quinta-feira, 2 de setembro de 2010

À MESA DO GALIFÃO


Lenta vinha e mais fazia lembrar a lesma
pois incautos vivem condicionados
por tempos cada vez mais provisórios.

A gema d’ovo azul da pata choca
na lentidão de quando nada acontece
e dos teoremas dos novos perigos.

Do medo de ser caçada pelo cão
ser no mercado abalroada pelo sardão
pasto e ementa à mesa do galifão.

Lenta por baixo da galifoa da costura
costureira que belo par de marmelos
Nossa Senhora da Conceição!

Casou-se e nunca mais se calou
bem casada cheia de tesouras
tesouros e muita moeda estrangeira.

O médico marido trata-lhe da saúde
uma vez por mês ao espelho no dia certo
a ver se família acerta algum herdeiro.

Património há de sobra para desbaratar
mas para a vaca mal-comida nada lhe chega
tudo é pouco não se contenta com a mesada
nem com a carne de plástico do pavão.

ÁGUIA DO DESERTO


Transcrevo para as minhas palavras
sem recurso a metáforas trabalhadas
o que aprendi com a moça de Macau um dia
ao fim da tarde sem chuva em Bruxelas.

- Sabes uma águia pode voar
mais baixo que uma galinha
mas uma galinha jamais
voará mais alto que uma águia!

Queria apenas na urgência de um texto
de vão-de-escada ou de sotão desarrumado
re-inventado pelo gozo de estar contigo
regressar às fotos que amanhã nos esperam.

Saber dos teus dedos de azeite a frio
de um verde grosso que coalhava
que não cantavas nem te abandonava.
em silêncio nos teus olhos de verdilhão.

Eu meu amor com a tua permissão
temperava com vinagre para adocicar
para avivar os sabores do teu corpo.
No prazer do fogo minha águia do deserto!

QUEM MUITO DORME


Trocava as voltas aos bigodes da gata
que à esquina da lua nas barbas da chuva
fazia insolente negaças ao passado.

Se o coração de madeira a arder
palpita que nem uma batata frita
não compre no talho que não compensa.

Use pré-mastigados made in usa-europe
que fabricam à medida de gordos e gordinhos
e de borla plastificam camelos e barrigudos.

Se quem muito dorme pouco aprende
não te deixes ficar dormente à espera
que não há pão que não dé em fartura.

Não confundas a Vénus partida de Mileto
de perna aberta e maminha ao céu
com a ninfa da ilha por cima da rocha.

HÚMIDA NAS MARGENS


Por baixo do frio da noite
do idioma mal-conhecido da pele
o rio já não corria para a foz
com a metáfora do nosso mar
que seria húmida nas margens
estranhamente seca na fenda.

Sabe-se que para fazer bem
era preciso arder fazer doer
e depois caminhar devagar
andar sózinho durante horas 
para bem-aventurado mais tarde
ir até ao bar mais próximo.

Depois de uma caneca de cerveja
voltar à rua inspirar e sentir o vento norte
olhar o frio do rio feito pista de gelo
respirar e ouvir propostas indecentes
e só pensar em a surpreender com flores.

Cansaço erotismo alguma criatividade poética
mas que importância tem alinhar as palavras
escritas como festas que se sentem no rosto?
Assim não nem de veludo há cabra que resista!

BAINHA DA ILUSÃO


Apesar da chuva a gabardine
estrategicamente aberta
mostrava as pernas perfeitas
aos que aquela hora ali passavam.

Nem a chuva oblíqua
de que escreveu Pessoa
ganhou coragem para as tocar
nem os olhos do homem
que matinal passeava o cão.

Nem mesmo quando este
rafeiro e matreiro juntou o pêlo
à pele brilhante das meias de vidro.

Ao mais simples cidadão
pareciam porcelana oriental
humedecida pelo bafo do passeio
pela vidraça oculta molhada
pelo culto divino do pecador.

Que vergonha! Ficou noite clara
quando cruzei o meu olhar
com os olhos do dono do cão.

Continuamos em frente
vontade de deixar a imaginação
a dar cavalos e força ao motor
projectos para a bainha da ilusão.

GUEIXAS E CONCUBINAS


No oriente as gueixas e as concubinas
estudaram aprenderam e cresceram
acabaram o liceu a escola superior a universidade.
Hoje em vez de servirem chá com panos mornos
em salas climatizadas montam micro-processores 
computadores montam tudo as papoilas.

As de cá chapim de pernas mais altas
fúcsias tristes com ramos de laranjeira 
em terra azul seriam aves com asas de borracha.
Anjinhos a ponto cruz bordados ao pé da sé
na toalha branca da mesa de jantar devagar
mas sem emprego alfacinhas não montam nada.

Em vez da farinha de trigo longe das searas
do vinho das uvas da vinha do médico
do azeite virgem do novo olival de van Gogh.
Acredita girassol foi a orelha direita
que já nos baldíos dos caminhos da morte
ofereceu a Rachel a puta amiga do bordel.

NAMOROS À CONSIGNAÇÃO

                                         A Leonard Cohen

Os dedos viajavam sem eira nem beira
por cidades vilas e outros lugares ermos.
Pelas ruas mais improváveis da alegria.
Continuavam pelos ombros a descer
até pararem no descampado da planície.

Continuavam a subir pela montanha acima
montados em bicicleta de competição
observando as marcas do assalto nocturno
deixadas ali por bandidos de lábios abelhudos
quando a maioria dormia que nem uma pedra.

Com receio da opinião pública juravam
que já não podiam com uma gata pelo rabo.
Dedos cinzento-escuro de tanto cigarro
gengivas castanhas apesar da escova
da cara cuidada e al dente da pasta italiana.

Dentes de lactícinio de tanto chocolate
comidos para ajudar a passar o café do tempo.
Do farnel de tanta azeitona preta para recordar
o local onde foram abandonados sem remorsos
no primeiro passeio dos namoros à consignação.

HOSPITAL PÚBLICO


Vinha sentada no autocarro
atrasado por causa do trânsito
que o carro tinha ficado em casa
mais barato e menor a poluição.

Vinha sentada no autocarro
junto à janela e era tão vistosa
que até de longe sem olhar se sentia
a pressa de chegar introduzir o cartão.

Entrar ao serviço e acompanhar
a primeira visita médica do dia
no hospital público da burguesia de Buda
que do luxo e bem estar privado parecia.
Quem não tém cartão usa a combustão.

Aconteceu no cruzamento tripartido
entre muito automóvel a passo curto
malabarismos de autocarros à pinha
e a curta-metragem da imaginação.
Novelas de encantamento e sedução.

SOBREMESAS EUROPEIAS


Depois de um bom Sholet e um tinto Villányi
com o Luis (Madureira Pires) no Fülemüle*

De algumas conjunturas e video-conferências
soube do especialista que aquelas personagens
vinham directamente do tempo em que os ilhéus
ignoravam o desenvolvimento regional estruturante.
Sem os custos da insularidades nem subsídios
e solidariedade para reforço da coesão nacional.

Vinham e traziam para vender no mercado mundial
com qualidade garantida canela bastante em tijolos
cravinho aplicado em palitos no toucinho magro
e aos sábados condimentavam as patas de ganso.
Enriqueciam a ementa com nóz-moscada e pimenta
enquanto serviam as mulheres como contrapeso
entrecosto para as sobremesas das elites europeias.

Agora é a hora dos cremes dos novos mercadores
plebeus que andam de comboio e também de metro.
Os de outrora mais classissistas deixavam os camelos
e os cavalos com corridas por ganhar a descansar
a fazer em frente ao antigo palácio do imperador
e é hoje residência oficial do presidente da república.
*No mês anterior tinha sido no Carmel

O MOTORISTA O MENINO E O SINDICALISTA


A Cseh Tamás, muito mais que um cantor
e a quem já em 1982 escrevi em texto que começava
- Vá parte o copo Tamás, vá lá parte os copos!

Ave ausente a irmã gémea era mais discreta
mais siléncio por isso ninguêm se lembra dela.

A mãe-flor afinal em vez de cravo encarnado
já um pouco murcha era malmequer de estufa
com beiços muito pintados para compensar.
A língua azul de ladrilho ou azulejo nacional
de vaca tresmalhada porque o funeral inoportuno
lhe estragou a ida à ópera com os amigos.

Não podia ter morrido um dia mais tarde?
Fazia alguma diferença? Estes indígenas!

O menino precoce socialmente comprometido
quando for grande será libertário como é tradição
na família e da escola dos intelectuais em Paris
com o coração à esquerda e canivete a carteira
bem recheada no bolso da camisa à direita.

O menino de oiro formatado em tapas e mapas
e em ciência politica ficava parado à espera
- com uma grande carreira à sua frente.
Esperava coitadinho que o motorista
lhe abrisse a porta e ele saciado de mansinho
finalmente pudesse abancar o traseiro.

O sindicalista reformado que continuava
com o hábito saudável de não se calar
e mandar à merda com todas as letras dizia

- Olha lá! Foi para estes meninos-tótós
copinhos de leite aquecido em micro-ondas
que corremos com a ditadura fizemos a revolução?

AVIÃO AEROPORTOS E ALGUMAS HOSPEDEIRAS


Arturo (Portuondo) Carlos (Sánchez x 2) Daniel (Mañana) Guille (Blanco)
Jorge (Bernal) Ricardo (Farrú) Victor (Medina)

Saudades de quê? Das noites com chuva a mais?
Da despedida para sempre da minha aldeia?
Da catequese voluntária e a primeira comunhão?
Da vida pela causa e da saída do adeus definitivo?

Saudades de quê? Do taller literário dos amigos no exílio?
Das viagens de comboio e algumas de avião?
Do sorriso onde se metia a libertinagem marota?
Das manhãs com aguardente para passar no exame?

Passar a dor de cabeça porque no Hary à noite há mais?
Passar o meu coração à sua legítima proprietária?
Saudades da única tarde do primeiro milésimo de beijo?
Todas as noites e dias as alegrias que vieram depois?

Da visita obrigatória à feira das farinheiras curtidas em casa
dos queijos de cabra curados fortes os cheiros e paladares?
De algumas vaidades à mostra a falar alto a dar nas vistas
à custa do prestígio do passado da sagrada conspiração a três?
Do avião aeroportos algumas hospedeiras e muitos comboios?

Do indicador direito a indicar o caminho errado do cais
a insolvência da idade e a coerências das calças cingidas
a evidência do tronco liso da primavera de peitos à solta
- Diego sem música acima da nascente da reserva protegida?
De incêndios e invasões militares o inoxidável do pescoço?

Não. É o caos pré-programado pelo cálculo da álgebra
a côr do nacionalismo que pode ser preto como castanho
vermelho como côr de metal e ás vezes de olhos em bico?
Quem não têm cão caça com gato e escreve para esquecer!



A PELUDA DE VARSÓVIA PORTUGUESA


A José de Almada-Negreiros

Na hidráulica do pensamento chupa-perfeito
que se quebrava ao sentir próximo o peso da morte
a poção de veneno para trilhar o caminho do poder
era mais nem menos que a cartilha magna da bosta
de boi agora baptizada competividade bocal-dentária.

Oficial enviava telegramas encriptados ao quilo 
sobre as perpétuas que cresciam indiferentes 
à penúria engajada das camélias do bairro anti-social.
Da renda mensal e as rendas íntimas do Vístula
e do condomínio dos que tinham muito cacau.

Particular escrevia à mãe do colesterol elevado
da prima gioconda pois mina lisa minha irmã
dela era propagandista dizia vegetariana militante.
Para nosso penar a peluda de Varsóvia era portuguesa.

Entre o requinte e a elegância titular e vozeirona
a senhora era a mais ruidosa entre os homens
e a mais avantajada entre as mulheres.
Sentia-se a meio-palácio que não era dali.

Na cidade de Szpilman do café Sztuka e de Chopin
da Igreja Católica do povo têm alguma importância
interessa a alguêm quem era esse queijo amanteigado?

O COXO CARTESIANO E A DULCE DULCINEIA


Tudo aconteceu num instante de alta cilidragem
estavam mortinhos de sede, parou de repente
como se tivesse levado um valente coice dos cavalos  
entre a berma do viaduto e o separador de cobrição.

Resultado de um furo violento nem artesiano
nem cartesiano como gostava de sublinhar
doutorado na Sorbonne e de matemática sabia
que dividir por zero o poderia levar ao infinito.

Na esperança com a ajuda de deus e da física
de fazer parte clube dos que citam Aron e Barthes.
Ela doce de bolo de bolachas bem se fez ouvir
saltou mesmo sem praga que nem um gafanhoto.

No momento seguinte estava dobrada
não para escrever um poema no asfalto
mas leoa sobre o macaco para mudar o pneu.
A velha Europa farta de guerra fria agradeceu.

Um mulher deste calibre é um diamante
com rimas na cabeça talento e força nas mãos
assim podem ir de carro até Caracas a Hong-Kong.
Ele se não fosse ex-professor seria cosmonauta.

Piloto-aviador em honra das sardas sardentas
da mocinha que viajava horas e horas e vinha
só para o ouvir falar da metafísica e de Descartes.
Quando se punha inocente e ousada ao seu colo.
a perna mais curta tremia que nem varas secas.

FALAVA COM A BOCA CHEIA


Cuspindo comida e gafanhotes
transpirava banha e confiança
sardão era daqueles que se metia
com tudo no meio da estátua viva
sentada à sua frente bem comportada.

Peitos volumosos e paradinhos
rabinho redondo saliente e retocado
não havia nada nada para deitar fora
deitar só com ele anunciava vencedor.

De calendário boca de tão apetitosa
mais parecia um quilo de cerejas maduras
sainha curta levantada e apertada
é agora é desta sentia lá se vai o coração.

Esbracejava da expessura dos seus braços
dos seus músculos de partem tudo
da largura força armário dos seus ombros
misturava no intestino grosso a carne
mal mastigada com cerveja da Baviera.

Falava comia com a boca cheia
e enquanto ruminava à bruta
deitava-lhe uns olhos deus a valha!
Nem navalha tinha nem a astucia de David.

Provavelmente seriam apenas
mais uns estalos que roupa tão boa
tanto tempo a fazer menos de nada
no ginásio piscina solárium pelas curvas
tem um preço minha cabeça de galinha.

O EXEMPLO DO PAI


À luz do dia tinha uma compressa no joelho
às escuras uma mais acima fundas feridas as duas
associadas às lágrimas verdadeiras vindas da alma
do ventre da planície e que ninguêm pode acudir.

Até um cego quanto mais as colegas a quem dizia
ter tropeçado na cozinha sobre um frasco partido
e ao caír o vidro ter-se espetado até ao osso.

Não não foi! Diziam entre lamentos e um gozo
mal contido no cabeleireiro as colegas do trabalho
de longe a mais linda com sucesso entre os homens
que paravam para ver e muita inveja nas mulheres.

Foi um pontapé mal parido quem diria!
Sempre bem vestido bem barbeado delicado
com modos de gente fina lidera a empresa
que tinha ganho o prémio do melhor empregador.

Estava convencido ao crescer tinha aprendido
com o exemplo do pai que quanto mais castiga
mais submissa fica dependente mais dele gosta
depois do sêlo garantia do prazer acrescido.
Nunca adormece sem a ter levado directamente
do    inferno ao gozo do único paraíso que conhece.

PÉS DE BARRO E INICIATIVA PRIVADA


Reformista na aplicação cautelosa da lei
em vigor e do primado da iniciativa privada
molhava os pés de barro no poço
que se desfaziam em lama e orçamentos.

Foi quando a imperatriz coberta de ouro
e de safiras se pôs de pé a negociar
o que lhe restava dos rubis e esmeraldas
e pelo peso devia ser uma boa dose.

Vinha apenas embrulhada num cobertor
porque o lençol e a camisa de dormir
tinham ficados sujos outros tempos
com as marcas certas da mensalidade.

Receitas decantadas de caminhos fáceis
de respostas redondas e evidentes
sempre em nome dos interesses do povo
como pacotes de TVs em sinal aberto.

Em nome da inovação dos tempos modernos
dos produtos financeiros que nos afogam
rupturas e derrames trágicos de crude
de pretensos geniais de fraldas sem cú.

Dizem que os deuses se sentem envergonhados
traídos por alguns sacerdotes que passam a vida
a pregar fruta natural e hortaliça fresca
e só se contentam com a carne mais tenrinha.
Será que com terços e avés-marias serão perdoados?

PRAÇA DO TEMPLO


Ao entrar na praça do tempo sagrado
acalorado quase desfalecia de emoção.
Estava finalmente onde sempre sonhou estar
ali junto às colunas decoradas de toscana
muros ladrilhos e paineis da renascença
história de pedras de talha-mar das palavras.

Faziam sem comissão apenas por amor
pedreiros livres que nunca dormem.
Com palavras mansas esperam deixam
os que não são adormecer e combinam
debaixo do alpendre taxímetro da partilha
os sofás e outras cadeiras almofadadas.

Seria possivelmente um pensamento
de ontem a telha-vã sobre barrotes ripas
pelas costas direitas dos irmãos.
As vigas do sonho inútil de imaginar
acreditar em caminhos mais amplos
uma manhã mais clara e talvez mais justa.

Se insiste muito as fantasias acabam depressa
não com pedra dura de ébano nem tão pouco
com um habano puro incluido no preço.
A recepcionista foi contratada para isso
lá onde o amor se faz em salvas de prata
e se desfaz em pinças de escorpião. Que merda!


Budapeste. Baleal, Lisboa e outras cidades. 2010

sábado, 9 de janeiro de 2010

METÁFORAS URBANAS


SIMPLES TRIBUTO
Os Poetas-Cantores da minha vida


AS TUAS MĂOS APENAS
A Victor Jara


CIDADE DAS PALAVRAS


Pedro Assis Coimbra. Budapeste, 2008-2009
(Projecto - AS PALAVRAS CONTINUAM)

1. SIMPLES TRIBUTO

Os Poetas-Cantores da minha vida

A CURVA QUASE REDONDA

“Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba partir”
Chico Buarque in “Deus lhe pague”

A curva quase redonda
Logo abaixo da cintura
Podia até ser industrial
Promoção comercial do mês.

Mas nem era universal
Nem saíu da oficina pequena
Não havia pedras sem picos
Nem água mineral destilada.

Até podia ser apenas benta
Nascente depois de Pentecostes
Dessse desejo de ser plural
Na recta final da sua glória.

A curva quase redonda
Que antecede a vida eterna
Branca pintada de branco
A dois palmos da cintura.

Logo abaixo do equador
Poço erva-alta da floresta
A subir sem gripar o motor
Muito perto da formosura.

Para lá dos montes mais verdes
Das curvas sempre a descer
Pois longe das mãos maiores
A lei é a dos braços mais fortes.

CULPA DA BAINHA

“Tu dors mais c’est triste à mourir
D’être obligé d’partir
Quand Paris dort encore”
Jacques Brel in “Fernand”

Bainha por emendar fazer descer
Rainha por enganar nas palavras do prazer
Bainha sem espada afiada por levantar
Rainha sem escolta masculina para proteger.

Não era a tal rainha magrinha a fugir
Dos flashes olho-vivo dos fotógrafos
Nem culpa da bainha que sem querer
Mostrava as calcinhas a descer do autocarro.

Ah! Nem princesas quanto mais rainha
Não anda de camião de bus de trambolhão
Pode mostrar as coxas se for coisa que se veja
Com as pressas do protocolo lá se foi a bainha.

Era imigrante avantajada só filhos eram seis
O homem militar ao serviço da nova pátria
A exportar democracia com o soldo reforçado
Fardada a rigor para limpar as retretes.

A varrer o lixo dos cães das senhoras
De algumas princesas com o cio alterado
Era uma tainha das Caneiras no Tejo pescada
Quando ainda no garfo era fataça na telha.

A sombrinha estava presa nas pétalas da florzinha
A malinha-de-mão vinda de Paris para a tainha
Com casinha e etiqueta cravada era a espinha
Tinha uma pipa de massa e julgava que era coisinha.

AREIAS NAVIO ESTUÁRIO SEM FIM

“Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos”
José Afonso in “Canta Moço

No contra-relógio dos desejos de vitória
Favas cebolas e açafrão da poesia
Meninas de carvão nos nichos de mercado
Apresentação primeira da nova ferrovia.

As feitorias dos bem-mal-feitores
Eram fronteiras baluartes de arte falsa
Que o dinheiro grande tudo compra
Até o bom gosto e a má-inveja.

Brasil de ventre breve coxas imensas
Areias navio estuário sem fim
Seria arroz malandro de tamboril
Flor de acácia rosmaninho e alecrim.

Eram criadas de ricos homens
Desejos incertos do fumo digital
Mulheres a dias em casa dos remediados
Com folgas à sexta e feriado municipal.

O sabão raso do soldado a vulso
Tardes de sopa de cavalo cansado
Ração de guerra a dobrar na cantina
A visita nocturna à loja da albertina.

Dizia cada macaco no seu galho
Toda a injustiça para o chão
Acabei agora de sair do talho

Levo na mão o meu pedaço de pão.


CORACĂO DE PEDRA COISAS DE VERGA

“Mi amor, no es amor de mercado”
Silvio Rodriguez in “Por quien merece amor”

Quem iria pensar que aqueles dois
Com um cheiro forte a verão
Tinham para contar tantas histórias
De fivelas no cantinho das esplanadas.

Apressada decidida trabalhadora
Caminhava com os seus pés brancos
Como o formigueiro das formigas
Brancas nas asas e pretas no resto.

Pés pareciam pequenos enfiados à força
Nos sapatos encantados limpos pela cadela
Infanta que à lareira da cozinha se aquecia
A consolava e lhe secava todas as lágrimas.

A bichana vestida com pouca roupa
Era muita pele à mostra para a idade
Mas se quanto mais amor menos tecido
Assim diga-se até parecia uma freira.

Tal era a paixão sem princípio nem fim
Pelo filho mais velho do padeiro
Da melhor padaria do bairro de comer
E pedir mais antes mesmo de acabar.

Malvado coração de pedra coisas de verga
Que a trocou por uma finória altiva
Herdeira que trabalha no shopping para distrair
Filha do dono da loja dos relógios da Suiça.

ARRANJOU UM BOM EMPREGO

“Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe”
Chico Buarque in “Construção”

Arranjou um bom emprego
Pois sabia de folhas de cálculo
Do mercado das placas de latão
Da importância da água potável.

Era a cópia perfeita da criação
Já sem o contributo divino
Mão do mistério desconhecido
De ateu que só sonhava com sapos.

Andava de gravata o dia inteiro
Contava anedotas sem picantes
Falava de cabras e de carneiros
Gostava viajar dormir em beliches.

Que atire o primeiro olhar de pedra
Antes da ripagem do linho da seda
De súbditos submissos e beija-mão
Pescadores pais e filhos do contra.

Pegar cedinho na cana de pesca
Pescar o futuro e o depois tambêm
Em forma de sino e de aurora
Em forma de inverno e carapau.

Devia ser um prédio muito antigo
De um passado já esquecido
Deus de todos e só de alguns
Na via de um caminho sem regresso.

DE PATAS PARA O AR

“J’insulterai les bourgeois
Sans crainte et sans remords
Une derniėre fois”
Jacques Brel in “Le dernier repas”

O cão citadino do bairro arejado
De cabeça perdida ladrava furioso
Farto de engolir baba e saliva
Das provocações da gata da vizinha.

Dos desafios do lado de lá da vedação
Na rua pela trela o outro com a dona
Ar de gozão dentes à mostra mija no muro
Que eu ao menos passeio brutamontes.

Para que serve esse tamanho todo
Se estás aí fechado a vida inteira
E ainda vem o dono mandar calar
Com ameaças de um valente pontapé.

Vida de cão sem sorte e sem mulher
Sobre a qual bem poderia descarregar
A crispação acumulada raio da cadela
Gaja interesseira ó lá o que ela é.

Só a trazem faz o rei anos para a cobrir
Como se um reles barrasco ou galifão
Como simples operário pago à hora
Pelas leis de quem governa o mundo cão.

Amigo isto está tudo de patas para o ar
Não se pode dar uma boa coça a um gato
E os ossos são de borracha para entreter.
Só uma boa sublevação rafeira pode ajudar.

ENCOBRE OS MONTES DE PRATA

“Eu fui ver uma donzela
Numa barquinha a dormir
Dei-lhe uma colcha de seda
Para nela se cobrir”
José Afonso in “Cantigas de Maio”

Menina da calça branca
Não te percas no matagal
Prende bem a tua trança
E cuida-te no tomatal.

Menina da saia curta
Não perturbes o galinheiro
Guarda na gaveta a truta
Pôe-te debaixo do chuveiro.

Menina do vestido laranja
Não te ponhas assim na esteira
Levanta-o até à sombra
Não te queimes na frigideira.

Menina da camisa aberta
Não te esqueças do cordel
Encobre os montes de prata
Mas não durmas no hotel.

Menina de fato de banho
Não tenhas tanta vergonha
Utiliza o balneário público
Que não és nenhuma peçonha.

Menina do corpo ao vento
Na rua compõe melhor as pernas
E se caminhas contra o tempo
Guarda bem essas duas pedras.

DIA DE SOSSEGAR SEGREDOS

“Imagínate
Que hasta mi perro
Me busca en tu puerta
Cuando me lo pierdo”
Silvio Rodriguez in “Imagínate”

Hoje é dia dos silêncios
Dos licores feitos de ervas
Noite de todos os aromas
Que pintor pintas nas telas.

Havia uma pátria cercada
Mil vidas no charco perdido
A carteira menos pesada
À beira do ramo partido.

Na barriga das palavras
Baleia agreste e altiva
Sufocava a fera no fumo
Abria os olhos ao mundo.

Há saída da primeira cereja
Havia um guindaste parado
Junto à torre da igreja
O trânsito local cortado.

É uma ameaça à solta
Esse teu decote excessivo
Com perigo de chapa torcida
Travão a fundo é preciso.

Hoje é a noite das carícias
Consentidas só nos cabelos
Pratos de todas as delícias
Dia de sossegar segredos.

DANÇA DANÇA NO CAPIM

“Será que ela tá na cozinha guisando a galinha cabidela?
Será que esqueceu da galinha e ficou batucando na panela?”
Chico Buarque in “Morena de Angola”

No terraço ao sol era o tecido de cetim
Que escondia as ligas das pernas grossas
Morena de Angola dança dança no capim
Das orelhas do tacho faz uma das tuas graças.

Migas para despachar de pressa e à peça
Pois a sarda estava salgada pronta a comer
Como chicharro acabadinho de pescar
Para cozer com couves ou com nabiça.

O mármore-rosa mais caro de Portugal
Espalhou pelo rio as tranças e o oiro
O bacalhau desfiado pelas colinas de Lisboa
No feijão frade para bravo calmar o toiro.

A andar para trás como o caranguejo
E eu madrinha tenho tanto medo
Fiquei com os colegas assistir ao cortejo
Aí assim não chego a casa tão cedo.

Luanda cintas e os cintos da tentação
Junto à praia na ilha das águas fundas
Os peitos eram negros e das mãos negas
Na avenida marginal insubmissa a sedução.

Begónias algures longe de tudo e de todos
Na igreja com Deus dos mais abastados
Que divino não se ocupa de detalhes
Por detrás do tapume vivem os simples.

NUMA LOJA DE TAPETES

“Je vous ai apporté les bonbons
Parce que les fleurs c’est périssable”
Jacques Brel in “Les bonbons”

Tinha no bolso um livro de cheques
Como era poupado tinham cobertura
Vendia numa loja antiga de tapetes
Gostar dela só podia ser sua loucura.

Como um morcego perdido na noite
No refúgio fictício do tempo
Escondido na caixinha de costura
Assustado com os plágios do vento.

Do sotão com vista para as traseiras
Do pomar cuidado pelas freiras
Da caridade a mãe melro voava baixo
Com a lesma pendurada no bico.

Cem quilómetros de camioneta
Para passar a tarde de Domingo
Acompanhar até ao ensaio do coro
De volta vinha sempre sempre sózinho.

Em casa estava cheia a fruteira
Mas era outra a fruta que queria
Apenas que ela fosse a sua feiticeira
A montanha maior da sua alegria.

A água muda quase desvanecida
Corre sequiosa pelo corpo pelo carvão
Os silêncios pela pedra esquecida
Do que foi um dia o seu coração.

NĂO TE FIQUES PELA FONTE

“E quando os pais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos pedem mais”
José Afonso in “Os Eunucos”

Não te fiques pela fonte
Sem antes passares a ponte
E como também és gente
se preciso ferra-lhe o dente.

Mas vá lá sê paciente
Tira a cara do trombone
Arrisca aperta o braço à ivone
Diz que estarás sempre presente.

Não te fiques com o açoite
Que as contas são por ajuste
Um dia tu estarás à frente
Serás água pura da nascente.

Chamam ao rapaz paquete
E à rapariga papas servente
Tudo tudo comida muito doce
Triste a alegria assim fosse.

Limpa bem o bocal do trompete
Como se fosse flor de ramalhete
Sorrisos não te vás por convite
É melhor preparar o canivete.

Pôe a boca no teu saxofone
Enfia a cabeça no capacete
Não não tenhas medo da morte
Que já se foi de furgonete.

MOUSSE DE CHOCOLATE DE ONTEM

“Tus piernas de tres a seis de la tarde
En la memoria de pronto me arden
Y cuando quiero aliviar mi locura
Sólo me calma comer aceitunas”
Silvio Rodriguez in “Aceitunas”

De joelhos comiam no divã
A mousse de chocolate de ontem
Com apenas uma colher para os três
Bem ficaram todos lambuçados.

Tiveram sem grandes demoras
Que lavar a blusa e as calças
Pois mais à noite na sociedade
De saias tinham actuação das danças.

Nem o esfregão humedecido
O rolo de papel de cozinha
Permitiu pelo menos disfarçar
Lástima sem pózinhos da varinha.

Antes da chegada atribulada
Dos senhores donos da casa
Do pobre divã de pele antiga
Curtida ao sol na pampa argentina.

Que lhes deram um grande abraço
Felizes ficaram tão contentes
De vez finalmente poderem trocar
Na salinha a mobília do passado.

Onde guardam as guloseimas
E quando sobejam outras doçarias
Do restaurante e da pastelaria ao lado
Geridos pela família vai para cem anos.

DESABOTOANDO O VITRAL

“Quando eles embarcam soldados
Elas tecem longos bordados”
Chico Buarque in “Mulheres de Atenas”

Desabotoando o vitral do sorriso
Dos dentes sem cárie desbotados
Tinham comido laranjas azedas a mais
Esqueçeram impérios e imperialistas.

As mamas madrilenas da jornalista
Legendadas e em directo via satélite
Metade delas pelo menos a olho nu
Ai seriam um senhor petisco para os dedos.

Nesta prosa do erotismo sem metáforas
Profundo se até o Tango se dança a dois
Com noites da semana e pernas de Domingo
E do liberalismo económico tonto sem calções.

Nos atalhos da metafísica um Santo
Ou quase de um quase muito grande
E nos becos mal iluminados da dialética
Montavam-se um no outro à louva-a-deus.

E se alguêm merece ser amanhã
Que se ponha ordeiro no fim da fila
Mande vir um pratinho de caracóis
E ainda duas imperiais fresquinhas.

Desabotoando as cascas do sorriso
Amoras azuis morangos vermelhos
Não sei o que Pitágoras sabia melhor
Se matemática se música ou se palavras.

TRAZ AS BRASAS DO FOGO

“Tu m’as gardé de piėge en piėge
Je t’ai perdue de temps en temps”
Jacques Brel in “La chanson Des Vieux Amants”

Nos arredores dessa grande paixão
Madrugadas do teu corpo meu amor
Na sementeira perdida do melhor pão
Não não te esqueças de levar a flor.

De a levar para a grande cidade
Alí onde todas as ruas têm nome
Pedras gastas no prazer do ciúme
Que eu encontrei dentro da nossa saudade.

Lá na vaga periferia do desejo
Do sorriso generoso do vinho fortificado
Perfume esquecido desse segredo
E não despertar do sonho frutificado.

Que a calma da manhã verde mar
Fervedor de mão e leite do dia
Frente ao espelho sem ti quem diria
Era sombra que já não sabia cantar.

Era um guarda-roupa de bom gosto
Com o doce profundo das suas uvas
Traz as brasas guardadas do fogo
Até às pernas às noites das viúvas.

Como os plátanos à beira dos caminhos
Pela distância dos olhos alongados
Perdição de cegonhas de amor de perdiz
Na cor difusa dos planaltos do teu país.

O PASSADO É PARA ESQUECER

“O mar é tão grande
E o mundo é tão largo
Maria bonita
Onde vamos morar”
José Afonso in “Canção de Desterro”

As ruas e as avenidas deste país
Estão cada vez mais desertas
Ausentes cada vez nais tristes
Sem barulho correrias malandríce.

Porque quase todas as crianças
Passam o tempo fechadas em casa
A ver televisão frente ao computador
Com lucro acrescido os oculistas.

As maiores empresas do mercado
O operador de telecomunicações escolhido
Perto vertiginosamente do mundo
Longe do vizinho do lado de lá do vidro.

Não há onde correr jogar à bola
Onde brincar aos polícias e aos ladrões
Onde descarregar energias renovadas
De muitos quilos livros e aulas a mais.

Os professores inimigos são perseguidos
Controlados pela burocracia do ministério
Em nome da eficiência e da avaliação
De como se limpa o cu em vez de ensinar.

Teorias e axiomas iluminados consultores
Importados do outro lado do Atlântico
Dizer porra o passado é para se deixar
Que o futuro será de quem o conquistar.

OLHAVA-ME O GATO PRETO

”Tu tiempo se metió en mi tiempo”
Silvio Rodriguez in “Que yá viví, que te vás”

Mesmo no meio da estrada
À minha frente parado
Com os olhos arremelgados
Olhava-me o gato preto.

Dizía-me em língua de gato
Codificada código actualizado
Qual é o problema? Se és capaz
Passa por cima passa-me a ferro.

Faz de mim espalmado palmeta
Espinha de pinho ministro sem procura
Tenta na loja de conveniência
Que nem no supermercado se vende.

Misturado confundido no asfalto
Eu zangado às oito da manhã
Bem podia buzinar nervoso
Quem dava passaporte era o gato.

Atenta a mulher polícia confirmou
Que quem mandava ali era ele.
Preto depois o pavão lá se decidiu
Enfiar-se pelas sebes do portão.

Estas e outras mentiras caseiras
Comprada pela grande maioria
Assim te fazias aos poucos cidade
Folha reciclada sem ventos de liberdade.

PEITO DE TERRA BATIDA

“Larga a minha mão, solta as unhas do meu coração
Que ele está apressado”
Chico Buarque in “De todas as maneiras”

Tinha o peito de campo de golfe perfeito
De relva de ténis rede de terra batida
Espalhado entre sobreiros e ravinas
Que íam dar à falésia dos seios ao léu.

Para ser um erotismo caro com classe
De condomínio fechado de muito bom gosto
Seios redondos de praia e avião particular
Ser uma paixão a jacto ainda mais cara.

Um gozo erótico redondo pouco católico
Medido em milhas acumuladas nas nuvens
Nas aterragens amenas sem vento lateral
Dentro do aeroporto feminino do seu peito.

Tinha seios duros de caixa-automática
Que engolia o cartão e devolvia o talão
E na fila saídos da areia à torreira do sol
Impacientes por ainda hoje lá chegarem.

Seios de auto-estrada com custos acrescidos
Para a vaca leiteira do contribuinte
Peito de triângulo que avaria anuncia
Com o reboque dos frangos de aviário.

Seios para o congelador do hipermercado
Talvez em forma de guiador e camião
No prazer de uma só mão! Perdão!
Aqui não são seios nas gajas são tetas.

UM CORPO DO DESERTO

“Moi je t’offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas”
Jacques Brel in “Ne me quitte pas”

Um corpo húmido no forno do deserto
Da África preta ou quase quase seca
Um corpo duro e rijo ao sol sem piedade
Dos ritos de onde é este meu irmão.

No solo mais duro e mais seco
Sem água e vinho sem cerveja
Chegava afinal fria gelada da vizinha
A arder da cordilheira ali junto ao Pacífico.

Corpo da floresta e da guerrilha
De corpos cansados de prisioneiros
Dos latinos comandantes manda-chuvas
Até aos lagos das pernas escravas.

Mesmo à lupa e a contra-luz
Um corpo de perfeição que devolvia
As dúvidas as contas e os recibos
Quando insistiam teimosos e brutos.

Lançavam-lhe gorilas de meter medo
Às canelas ao peito e às ancas e ela
Presenteava-lhes o seu mais genuíno
Franqueava-lhes por completo o arco-íris.

Tem sempre razão o freguês a freguesia
Até saldar a próxima divida por pagar
A próxima África irmã deixada de barco
A próxima refêm com sorte e televisão.

PAREDES E MUROS SEM TEMPO

“São os mordomos do universo todo”
José Afonso in “Os Vampiros”

Nas alamedas das palavras
Nos mapas-côr-de-morango
Já despedimos muitos tiranos
Nos ombros do pensamento.

Já velámos defuntas tiranias
Com a sublevação do vento
Rosas necessárias à morte
Da subserviência e submissão.

Voando sobre o marmeleiro
Frágil ansiedade triste da poesia
Eram paredes e muros sem tempo
Que o seu tempo já nos pertencia.

Nas vésperas da ementa preferida
Do peixe-frito e arroz-de-tomate
Às vezes até pensaram em cantar
Jogar futebol por amor os tontos.

A mota da gasolina super da lua
Na almofada onde descansava
À espera de entrar ao serviço
No primeiro turno da madrugada.

Roupas claras e rabos escuros
Com os saiotes para disfarçar
Nos cornos do veado primo e irmão
Para imortal ir ao encontro dos povos.

PRATELEIRA DO SORRISO

“Sueňa caballos cerreros
Suéňame viento del sur
Sueňa un tiempo de aguaceros
En el valle de la luz”
Silvio Rodriguez in “En el claro de la luna”

Para imprimir as palavras
Com alicates de corte
Deixa o amola-tesouras
Vira as costas à sorte.

Abre de súbito as portas à luz
Estranhos dedos de estanho
Prateleira do sorriso que seduz
Cascalho e casquilho castanho.

Aos enamorados das sombras
Na abundância dos alimentos
Junto ao lago as lágrimas
No conflito dos silêncios.

Na conspiração das flores
Que anunciam a claridade
Para o rimar certo das dores
Semeia no jardim da igualdade.

No jogo da cabra-cega
Escolhe a bolacha-maria
Deixa o frio na loja de pedra
E repousa no tempo da poesia.

Para mastigar as palavras
E recriar as metáforas
Para reescrever um tango
Usa a bossa nova do fado.

2. AS TUAS MĂOS APENAS

A Victor Jara

AS MĂOS E AS PALAVRAS

“Pongo en tus manos
abiertas"  Victor Jara

Finge fugir do toque e foge da paixão
e deixa-se apanhar preguiçosa
pelo barro pelo salitre das mãos.

Tocam a sua pele de formação recente
como quem chega do deserto de ninguêm
de um rio do mistério mais próximo.

Guardam na cave a aritmética das palavras
nas paredes o sujeito e o predicado do prazer.

A UTOPIA DAS MĂOS


Descendo a pé pelas encostas
da cordilheira inóspita da utopia
as metáforas chegavam frescas
dos bosques até ao sopé da poesia.

Era o mar salgado do Chile
de quase todos que trazia
nas palavras recolhidas pelo povo
com caracóis e ervas secas
raminhos de oregão e tomilho.

Trazia no bolso da camisa
barcos pequenos a remos
barcos de pesca com água forte
de pescadores pescando
e na pele queimada do mar alto
calças grossas de cotim bravio
navios navegando contra o vento.

As suas mãos profundas
caiando de branco as casas escuras
dos mais simples no bairro operário
dos mineiros das minas de sempre.
Trazia nas unhas nas mãos ainda sujas
e brancas da cal a camisa de flanela
da moda futurista aos quadrados.

Trazia polvos dos perigos das rochas
pimentos para assar na brasa e peixe fresco
acabado de pescar pelo irmão do destino.
Com cuidado dizem até as praias
da madrugada já clara após a noite
mais triste dos que pensam ter castelos
serem muralhas mais fortes que Deus.

A noite mais fria apesar do lume das mãos
da guitarra que oferecera ao seu povo.
Era o mar salgado do Chile
a noite mais longa por vezes iluminada
pelos seus versos proibidos
pela luz frágil da liberdade sincera
do farol da memória sem fim
na alegria destemida da voz.

Carlos Violeta Rodrigo Isabel
não sei se Victor Jara terá escrito
talvez não mas poderia ter cantado.

- Os trabalhadores sempre tabalharam
e quando não o fizeram é porque
estavam doentes ou no desemprego.

AS MĂOS DA MANHĂ

“Yo no creo em nada
sino en en calor de tu mano com mi mano” Victor Jara

Juntam conquilhas com nuvens
que arenosas descem o sol devagar
e crescem fortes com as chuvas
que anunciam o calor da tempestade
decorada com as tuas e as minhas mãos.

Sei dos teus dedos frios de inverno
que não trocaria por nenhuma primavera.

Os corpos iluminados pelo candeeiro
tão enrolados no papel de parede
da sala de visitas que desce liso do tecto
até ao pedacinho de madeira dos lábios
ao ritual dos cabelos espalhados na almofada.

São amor manhãs afectos e são carinhos
das colheitas plenas que as nossas mãos guardam.

AS MĂOS DO CORAÇĂO


Deixem-me com a luz do seu sorriso
arquitecto de todos os espelhos distantes
e de mensagens nos limites do milagre
partículas da densidade intensa
da erosão argila dos vocábulos finitos.
Deixem-me abrir uma rosa vermelha
habitada por muitas formigas brancas
de asas pretas na transparência das águas.

Eu deixava-me ficar pois era a sede
da serpente que se protegia no lodo
e se escondia nas margens
no casúlo esquecido da seda
a do feitíço perfeito do quarto vazio
de nadas junto ao coração das mãos.
As palavras passageiras da sedução
entre as folhas da sua boca tão sedutora

A NOITE E AS MĂOS

“Las manos parecían colgarle de los brazos en extraňo ángulo
como si tuviera rotas las muňecas; pero era Victor, mi marido, mi amor” Joan Turner

Prometo-te que um dia meu amor
um dia de sol ao fim da tarde partilhando
dores dos joelhos dores nas costas
as rugas vadías no oceano dos rostos
partilhando um copinho de aguardente
de uva fabrico caseiro não certificado.

Prometo-te que um dia meu amor
já com uma mão-cheia de netos
filhos das nossas filhas do vento
que como se fosse a última vez
seguro com as minhas as tuas mãos
pequenas cúmplices de tantos segredos.

Seguro as tuas mãos sedosas
ainda húmidas da maresia da manhã
pego em ti meu amor
como se faz a um ouriço perdido
a atravessar descuidado a estrada da vida
fora da passadeira do sonho.

Prendo-te entre os meus braços
de laranjeira recém-plantada
do próximo ano em flor
e nunca mais te devolvo à poesia
à nossa canção primeira
às palavras do futuro do passado.

Meu baguinho de arroz doce.
Quando repousei os meus olhos
fechados à força sobre a grossa manta
solidária que te protegia do frio da noite
meu amor soube então meu amor
sei que essas mãos eram as tuas.

Budapeste, Janeiro-Fevereiro 2009

3. CIDADE DAS PALAVRAS


“Bebemos sonhos pelo mesmo copo.
Fugiram das cidades em partilha.”  Natércia Freire

MANHÃ DOS NAMORADOS


Ao vivo num instante tão breve
de despedida foi talvez o beijo-oferta
terno o beijo-entrega mais lindo que vi.

Avantajada metida um pouco à força
de manhã nos seus jeans coçados
até parecia que tinham encolhido à pressa.

Gorduchinha agarra-te a ele formosa
mas deixa-o partir que ele vai voltar
abandona-te nas suas mãos grandes
de estucador engenheiro ou programador.

Poesia é fixar a felicidade dos outros
trazê-la com metáforas para as palavras
escolher algumas e levá-las para casa
no bolso que fica mais perto do coração.

CIDADES E DIOCESES

A Bognár Karcsi

As minhas cidades rimam com dioceses
mas são tão púdicas que do erotismo público
a biblioteca namoradeira faz de estrangeira.

Rapariguinhas grossistas e notícias de jornais
cerejas pretas que colecionavam na pele lisa
escurecida pelo sol na cúpula do mosteiro.

Apesar das águas termais referenciadas
da hotelaria luxuosa dos ombros e outras
portas entreabertas pelo desígnio dos olhos
não queriam tintas e quintas queriam banhos.

Em tinas com leite de burra como a mais linda
na plataforma continental do seu corpo
em imersão famosa a prima que vinha do tempo
quando ainda não havia petróleo para refrescar.

A MELHOR FOLIA TRISTE

A Jorge Luis Borges, tão injustiçado

A folia magra magrinha do mais belo
imagina não tem princípio nem fim
mais a mais como é muito pequeno
pensa que o mundo é mesmo assim.

Partiu no primeiro cavalo trambolho
ele que nem braços nem pernas tinha
bateu com o resto no metal do orvalho
só para sózinho poder pintar a pinha.

A desgraça histórica de longe a mais feia
foi ter andado sempre de tromba no chão
sem relógio nem sabia as horas da ceia
com fome palerma ficou à mercê do falcão.

Que pena nem um telefone nesta lonjura!
Por muito que faça o feitiço não perdura!

DOMINGO

A Ernesto Rodrigues

Da crista do galo a dançar a salsa
que nem um diabo ao sacrista do rapaz
um artista de bola no pé e copo na mão.
Seria agora um bom exemplo de cristão.

De homem grande não ser grande homem.
O sacristão tão humilde na sacristia comia
pão com dentes e tostas de hipermercado
abençoadas pelo bafo a mofo de outros santos.

Foi na primavera gostaria de recordar
esse domingo com a mulher e os filhos
tinha acabado de sair da missa da igreja.

Não teve cuidado foi contra o carro parado
olhou à volta e arrancou rápido e superior.
Pudera acabara de se entregar ao Nosso Senhor.

SÁBADO

Ao Pedro Pinhal

Levantate y mira la montaňa*
limpa varre o passeio em frente
endireita o guiador e enche o pneu
da bicicleta do teu filho pequeno.

Aproveita que é Sábado põe óleo
nas dobradiças das portas que chiam
trocas as lampadas que se fundiram
pregos na dispensa e na marquise.

Levanta-te pela manhã irmão que tens
muito tempo de dormir quando partires
faz coisas vulgares de pessoas comuns
de super homens está o mundo cansado.

Levantate y mira la montaňa*
antes que tapem de vez os olhos de todos.

* Victor Jara in "Plegaria a un labrador"

SONETOS E SONATAS

A Pál Ferenc

Como era possível soneto
cruzar assim as duas pernas
no ferro da cadeira sem costas
dessa maneira e sem medo.

Antes da sonata aos domingos
descer ao vale por entre serras
fronteiras e degustação nas encostas
que nos afastavam dos maus ventos.

Que nos separavam do tempo
e da promoção nocturna das uvas
do privilégio apenas de algumas ruas.

Abertas com o mar portugués ao fundo
na primeira tradução urbana a tua
da boca Pessoa nos lábios do mundo.

LORCA DE GALICIA

Ao Pedro Amendoeira

Foi na cave do armazém das aranhas
que tudo começou do que não ficou.
Havia algumas bem grandes duras e gordas
que nos recebiam de teias abertas
partilhavam o petisco das moscas varejeiras.

Começava assim Chove en Santiago
Meu doce amor escreveu-nos Lorca
ainda antes da chuva antes da morte
depois da Galiza depois do amor.
Antes de Santiago depois da liberdade.

As bruxas vestidas de gargalhadas maduras
não havia noite que não viessem guitarras
ofereciam a todos cigarros e raparigas
Que bom! Entre feitiços as ratinhas peludas.

SPORTING-GLASGOW RANGERS (1971)

A Vitor Damas

Era pela rádio um velho transistor
que o futebol me chegava a casa
hoje na televisão não vejo melhor.

Coração aos pulos os ouvidos colados
a pilhas eterno ecoava na cave na rua
o relato do Sporting força força vamos!

Eu dizia mas dali ninguêm me ouvia
- as regras mudaram são outras *
os penáltis todos nas tuas mãos Damas
aos saltos esquecido era só euforia.

O despertar foi na manhã do outro dia
ao café a torrada ligada a telefonia.
- Porra! Estão a ver afinal eu bem sabia!
tinha sido em vão tanta tanta alegria.

* Estava bem informado. Por comprar A Bola
às segundas e às quintas não comia a sandes do dia.

EM ALMOSTER – TINHA VINDO DE EGER (1998)


Pauta ou puta para Auto-da-Índia não é o mesmo
que se alguêm se engana nem com a melhor lixívia
se limpam as nódoas no layout corporativo
no acto público da acta lavrada no automóvel parado
em operação apoiada pelo corpo de intervenção.

Ó Constança Constança não te chega um marido longe
e a navegar queres logo dois passarões à disposição!

Uma jovem magiar do fim do mundo ainda fresca
com esta vida fora de mão em pouco tempo
e um chulo ribatejano a fazer-se amigo sem ninguêm
com coragem para lhe partir o tabaco dos dentes.

Pauta ou puta a falar tão bem a língua que aprendeu
em pouco tempo muito burro e algum bom gosto
por cima e por baixo de muito cavalo lusitano.

TAXI EM ZAGREB


Em Zagreb familiar meu amor
sem vinhedos eras a água fria
da sede colectiva das rolas
à procura do telhado em nós.

A ousadia de Amesterdão
começou porque inesperadamente
taça de uvas tu decidiste provar.
Na rua o vinho branco era meu.

Em Barcelona na lenta subida
às cepas do monte sei que sabias.
Imaginava que o autocarro eras tu.

E gosto muito de estar no Porto.
Porto é para sentir percorrer a pé
de não beber antes de chegares à noite.

PROPAGANDA MÉDICA

A Eckhardt Balázs

Um charme de don juan entre as enfermeiras
solteiras e divorciadas até que um dia Nossa
Senhora o enganado deu-lhe uma tal maquia
ainda hoje tem um pedaço de orelha a menos.

Um mãos largas agente de propaganda
um senhor de camisa branca entre médicos
clínicos de renome grandes especialistas
congressos mundiais corporate responsability.

Olha olha com a saúde do povo não se brinca
nem com os votos dos eleitores com mais idade
há cacau o estado paga e as gigantes lucram.

Na bolsa filantropia não rima com mercado
mas com gosto poderão patrocinar em parceria
um torneio de ténis com caridade e alquimia.

HOSPITAL SZENT JÁNOS


O meu omelete na linguagem de casa
quer dizer o meu sem-abrigo privado.
Um omelete e até podia dizer gemada
ovo estrelado bife com um ovo a cavalo.

Tenho o meu sem-abrigo particular
no semáforo do Hospital São João
a quem três quatro vezes por semana
dou uns trocos sem lhe tocar na mão.

Umas moedas para ele a seguir ir comprar
um dedo de pão e dois braços de aguardente
de se queimar para melhor suportar a noite.

Com brilho de gato no escuro da escuridão
o meu omelete tem uns olhos tão intensos que
mas cantigas assim só aumentam a confusão.

QUEIJO E ESCUTAR BRETON!

Ao António Faria

Agora troca as voltas à morte ó queijo
manda atentas as secretas à merda
a fingir oferecer maçãs descascadas
baratas compradas à madrasta malvada.

Antes de se perder de calores aí aí!
No ginásio de que não perde um só dia
o espelho dela e teu espelho partido.

Mudar de vida pensava como Rimbaud
a arder no amor sem a fada madrinha saber
dizia de Marx para transformar o mundo
e chegar a tempo de escutar Breton.

Era uma bela descapotável carrocinha
de uma família do norte que se esquecia
porra do azar! Pagar os salários às operárias!

ELÉCTRICO


Movia-se entre os carris como quem estava atrasada
caminhava apressada como quem gostaria já lá estar.

Assumir eléctrico a transgressão de cara levantada
correr o risco de ser apanhada a meio do projecto
ao libertar o coração em vez de correr para o emprego
como fazia todas as manhãs o ano inteiro menos agora.

De véspera com um dia de baixa médica para baixar
peça a peça a roupa toda e subir e descer e voltar a subir
às escondidas com a mansidão intíma à sua espera.

Logo à primeira esqueceu o pudor ignorou a cidade
pois cruzou os olhos o corpo com a igreja matriz
frente à janela com a raíz mais funda do plátano maior.

Queria apenas não ter que usar as escadas ir à farmácia
levantar a receita para o filho e voltar a correr para casa.

D’ORSAY BERTHE E MANET


Não saberia explicar mas só me vinha à cabeça
caminhos-de-ferro a magia da estação d’Orsay
“O tocador de pífaro” “A jovem loira mostrando o peito”.

Com a máquina da verdade e o repúdio das mentiras
que chegou no vagão das mercadorias delicadas
comboio Berthe Morisot sabias que partia de Paris?

Do filme a preto e branco com inimigos e aliados
o telégrafo da ilusão mastigada na pastilha elástica
agarrada à sola do sapato que perdeu o tacão
Edouard à entrada da gare na cabine do revisor.

Com impressão de já ter visto aquele cachecol
aldrabão a vender camas como chefe da estacão
que o dinheiro poupado dava para uma boa salada
meio-frango assado uma cerveja e duas fatias de pão.

METÁFORAS URBANAS


O teu corpo de pedra
é seta redonda de prata
no arco do lado de cá
alongada sobre a vida
e na postura como está!

Merece todas as promessas
as manhãs dos meus olhos
todas as metáforas urbanas.

No silêncio o pior é o resto
na dúvida vamos lá conversar
para saber chegar até ao mar.

Batel como usar a pasteleira
para que possamos embarcar
chegar a tempo e ficar à tua espera.

JARDIM DA REPÚBLICA


Foi calceteiro praça teimosa do povo
do pequeno negócio do quiosque do largo
do jogo da malha no beco preferido dos cães
Feira da Ladra no mercado do piolho.

Jardim enxada de pontas de dois bicos
forquilha de dentes muito amarelos
canteiro amanhado do jardineiro privado
com muitos goivos rosas e amores-perfeitos.

Foi água da inundação premeditada
o poço subversivo tapado na boca
calcário abandonado na fronteira da república
- basalto de ferro e arena de touros falida.

Estádio de futebol com as bancadas cheias.
Foi mensageiro das belas mamas das primas.

AVALIAÇÃO & PROMOÇÃO


Põe um lenço um pano uma colcha preta
mesmo se a traça já iniciou a viagem.

Com cuidado põe sobre o relógio de parede
liberta o cordeiro da prisão do tempo
que em coisas de morte o melhor é prevenir.

Melhor que fugir dela a sete pés primeiro.
Compra um bimotor que saiba aterrar
ao fundo do campo lavrado das cebolas.

Na inflamação da garganta de tanto negar
em silêncio que não se vende por uma sala
só para ela carro telemóvel e mais cartão.

Acabou por ajustar as roupas bem justas
apertar as carnes deixar que as nádegas
comunicassem com os olhos da promoção.

NAVIOS PARADOS


Dizia: são tantos os navios mercantes
no grande porto desse meu sonho
tanta pedra tanto coração afundado
por debaixo dos cascos castanhos.

Navios com guindastes e vidas desfeitas
parados a meio da subida com a visita
do inspector acompanhado pelas comissária
dos direitos das famílias e das minorias.

Quando poderia ir ao hospital para a prova
dos nove mais coisa menos barriga do mês
se foi com ele que ela se meteu na cama.

Dizia: são tão marcantes estes navios parados
na doca da saída colectiva dos marinheiros  
do vinho doce na boca onde de amor se entrega.

FAZER FESTAS A GATOS

Ao António Felizardo

Sobre a calçada em esforço pedala
de dorso inclinado ó máquina que a hora
não é de parar e de fazer festas a gatos!

De perguntar como se sente das pernas
de não responder se sente livre das espinhas
do peixe perigoso do jantar de ontem à noite.

Milena andava com a Estrela de David
ousadia solidária mesmo sem ser judia
ainda antes de encontrar a mulher da sua vida.

Triste época de um tempo ranhoso
que fazia de muitos cúmplices cinzentos
das tardes que na terra precediam o inferno.

Que não rima mas talvez sejado sabor
que se o ar do mundo não enferrujar de vez
se possa acreditar – o futuro será melhor!

NAGY UTAZÁS*

A Presser Gábor


Não não era pele de leopardo da marca registada que o feiticeiro
oferece às jovens outrora virgens e às vezes criadas modelo
que os pais com orgulho trocam por mézinhas e melhor destino
esse sentimento único de fazer parte de uma élite tão restrita
antes das filhas se lançarem na moda e na aventura da fama.

Eram as pernas divinas de uma leoparda de carne e pardal
que ali felizmente não tinha retrovisores olhos à retaguarda
começou a sentir a presença do observador internacional
de olhar atento colado até ao mármore do seu rabo sazonal.

Foi quando desabou de repente uma tempestade tropical
e a fera ficou tão preocupada com o seu pêlo de vitrine
que correu para casa mesmo sem levar a gabardine
mas debaixo do plástico que tinha guardado na limousine
e servido para embrulhar a cómoda comprada no caniçal.

*Grande Viagem. Título da composição
do cantautor e compositor Presser Gábor


SE A VIDA FOSSE A POESIA


Se começar a chover meu amor
cobre-me com o teu corpo dizia
para não ficar de roupa encharcada
molhada até ao mais fundo de mim
por favor põe-te por cima pedia.

Se a minha vida fosse a poesia
com a primavera de seda no bairro
por dentro dos abrigos da cidade
antes de descer às partes mais baixas
única a prioridade do sorriso queria.

Quando parar de chover meu amor
quando cheias as melgas e as lesmas
taparem o sol como nuvens tristes
estarei lá para te sublinhar em flor.

COIMBRA A RIMAR

Tributo aos meus amigos Praxis-Nova

Chegavam do litoral de avionete e às vezes de avião
por detrás do olival e de mota com raminhos de alecrim
à mão juravam cortados atenção com um grande facalhão
e os segredos devassados do rio luzes de farol e farolim.

Formigas adormeciam contentes na pedra do moinho
no porão dedos de cetim nos botões na blusa da laranjeira
nas guitarras bem guardadas e no tabuleiro algum vinho
para oferecer e cantar à inquilina ao coração da hospedeira.

Eram na mercearia o sal da fogueira a corvina bem cozida
com carvão e resina do pinhal a especiaria forte de Coimbra
lavadeira linda a quem se dava compota e se comia em petinga.

Irmão voar é preciso comer o caminho devolver a colher
a capa que ainda tenho como a puseram sobre os meus ombros
comprar o damasqueiro a máquina de lavar para a musa-mulher.

UM PANFLETO COSMOPOLITA

Ao Pedro Patrício

Uma esplanada junto ao rio. Um café uma cerveja
um gelado. A mulher a namorada o colega os amigos.
Em Budapeste. Um sol que na pele queima a sério.
Podia ser em Estocolmo Praga Roma ou Viena.

Pedia-me um panfleto europeu urbano e cosmopolita.
Contra o desemprego anunciado e o medo do futuro.
Contra a inércia e a lentidão. A apatia que é redutora.

Sabe logo manda! Detentor da tecnologia da obediência!
Querias querias batatinhas com enguias! Lampreias caras.
Assumidamente: Não à passividade! Sim à indignação!

Aditamento. Se não queres um adido do nada cuja vida
depende do velhaco bizantino do colérico basílio diz
comigo: Não à liberdade minimalista, à pouca cidadania!

POLÍCIA SINALEIRO


As suas mãos com devaneios de bailarina
habituadas aos refúgios secos das neves
convidavam-me adultas a subir a colina
a deixar-me perder na escuridão das luzes.

No vinagre do vinho húmidas as bocas roxas
do frio falharam o encontro à meses marcado
sabores de gambas frescas e alho picado.

Acima da linha de água no fundo da mina
as pedras que suportavam as sombras do ulmeiro.
Dizem que acabou o tempo de ser polícia sinaleiro.

Porque na paragem do autocarro da saudade
arranjava-se distraída no carvão a arder.
Poesia é decifrar as palavras da cidade
que nos recebe e nos mima de tanto nos querer.

Budapeste e outros mundos 2008-2009



(Projecto – AS PALAVRAS CONTINUAM)

É PARA TI A POESIA

“La beauté plaît aux yeux, la douceur charme l'âme.” Voltaire




CONFEITARIA CENTRAL


SÃO ILHAS DE PEDRA


PRÓXIMA AVENTURA DIURNA



Pedro Assis Coimbra. 2009
(Projecto – AS PALAVRAS CONTINUAM)

1. CONFEITARIA CENTRAL


“Há mulheres que colocam cidades doces”
Herberto Hélder

SE A VERDADE FOSSE VERDE


Se a verdade fosse verde
como as rãs paradas do charco
na noite mal dormida das folhas
seria apenas uma peça de roupa
escondendo sabida quase nada
num só momento de olhar fraterno.

Propaganda involuntária
do abre-latas da amizade
em embalagem reciclada
do sorriso suburbano distante.

Vinha alegre pois claro
em silêncio talvez para disfarçar
trazia duas fatias de pão
em cada palma da mão
cobertas com doce de tomate
e algumas formigas de estimação.

Para de perto desviar a atenção
do frigorífico ao fundo do quintal
dos corpos húmidos no estendal
por detrás da arrecadação.

Porque a peça escolhida
tinha submissa a dimensão merecida
insólita às portas desse amor intenso
nos corredores mais estreitos do prédio.

METÁFORA AMORA


Em idioma que não era seu
confundia remos com ramos
rendas e bordados do interior
com geografia da descontinuidade.

Confundia acessos de auto-estradas
com baías expostas e ilhas salgadas
impacientes à espera do fogareiro aceso
pelo sopro encarnado da boca.

Plátanos e salgueiros clássicos
que iluminam as ruas do bairro
acomodam legumes e ervas-doce
os desvios que levam à cidade.

Por ter um bom emprego graças a deus é feliz
de salto alto mini-saia o colar ao pescoço
parado nos contornos vizinhos dos seios
metáfora amora na terra dos montes claros.

Confundia ramos com romãs abertas
cidades costeiras com ilhéus abandonados
o sal das mãos com limões de estufa.
Petisco da vida para bem dos meus olhos

PELAS ESCADARIAS DOS CORPOS


No início da praia que devia ser vigiada
o espaço timído que já então procurava.
Mineral durante a viagem ferroviária
iniciada ainda da ilusão no século
que precedia o sonho de ser gente.

Olhava via e não acreditava
não sabia se merecia tanto.
Todo aquele latente esplendor
sobre as folhas castanhas
pelas escadarias dos corpos
bandeiras de duros invernos.
Fruta madura para oferecer à luz.

Seria uma égua um cavalo manso
um abrigo partilhado para descansar.
Era o siléncio mais forte do desejo
de aproximar à água aos nossos rostos.
Vestígios de penínsulas e marinheiros fenícios
no interior do fundo do mar abandonado
que sabe-se era em pleno o seu navio

AO FINAL DA TARDE DESSE DIA


Ao final da tarde desse dia
era a ansiedade que se cruzava
e se confundia com a sedução
que chegou do outro lado do rio
da margem oposta á morte.
Do engano que secava os lábios
que confusos despertavam a dor.

A ansiedade vestiu-se de sedução
lenta com movimentos calmos
enquanto a sedução se despia
da ansiedade com a certeza
de fazer bem e de ser tão bom.

A magia tão simples de poder
juntar exactos os trapos os corpos
aos pares como se fossem barro
antes do forno de porcelana fina
que poderia ser da China
se não estivesses tão perto de mim.

A ansiedade original da sedução
ao alcance também dos outros
que guardada cabia numa só mão.
Como uma bússula portuguesa
no caminho comum do desconhecido.

HÁ CIDADES AMENAS


Há cidades amenas
onde as mulheres se mostram
por serem muito ousadas
e midas as vidas prolongam
para nos fazerem felizes.

Há ilhas algumas muito pequenas
onde mulheres se deitam
por cima das pedras e ali
ganham côr e perdem água.
- Vejo a tua tambêm de calcário.

Se a mitologia fosse a vida
tu meu amor digital serias o mito
que perfeito me sossegaria
e me faria perder pela cidade.

Comer os doces sobre a ponte
com os olhos presos ao rio.
Depois embarcar nocturno no navio
e molhar as palavras nas tuas águas.

CONFEITARIA CENTRAL


Côr de chuva às vezes sentado
na intimidade das açucenas claras
cliente ficava como ausente
dos pequenos detalhes urbanos
com os espelhos da barbearia
e os vidros virados para a rua.

Dálias encarnadas a abrirem-se
no contentamento profano
de poderem chegar ao céu
pela escada de mármore
da confeitaria central.

Poderia ser cego surdo ou mudo
mas triste e paspalhão não era.
Sabia o que queria sabia pensar
e dizer com os dedos das mãos
às vezes com a saliva negociar o pecado
até à última petinga no prato.
Comprar o perdão a preço de saldo.

Ela por detrás do balcão
estava no limite da paciência
vendia ovos-moles e pão-de-ló
bolos cremosos e outras guloseimas
e de longe parecia inquieta.

O falatório do povo da cidade
e das freguesias rurais à volta da blusa.
Por debaixo do damasqueiro
O umbigo salente não resistia ao orvalho
daquele analgésico verdadeiro.

COM O CAÍR DA NOITE


Chegava com o caír da noite
abria a porta fechada
e fechava-a com as costas
debruçava-se observava com cuidado
como um médico de serviço.

Fazia tudo para merecer
- e já lá iam uns bons anos -
para prémio receber como prenda
as framboesas roxas côr de purpúra
que sem surpresas ainda cresciam
para regalo madressilva da boca
no gargalo justo da garrafa
bebidas frescas que pediam festa.

Porque dia sim dia não
ensonada que nem cinza morna
que de insonsa nada tinha
não se levantava da cama
sem os braços mecânicos do guindaste
o abraço apertado do operador.

TALVEZ NĂO FOSSEM DOCES


Em bicos dos pés
na persistente bica da fonte
sossegava do fogo
bebendo café amargo.

Contigo quebra-mar da cidade
os frutos secos do arbusto vermelho
provavelmente saberiam
a açucar queimado
que eu sentiria desfazerem-se
com o escorrer da língua
em local de acesso reservado.

As bagas côr de laranja
que à falta de melhor
entre caretas o melro comia
talvez não fossem doces.

Entre a lua e a denúncia afirmava
- são pedras senhora pedras pesadas
da multiplicação da fome
do cansaço paciente dos povos
por debaixo do avental
entre a cinta se bem apertada
e a pele solidária da cobra.

NEM SÓ BACALHAU


Se por acaso este fosse o local
alugado pela vida ao amor diria:
- nem só bacalhau se pesca a norte
lá onde as louras enchem as ruas.
Mais tarde quando lia Andersen
o fato novo do imperador entendi
finalmente as três moças desse país.

Elas lavavam os dentes branquinhos
em cuequinhas e sem sutiã.
Precisei de semanas e de chatice
para acertar com o pincel na cara
e a escova de dentes entrava
mais vezes no nariz que na boca.
- Aí Ai Dinamarca tanta malandrice

Tão perto das mãos sem tocar
assim camaradas tão paradinhas
talvez nunca mais tenha voltado a ver
a pôr em cima estes olhos de papagaio.
Ainda dizem que mais vale um pássaro
na mão que dois sem saber onde pousar!

Nem só de pão de sal ou de vinho
de maçãs assadas se alimenta o amor
tambêm de brincadeiras pequenas
de línguas a gozar fora da boca fechada.

DE REGRESSO À CASA DA CIDADE


De regresso à casa da cidade
depois do júbilo do reencontro
do peixe frito e do chá da manhã
do banho de sol na relva
que orgânico fazia recordar
o almoço impressionista de ontem
qual quadro água ou sensualidade
era de gata a felina surpresa.

Com tudo metido no tempo
de porta aberta ao mundo
dos olhos do fogo até às cinzas
da gata com bigodes de tia
que não acreditava nos olhos
na demência daqueles dois
dizia ao que nós chegámos.

A fava roçava as dobradiças
o pêlo o lacrado do corredor
encostava as patas ao azulejo
a servir de travão de mão
não fosse o vento desalmado
fechar a porta por dentro.

Contra a inércia em movimento
parecia ser a voz da mãe
- já era assim no meu tempo filha
e era tão bom tão bom
quem me dera estar ainda aí
onde há búzios de todas as idades
de todos gostos de todas as cores.

2. SÃO ILHAS DE PEDRA


“Deitada és uma ilha que percorro”
David Mourão-Ferreira

NA SOMBRA INCOMPLETA DA MÃO


Clara a mão descia segura
de microfone pela encosta
laboriosamente torneada
como se um objecto vitorioso
que se aproxima às escuras
da electricidade verdejante
antes do concerto adiado
sabendo bem o que queria
mas ninguém a entendia.

Talvez um troféu ou um espelho
um fruto reflectido
na secura líquida da água
que refrescante seria farta
se no último sinal não se enganasse
e na ravina caisse desamparada.
Ao fundo caminhava o rio
que para surpresa de muitos
escondia do sol a própria luz
na sombra incompleta da mão.

Ali onde toda a liberdade
provinha apenas de olhares comuns
de festas e carícias vulgares
a mim também a nada sabia.
A mão morena essa repousou tranquila
na palpitação escorregadía
entre as baixas margens do leito.

REGRESSOU À ILHA DE PEDRA


Marítima regressou alongada
com as águas salgadas do Adriático
onde os peixes em cardumes
apreciadores das coisas boas da vida
gostavam de vir nadar para perto da praia.

Regressou à ilha de pedra dura
onde a poesia com odor e paladar
se aloura em rodelas de cebolada
se envolve plasticina de vastidão
e se acomoda à pele mais próxima
da entrada escondida das rosas.
Por vezes de gelatina em repouso
sem estar livre das melhores surpresas.

Regressámos com os pedreiros
ao nosso amor erguido na pedra
no entardecer do planalto tardío
por detrás do véu leve da álgebra
ao sítio onde é costume passar a noite.
Pedra que ainda aqui estará
quando nós já cá não estivermos.

BOCA SALGADA LÁBIOS DE MAR


Boca de mar lábios salgados
que não permitem a livre-circulação
aos abelhudos caranguejos
que provam o vinho para iludir o sono.
Boca salgada que se oferece
como uma concha quase preta
e um búzio meio-cozido a abrir-se.

Beijo comum do mar beijo salgado
que faz bem à saúde e ao coração.
Que acerta no número da sua porta
quando meu amor de pedra
já não sabia das sombras dos lábios
na olaria do sorriso perfeito
que moldavam os meus dedos.

Os mesmos que esmagavam azeitonas
espalhavam o azeite pelo tabuleiro
do peito na travessia das costas
com amoras pretas porque os ventos
e as marés sempre me levaram
exactamente para onde eu queria ir.
Boca salgada lábios de mar.

NO SOPRO DE VIDRO


Quando concentrado no gelo
e no paraquedismo dos sábados
subiram o muro pintado de branco
e nem se queixaram do prego
que deixou um buraco nas calças
e um rasgão de sangue no joelho.

Com evidente coragem me lançei
sem asas diurnas de morcego
sobre o colchão macio de molas.
Sentia-me empurrado pelo medo
pela determinação do mundo.

Que acabariam por te encontrar
seguro de te rodearem de palavras
para me envolver com a tua liberdade
para sempre desde a primeira hora.

Juntar desejos e alguns sonhos
no sopro de vidro da noite
que são apenas os teus lábios finos
vestidos com roupas lavadas
a darem forma ao nosso amor.