Excertos e diálogo poético
com Nina Geffroy Poetisa luso-francesa
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Excertos e diálogo poético
com Nina Geffroy Poetisa luso-francesa
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Dá-me tempo, mais umas semanas
de paciência para que eu sem pressas
de manhã à noite te possa mostrar
e com o meu olhar fazer-te acreditar
que tenho este mundo e o outro
para te receber e nos abrigar do vento.
Mundo que inventei entre pão e migalhas
entre beijos nossos e muitas palavras.
Permite-me que traga para a mesa
as melhores lembranças do futuro
enquanto levemente te acaricio o rosto
e tu fascinas com o teu perfume de rosa.
"Deixa-me ser um poema
serei casa e palácio, água e pão
serei o mistério de vida
que se deleita na tua mão."
Se me deixares pegar-te pelo braço
serei vinha e pomar de laranjeiras
serei horta e plantação de oliveiras.
No regresso serei o colo do teu regaço.
Ao desfolhar as notas e apontamentos
que tinha guardado para momentos incertos
encontrou um excerto que lhe fez lembrar
dias menos inquietantes e mais afirmativos.
"Foi em travessa
de porcelana portuguesa
que ao seu homem toda nua
se ofereceu no tampo da mesa."
Sim, na conversa desenvolta e fluída
lábia era coisa que não lhe faltava
e quando em condimentado aconchego
tinha sempre troco no bolso do mamilo.
Ninguém lhe acompanhava o passo pela praça
quando jeitosa e segura de si afirmava com graça
- Bebo leite gordo porque tenho o sangue magro
dizia com um sorriso bonito, um sorriso maroto.
Não te esqueças de mim
quando a distância for muita
e a esperança for pouca
do amor se cultivar no jardim.
Não te esqueças de mim
quando os dias são noites escuras
as manhãs já não tropeçam em nós
e nas madrugadas não te chamar jasmim.
"Não te esqueças de mim
quando no copo do teu vinho tinto
vires desenhar um outro sorriso.
Teu labirinto, teu absinto."
Lembra-te de mim, nunca te esqueças
mesmo de improviso, mesmo só por instinto
o teu melhor vinho são das uvas do meu corpo.
Foi para ti que guardei o melhor do meu chão lavrado.
Nessa época havia uma canção
que mal se ouvia na rádio
talvez por excesso de erotismo
numa terra de costas para o mundo.
Talvez por sermos muito pudicos
num país desde sempre adiado
ou os brandos costumes elogiados
de um pequeno povo tão resignado.
A letra dizia “Tu que fazes
do meu coração a tua morada
dos meus seios o teu passeio
dos meus olhos o teu jardim
Que fazes da minha boca teu pão
da minha água teu vinho,
do meu prazer uma canção.”
Parece que comprometia a alma da nação.
Foi quase excomungada
por uma padralhada que só via pecado
onde o amor era assim cantado
onde quase nua a paixão se sentia
e o prazer dos amantes se mostrava.
Não era preciso ser muito perspicaz
para ver que aquela amizade
era do melhor que havia por ali.
As surpresas ainda vinham a caminho
e já os adjectivos se iam esgotando
com a sua pertinência e encantamento.
Escrevia em verso e com rimas gostosas
que ficavam, não passavam despercebidas.
Experiente sabia destacar-se como poucas.
“Madura, dizem de ti
como se estar madura
não fosse sinónimo de doçura.”
Apetecia saltar as regras da discrição
apetecia comentar e perguntar-lhe a sorrir
qual era a parte mais doce da sua fruta.
Perguntar com quem estava a sonhar
e imaginar a resposta mais adocicada
- A sonhar como seria viver contigo.
Dá-me um minuto de atenção
mesmo que esse minuto se faça horas e dias
tu já tenhas há muito desligado o telefone
e eu continue a falar sem parar nem respirar.
Há muito tempo que te queria dizer
que esta nossa linda aventura
tão pouco comum, tão fora de caixa
não pode acabar sem o último adeus
sem um último encontro de despedida.
Sei que tudo tem um princípio e um fim
como há tempos que a ribeira vai cheia
e outros que está seca sem pinga de água.
Nem assim o pintassilgo deixa de cantar.
Quero que saibas que estou faminta
e despida de qualquer tola autoestima
"sem ti não há sol que me aqueça
nem pão que me apeteça".
"Se queres Amor que te esqueça
devolve-me o amor que te dei.
Eu só te posso esquecer
se esquecer que te amei."
Anda vem para a roda dançar
manda a tristeza para bem longe
sente o rodopio ali à volta da fonte
e não te importes se não sou o teu par.
Sente de perto os odores fortes da festa
os calores que colam a pele ao vestido
e os alertas tímidos do coração adormecido.
Diz, adeus velha paixão e começa uma nova.
Não te esqueças que a vida é um sopro
e quando damos por ela já está de saída
não desperdices os momentos de alegria
e faz do novo romance uma ousada fantasia.
Leitor que nunca me vais ler
sabes é em ti que estou a pensar
é para ti que estou a escrever.
Escrevo sabendo quão ingrato
é o papel do autoproclamado
escritor anónimo e desconhecido.
Como já antes escrevi não é por não ser lido
nem saberem de mim que vou desertar
as palavras com que me levanto e caminho.
Hoje com um jovial e acrescido optimismo
gostaria de afirmar que não conheço
ninguém que seja feliz sozinho.
Não estou a dizer que não há pessoas
que estão sozinhas e são felizes
mas eu não conheci nem as conheço.
Procura em cada dia a felicidade
o carinho que faz bem e faz viver
a ternura que não tem tempo nem idade.
A felicidade é como uma boa cola
cola tudo o que há de melhor entre nós
cola os sentimentos com a alegria da festa.
Procura o amor feliz, o amor verdadeiro
aquele do milagre que quanto mais se dá
mais há para dar no armazém do coração.
"Já fui alameda
praça, largo, avenida.
Já fui caminho, vereda
e hoje se sou beco sem saída
em mim tenho ainda abertas
todas as portas para a vida"
Quem foi que inventou
que a paixão faz crescer asas
e se verdade ensina a voar e sonhar?
Quem foi que escreveu
que grata a resiliência das almas
alimenta a perfeição das palavras?
Quem foi que espalhou ao vento
que o amor quando chega
fica em nós até ao nosso último dia?
"Meu amor como te dizer
que as saudades de ti
faz-me pouco a pouco morrer."
São excertos e migalhas, muitas coisas
de um passado que se foi a saltitar
que saiu de casa de mochila às costas.
- Partiu sem saber quando ia voltar.
Budapeste, 2022-2025
Para o livro “De mim ficam as Palavras”