segunda-feira, 24 de março de 2025

Eco das Palavras

ou a ousadia tonta de me associar a Umberto Eco



Gato

 

"Perguntei-lhe qual era o nome do gato e ele respondeu-me que os gatos

não têm nome porque não são cristãos como os cães" Umberto Eco

 

Caro Mestre, não leve a mal a intromissão 

mas do bastante que Deus me acrescentou 

sei que não é por aí que o gato vai às filhoses.

Estão em grande harmonia e não há jantar sem cão.

 

A não ser que da arranhadela o santo ficou uma fera

e nem a intervenção de Pedro apaziguou a discussão.

Ainda por cima a internet esteve todo o dia de baixa 

e não passou a mensagem do gato a pedir perdão.

 

Boa eucaristia senhor prior e bom jantar de celebração. 

Batize lá o gato no domingo e esqueça a ofensa.

Vai ser um bom cristão vai caçar os ratos da igreja.

O vinho não vai sumir da sacristia. Tenha um bom serão.

 

Sabedoria

 

“O amor é mais sábio do que a sabedoria” Umberto Eco

 

Cada história de amor nasce para não morrer 

não é preciso ser sábio para inventar uma melhor.

O amor é feito de paciência e arte da transpiração 

é feito da sabedoria dos que nasceram para viver.

 

Cada história de amor ou sua fulminante negação 

tem a sua própria época e prioridades a condizer.

Quando as tuas já são outras eu aceito dar o lugar. 

Amigo não pisa amigo se não conta para a equação.

 

Cada história de amor custa mais decorar que despir 

e custa mais vestir do que deixar a cama arrefecer. 

Mas por muitos esforços que faça não vou conseguir 

despir a pele que o Pai escolheu para comigo trazer.

 

Esta frase aprendi há pouco de uns estrangeiros 

- Antes de criticares põem-te nos meus sapatos.

Eu não posso, não consigo ser quem não sou 

- Basta ouvir a sua voz e sei que por aí não vou.

Deus

 

"Deus está morto, a arte deixou de existir, a história 

chegou ao fim e eu próprio não me sinto bem" Umberto Eco

 

Contra a gripe, a febre e a constipação 

contra o mau olhado da porra da infecção

não duvide e não perca mais tempo. 

Abra uma garrafa de vinho tinto.

 

Beba copo a copo com moderação 

e não se esqueça desta minha afirmação. 

 

Não um vinho qualquer meio martelado 

um vinho alentejano bem encorpado

como promoção do melhor medicamento. 

Como tributo à terra, à gente e à produção.

 

Beba copo a copo com devoção 

e não se esqueça desta sábia opinião.

 

Caro leitor que não vai saber quem sou 

até pode não acreditar no que digo 

mas há muitos anos que não tomo 

comprimidos para as dores de cabeça.

 

Em primeiro lugar porque não me dói 

e se for o caso muito raro do contrário 

para começar bebo meio copo de vinho.

Beba com devoção e metade do coração.

 

Vida

 

"O que é a vida senão a sombra de um sonho fugaz?" Umberto Eco

 

A minha vida? Eu sempre fui uma boa boca 

e me contentei com o que vinha para a mesa. 

Se a refeição fosse farta como era contigo

aproveitava o repasto e tirava a barriga de misérias.

Se não fosse o caso, era paciente e não me queixava. 

 

Os milagres das entradas e das nossas sobremesas 

mais pareciam a confirmação que o paraíso existe. 

Eram na terra milagres divinos feito por pessoas

momentos de amor que nos tornavam imortais.

 

Lembras-te quando foi a nossa primeira festa? 

A nossa primeira cama, o primeiro dia da nossa vida?

Foi numa terça-feira de março o nosso primeiro poema. 


Diabo


"O diabo não é o príncipe da matéria, o diabo é a arrogância do espírito, 

a fé sem sorriso, a verdade nunca tocada pela dúvida" Umberto Eco

 

Quando a cegueira colectiva da maioria já for credo e religião obrigatória 

não se respeitar a opinião da agora minoria que pode ser apenas temporária. 

Quando a maioria dos eleitores acreditarem num futuro fácil e barato 

levados pelas respostas do populismo sabe tudo e discurso simplificado.

 

Acredita que não estás sozinho que estás bem acompanhado 

que são muitos que pensam como tu, não te sintas abandonado.

Muitos que sabem pela história que contra a indigna submissão 

temos ao alcance da mão e da alma a nossa infinita insubmissão.

 

Temos de enfrentar o diabo mentiroso de uma mentira maior.

Temos de derrubar o falso profeta de um infame deus menor.

  

Poesia

 

"Fomos suficientemente inteligentes para transformar 

uma lista de roupa suja em poesia" Umberto Eco

 

Bom dia. Com o tempo e a observar como faziam os mais velhos 

- mãe estava longe e a vida era aqui - descobri que era mais prático 

lavar a roupa ao fim do dia, todos os dias no lavatório da sala de banho.

Lavava a roupa com sabão - chegou a ser azul que trouxe de Portugal -  

e punha-a pendurada a secar no radiador do quarto da residência.


Na manhã seguinte estava enxuta. Eram mais complicadas as camisas

- felizmente na época usava sobretudo t-shirts - e pior as calças 

que tinham de ser passadas a ferro, mas como eram de ganga 

se não fossem centrifugadas e ficassem bem esticadas 

mesmo sem ferro de engomar, estavam prontas a serem usadas.

 

Foram sete semestres na residência estudantil da universidade.

Tantas recordações. Tantas histórias. Tão pouca roupa suja para lavar. 

Tanta roupa lavada para amarrotar, cheirar e amar. Tanta poesia. 

Abençoada juventude. Obrigado Ráday kollégium. Obrigado Budapeste.


Invasão dos idiotas

 

"As redes sociais dão a legiões de idiotas o direito de falar, quando antes só falavam num bar depois de um copo de vinho, sem prejudicar a comunidade... mas agora têm o mesmo direito de falar como um Prémio Nobel. É a invasão dos idiotas.” Umberto Eco

 

Estamos cercados por muita raiva de cão  

muito presente por ser apanhado do chão. 

Estamos perdidos com tanta bolinha seca

tanta camisa de vénus suja e esburacada.

 

Tanta trampa, restos de rabos em tampos de sanita

para quê fabricar lavatórios se nem as mãos lavam.

Não lhes chames ralo, sifão nem venerável válvula 

ou vibrador vibração que dá gozo à vulnerável vulva.

 

Quando estava a falar parecia que estava a dormir 

e a dormir parecia que estava a vomitar e a tossir

a ressonar grosso como uma osga ou uma lagartixa.

Mastigava uma salsicha de barba, bigode e barbicha.

 

Que seria se fossem para o diabo que vos carregue

deixassem o presente e o futuro para quem os merece.

 

Budapeste, 2025

Pedro Assis Coimbra

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


sexta-feira, 21 de março de 2025

Tempo de espairecer e envelhecer

 

Não há amor que resista a vinte e quatro horas de filosofia
Camilo Castelo Branco 


Envelheci a pensar em ti

 

E foi assim que envelheci a pensar em ti. 

Envelheci em silêncio e a reduzir a desventura

a distância da cidade portuária mais próxima

tão próxima que não cabia no meu pensamento. 

 

Assim como quem não acredita no destino 

inquieto sem dar conta das mudanças do vento  

com o mais velho e mais escuro caudal do tempo 

fui aguadeiro camaleão a desaguar no rio da vida. 

 

Era tarde para sair e mudar de embarcação 

e cedo para aproveitar a substância da baixa-mar. 

Assim como um estivador abraçado ao seu cais 

sem grandes pressas envelheci a pensar em ti.


Cresci contigo

 

Sem estar vacinado cresci a sonhar contigo 

como se fosses uma madrugada madrinha

ou uma bela mulher que sai à rua para se mostrar 

querer-nos convencer que é ela o nosso futuro. 

 

Cresci contigo porque nasci no tempo da lua cheia 

quando a manhã se atrasava e o sonho era gratuito. 

Não sabia como te beijar, mas coragem não me faltava 

sentia que um amor como o nosso teria de dar certo. 

 

Sem hesitar avancei e ainda hoje sigo em frente contigo 

pelas avenidas que nos ajudam a chegar ao nosso abrigo. 

Partilhando as ideias e os sonhos, escutando os outros

porque sabemos que a liberdade tem valor se for de todos.


Foi por ti que sonhei

 

Foi por ti que sonhei viajar sozinho 

Por ti que sem medo saí do meu país 

Foi por ti que me fiz ao caminho 

Só por ti é que fui árvore e sou raiz.

 

Foi por ti que viajei longe para te trazer até mim

Com violinos nas asas e uma guitarra em cada mão. 

No dia da chegada organizar um grande festim

Onde pudesse juntar num só o teu e o meu coração.

 

Foi por ti que sonhei e foi por ti que fiquei 

- Framboesa húngara e um mirtilho português 

ou vice versa com uma ranchada de rebentos.

Para casar contigo para o resto das nossas vidas.


Para te esquecer

 

Foi para te esquecer que sai de casa a correr

foi para não te lembrar que sai para espairecer 

cai em mim e pensei o que vai ser de mim sem ti 

voltei a casa a correr com medo de te perder.

 

Ainda lá estavas em roupão em frente do monitor 

preparei à pressa um café, mas como me esqueci 

e não aqueci as chávenas como costumas fazer

levei na bandeja para ser bebido antes de arrefecer.

 

Foi por me lembrar o quanto eu gosto de ti 

e que possa de novo sentar-me na poltrona 

foi para te recordar o quanto eu gostei de ti

é que a culpa morre casada, viúva ou solteirona.

 

Emagreci a sonhar contigo



Emagreci a sonhar contigo 

Engordei a olhar-te de longe 

Emagreci ao ver-te de perto 

Infeliz por não saber o teu nome.

 

Emagreci porque estraguei tudo 

Emagreci por me armar em esperto 

Engordei porque ao abrir demais a boca 

Porra sem querer dei cabo do resto.

 

Deixei de comer ao sentir-te tão perto 

Deixei de beber ao ver-te ao meu lado 

Deixei má sorte de o fazer por descuido 

Por um erro primário de folha de cálculo.

 

Emagreci porque esqueci o seu nome 

Será que ela se chamava Clarisse? 

Quem disse que a formiga tem catarro 

Meter-me onde nunca fui chamado.

 

Engordei porque era um esforçado comilão 

Engordei mais porque era um rapaz brincalhão 

Porque brinquei muito contigo à apanhada

Às escondidas às casinhas e à cabra-cega.

 

Emagreci por não ter pingo de vergonha na cara

Engordei à bruta porque nada me vinha à cabeça 

Emagreci porque esqueci o que queria rimar 

Por não ter um buraco onde me pudesse enfiar.


A descer as escadas


A descer as escadas deslizei a correr pelo corrimão 

A descer as escadas faltou pouco para um grande trambolhão. 

A subir as escadas tropecei e bati com o nariz nos degraus 

Dá muito trabalho subir escadas sem bater com ele no chão. 

 

A subir as escadas tive uma vertigem do pior e em grau superior 

Como se nunca tivesse visto uma moça bonita à porta do alçapão. 

Foi um trambolho trampolim da atração tramada pelo trambolhão 

O que me valeu foram os dois paus que tinha trazido do Equador. 

 

A descer as escadas esqueci-me que podia ter apanhado o avião 

Não caia nem tropeçava e bastava agarrar-me ao corrimão. 

A descer as escadas evitei a tempo a distração do tombo da nação

A subir as escadas não tropecei, mas levei um valente empurrão. 


Disserta filosofia

 

Disserta sem descanso filosofia trinta e seis horas por dia

disserta sem desconto cortesia e outros textos da ventania.

Enquanto pões a máquina de lavar roupa a trabalhar 

não te esqueças da vibração que ela sente por te amar.

 

Do ranger das dobradiças da fechadura a precisar de óleo 

E da chave que de não ser usada está cheia de ferrugem 

Se a erva está murcha a sacanice faz muito bem à pele  

à penugem sagrada no espaço vadio da vadiagem.

 

Disserta sem desconto as tuas aulas de filosofia

Disserta sem descanso, noite e dia e a bom preço 

mas não sejas cara de pau, faz-te às vezes de malandro

moleiro a vender o pão à freguesa mais madrugadora.

 

Budapeste, 2025

 

Para o livro “De mim ficam as Palavras”


quinta-feira, 20 de março de 2025

Versos da vida e outras histórias


L’amour est une mer dont la femme est la rive. Victor Hugo




Introdução

 

Querida ele esteve cá hoje? 

Sim, tu sabes que sim. Saiu há pouco.

Fizeram amor, não foi? 

Sim. Fizemos como sempre fazemos.  

 

Olhou-a nos olhos, o convite era tão forte.  

Agora é a nossa vez de crescer. Vamos para cima.

Nesses momentos era outro, transformava-se.

Parecia um potro a correr livre na planície.

 

Naquele tempo bendito de liberdade 

nada se comparava àquela introdução. 

Amaram-se feitos um só, gulosamente 

como se fosse a última vez, não houvesse amanhã.


Sentia-se no ar que nada o excitava tanto 

como imaginar a sua jovem e amada mulher

metida na cama com o seu melhor amigo. 

Era tão bom ter com quem a partilhar.


Estava à sua espera


Havia anos em que o meu amante 

fazia mil e oitocentos quilómetros.  

Conduzia à vez com o meu marido 

para matar as saudades que tinha.

 

Vinha porque sabia que seria bem recebido 

como um dos melhores amigos da família

ao jantar seria dos primeiros a ser servido

sabia que eu também estava à sua espera.

 

Quando é verdadeiro, o amor é entrega. 

Ele fazia todos aqueles quilómetros

para passar comigo duas ou três tardes  

e fazer do verão a rosa da nossa paixão. 

 

Depois despedia-se com o coração cheio.

Voltava feliz contando os dias que faltavam 

para o meu regresso nos finais de agosto. 

Para esse mundo especial que era o nosso. 


A primeira vez

 

Para continuar os estudos deixei a aldeia e fui para a cidade 

para um quarto alugado com uma prima da minha idade. 

Vivia pertinho do liceu e de uns velhos amigos dos meus pais 

de quem, em toda a minha meninice, apenas ouvi dizer bem

do prestígio, ele advogado e ela médica, um exemplo a seguir.

 

As poucas vezes que os vi guardei a imagem de um casal perfeito

de um casal muito bonito e alegre, de gente culta e simples. 

Como criança pensei "quando for grande quero ser como eles".

 

Várias vezes me convidaram para lanchar na sua casa

e depois para ir estudar e fazer os trabalhos de casa 

porque lá estava mais sossegada e concentrada. 

Estudava primeiro na cozinha e depois na biblioteca.  

 

Foi ali que os meus jovens pensamentos voaram, sentia-me atraída

pelos seus cabelos grisalhos, o sorriso aberto, a sua voz melodiosa. 

O sentimento crescia em mim, em demasia para a tenra idade

e na minha imaginação via que os meus sonhos pareciam realidade.

 

Estava escrito, as coisas aconteceram como tinham de acontecer.

No divã, entre livros, deixei de ser menina e tornei-me uma mulher. 

Apesar dos seus remorsos, ali ou no meu quarto continuamos a fazer.

Foi com ele e as nossas tardes que depois da dor descobri o prazer.

 

Por falta de cuidado como quase sempre acontece, fomos apanhados.

O escândalo nunca visto foi abafado, ficou em família. 

Para evitar males maiores tive de mudar de terra, mudei de país.


Esconder os olhos


Nos primeiros meses da minha emigração o meu trabalho 

foi tomar conta de uma menina pequenina enquanto os pais 

trabalhavam, saíam ou estavam em casa, mas sem tempo 

para se ocuparem com a filha. Eram os dois arquitectos 

e viviam numa das melhores zonas dos subúrbios da capital.

 

Era uma miúda acabada de chegar, sem maldade nenhuma

mas cheia de vontade de me integrar e aprender depressa 

a ser moderna, eu que vinha de uma terra tão pequena 

tão atrasada em relação àquela cidade tão cosmopolita.

 

Sentia-me deslocada e insegura, mas nunca tive jeito 

para baixar a cabeça, esconder os olhos e talvez por isso 

o senhor arquitecto aos poucos começou a olhar-me 

e de forma sorrateira os olhos foram conversando.

 

O meu quarto era no rés do chão ao lado da sala do duche

e numa manhã enganou-se na porta e entrou no meu quarto.

Fechou-a atrás de si, pôs o dedo na boca e sorriu-me cúmplice 

como quem diz, não fales, não faço mal, não tenhas medo.

 

Aproximou-se da minha cama e abraçou-me 

suavemente começou a acariciar-me o cabelo

a beijar-me a boca, a descer as mãos pela minha pele.

Tirou-me o pijama, fiquei nua e totalmente indefesa.

 

Estava toda arrepiada, gostava, mas tinha medo 

do que estava a acontecer. Ele olhou-me nos olhos 

e como se fosse a coisa mais natural do mundo

entrou em mim. Eu recebi-o com um gemido contido.

 

Foi assim durante bastante tempo, eram muitas as manhãs

que descalço vinha tomar o duche ao meu quarto.

A esta distância estou convencida que a esposa sabia  

e o incentivava a continuar, talvez desejasse participar 

mas não deram esse passo, não me quiseram assustar. 


À boleia


Estava à experiência a trabalhar num café da periferia.

Era domingo e por um nadinha perdi o autocarro

e pelo próximo tinha de esperar mais de uma hora e pensei

que o melhor seria pôr-me à boleia, talvez tivesse sorte. 

 

Passado um tempo parou um carro, um senhor simpático   

e sorridente perguntou para onde é que eu queria ir.

Disse que me levava, mas antes tinha de parar numa casa

que estava a renovar, não me preocupasse, chegava a tempo.

 

Não me quero fazer de coitadinha ou para mim tanto faz 

mas a verdade é que acabamos com ele em cima de mim 

numa sala vazia apenas com as paredes e janelas acabadas  

com as nossas roupas amarrotadas a servirem de tapete.

 

Depois mais limpos e arranjados levou-me ao trabalho

e quando acabei o meu turno ele estava à minha espera.

Nos dias, meses seguintes continuamos a encontrar-nos

e a levar-me a locais onde nunca imaginei um dia estar.

 

Ele era um homem charmoso com amigos importantes

e como pude observar com hábitos muito surpreendentes

havia muita liberdade, não se importavam quem estivesse a ver.

Clubes muito reservados onde o sexo estava sempre presente. 

 

Ilusão e deslumbramento podia ter caído fundo no poço 

mas foi ele que depois de me mostrar como seu novo troféu

me protegeu, não me deixou ficar sem pé nem afundar.

Estou-lhe grata, mas ainda hoje penso que fui abusada por ele. 

Os versos e reversos da vida e outras histórias que ficam por contar.


Professor de matemática

 

Professor de matemática de liceu era um pouco mais novo que eu 

e foi o homem mais bem-posto e mais bonito com quem estive.

Na gaveta das minhas memórias, o começo da nossa história 

foi dos momentos mais ardentes e apaixonantes da minha vida.


Estava a atender um cliente e senti que fora alguém me observava

olhei de forma discreta para ver quem era, mas ele já tinha entrado.

Como nesse dia estava sozinha, esperou a vez de ser atendido.

 

- Desculpe, mas eu não quero comprar nada, entrei para lhe dizer

que já me esqueci quando vi uma senhora tão formosa e elegante. 

Só por si valeu a pena ter parado nesta pequena e delicada cidade.

A paixão não foi longa, mas aquele belo-homem bem cheiroso

na estratégia triunfante da sedução era um verdadeiro campeão.

 

Ele trazia consigo a chama que dentro de mim acordava 

toda a emoção voluptuosa que uma trintona guarda em si 

e espera o momento certo para se libertar, para viver e sentir 

de aproveitar até à perdição a visita guiada ao paraíso do prazer. 


Quando a magia passou, custou aceitar o fim do "romance da loja"

mas não havia volta a dar e fui em frente, fui eu que tomei a decisão 

de acabar e não aparecer no nosso discreto hotel à saída da cidade.

Fiquei num parque de estacionamento a fazer tempo de ir para casa.

 

Ainda me telefonou a perguntar e a pedir explicações

mas ao saber a razão ficou tão ferido no seu amor-próprio  

que nem amigos ficamos. Nunca mais soube nada dele.


Com a minha amiga

 

Com a minha melhor amiga, ela divorciada e livre e eu casada 

e com filhos, em vários anos no verão passamos uns dias juntas. 

Apenas as duas como se eu fosse solteira e sem prole como ela.


Uma vez no país vizinho o nosso alojamento era uma cama de casal. 

Durante a noite de forma espontânea como fazia com o meu marido 

encostei-me e ela tímida acariciou-me o peito e os seios, a barriga.  


Beijou-me suavemente o pescoço como se soubesse que era o mimo 

a ternura que eu mais adorava e excitava. A maravilha aconteceu.

Nesse dia, nas manhãs e noites que vieram. Umas férias de loucura.



Nos anos seguintes continuamos as escapadinhas, a paixão secreta

de duas amigas apaixonadas, mas eu continuei a preferir homens 

e a nossa linda aventura acabou. A amizade também, não resistiu.


Como poderei eu esquecer


A mais ousada das minhas histórias de amor 

a mais bonita foi com um jovem universitário 

quase quinze anos mais novo do que eu. 

 

Começou com o seu lindo olhar fixo em mim

e como durou tanto tempo, quando acabou 

com o que sabia, parecia ter a minha idade.

 

O jogo de o seduzir, de permitir os seus avanços 

de preparar o caminho, de abrir o portão da minha vida 

de saltar o muro dos preconceitos da diferença de idades 

de o termos feito à frente de todos sem ninguém se dar conta

e com a arte mais discreta que se possa imaginar.

 

Ali, em que todos sabiam de todos e tudo se sabia

foi o maior desafio-paixão de disfarce que me aconteceu. 

Foi o jogo mais maravilhoso que jogadora joguei 

os melhores momentos de fascinação, desejo e entrega.

 

A banda filarmónica a tocar, as pessoas a dançar 

a algazarra das crianças, da juventude e nós ali tão perto 

celebrando a nossa festa com o esplendor do amor.


Por muitos anos que viva nunca me vou esquecer

nem nunca deixarei de estar grata ao meu marido 

que entrava connosco e subia para o outro quarto   

cedia a sua cama e entregava a esposa à paixão 

à energia inesgotável do seu jovem príncipe encantado.

 

Ainda hoje me escreve "Lembras-te? 

De vez em quando, ainda te lembras de mim?"

Tonto, como te poderia eu esquecer! 


Ficaram as saudades

 

Estava depois dos cinquenta, sentia-me bem, achava-me bonita 

não tinha pressa em ser idosa antes de tempo quando solidária

a vida me ofereceu mais uma prenda, uma nova oportunidade. 

Deu-me a conhecer um homem com um H grande.

 

Era mais velho uns bons anos, mas com uma pedalada. 

Os nossos encontros eram como se fossem cronometrados 

tínhamos três horas à disposição até o meu esposo voltar. 

Três que sabiam a trinta e resgatavam todos os meus sonhos 

que sabiam a pouco tal a intensidade, o ritmo do seu pedalar. 

 

Se aprendi tanto com ele no amor, que dizer da sua sabedoria? 

Abriu-me a cabeça como ninguém antes dele tinha feito. 

Como ele me transmitiu saber, cultura e filosofia. 

Eu tinha a sensação clara de que ele sabia tudo e de tudo. 

- O meu mestre na cama, na cultura e no conhecimento.

 

Numa das nossas tardes de paixão, por ciúmes infundados 

decidiu castigar-me, deixou-me pendurada e não apareceu.

Eu estava à sua espera com a minha lingerie mais ousada

de mulher que sabe o que quer, como o excitar ainda mais. 

 

Sem ele a casa ficou vazia e a tarde vestida de solidão.

Devido ao meu orgulho ferido não nos voltamos a encontrar. 

Ficaram as saudades e o seu lugar cativo no meu coração. 

Se um dia de surpresa bater à minha porta vou deixá-lo entrar.


Amor a três acabou

 

Há muito que sou uma mulher casada com um homem maravilhoso

O meu ombro perfeito, meu defensor primeiro, o meu porto de abrigo. 

Motor do meu elevador social, país de acolhimento, meu melhor amigo. 

Meigo e cuidadoso, ternurento e tolerante, é o meu eterno apaixonado.


Durante anos tive uma vida partilhada: à tarde era do meu amante 

e de noite era do meu marido. Para mim foi natural viver assim.

Pouca gente soube dessa faceta da minha vida e se souberam 

foi porque eu lhes disse e os vizinhos que viam o carro ali parado.


Recordo como se fosse hoje, a primeira vez com os dois em casa 

à hora de deitar. Estava na cama e o meu esposo perguntou-me

- Não queres ir para cima ter com ele?

- Gostaria, mas tu não te importas?

- Sabes bem que não, para mim o que conta é a tua felicidade.  


Foi talvez a noite mais intensa que passei com ele, o meu amante. 

O amor a três acabou há muito, mas a amizade ficou e ainda hoje 

aos sábados sentamos os três no café e pomos a conversa em dia.  


Foi amor à primeira vista


Foi amor à primeira vista, ao primeiro, segundo e terceiro olhar.  

A história de amor e da paixão pelo homem da minha vida 

conta-se num episódio uma frase que está presente na minha alma 

como se ele tivesse dito esta manhã depois do nosso primeiro beijo. 

 

Eram as primeiras semanas, época que quem namorou nunca esquece 

quando o amor pede cada momento, todos os momentos, todos os dias 

mas ele pelo seu trabalho teve de se ausentar durante duas semanas.

 

Quando regressou segurando-me as mãos, olhando-me como só ele sabe 

disse-me: Meu Deus tinha-me esquecido como és bela, deslumbrante!

Ainda hoje fico comovida e vêem-me as lágrimas aos olhos. 

Serei a sua namorada e mulher, a sua amante e amiga. 

A sua companheira até ao último dia, última hora da minha vida. 

 


Budapeste, 2023-2025

Para o livro “De mim ficam as Palavras”


quarta-feira, 19 de março de 2025

Oxalá

 

Queira Deus que não seja o que se sente vir...

Foi pior, o horror metódico e criminoso: o Holocausto


Carta a Radnóti Miklós (1909-1944)

 

 Sabes, Poeta, o meu neto, com a mãe e o meu genro

- O irmãozinho vem a caminho - vivem numa rua

que cruza com a rua que leva o teu nome - Radnóti Miklós

em Lipótváros, no bairro que foi sempre o teu, o bairro XIII.

Assim, sempre que os vamos visitar ou levá-lo a passear

passamos pela tua rua e vemos a tua estátua discreta.

 

Miklós - Glatter antes de ser Radnóti -, estive a ver as tuas fotografias

fiquei com a ideia de que eras um rapaz bonito, um homem elegante

um Poeta conhecido, de renome, com P grande. Lias regularmente

a tua poesia na rádio. Não admira que muitas miúdas, as mulheres

tivessem um fraquinho por ti. Sabes que eras um homem com sorte?

 

Fanni a tua Musa-Namorada de sempre era paciente e compreensiva

- Sim, eu sei que começaram a namorar eram ainda quase crianças -

e mesmo cheia de ciúmes, das zangas, perdoava as tuas aventuras,

com a jovem alemã klementine ou com a fogosa Judit, a tua pintora.

 

Arckép

Huszonkét éves vagyok. Így

nézhetett ki ősszel Krisztus is

ennyi idősen; még nem volt

szakálla, szőke volt és lányok

álmodtak véle éjjelenként!

1930. október 11.

 

Retrato

Tenho vinte e dois anos. Assim

devia ser a aparência de Cristo no outono

nessa idade; ainda não tinha

barba, era louro e as raparigas

sonhavam com ele à noite!

11 de outubro de 1930.

 

Caro Poeta, já estamos no primeiro quarto do século vinte e um.

Agora é comum falar sobre a importância da baixa pegada carbónica

de desenhar a estratégia sustentável para o futuro da humanidade

da comunicação imediata das redes sociais, das novas liberdades

e dos velhos discursos do ódio recauchutado, sempre mobilizadores.

A cegueira dos custos não imputados ao populismo assassino.

 

De custos, direi que para ti era em primeiro lugar a vida, a sobrevivência

que te custava caminhar, estar de pé, estar sentado, estar deitado.

Que morrer só depois de sonhar e de voar, de cair e de novo se levantar.

Escrever a última agonia antes da última bala, o último postal ilustrado.


Poeta, 4 postais para te ilustrar e iluminar, para te recordar e eternizar.


Negyedik Razglednica

Mellézuhantam, átfordult a teste

s feszes volt már, mint húr, ha pattan.

Tarkólövés. - Így végzed hát te is, -

súgtam magamnak, - csak feküdj nyugodtan.

Halált virágzik most a türelem. -

Der springt noch auf, - hangzott fölöttem.

Sárral kevert vér száradt fülemen.

Szentkirályszabadja, 1944. október 31.

 

Quarto postal ilustrado

Eu caí ao seu lado, o seu corpo virou-se

e já estava esticado, como a corda quando se parte.

Um tiro na nuca. - Assim acabas tu também, -

Sussurrei para mim próprio, - fica calmo e quieto.

A paciência floresce agora na morte. -

Der springt noch auf*, - ouviu-se por cima de mim.

Sangue misturado com lama secou nas minhas orelhas.

*Ele continua a saltar

Szentkirályszabadja, 31 de outubro de 1944

 

Acorda meu amigo, a Fanni está à tua espera, jovem, bela e apaixonada

como nos dias especiais, com um bolo de requeijão e um körtepálinka

com um exemplar do teu Bori notesz, símbolo maior do pior pesadelo.


Para te dar a novidade que em Budapeste há um teatro com o teu nome

que nenhum judeu é perseguido, nem os católicos convertidos como tu.

Há presente e há futuro mesmo quando a negra escuridão 

parece ser mais forte que a luz, que o clamor do amor!

 

Budapeste, 1 de março de 2025


Születik a Vers (Nasce o Poema). Em memória de Hajnal László

 

Hajnal László, nascido Grün László (1902-1943)

Foi jornalista, em jornais como Magyar Szó (Palavra Húngara)

Zsidó Jövö (Futuro Judeu) e na revista Fekete Macska (Gato Preto).


Velho companheiro, com o Gato Preto vieram-me à cabeça

outros gatos, outras gatas nocturnas, outras épocas… 



Em Budapeste no início dos anos oitenta do século passado

numa esquina perto da residência da rua Ráday havia um bar 

"Fekete Macska", eu era um törzsvendég (cliente habitual).

Como estava perto da cama, podia abusar e abusei muitas vezes.  


Foi ali entre canecas de cerveja e copinhos de aguardente 

que comecei a série do Gato Preto. No verão seguinte 

o Zetho convenceu-me a publicar em edição para amigos. 


Como não encontro o único exemplar que tinha dos 50

editados por uma tipografia de Almeirim, vou tentar de cabeça  

reinventar um dos 13 textos que compunham a plaquete. 


Por volta dos quarenta, de calças apertadas caminhava pela rua. 

Na cidade não havia quem soubesse dançar assim como ela  

a dança moderna e indiscreta das ancas e das nádegas pela calçada.   

Os homens nem verbo-piropo tinham, calados ficavam sentados 

a olhar, a imaginar outros bailes e outras festas, outros arraiais.



Era tão fogosa que com medo de se queimar, 

ficarem com os dedos esturricados, não havia alma 

que se chegasse à frente, que atravessasse a ponte da fortaleza.

Quem ganhava com a falta de coragem era o gato preto da casa

habituado que estava não a caçar ratos ou pardais, mas a dormir  

na borralha da cinza morna, quentes e boas, entre as coxas da dona.     

 

Hajnal László escreveu poesia, prosa, peças de teatro e crítica literária.


Születik a vers

Ilyenkor tárjuk fel a mellünk,

A napsugárt szívjuk le mélyre

Kitárt két karral ünnepeljünk,

Mert az isten született bennünk,

Dobjunk el minden földit félre,

Mert elindult felénk a Vers...!


Nasce o poema

É chegado o tempo de abrir o peito

Deixar o sol descer até ao fundo,

Festejar de braços abertos,

Porque Deus nasceu em nós,

Deixemos de lado todas as coisas terrenas

Porque o Poema vem ao nosso encontro...!


Nasceu no último dia do ano, 2 depois da madrugada do século XX e em janeiro de 1943, desapareceu como "munkaszolgálat" (recruta forçado sem armas) na Frente Oriental, na URSS. Não se sabe onde nem exatamente quando, como judeu-carne para canhão, desarmado, esfomeado e muitas vezes espancado só porque lhes apetecia.

O munkaszolgálat foi uma instituição militar especial criada na Hungria durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto. Era um “serviço” de guerra realizado nas forças armadas húngaras, mas sem armas e exclusivamente sob a forma de trabalhos forçados. Normalmente nos combates iam à frente dos soldados do exército húngaro.


Budapeste, 2 de março de 2025


Éva élni akar (Éva quer viver). Em memória de Pajzs Elemér

 

A Pajzs Elemér (1894-1944)


A Éva desta história, ao telefone não parava de falar. 

Falava, falava e sorria dos seus lindos olhos escuros 

lanternas para os lábios finos e a sua boca bem feita. 

À volta todos sabiam sobre de que falava com a amiga. 

 

Para os curiosos, a história conta-se em um minuto.  

No sábado à noite tinha estado com colegas do trabalho 

a beber uns copos, alguns cocktails e sem se dar conta 

tinha-se deixado seduzir, na verdade tinha seduzido 

o empregado mais jeitoso do famoso bar em ruínas. 

Ia ter com ele. Há muito tempo que não estava tão feliz. 

 

Tinha um cabelo louro que chamava a atenção

e apesar da pouca luz, fim de tarde de um dia escuro

- ainda não tinham acendido as luzes do eléctrico -

via-se um rosto perfeito e umas sobrancelhas cuidadas.

 

As unhas arranjadas, discretas destacavam-se.  

Estavam pintadas de azul com tons de março 

mês que anuncia e desperta paixões ardentes.

Éva era a jovem mais bonita das viagens da semana

(mas também é verdade que era só segunda-feira). 

 

Seria Éva ou será que fui eu que inventei o nome  

à jovem e esbelta desconhecida sentada à minha frente? 

Talvez porque nesse dia tinha estado a ler Pajzs Elemér. 

Um texto escrito há mais de cem anos e que não disfarça 

o erotismo natural de um convertido askhenazi húngaro.

 

Éva élni akar (Éva quer viver)


Talvez seja desejável. Sabeis isto, mãe.

Eu quero viver. Amar. O meu marido, se tiver um.

Ou outro homem... O meu sangue é quente... quente...

Peço desculpa mãe, por dizer estas coisas.

e se te zangares, deves perdoar-me, sou uma rapariga velha.


Velha. Vinte e oito anos. E o meu sangue é quente. A arder...

a arder, a fermentar como mosto. Eu quero amar...

Pajzs Elemér, 1912

 

Escritor que encontrei com as pesquisas e preparação 

do livro de homenagem aos dois diplomatas portugueses 

- Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho -

que em Budapeste no ano 1944 salvaram do holocausto 

a vida a cerca de mil judeus húngaros. Gente valente!

 

Pajzs Elemér, nascido Schön Elemér, escritor, jornalista, autor de peças de cabaré e tradutor literário. Judeu-húngaro convertido, foi um grande admirador de Salazar. Visitou e escreveu vários artigos sobre Portugal. É o autor do livro "Salazar: Egy kis ország nagy építője", 1942 (Salazar: O grande construtor de um pequeno país), mas nem a proteção portuguesa o salvou da morte. 

Em 1944, Elemér estava com a mulher e o único filho numa casa protegida da legação de Portugal e foram os três assassinados por milícias do partido nazi húngaro. 

 

Budapeste, 3 de março de 2025


Ilyen az élet (É a vida). Tributo a Rejtő Jenő (1904-1943)

 

Rejtő Jenő, nascido Reich Jenő, pseudónimo P. Howard.

Em jovem também escreveu poesia. 


Most vége... vége... emberek

Bolond az mind ki vár remél

Ősz van az űrben ősz hideg

S a föld a sárga falevél

– (Reich Jenő: Világromlás, 1923 k.)

 

Agora acabou... acabou... gente

Tontos são os que esperam com esperança

É outono no universo, um frio outono

E a terra é uma folha amarela

- (Reich Jenő: Decadência do mundo, 1923)

 

Banana descascada rima com sacana sem vergonha

Laranja cor-de-rosa rima com canja de pato bravo

Ameixa de perna aberta rima com madeixa da menina

Neste mundo paralelo e virtual de tanta esperteza saloia.

 

Porque no politicamente correcto do nosso tempo

temos a guerra quase perdida, a ilusão da liberdade.

Há quem diga com a convicção rasca de ilusionista barato

que chegou a hora de desertarmos, abandonarmos a cidade.

 

Apetece mandá-los um por um para a puta que os pariu

mas a contagem das espingardas é-nos tão desfavorável

que é apanhar, comer e calar, deixar-se ficar invisível

porque não foi um ditador que depois de tanto mando caiu.

 

Lembrar como era a vida e a morte há oitenta anos

como era assassinada a cidadania e espezinhada a liberdade.

Não perder a esperança nos homens e mulheres de boa vontade

porque chegará a hora do ajuste de contas, a morte dos tiranos.

Um pintassilgo do povo mesmo escondido não desiste de voar

mesmo disfarçado não deixa de ser livre, de pensar e de cantar.

 

Rejtő Jenő (29 de março de 1905-1 de janeiro de 1943) judeu húngaro, entre as duas guerras mundiais, foi um destacado jornalista, escritor e dramaturgo. Famoso pelos seus livros e novelas - romances de aventura e policiais, normalmente caracterizados pela ironia e o humor absurdo. Como muitos outros, ele também foi levado como "munkaszolgálat" (recruta forçado sem armas) para a Frente Oriental, para a região do Dom na Ucrânia, URSS, onde o exército húngaro combatia. 

Não se sabe exatamente como passou Rejtő os seus últimos meses. Sabe-se que mesmo doente, até ao último dia, continuou a entreter e a divertir os seus camaradas de infortúnio. Não se conhece o local onde foi sepultado nem como morreu. É provável que as suas cinzas estejam algures na actual Ucrânia independente.

 

Ilyen az élet; egyszer lenn, egyszer fenn. És végre is: odafenn már nem fáj semmi. Rejtő Jenó

É a vida: uma vez em baixo, outra vez em cima. E finalmente: lá em cima, já nada dói.

 

Budapeste, 4 de março de 2025


Mit is akar a hangya? (O que é que a formiga quer?). Em memória de Liget Ernő


Liget Ernő, antes Lichtenstein Ernő (1899-1944)

Doutorado em direito, foi jornalista, escritor e poeta. 


Mit is akar a hangya? (1916)

Szívem, mit mondjak néked el,

hogy tűnnek hosszú évek el,

hogy másnak kéne lenni

s nem lesz belőlem semmi.

 

Szívem, mit mondjak néked el,

szívemben madár énekel

tejüveg gyönyörű hanggal,

mint álomban az angyal.

 

O que é que a formiga quer? (1916)

Minha querida, como é que eu te vou dizer 

Como os longos anos se foram,

Que eu deveria ser diferente

E que de mim não serei nada.



Minha querida, como é que eu te vou dizer 

que um pássaro está a cantar no meu coração

Com uma bela voz de cristal  

Como um anjo num sonho.

 

Em 11 de janeiro de 1945 Ligeti Ernő foi assassinado. Ligeti, a mulher e o filho foram arrastados do apartamento que estava sob a proteção da Embaixada da Suíça, por uma brigada de nazis húngaros e levados para a sede do partido na avenida Andrássy, 60. Ali foram torturados e à noite executados na Praça Liszt Ferenc, por ordem do padre católico Kun András, criminoso de guerra que foi enforcado em setembro de 1945. 

O filho Ligeti Károly (1928-2015) sobreviveu milagrosamente às balas, em 1946 emigrou para a Alemanha e em 1950 para os Estados Unidos.

 

Não me digam mais nada senão morro (Ary dos Santos)

Não me digam nunca, nunca mais que os judeus 

tanto irritaram tanto provocaram tanto enraiveceram 

que alcatroaram o caminho do seu próprio destino. 

 

Que eram um corpo estranho, um inimigo da nação 

que se puseram a jeito estavam mesmo a pedi-las 

que comeram a sopa que eles próprios cozinharam.

 

Não me digam mais porque como ainda estou vivo

não tenho alternativa, não vou calar e ficar em silêncio 

antes de morrer vou disparar a matar para nos tentar salvar. 


Shoah nunca mais! Não aos outros genocídios!

Levantar a voz de protesto e de luta, denunciar 

os genocídios sejam de ontem, de hoje ou de amanhã.

 

Budapeste, 5 de março de 2025

 

Carta-Tributo ao Professor Szerb Antal (1901–1945)

 

Mensagem para aqueles que por acaso venham a ler esta carta sobre

a intolerância, discriminação e racismo assassino, que na minha opinião

continua mais actual do que seria racional. Oxalá esteja enganado.

 

Prezado Senhor Professor 

Se lhe dá alegria, gostaria que soubesse que mesmo morto

mesmo ausente, continua presente e é mais consultado

do que a maioria dos seus compatriotas contemporâneos.

 

Eu sei das 3 leis anti-semitas, como os fascistas húngaros o trataram

como o perseguiram, o proibiram de ensinar, de publicar, de viver

como o internaram no campo de trabalho forçado de Balf

como o assassinaram quando de tão enfraquecido já não rendia.

 

Mataram-no à coronhada no dia 27 de janeiro de 1945

quando era evidente que a guerra estava perdida para a Alemanha 

dia da libertação de Birkenau-Auschwitz pelo Exército Vermelho. 

Hoje é o Dia Internacional das Vítimas do Holocausto.

Um dos exemplos das tragédias húngaras no século XX.

 

Apesar de muito religioso, nascido judeu, mas católico convicto  

o jovem Antal amou como se não houvesse um minuto a perder. 

Nem sempre foi bem-sucedido, mas tal não o fez desistir. 

Com Klára, a segunda mulher, encontrou o seu próprio romance 

aquela que foi a sua companheira até ao último dia da sua vida. 

 

Excerto de um soneto escrito com 22 anos para uma colega universitária.

(Como ela não lhe correspondia, casou-se com a irmã 5 anos mais nova.

Casaram e divorciaram-se 2 vezes.)

 

A távolságot szeretem miköztünk. (...) 


Te meg én, világ két sarkából jövők, 

a testünk más – szőke a Te hajad, 

a vérünk más – az enyém nyugtalan 

s integetnek idegen jövők – 

a vágyunk mégis egyfelé halad

(Részlet: Violaine-szonett), 1923

 

Gosto da distância entre nós. (...)


Tu e eu, vindos de dois cantos do mundo,

os nossos corpos são diferentes - o teu cabelo é loiro,

o nosso sangue é diferente - o meu é inquieto

e acenam futuros estranhos -

mas o nosso desejo vai na mesma direção.

(Excerto: Soneto de Violaine), 1923

 

Permita-me a minha resposta, a minha interpretação:

Para saber dar valor à vida, do amor partilhado com a dor

à ansiedade virtuosa de quando moramos na mesma casa

à exaltação da emoção quando dormimos na mesma cama

e à intensidade da sedução quando habitamos um no outro. 

 

No mundo das nossas vidas, da ternura partilhada com amargura

a distância é o selo de garantia dos domingos do nosso Amor. 

o certificado fugaz das manhãs frias e das tarde perdidas. 

- Dos cinzentos dias da semana em que nada mais acontece. 

 

Em nós a distância com desencontro e ausência é nosso refúgio,

o melhor do nosso caminho, a flor da madrugada, a luz do luar. 

Para nós a distância é o triho que nos leva ao nosso destino.

 

Szerb Antal foi uma das principais personalidades da literatura húngara do século XX. Nasceu em Budapeste a 1 de maio de 1901 numa família de judeus convertidos ao catolicismo. Com uma grande apetência para os idiomas rapidamente se destacou como escritor, tradutor e historiador da literatura. Estudou alemão e inglês na Universidade e obteve o doutoramento em 1924, com apenas 23 anos.

Viveu em França, Itália e Inglaterra. Regressou em 1933 e foi eleito presidente da Academia de Literatura Húngara. Em 1937 tornou-se professor de literatura na Universidade de Szeged, ano em que publicou a sua obra mais famosa “Viajante à Luz da Lua”. 


Budapeste, 6 de março de 2025


Sem Destino. Tributo a Kertész Imre (1929-2016)

 

Tributo a Kertész Imre (1929 - 2016)

Aos seus livros, incluídos os que eu não li.

Texto poético dedicado a Ernesto Rodrigues, com o seu

extraordinário livro “Hungarica” aqui à mão de semear.

 

Kertész leszek fát nevelek (József Attila)

Jardineiro serei as árvores cuidarei.

 

Retiro uma a uma as pedras do Coração 

com elas enfeito e decoro o nosso jardim 

e protejo a velha árvore da nossa Paixão 

desse Amor que eterno ficou em mim.

 

Do tempo em que menino a literatura degenerada 

andou a sofrer e a arrastar-se pelo Sorstalanság 

Sem Destino, a morrer por Auschwitz e Buchenwald.

 

O poema cheira a água do riacho do seu ventre

e como eu não fui prisioneiro nem sou sobrevivente

não associo o cabelo rapado à falta de um pente.

Navego somente do meu sonho até à sua nascente.

 

Vegsö kocsma - a última tasca da última estação do comboio.

- Dos vagões de gado para o matadouro do destino marcado -

A estação sem regresso e se há regresso é porque o milagre existe.

 

Não haja ilusões ou ingenuidade mimada pela celebrada libertação.

Totalitarismo rima com submissão, com obediência e capitulação 

e provavelmente só se pode vencer se derrotado por outro totalitarismo.

- Mais forte e mais cínico e nós a fazermos uso cartesiano do optimismo.

 

Budapeste, 7 de março de 2025

 

Passei alguns meses na preparação e seleção dos escritores: 6 mártires e 1 sobrevivente do Holocausto Húngaro. 

Escrevi os 7 textos nos primeiros 7 dias de março de 2025.


Budapeste, 8 de março de 2025


terça-feira, 8 de agosto de 2023

 


COM AS PALAVRAS ATÉ AO FIM



Palavras e as Minhas Metáforas
Mulher com Mar no Olhar
Caminho e Solidão das Palavras
Provérbios com Palavras
Textos e Panfletos do Contra 



Pedro Assis Coimbra

PALAVRAS E AS MINHAS METÁFORAS


 
La chanson du vent te dit que mon amour t'attend. 
Boris Vian

O amor que move o sol e as outras estrelas.
Dante Alighieri




Levantar o meu copo de vinho
 
Quero levantar o meu copo de vinho tinto
a tudo o que fui e não fui e gostaria de ter sido
ao que a vida me deu e ao que eu fiz pela vida
a tudo o que deixei por fazer e não foi pouco.
 
Mesmo em pleno outono avançado da vida
mais inverno que outra qualquer primavera
não quero por nada que este meu tempo
comece a recuar e a fazer marcha atrás.
 
Como outros já antes e melhor o disseram
para mim, saudades só de ti, só do futuro.



Até ao fim das palavras 
  
Podia escrever a linha imperfeita das mágoas 
que trazia de volta as sombras das lágrimas
o amanhecer adiado das suas águas tépidas.
 
Mas um dia de surpresa entre gargalhadas
entornou parte do seu perfume na minha alma 
que ali ficou e estará até ao fim das palavras.
Para viver à luz dos mistérios da nossa história.
 
A fragrância suave dos relevos doces da sedução
espelhada nos seus olhos - filha preferida do mar 
navegava nas ondas com a salmoeira da emoção.
As carícias lisas das minhas mãos de tanto amar.
 
A primavera está a chegar em força e em festa
que sejam dias e dias pintados de muitas cores
com muitas flores com dálias e malmequeres.



Ruas da cidade

Nesse dia caminharam pelas ruas estreitas da cidade
Iam de mãos dadas lado a lado nas folhas da lembrança
Não sabiam o que os esperava na esquina da Saudade 
Antes de regressarem de táxi aos abrigos da bonança.

Sentiam que quando a lua chegasse para os abraçar
Já não seria muito cedo para quem tanto tinha para dar.
 
Noite de luar com muitas aventuras para partilhar
Inspiração que vinha da certeza de cada momento
Na calçada quem poderia tanta paixão adivinhar? 
Amantes que juntos perdiam a noção do tempo.



Palavras ditas por uma mulher
 
Comprei uma caixa de lápis de cor para ajudar.
Diz-me poesia, como posso dar a volta ao texto
como fazer que sentir e inventar, como escrever 
como se fossem palavras ditas por uma mulher?
 
Um pensamento, uma mente ousada e livre 
que dizia atardar-me e eu entendia deliciar-me   
poder ver no fundo da mensagem dos seus olhos.  
- Ontem foi a noite que sempre sonhei para nós.
 
Como estou preguiçosa entre pétalas de jasmim 
peço-te que me tragas um café curto sem açúcar 
com um beijo abrasador e uma flor do teu jardim.
Depois vou-me vestir e do nosso amor me enfeitar. 



Uma poça de água 

Introdução
Seja de hoje de ontem ou de amanhã
é uma bela e maravilhosa fotografia
de uma sensualidade encantadora
com essa luz fantástica do pôr do sol.

Os amantes de Lisboa abrem os braços ao desejo.
Entregam-se ao beijo no nascer da lua à beira Tejo.

Continuação
No recanto interior da pequena baía
que nos protegia das marés imprevistas
havia um búzio entre os teus seios.
Do encantamento pareciamos perdidos

Para nos encontrarmos e nos fundirmos
com o regresso à praia na barriga das ondas
e uma concha negra entre as tuas coxas.
Uma poça de água de ventura e descoberta.



Chuva de pouca dura 
 
Era um poço fundo e estreito que indicava
nos dizia para refrescar a cara da horta.
Depois uma chuva morna de pouca dura 
que mais fazia lembrar o sabor da tua boca.
 
Sim, quem nada quer, nada consegue 
mas aqui, pelo contrário ela tudo fez.
Era o sol na figueira e mulher meia nua
de tanto seduzir nem o melro lhe resiste.
 
Ainda estou com o cabelo molhado
das carícias infinitas das tuas mãos.
No final sinto o coracão com mais fome
das tuas palavras e da nossa saudade.
 
Uma opinião criativa, muito atenta
de quem desconfia do verbo insinuar
e não o troca pela sua arte de encantar. 
 
Intuitiva como o grande espelho de sala 
que a devolve, me mostra e a ilumina 
e deixa resplandecente a minha janela. 



As noites da vida

Se um dia soubesse escrever
as palavras para um só poema
haveria de dizer em voz alta
para quem me quisesse ouvir.

Que este amor que sinto por ti
se escapou de uma fina falha
que tinha esquecida dentro do peito.
Milagre sentido num dia de inverno.

Desde esse momento a tua presença
deu voz à razão da minha opção definitiva
de substituir as velhas por novas palavras
para poder saborear as tuas metáforas.

No pátio interior desta história 
tu és a estrela da manhã
o sol forte do meio-dia
a lua das minhas noites.
- O cobertor do meu sono.
- Os dias e as noites da vida.



Pequeno milagre da mina
 
A framboesa mais deslumbrante da minha rua
às primeiras horas do dia passeava quase nua 
vestida pelo sorriso da lua que a imaginava sua. 
 
Um corpo que pela manhã se assemelhava à água
pronto a ser cantado para regalo dos ouvidos
que corria da bica da fonte na festa dos seus peitos
e ganhava voz de cigarra na noite toda da dádiva.
 
A atração irresistível que tanto desejo acendia 
a um coração que ficava a descansar junto ao rio
com a mão deslizando por entre a roupa mais clara
enquanto ela se abandonava como terra em pousio. 
 
Navio calmo que lentamente nos encaminhava  
enquanto ao acaso os dedos procuravam a entrada   
o cheiro profundo do pequeno milagre da mina.



O perfume por descobrir 
 
A vontade do refrão de se aconchegar   
andava por aqueles lados meio perdido   
sorriso vadio que disfarçava a impaciência   
de chegar depressa ao seu destino   
e a sua sombra a contraluz abraçar.
 
Por onde será que ele se demorou   
se era para chegar bem mais cedo   
e atrasado só agora aqui chegou?
 
Se o regaço fosse a cacimba do riacho   
teria o esplendor húmido do mármore   
a embriaguez anunciada do vinho novo   
os lábios subindo docemente as colinas.   
O perfume intenso da vida por descobrir. 
 
Pedaço de terra primeira do sonho
desejo banhar-me nos teus olhos
perder-me nos corredores do teu corpo.



A geografia do teu país
 
Trago ramos de papoilas e alperces maduros
que ao fim da tarde apanhei pelo caminho
segredos e narrativa de algumas aventuras.
Eu retiro o lençol que afinal não te protege
e olho com atenção a geografia do teu país.  
 
Venho aqui para te acariciar enquanto dormes
saber a tua essência mais íntima de mulher
é comovente sentir os meus dedos na tua pele.
Destino maravilhoso de me deixar fascinar
nos vestígios e nas humidades do teu prazer.
 
Flor de rosmaninho penso em ti a cada momento.
Quero sem rima contar-te o meu sonho de amanhã.
Na tecelagem das palavras artesã do meu coração. 
Quero escrever-te até não ter mais nada para dizer.



Na esplanada do bar
 
Na esplanada do bar no anoitecer da cidade   
ouvia-se uma voz vinda de dentro do seu véu   
descendo afoita às escuras sem destino certo     
debaixo das mil luzes ciumentas do novo céu. 
 
Atrás de ti murmurando palavras indecentes   
os teus frutos propriedade das minhas mãos   
e sem pressa os dedos alisando o terreno  
até ao fundo da tua alma, até ao fundo de ti.
 
O intenso relevo da sedução tão próxima    
com os teus seios, os teus lábios agridoces   
a pele do teu ventre e a encosta milagrosa   
até a nascente do lago ou desse rio calmo.  
 
Puxa o fecho do vestido e desce lentamente   
os lábios à medida que o fecho vai abrindo.   
Segue-lhe o trilho e não pares de me beijar.