quinta-feira, 20 de março de 2025

Versos da vida e outras histórias


L’amour est une mer dont la femme est la rive. Victor Hugo




Introdução

 

Querida ele esteve cá hoje? 

Sim, tu sabes que sim. Saiu há pouco.

Fizeram amor, não foi? 

Sim. Fizemos como sempre fazemos.  

 

Olhou-a nos olhos, o convite era tão forte.  

Agora é a nossa vez de crescer. Vamos para cima.

Nesses momentos era outro, transformava-se.

Parecia um potro a correr livre na planície.

 

Naquele tempo bendito de liberdade 

nada se comparava àquela introdução. 

Amaram-se feitos um só, gulosamente 

como se fosse a última vez, não houvesse amanhã.


Sentia-se no ar que nada o excitava tanto 

como imaginar a sua jovem e amada mulher

metida na cama com o seu melhor amigo. 

Era tão bom ter com quem a partilhar.


Estava à sua espera


Havia anos em que o meu amante 

fazia mil e oitocentos quilómetros.  

Conduzia à vez com o meu marido 

para matar as saudades que tinha.

 

Vinha porque sabia que seria bem recebido 

como um dos melhores amigos da família

ao jantar seria dos primeiros a ser servido

sabia que eu também estava à sua espera.

 

Quando é verdadeiro, o amor é entrega. 

Ele fazia todos aqueles quilómetros

para passar comigo duas ou três tardes  

e fazer do verão serrano a rosa da nossa paixão. 

 

Depois despedia-se com o coração cheio.

Voltava feliz contando os dias que faltavam 

para o meu regresso nos finais de agosto. 

Para esse mundo especial que era o nosso. 


A primeira vez

 

Para continuar os estudos deixei a aldeia e fui para a cidade 

para um quarto alugado com uma prima da minha idade. 

Vivia pertinho do liceu e de uns velhos amigos dos meus pais 

de quem, em toda a minha meninice, apenas ouvi dizer bem

do prestígio, ele advogado e ela médica, um exemplo a seguir.

 

As poucas vezes que os vi guardei a imagem de um casal perfeito

de um casal muito bonito e alegre, de gente culta e simples. 

Como criança pensei "quando for grande quero ser como eles".

 

Várias vezes me convidaram para lanchar na sua casa

e depois para ir estudar e fazer os trabalhos de casa 

porque lá estava mais sossegada e concentrada. 

Estudava primeiro na cozinha e depois na biblioteca.  

 

Foi ali que os meus jovens pensamentos voaram, sentia-me atraída

pelos seus cabelos grisalhos, o sorriso aberto, a sua voz melodiosa. 

O sentimento crescia em mim, em demasia para a tenra idade

e na minha imaginação via que os meus sonhos pareciam realidade.

 

Estava escrito, as coisas aconteceram como tinham de acontecer.

No divã, entre livros, deixei de ser menina e tornei-me uma mulher. 

Apesar dos seus remorsos, ali ou no meu quarto continuamos a fazer.

Foi com ele e as nossas tardes que depois da dor descobri o prazer.

 

Por falta de cuidado como quase sempre acontece, fomos apanhados.

O escândalo nunca visto foi abafado, ficou em família. 

Para evitar males maiores tive de mudar de terra, mudei de país.


Esconder os olhos


Nos primeiros meses da minha emigração o meu trabalho 

foi tomar conta de uma menina pequenina enquanto os pais 

trabalhavam, saíam ou estavam em casa, mas sem tempo 

para se ocuparem com a filha. Eram os dois arquitectos 

e viviam numa das melhores zonas dos subúrbios da capital.

 

Era uma miúda acabada de chegar, sem maldade nenhuma

mas cheia de vontade de me integrar e aprender depressa 

a ser moderna, eu que vinha de uma terra tão pequena 

tão atrasada em relação àquela cidade tão cosmopolita.

 

Sentia-me deslocada e insegura, mas nunca tive jeito 

para baixar a cabeça, esconder os olhos e talvez por isso 

o senhor arquitecto aos poucos começou a olhar-me 

e de forma sorrateira os olhos foram conversando.

 

O meu quarto era no rés do chão ao lado da sala do duche

e numa manhã enganou-se na porta e entrou no meu quarto.

Fechou-a atrás de si, pôs o dedo na boca e sorriu-me cúmplice 

como quem diz, não fales, não faço mal, não tenhas medo.

 

Aproximou-se da minha cama e abraçou-me 

suavemente começou a acariciar-me o cabelo

a beijar-me a boca, a descer as mãos pela minha pele.

Tirou-me o pijama, fiquei nua e totalmente indefesa.

 

Estava toda arrepiada, gostava, mas tinha medo 

do que estava a acontecer. Ele olhou-me nos olhos 

e como se fosse a coisa mais natural do mundo

entrou em mim. Eu recebi-o com um suspiro contido.

 

Foi assim durante bastante tempo, eram muitas as manhãs

que descalço vinha tomar o duche ao meu quarto.

A esta distância estou convencida que a esposa sabia  

e o incentivava a continuar, talvez desejasse participar 

mas não deram esse passo, não me quiseram assustar. 


À boleia


Estava à experiência a trabalhar num café da periferia.

Era domingo e por um nadinha perdi o autocarro

e pelo próximo tinha de esperar mais de uma hora e pensei

que o melhor seria pôr-me à boleia, talvez tivesse sorte. 

 

Passado um tempo parou um carro, um senhor de meia-idade 

que simpático perguntou para onde é que eu queria ir.

Disse que me levava, mas antes tinha de parar numa casa

que estava a renovar, não me preocupasse, chegava a tempo.

 

Não me quero fazer de coitadinha ou para mim tanto faz 

mas a verdade é que acabamos com ele em cima de mim 

numa sala vazia apenas com as paredes e janelas acabadas  

com as nossas roupas amarrotadas a servirem de tapete.

 

Depois mais limpos e arranjados levou-me ao trabalho

e quando acabei o meu turno ele estava à minha espera.

Nos dias, meses seguintes continuamos a encontrar-nos

e a levar-me a locais onde nunca imaginei um dia estar.

 

Ele era um homem charmoso com amigos importantes

e como pude observar com hábitos muito surpreendentes

havia muita liberdade, não se importavam quem estivesse a ver.

Clubes muito reservados onde o sexo estava sempre presente. 

 

Ilusão e deslumbramento podia ter caído fundo no poço 

mas foi ele que depois de me mostrar como seu novo troféu

me protegeu, não me deixou ficar sem pé nem afundar.

Estou-lhe grata, mas ainda hoje penso que fui abusada por ele. 

Os versos e reversos da vida e outras histórias que deixo por contar.


Professor de matemática

 

Professor de matemática de liceu era um pouco mais novo que eu 

e foi o homem mais bem-posto e mais bonito com quem estive.

Na gaveta das minhas memórias, o começo da nossa história 

foi dos momentos mais ardentes e apaixonantes da minha vida.


Estava a atender um cliente e senti que fora alguém me observava

olhei de forma discreta para ver quem era, mas ele já tinha entrado.

Como nesse dia estava sozinha, esperou a vez de ser atendido.

 

- Desculpe, mas eu não quero comprar nada, entrei para lhe dizer

que já me esqueci quando vi uma senhora tão formosa e elegante. 

Só por si valeu a pena ter parado nesta pequena e delicada cidade.

A paixão não foi longa, mas aquele belo-homem bem cheiroso

na estratégia triunfante da sedução era um verdadeiro campeão.

 

Ele trazia consigo a chama que dentro de mim acordava 

toda a emoção voluptuosa que uma trintona guarda em si 

e espera o momento certo para se libertar, para viver e sentir 

de aproveitar até à perdição a visita guiada ao paraíso do prazer. 


Quando a magia passou, custou aceitar o fim do "romance da loja"

mas não havia volta a dar e fui em frente, fui eu que tomei a decisão 

de acabar e não aparecer no nosso discreto hotel à saída da cidade.

Fiquei num parque de estacionamento a fazer tempo de ir para casa.

 

Ainda me telefonou a perguntar e a pedir explicações

mas ao saber a razão ficou tão ferido no seu amor-próprio  

que nem amigos ficamos. Nunca mais soube nada dele.


Com a minha amiga

 

Com a minha melhor amiga, ela divorciada e livre e eu casada 

e com filhos, em vários anos no verão passamos uns dias juntas. 

Apenas as duas como se eu fosse solteira e sem prole como ela.


Uma vez no país vizinho o nosso alojamento era uma cama de casal. 

Durante a noite de forma espontânea como fazia com o meu marido 

encostei-me e ela tímida acariciou-me o peito e os seios, a barriga.  


Beijou-me suavemente o pescoço como se soubesse que era o mimo 

a ternura que eu mais adorava e excitava. A maravilha aconteceu.

Nesse dia, nas manhãs e noites que vieram. Umas férias de loucura.



Nos anos seguintes continuamos as escapadinhas, a paixão secreta

de duas amigas apaixonadas, mas eu continuei a preferir homens 

e a nossa linda aventura acabou. A amizade também, não resistiu.


Como poderei eu esquecer


A mais ousada das minhas histórias de amor 

a mais bonita foi com um jovem universitário 

quase quinze anos mais novo do que eu. 

 

Começou com o seu lindo olhar fixo em mim

e como durou tanto tempo, quando acabou 

com o que sabia, parecia ter a minha idade.

 

O jogo de o seduzir, de permitir os seus avanços 

de preparar o caminho, de abrir o portão da minha vida 

de saltar o muro dos preconceitos da diferença de idade 

de o termos feito à frente de todos sem ninguém se dar conta

e com a arte mais discreta que se possa imaginar.

 

Ali, em que todos sabiam de todos e tudo se sabia

foi o maior desafio-paixão de disfarce que me aconteceu. 

Foi o jogo mais maravilhoso que jogadora joguei 

os melhores momentos de fascinação, desejo e entrega.

 

A banda filarmónica a tocar, as pessoas a dançar 

a algazarra das crianças, da juventude e nós ali tão perto 

celebrando a nossa festa com o esplendor do amor.


Por muitos anos que viva nunca me vou esquecer

nem nunca deixarei de estar grata ao meu marido 

que entrava connosco e subia para o outro quarto   

cedia a sua cama e entregava a esposa à paixão 

à energia inesgotável do seu jovem príncipe encantado.

 

Ainda hoje me escreve "Lembras-te? 

De vez em quando, ainda te lembras de mim?"

Tonto, como te poderia eu esquecer! 


Ficaram as saudades

 

Estava depois dos cinquenta, sentia-me bem, achava-me bonita 

não tinha pressa em ser idosa antes de tempo quando solidária

a vida me ofereceu mais uma prenda, uma nova oportunidade. 

Deu-me a conhecer um homem com um H grande.

 

Era mais velho uns bons anos, mas com uma pedalada. 

Os nossos encontros eram como se fossem cronometrados 

tínhamos três horas à disposição até o meu esposo voltar. 

Três que sabiam a trinta e resgatavam todos os meus sonhos 

que sabiam a pouco tal a intensidade, o ritmo do seu pedalar. 

 

Se aprendi tanto com ele no amor, que dizer da sua sabedoria? 

Abriu-me a cabeça como ninguém antes dele tinha feito. 

Como ele me transmitiu saber, cultura e filosofia. 

Eu tinha a sensação clara de que ele sabia tudo e de tudo. 

- O meu mestre na cama, na cultura e no conhecimento.

 

Numa das nossas tardes de paixão, por ciúmes infundados 

decidiu castigar-me, deixou-me pendurada e não apareceu.

Eu estava à sua espera com a minha lingerie mais ousada

de mulher que sabe o que quer, como o excitar ainda mais. 

 

Sem ele a casa ficou vazia e a tarde vestida de solidão.

Devido ao meu orgulho ferido não nos voltamos a encontrar. 

Ficaram as saudades e o seu lugar cativo no meu coração. 

Se um dia de surpresa bater à minha porta vou deixá-lo entrar.


Amor a três acabou

 

Há muito que sou uma mulher casada com um homem maravilhoso

O meu ombro perfeito, meu defensor primeiro, o meu porto de abrigo. 

Motor do meu elevador social, país de acolhimento, meu melhor amigo. 

Meigo e cuidadoso, ternurento e tolerante, é o meu eterno apaixonado.


Durante anos tive uma vida partilhada: à tarde era do meu amante 

e de noite era do meu marido. Para mim foi natural viver assim.

Pouca gente soube dessa faceta da minha vida e se souberam 

foi porque eu lhes disse e os vizinhos que viam o carro ali parado.


Recordo como se fosse hoje, a primeira vez com os dois em casa 

à hora de deitar. Estava na cama e o meu esposo perguntou-me

- Não queres ir para cima ter com ele?

- Gostaria, mas tu não te importas?

- Sabes bem que não, para mim o que conta é a tua felicidade.  


Foi talvez a noite mais intensa que passei com ele, o meu amante. 

O amor a três acabou há muito, mas a amizade ficou e ainda hoje 

aos sábados sentamos os três no café e pomos a conversa em dia.  


Foi amor à primeira vista


Foi amor à primeira vista, ao primeiro, segundo e terceiro olhar.  

A história de amor e da paixão pelo homem da minha vida 

conta-se num episódio uma frase que está presente na minha alma 

como se ele tivesse dito esta manhã depois do nosso primeiro beijo. 

 

Eram as primeiras semanas, época que quem namorou nunca esquece 

quando o amor pede cada momento, todos os momentos, todos os dias 

mas ele pelo seu trabalho teve de se ausentar durante duas semanas.

 

Quando regressou segurando-me as mãos, olhando-me como só ele sabe 

disse-me: Meu Deus tinha-me esquecido como és bela, deslumbrante!

Ainda hoje fico comovida e vêem-me as lágrimas aos olhos. 

Serei a sua namorada e mulher, a sua amante e amiga. 

A sua companheira até ao último dia, última hora da minha vida. 

 


Budapeste, 2023-2025

Para o livro “De mim ficam as Palavras”