era a Peregrinação do Rei D. Manuel I 

a Santiago de Compostela em 1502. Segundo as crónicas  

acompanhado por uma grande comitiva de peregrinos-poetas. 


Li que dois séculos antes, em 1325, Isabel de Aragão 

- Sobrinha da Rainha Santa “Szent Erzsébet” da Hungria -

a nossa Rainha Santa Isabel, padroeira de Portugal  

e dos pobres, também fez o Caminho até Santiago. 


O Porriño


Deixamos Valença do Minho e iniciamos a nossa peregrinação  

O Porriño, Redondela, Pontevedra, Caldas de Rei, Padrón e Santiago.

Gostamos muito da passagem por Tui, depois de atravessarmos

a velha ponte sobre o rio Minho, antiga fronteira entre Portugal

e o Reino de Espanha antes do actual Espaço Schengen.



A O Porriño chegámos sábado à tarde e muito esfomeados 

como viria a acontecer em todos os dias seguintes.

O Porriño estava em festa e era ainda maior o contraste 

entre a elegância dos locais e os peregrinos malvestidos. 

 

Agora que já sei como acabou esta aventura única 

como se fosse a antecipação da chegada anunciada

a um velho cais ao qual antes de morrer teria de voltar.

Como aprendi em jovem vale mais tarde do que nunca. 

O passado é meu, o futuro para viver um dia de cada vez. 


Pontevedra


Pontevedra. Belíssima cidade

com a Basílica de Santa Maria Maior 

Igreja barroca da Virgem Peregrina

Colégio da Companhia de Jesus

ou o Convento de San Francisco... 


Sentia-se um ambiente nosso, familiar, latino

e depois de tanto palmilhar, soube muito bem

em pleno centro histórico sentar numa esplanada

pedir um café Delta, uma cerveja Estrella Galicia 

conversar, olhar a vida e deixar passar o tempo... 


As badaladas do sino da torre da igreja vizinha 

pareciam tão distantes que se tu estivesses aqui 

irias sentir como eu sinto, saudade dos velhos amantes

cantados por Brel e que eu sempre quis reescrever. 


Padrón


Padrón. “Os pementos de Padrón, uns pican e outros non”

dito popular galego que aprendi na preparação da romaria. 


Aqui nasceu Camilo José Cela, viveu e morreu Rosalía de Castro

Mãe da língua e literatura galega. Autora de “Cantares Galegos."

Além dos pimentos comemos o melhor polvo desta viagem

num restaurante dos 2 que àquela hora tinham a cozinha aberta.


Na rádio ouvia-se não é contigo que vou cozer pão esta noite 

passear à beira-rio, colher uma flor, dançar na festa da vila

mas como é resiliente o coração percorre um longo deserto 

e na sombra do oásis e nos seus braços, o longe se faz perto.


Pianista do Caminho

 

Há mais de vinte quilómetros que chovia como na rua 

sem dó nem piedade de nós que apesar dos ponchos 

éramos todos caminhantes encharcados até aos ossos. 

Quando ao longe ouvimos a música de um piano 

e parecia ser uma peça musical muito conhecida. 


Era “O Pianista do Camiño” que numa passagem

para os caminhantes, por debaixo da autoestrada

tocava “Mariage d’amour”, de Paul de Senneville 

um grande sucesso mundial por Richard Clayderman.


Comentário a condizer e do fundo do coração 

Jeitosa, o nosso também é um casamento de amor 

Flor bela e resistente de toda a minha vida. 


Santiago de Compostela


Chegámos a Santiago de Compostela no dia 11 de setembro

a meio da tarde e com muita chuva. Festejamos o feito.


Lorca: “Chove em Santiago…

Soma e cinza do teu mar

Santiago, lonxe do sol.

Ãgoa da mañán anterga

trema no meu corazón.”


Ficamos alojados no icónico Albergue Seminário Menor

na ala onde não era dormir em beliche, em sala para muita gente 

era o luxo de um quarto individual onde cabia um divã e uma mesa. 

Sentia-me como um frade, uma freira em clausura. Silêncio e oração. 


Somente no dia seguinte fomos à Missa do Peregrino

celebrada no Altar-mor da Catedral. Gostei muito da homilia

e da mensagem de humildade, humanismo e tolerância transmitida.

Foi anunciado que nesse dia tinham chegado 3.500 peregrinos.

 
À chuva e ao sol, com céu encoberto ou nevoeiro 

estamos todos, todos a remar no mesmo barco 

na mesma alma, no trilho do mesmo caminho. 


Recordações do Caminho

 

Recordo a Taberna a Fuego Lento, encontrada pela fome e cansaço 

e onde pedi chouriço assado em álcool. Um grande sucesso!



A Tenda da Rosa em Teo que nos permitiu comer e abrigar da chuva.

“Em cada gota de água há uma história de vida“, li numa fonte pública.

Por aqui bebem e servem o vinho tinto gelado em taças de barro.



Nestes dias vimos muitos gatos, sobretudo todos brancos ou pretos 

casas com muitas parreiras de uva e a Marta sempre que podia

tirava uma esgalha e dividia comigo. Tão doces, tão saborosas.

O último café foi no aeroporto de Santiago Rosalía de Castro. Bonito!


Ideias. Peregrinação. Finisterra

 

Com a minha primeira experiência do Caminho 

e com as leituras que fiz, houve um conjunto de ideias

de pensamentos e palavras que mexeram comigo

de forma mais insistente do que é costume. 


- Compaixão. Esperança. Essência. Contemplação

Verdade. Serenidade. Tolerância. Peregrinos. Peregrinação. 

Os sentimentos nobres da alma ajudam a dormir melhor.


É tempo de ser autêntico, de não esquecer a verdade

a quem sempre te quis e te ama. Não sei se venho do avesso 

se muito ou pouco mudado, sei que não venho o mesmo.


Finisterra. Será que é aqui, sentado neste penhasco negro

que o meu coração acaba, que o meu coração começa?


Santiago. Cordeiro de Deus

 

Caminhar e deixar o pecado em Santiago

como cordeiro de Deus e homem do povo. 

Do incenso, sair dali purificado por dentro

e por fora, limpo como uma pomba branca  

como um melro negro firme como o granito. 


Confissão. Por muito que custe fazer andar para trás 

o filme da nossa história, não faz nenhum sentido 

nem com recurso ao marketing mais barato, sair de Santiago

para o mundo com a dignidade e a consciência empacotadas.


Destacar a nobreza plebeia da alma 

quando em voz baixa diz o que pensa 

não se esconde nem tem medo de ser sincera.