ou a ousadia tonta de me associar a Umberto Eco
segunda-feira, 24 de março de 2025
Gato
"Perguntei-lhe qual era o nome do gato e ele
respondeu-me que os gatos
não têm nome porque não são cristãos como os cães" Umberto
Eco
Caro Mestre, não leve a mal a intromissão
mas do bastante que Deus me acrescentou
sei que não é por aí que o gato vai às filhoses.
Estão em grande harmonia e não há jantar sem cão.
A não ser que da arranhadela o santo ficou uma fera
e nem a intervenção de Pedro apaziguou a discussão.
Ainda por cima a internet esteve todo o dia de baixa
e não passou a mensagem do gato a pedir perdão.
Boa eucaristia senhor prior e bom jantar de
celebração.
Batize lá o gato no domingo e esqueça a ofensa.
Vai ser um bom cristão vai caçar os ratos da igreja.
O vinho não vai sumir da sacristia. Tenha um bom serão.
Sabedoria
“O amor é mais sábio do que a sabedoria” Umberto Eco
Cada história de amor nasce para não morrer
não é preciso ser sábio para inventar uma melhor.
O amor é feito de paciência e arte da transpiração
é feito da sabedoria dos que nasceram para viver.
Cada história de amor ou sua fulminante negação
tem a sua própria época e prioridades a condizer.
Quando as tuas já são outras eu aceito dar o
lugar.
Amigo não pisa amigo se não conta para a equação.
Cada história de amor custa mais decorar que despir
e custa mais vestir do que deixar a cama arrefecer.
Mas por muitos esforços que faça não vou conseguir
despir a pele que o Pai escolheu para comigo trazer.
Esta frase aprendi há pouco de uns estrangeiros
- Antes de criticares põem-te nos meus sapatos.
Eu não posso, não consigo ser quem não sou
- Basta ouvir a sua voz e sei que por aí não vou.
Deus
"Deus está morto, a arte deixou de existir, a
história
chegou ao fim e eu próprio não me sinto bem" Umberto
Eco
Contra a gripe, a febre e a constipação
contra o mau olhado da porra da infec
não duvide e não perca mais tempo.
Abra uma garrafa de vinho tinto.
Beba copo a copo com moderação
e não se esqueça desta minha afirmação.
Não um vinho qualquer meio martelado
um vinho alentejano bem encorpado
como promoção do melhor medicamento.
Como tributo à terra, à gente e à produção.
Beba copo a copo com devoção
e não se esqueça desta sábia opinião.
Caro leitor que não vai saber quem sou
até pode não acreditar no que digo
mas há muitos anos que não tomo
comprimidos para as dores de cabeça.
Em primeiro lugar porque não me dói
e se for o caso muito raro do contrário
para começar bebo meio copo de vinho.
Beba com devoção e metade do coração.
Vida
"O que é a vida senão a sombra de um sonho
fugaz?" Umberto Eco
A minha vida? Eu sempre fui uma boa boca
e me contentei com o que vinha para a mesa.
Se a refeição fosse farta como era contigo
aproveitava o repasto e tirava a barriga de misérias.
Se não fosse o caso, era paciente e não me queixava.
Os milagres das entradas e das nossas sobremesas
mais pareciam a confirmação que o paraíso existe.
Eram na terra milagres divinos feito por pessoas
momentos de amor que nos tornavam imortais.
Lembras-te quando foi a nossa primeira festa?
A nossa primeira cama, o primeiro dia da nossa vida?
Foi numa terça-feira de março o nosso primeiro poema.
Diabo
"O diabo não é o príncipe da matéria, o diabo é a
arrogância do espírito,
a fé sem sorriso, a verdade nunca tocada pela dúvida" Umberto
Eco
Quando a cegueira colectiva da maioria já for credo e
religião obrigatória
não se respeitar a opinião da agora minoria que pode ser
apenas temporária.
Quando a maioria dos eleitores acreditarem num futuro fácil
e barato
levados pelas respostas do populismo sabe tudo e discurso
simplificado.
Acredita que não estás sozinho que estás bem
acompanhado
que são muitos que pensam como tu, não te sintas abandonado.
Muitos que sabem pela história que contra a indigna
submissão
temos ao alcance da mão e da alma a nossa infinita insubmissão.
Temos de enfrentar o diabo mentiroso de uma mentira maior.
Temos de derrubar o falso profeta de um infame deus menor.
Poesia
"Fomos suficientemente inteligentes para
transformar
uma lista de roupa suja em poesia" Umberto Eco
Bom dia. Com o tempo e a observar como faziam os mais
velhos
- mãe estava longe e a vida era aqui - descobri que era mais
prático
lavar a roupa ao fim do dia, todos os dias no lavatório
da sala de banho.
Lavava a roupa com sabão - chegou a ser azul que trouxe de Portugal -
e punha-a pendurada a secar no radiador do quarto da
residência.
Na manhã seguinte estava enxuta. Eram mais complicadas
as camisas
- felizmente na época usava sobretudo t-shirts - e pior as
calças
que tinham de ser passadas a ferro, mas como eram de
ganga
se não fossem centrifugadas e ficassem bem esticadas
mesmo sem ferro de engomar, estavam prontas a serem usadas.
Foram sete semestres na residência estudantil da
universidade.
Tantas recordações. Tantas histórias. Tão pouca roupa suja
para lavar.
Tanta roupa lavada para amarrotar, cheirar e amar. Tanta
poesia.
Abençoada juventude. Obrigado Ráday kollégium. Obrigado
Budapeste.
Invasão dos idiotas
"As redes sociais dão a legiões de idiotas o direito de
falar, quando antes só falavam num bar depois de um copo de vinho, sem
prejudicar a comunidade... mas agora têm o mesmo direito de falar como um
Prémio Nobel. É a invasão dos idiotas.” Umberto Eco
Estamos cercados por muita raiva de cão
muito presente por ser apanhado do chão.
Estamos perdidos com tanta bolinha seca
tanta camisa de vénus suja e esburacada.
Tanta trampa, restos de rabos em tampos de sanita
para quê fabricar lavatórios se nem as mãos lavam.
Não lhes chames ralo, sifão nem venerável válvula
ou vibrador vibração que dá gozo à vulnerável vulva.
Quando estava a falar parecia que estava a dormir
e a dormir parecia que estava a vomitar e a tossir
a ressonar grosso como uma osga ou uma lagartixa.
Mastigava uma salsicha de barba, bigode e barbicha.
Que seria se fossem para o diabo que vos carregue
deixassem o presente e o futuro para quem os merece.
Budapeste, 2025
Pedro Assis Coimbra
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
sexta-feira, 21 de março de 2025
Tempo de espairecer e envelhecer
Não há amor que
resista a vinte e quatro horas de filosofia
Camilo Castelo Branco
Envelheci a pensar em ti
E foi assim que
envelheci a pensar em ti.
Envelheci em
silêncio e a reduzir a desventura
a
distância da cidade portuária mais próxima
tão próxima que
não cabia no meu pensamento.
Assim como quem
não acredita no destino
inquieto sem
dar conta das mudanças do vento
com o mais velho
e mais escuro caudal do tempo
fui aguadeiro camaleão
a desaguar no rio da vida.
Era tarde para sair
e mudar de embarcação
e cedo para aproveitar
a substância da baixa-mar.
Assim como um
estivador abraçado ao seu cais
sem grandes
pressas envelheci a pensar em ti.
Cresci contigo
Sem estar vacinado
cresci a sonhar contigo
como se fosses
uma madrugada madrinha
ou uma bela
mulher que sai à rua para se mostrar
querer-nos
convencer que é ela o nosso futuro.
Cresci contigo
porque nasci no tempo da lua cheia
quando a manhã
se atrasava e o sonho era gratuito.
Não sabia como
te beijar, mas coragem não me faltava
sentia que um
amor como o nosso teria de dar certo.
Sem hesitar avancei
e ainda hoje sigo em frente contigo
pelas avenidas
que nos ajudam a chegar ao nosso abrigo.
Partilhando as
ideias e os sonhos, escutando os outros
porque sabemos
que a liberdade tem valor se for de todos.
Foi por ti que sonhei
Foi por ti que
sonhei viajar sozinho
Por ti que sem medo saí do meu país
Foi por ti que
me fiz ao caminho
Só por ti é que
fui árvore e sou raiz.
Foi por ti que
viajei longe para te trazer até mim
Com violinos
nas asas e uma guitarra em cada mão.
No dia da
chegada organizar um grande festim
Onde pudesse juntar num só o teu e o meu coração.
Foi por ti que
sonhei e foi por ti que fiquei
- Framboesa húngara e um mirtilho português
ou vice versa com uma ranchada de rebentos.
Para casar
contigo para o resto das nossas vidas.
Para te esquecer
Foi para te
esquecer que sai de casa a correr
foi para não te
lembrar que sai para espairecer
cai em mim e
pensei o que vai ser de mim sem ti
voltei a casa a
correr com medo de te perder.
Ainda lá
estavas em roupão em frente do monitor
preparei à
pressa um café, mas como me esqueci
e não aqueci as
chávenas como costumas fazer
levei na
bandeja para ser bebido antes de arrefecer.
Foi por me
lembrar o quanto eu gosto de ti
e que possa de
novo sentar-me na poltrona
foi para te
recordar o quanto eu gostei de ti
é que a culpa
morre casada, viúva ou solteirona.
Emagreci a sonhar contigo
Emagreci a
sonhar contigo
Engordei a
olhar-te de longe
Emagreci ao
ver-te de perto
Infeliz por não
saber o teu nome.
Emagreci porque
estraguei tudo
Emagreci por me
armar em esperto
Engordei porque ao abrir demais a boca
Porra sem
querer dei cabo do resto.
Deixei de comer
ao sentir-te tão perto
Deixei de beber
ao ver-te ao meu lado
Deixei má sorte
de o fazer por descuido
Por um erro primário de folha de cálculo.
Emagreci porque
esqueci o seu nome
Será que ela se
chamava Clarisse?
Quem disse que
a formiga tem catarro
Meter-me onde
nunca fui chamado.
Engordei porque
era um esforçado comilão
Engordei mais porque
era um rapaz brincalhão
Porque brinquei
muito contigo à apanhada
Às escondidas às casinhas e à cabra-cega.
Emagreci por
não ter pingo de vergonha na cara
Engordei à bruta porque nada me vinha à cabeça
Emagreci porque
esqueci o que queria rimar
Por
não ter um buraco onde me pudesse enfiar.
A descer as escadas
A descer as
escadas deslizei a correr pelo corrimão
A descer as
escadas faltou pouco para um grande trambolhão.
A subir as
escadas tropecei e bati com o nariz nos degraus
Dá muito
trabalho subir escadas sem bater com ele no chão.
A subir as
escadas tive uma vertigem do pior e em grau superior
Como se nunca
tivesse visto uma moça bonita à porta do alçapão.
Foi um
trambolho trampolim da atração tramada pelo trambolhão
O que me valeu
foram os dois paus que tinha trazido do Equador.
A descer as
escadas esqueci-me que podia ter apanhado o avião
Não caia nem
tropeçava e bastava agarrar-me ao corrimão.
A descer as escadas evitei a tempo a distração do tombo da nação
A subir as escadas não tropecei, mas levei um valente empurrão.
Disserta filosofia
Disserta sem descanso filosofia trinta e seis horas por dia
disserta sem
desconto cortesia e outros textos da ventania.
Enquanto pões a
máquina de lavar roupa a trabalhar
não te esqueças
da vibração que ela sente por te amar.
Do ranger das
dobradiças da fechadura a precisar de óleo
E da chave que
de não ser usada está cheia de ferrugem
Se a erva está
murcha a sacanice faz muito bem à pele
à penugem sagrada
no espaço vadio da vadiagem.
Disserta sem
desconto as tuas aulas de filosofia
Disserta sem
descanso, noite e dia e a bom preço
mas
não sejas cara de pau, faz-te às vezes de malandro
moleiro a vender o pão à freguesa mais madrugadora.
Budapeste, 2025
Para o livro
“De mim ficam as Palavras”
quinta-feira, 20 de março de 2025
Introdução
Querida ele esteve cá hoje?
Sim, tu sabes que sim. Saiu há pouco.
Fizeram amor, não foi?
Sim. Fizemos como sempre fazemos.
Olhou-a nos olhos, o convite era tão forte.
Agora é a nossa vez de crescer. Vamos para cima.
Nesses momentos era outro, transformava-se.
Parecia um potro a correr livre na planície.
Naquele tempo bendito de liberdade
nada se comparava àquela introdução.
Amaram-se feitos um só, gulosamente
como se fosse a última vez, não houvesse amanhã.
Sentia-se no ar que nada o excitava tanto
como imaginar a sua jovem e amada mulher
metida na cama com o seu melhor amigo.
Era tão bom ter com quem a partilhar.
Estava à sua espera
Havia anos em que o meu amante
fazia mil e oitocentos quilómetros.
Conduzia à vez com o meu marido
para matar as saudades que tinha.
Vinha porque sabia que seria bem recebido
como um dos melhores amigos da família
ao jantar seria dos primeiros a ser servido
sabia que eu também estava à sua espera.
Quando é verdadeiro, o amor é entrega.
Ele fazia todos aqueles quilómetros
para passar comigo duas ou três tardes
e fazer do verão a rosa da nossa paixão.
Depois despedia-se com o coração cheio.
Voltava feliz contando os dias que faltavam
para o meu regresso nos finais de agosto.
Para esse mundo especial que era o nosso.
A primeira vez
Para continuar os estudos deixei a aldeia e fui para a
cidade
para um quarto alugado com uma prima da minha idade.
Vivia pertinho do liceu e de uns velhos amigos dos meus
pais
de quem, em toda a minha meninice, apenas ouvi dizer bem
do prestígio, ele advogado e ela médica, um exemplo a
seguir.
As poucas vezes que os vi guardei a imagem de um casal perfeito
de um casal muito bonito e alegre, de gente culta e simples.
Como criança pensei "quando for grande quero ser como
eles".
Várias vezes me convidaram para lanchar na sua casa
e depois para ir estudar e fazer os trabalhos de casa
porque lá estava mais sossegada e concentrada.
Estudava primeiro na cozinha e depois na biblioteca.
Foi ali que os meus jovens pensamentos voaram, sentia-me atraída
pelos seus cabelos grisalhos, o sorriso aberto, a sua voz
melodiosa.
O sentimento crescia em mim, em demasia para a tenra idade
e na minha imaginação via que os meus sonhos pareciam realidade.
Estava escrito, as coisas aconteceram como tinham de
acontecer.
No divã, entre livros, deixei de ser menina e tornei-me uma mulher.
Apesar dos seus remorsos, ali ou no meu quarto continuamos
a fazer.
Foi com ele e as nossas tardes que depois da dor descobri o
prazer.
Por falta de cuidado como quase sempre acontece, fomos
apanhados.
O escândalo nunca visto foi abafado, ficou em
família.
Para evitar males maiores tive de mudar de terra, mudei de
país.
Esconder os olhos
Nos primeiros meses da minha emigração o meu trabalho
foi tomar conta de uma menina pequenina enquanto os
pais
trabalhavam, saíam ou estavam em casa, mas sem tempo
para se ocuparem com a filha. Eram os dois arquitectos
e viviam numa das melhores zonas dos subúrbios da capital.
Era uma miúda acabada de chegar, sem maldade
nenhuma
mas cheia de vontade de me integrar e aprender
depressa
a ser moderna, eu que vinha de uma terra
tão pequena
tão atrasada em relação àquela cidade tão cosmopolita.
Sentia-me deslocada e insegura, mas nunca tive jeito
para baixar a cabeça, esconder os
olhos e talvez por isso
o senhor arquitecto aos poucos começou a olhar-me
e de forma sorrateira os olhos foram conversando.
O meu quarto era no rés do chão ao lado da sala do duche
e numa manhã enganou-se na porta e entrou no meu quarto.
Fechou-a atrás de si, pôs o dedo na boca e sorriu-me
cúmplice
como quem diz, não fales, não faço mal, não tenhas medo.
Aproximou-se da minha cama e abraçou-me
suavemente começou a acariciar-me o cabelo
a beijar-me a boca, a descer as mãos pela minha pele.
Tirou-me o pijama, fiquei nua e totalmente indefesa.
Estava toda arrepiada, gostava, mas tinha medo
do que estava a acontecer. Ele olhou-me nos olhos
e como se fosse a coisa mais natural do mundo
entrou em mim. Eu recebi-o com um gemido contido.
Foi assim durante bastante tempo, eram muitas as manhãs
que descalço vinha tomar o duche ao meu quarto.
A esta distância estou convencida que a
esposa sabia
e o incentivava a continuar, talvez desejasse
participar
mas não deram esse passo, não me quiseram assustar.
À boleia
Estava à experiência a trabalhar num café da
periferia.
Era domingo e por um nadinha perdi o autocarro
e pelo próximo tinha de esperar mais de uma hora e pensei
que o melhor seria pôr-me à boleia, talvez tivesse
sorte.
Passado um tempo parou um carro, um senhor simpático
e sorridente perguntou para onde é que eu queria ir.
Disse que me levava, mas antes tinha de
parar numa casa
que estava a renovar, não me preocupasse, chegava a tempo.
Não me quero fazer de coitadinha ou para mim tanto faz
mas a verdade é que acabamos com ele em cima de mim
numa sala vazia apenas com as paredes e janelas
acabadas
com as nossas roupas amarrotadas a servirem de tapete.
Depois mais limpos e arranjados levou-me ao trabalho
e quando acabei o meu turno ele estava à minha espera.
Nos dias, meses seguintes continuamos a encontrar-nos
e a levar-me a locais onde nunca imaginei um dia estar.
Ele era um homem charmoso com amigos importantes
e como pude observar com hábitos muito surpreendentes
havia muita liberdade, não se importavam quem estivesse a ver.
Clubes muito reservados onde o sexo estava sempre
presente.
Ilusão e deslumbramento podia ter caído fundo no poço
mas foi ele que depois de me mostrar como seu novo troféu
me protegeu, não me deixou ficar sem pé nem afundar.
Estou-lhe grata, mas ainda hoje penso que fui abusada por ele.
Os versos e reversos da vida e outras histórias que ficam por contar.
Professor de matemática
Professor de matemática de liceu era um pouco mais novo que
eu
e foi o homem mais bem-posto e mais bonito com quem estive.
Na gaveta das minhas memórias, o começo da nossa
história
foi dos momentos mais ardentes e apaixonantes da minha vida.
Estava a atender um cliente e senti que fora alguém me observava
olhei de forma discreta para ver quem era, mas ele já tinha
entrado.
Como nesse dia estava sozinha, esperou a vez de ser
atendido.
- Desculpe, mas eu não quero comprar nada, entrei para lhe
dizer
que já me esqueci quando vi uma senhora tão formosa e elegante.
Só por si valeu a pena ter parado nesta pequena e delicada
cidade.
A paixão não foi longa, mas aquele belo-homem bem cheiroso
na estratégia triunfante da sedução era um verdadeiro
campeão.
Ele trazia consigo a chama que dentro de mim
acordava
toda a emoção voluptuosa que uma trintona guarda em si
e espera o momento certo para se libertar, para viver e
sentir
de aproveitar até à perdição a visita guiada ao paraíso
do prazer.
Quando a magia passou, custou aceitar o fim do "romance da
loja"
mas não havia volta a dar e fui em frente, fui eu que tomei
a decisão
de acabar e não aparecer no nosso discreto hotel à saída da
cidade.
Fiquei num parque de estacionamento a fazer tempo de ir para
casa.
Ainda me telefonou a perguntar e a pedir explicações
mas ao saber a razão ficou tão ferido no seu amor-próprio
que nem amigos ficamos. Nunca mais soube nada dele.
Com a minha amiga
Com a minha melhor amiga, ela divorciada e livre e eu
casada
e com filhos, em vários anos no verão passamos uns dias
juntas.
Apenas as duas como se eu fosse solteira e sem prole como
ela.
Uma vez no país vizinho o nosso alojamento era uma cama de
casal.
Durante a noite de forma espontânea como fazia com o meu
marido
encostei-me e ela tímida acariciou-me o peito e os seios, a
barriga.
Beijou-me suavemente o pescoço como se soubesse que era o
mimo
a ternura que eu mais adorava e excitava. A maravilha
aconteceu.
Nesse dia, nas manhãs e noites que vieram. Umas férias de
loucura.
Nos anos seguintes continuamos as escapadinhas, a paixão secreta
de duas amigas apaixonadas, mas eu continuei a preferir
homens
e a nossa linda aventura acabou. A amizade também, não
resistiu.
Como poderei eu esquecer
A mais ousada das minhas histórias de amor
a mais bonita foi com um jovem universitário
quase quinze anos mais novo do que eu.
Começou com o seu lindo olhar fixo em mim
e como durou tanto tempo, quando acabou
com o que sabia, parecia ter a minha idade.
O jogo de o seduzir, de permitir os seus avanços
de preparar o caminho, de abrir o portão da minha vida
de saltar o muro dos preconceitos da diferença de idades
de o termos feito à frente de todos sem ninguém se dar conta
e com a arte mais discreta que se possa imaginar.
Ali, em que todos sabiam de todos e tudo se sabia
foi o maior desafio-paixão de disfarce que me aconteceu.
Foi o jogo mais maravilhoso que jogadora joguei
os melhores momentos de fascinação, desejo e entrega.
A banda filarmónica a tocar, as pessoas a dançar
a algazarra das crianças, da juventude e nós ali tão
perto
celebrando a nossa festa com o esplendor do amor.
Por muitos anos que viva nunca me vou esquecer
nem nunca deixarei de estar grata ao meu marido
que entrava connosco e subia para o outro quarto
cedia a sua cama e entregava a esposa à paixão
à energia inesgotável do seu jovem príncipe encantado.
Ainda hoje me escreve "Lembras-te?
De vez em quando, ainda te lembras de mim?"
Tonto, como te poderia eu esquecer!
Ficaram as saudades
Estava depois dos cinquenta, sentia-me bem, achava-me
bonita
não tinha pressa em ser idosa antes de tempo quando solidária
a vida me ofereceu mais uma prenda, uma nova
oportunidade.
Deu-me a conhecer um homem com um H grande.
Era mais velho uns bons anos, mas com uma pedalada.
Os nossos encontros eram como se fossem cronometrados
tínhamos três horas à disposição até o meu esposo
voltar.
Três que sabiam a trinta e resgatavam todos os meus sonhos
que sabiam a pouco tal a intensidade, o ritmo do seu
pedalar.
Se aprendi tanto com ele no amor, que dizer da sua sabedoria?
Abriu-me a cabeça como ninguém antes dele tinha
feito.
Como ele me transmitiu saber, cultura e
filosofia.
Eu tinha a sensação clara de que ele sabia tudo e de
tudo.
- O meu mestre na cama, na cultura e no conhecimento.
Numa das nossas tardes de paixão, por ciúmes infundados
decidiu castigar-me, deixou-me pendurada e não apareceu.
Eu estava à sua espera com a minha lingerie mais ousada
de mulher que sabe o que quer, como o excitar ainda
mais.
Sem ele a casa ficou vazia e a tarde vestida de
solidão.
Devido ao meu orgulho ferido não nos voltamos a
encontrar.
Ficaram as saudades e o seu lugar cativo no meu
coração.
Se um dia de surpresa bater à minha porta vou deixá-lo
entrar.
Amor a três acabou
Há muito que sou uma mulher casada com um homem maravilhoso
O meu ombro perfeito, meu defensor primeiro,
o meu porto de abrigo.
Motor do meu elevador social, país de acolhimento,
meu melhor amigo.
Meigo e cuidadoso, ternurento e tolerante, é o meu eterno apaixonado.
Durante anos tive uma vida partilhada: à tarde
era do meu amante
e de noite era do meu marido. Para
mim foi natural viver assim.
Pouca gente soube dessa faceta da minha vida e se souberam
foi porque eu lhes disse e os vizinhos que viam o carro ali parado.
Recordo como se fosse hoje, a primeira vez com os dois
em casa
à hora de deitar. Estava na cama e o meu esposo perguntou-me
- Não queres ir para cima ter com ele?
- Gostaria, mas tu não te importas?
- Sabes bem que não, para mim o que conta é a tua felicidade.
Foi talvez a noite mais intensa que passei com ele, o meu amante.
O amor a três acabou há muito, mas a amizade ficou e ainda hoje
aos sábados sentamos os três no café e pomos a conversa em dia.
Foi amor à primeira vista
Foi amor à primeira vista, ao primeiro, segundo e terceiro
olhar.
A história de amor e da paixão pelo homem da minha
vida
conta-se num episódio uma frase que está presente na
minha alma
como se ele tivesse dito esta manhã depois do
nosso primeiro beijo.
Eram as primeiras semanas, época que quem namorou
nunca esquece
quando o amor pede cada momento, todos os
momentos, todos os dias
mas ele pelo seu trabalho teve de se ausentar durante duas semanas.
Quando regressou segurando-me as mãos, olhando-me
como só ele sabe
disse-me: Meu Deus tinha-me esquecido como és bela, deslumbrante!
Ainda hoje fico comovida e vêem-me as lágrimas aos olhos.
Serei a sua namorada e mulher, a sua amante e amiga.
A sua companheira até ao último dia, última hora
da minha vida.
Budapeste, 2023-2025
Para o livro “De mim ficam as Palavras”
quarta-feira, 19 de março de 2025
Oxalá
Queira Deus que não seja o que se sente vir...
Foi pior, o horror metódico e criminoso: o Holocausto
Carta a Radnóti Miklós (1909-1944)
- O irmãozinho vem a caminho - vivem numa rua
que cruza com a rua que leva o teu nome - Radnóti Miklós
em Lipótváros, no bairro que foi sempre o teu, o bairro
XIII.
Assim, sempre que os vamos visitar ou levá-lo a passear
passamos pela tua rua e vemos a tua estátua discreta.
Miklós - Glatter antes de ser Radnóti -, estive a ver as
tuas fotografias
fiquei com a ideia de que eras um rapaz bonito, um homem
elegante
um Poeta conhecido, de renome, com P grande. Lias
regularmente
a tua poesia na rádio. Não admira que muitas miúdas, as
mulheres
tivessem um fraquinho por ti. Sabes que eras um homem com
sorte?
Fanni a tua Musa-Namorada de sempre era paciente e
compreensiva
- Sim, eu sei que começaram a namorar eram ainda quase
crianças -
e mesmo cheia de ciúmes, das zangas, perdoava as tuas
aventuras,
com a jovem alemã klementine ou com a fogosa Judit, a tua
pintora.
Arckép
Huszonkét éves vagyok. Így
nézhetett ki ősszel Krisztus is
ennyi idősen; még nem volt
szakálla, szőke volt és lányok
álmodtak véle éjjelenként!
1930. október 11.
Retrato
Tenho vinte e dois anos. Assim
devia ser a aparência de Cristo no outono
nessa idade; ainda não tinha
barba, era louro e as raparigas
sonhavam com ele à noite!
11 de outubro de 1930.
Caro Poeta, já estamos no primeiro quarto do século vinte e
um.
Agora é comum falar sobre a importância da baixa pegada
carbónica
de desenhar a estratégia sustentável para o futuro da
humanidade
da comunicação imediata das redes sociais, das novas
liberdades
e dos velhos discursos do ódio recauchutado, sempre
mobilizadores.
A cegueira dos custos não imputados ao populismo assassino.
De custos, direi que para ti era em primeiro lugar a vida, a
sobrevivência
que te custava caminhar, estar de pé, estar sentado, estar
deitado.
Que morrer só depois de sonhar e de voar, de cair e de novo
se levantar.
Escrever a última agonia antes da última bala, o último
postal ilustrado.
Poeta, 4 postais para te ilustrar e iluminar, para te recordar e eternizar.
Negyedik Razglednica
Mellézuhantam, átfordult a teste
s feszes volt már, mint húr, ha pattan.
Tarkólövés. - Így végzed hát te is, -
súgtam magamnak, - csak feküdj nyugodtan.
Halált
virágzik most a türelem. -
Der springt
noch auf, - hangzott fölöttem.
Sárral
kevert vér száradt fülemen.
Szentkirályszabadja, 1944. október 31.
Quarto postal ilustrado
Eu caí ao seu lado, o seu corpo virou-se
e já estava esticado, como a corda quando se parte.
Um tiro na nuca. - Assim acabas tu também, -
Sussurrei para mim próprio, - fica calmo e quieto.
A paciência floresce agora na morte. -
Der springt noch auf*, - ouviu-se por cima de mim.
Sangue misturado com lama secou nas minhas orelhas.
*Ele continua a saltar
Szentkirályszabadja, 31 de outubro de 1944
Acorda meu amigo, a Fanni está à tua espera, jovem, bela e
apaixonada
como nos dias especiais, com um bolo de requeijão e um
körtepálinka
com um exemplar do teu Bori notesz, símbolo maior do pior
pesadelo.
Para te dar a novidade que em Budapeste há um teatro com o
teu nome
que nenhum judeu é perseguido, nem os católicos convertidos
como tu.
Há presente e há futuro mesmo quando a negra escuridão
parece ser mais forte que a luz, que o clamor do amor!
Budapeste, 1 de março de 2025
Születik a Vers (Nasce o Poema). Em memória de Hajnal László
Hajnal László, nascido Grün László (1902-1943)
Foi jornalista, em jornais como Magyar Szó (Palavra Húngara)
Zsidó Jövö (Futuro Judeu) e na revista Fekete Macska (Gato Preto).
Velho companheiro, com o Gato Preto vieram-me à cabeça
outros gatos, outras gatas nocturnas, outras épocas…
Em Budapeste no início dos anos oitenta do século passado
numa esquina perto da residência da rua Ráday havia um bar
"Fekete Macska", eu era um törzsvendég (cliente habitual).
Como estava perto da cama, podia abusar e abusei muitas vezes.
Foi ali entre canecas de cerveja e copinhos de aguardente
que comecei a série do Gato Preto. No verão seguinte
o Zetho convenceu-me a publicar em edição para amigos.
Como não encontro o único exemplar que tinha dos 50
editados por uma tipografia de Almeirim, vou tentar de cabeça
reinventar um dos 13 textos que compunham a plaquete.
Por volta dos quarenta, de calças apertadas caminhava pela
rua.
Na cidade não havia quem soubesse dançar assim como ela
a dança moderna e indiscreta das ancas e das nádegas pela calçada.
Os homens nem verbo-piropo tinham, calados ficavam sentados
a olhar, a imaginar outros bailes e outras festas, outros arraiais.
Era tão fogosa que com medo de se queimar,
ficarem com os dedos esturricados, não havia alma
que se chegasse à frente, que atravessasse a ponte da fortaleza.
Quem ganhava com a falta de coragem era o gato preto da casa
habituado que estava não a caçar ratos ou pardais, mas a dormir
na borralha da cinza morna, quentes e boas, entre as coxas da dona.
Hajnal László escreveu poesia, prosa, peças de teatro e crítica literária.
Születik a vers
Ilyenkor tárjuk fel a mellünk,
A napsugárt szívjuk le mélyre
Kitárt két karral ünnepeljünk,
Mert az isten született bennünk,
Dobjunk el minden földit félre,
Mert elindult felénk a Vers...!
Nasce o poema
É chegado o tempo de abrir o peito
Deixar o sol descer até ao fundo,
Festejar de braços abertos,
Porque Deus nasceu em nós,
Deixemos de lado todas as coisas terrenas
Porque o Poema vem ao nosso encontro...!
Nasceu no último dia do ano, 2 depois da madrugada do século XX e em janeiro de 1943, desapareceu como "munkaszolgálat" (recruta forçado sem armas) na Frente Oriental, na URSS. Não se sabe onde nem exatamente quando, como judeu-carne para canhão, desarmado, esfomeado e muitas vezes espancado só porque lhes apetecia.
O munkaszolgálat foi uma instituição militar especial criada na
Hungria durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto. Era um “serviço” de guerra realizado
nas forças armadas húngaras, mas sem armas e exclusivamente sob a forma de
trabalhos forçados. Normalmente nos combates iam à frente dos soldados do exército
húngaro.
Budapeste, 2 de março de 2025
Éva élni akar (Éva quer viver). Em memória de Pajzs Elemér
A Pajzs Elemér (1894-1944)
A Éva desta história, ao telefone não parava de falar.
Falava, falava e sorria dos seus lindos olhos escuros
lanternas para os lábios finos e a sua boca bem feita.
À volta todos sabiam sobre de que falava com a amiga.
Para os curiosos, a história conta-se em um minuto.
No sábado à noite tinha estado com colegas do trabalho
a beber uns copos, alguns cocktails e sem se dar conta
tinha-se deixado seduzir, na verdade tinha seduzido
o empregado mais jeitoso do famoso bar em ruínas.
Ia ter com ele. Há muito tempo que não estava tão
feliz.
Tinha um cabelo louro que chamava a atenção
e apesar da pouca luz, fim de tarde de um dia escuro
- ainda não tinham acendido as luzes do eléctrico -
via-se um rosto perfeito e umas sobrancelhas cuidadas.
As unhas arranjadas, discretas destacavam-se.
Estavam pintadas de azul com tons de março
mês que anuncia e desperta paixões ardentes.
Éva era a jovem mais bonita das viagens da semana
(mas também é verdade que era só segunda-feira).
Seria Éva ou será que fui eu que inventei o nome
à jovem e esbelta desconhecida sentada à minha frente?
Talvez porque nesse dia tinha estado a ler Pajzs Elemér.
Um texto escrito há mais de cem anos e que não
disfarça
o erotismo natural de um convertido askhenazi húngaro.
Éva élni akar (Éva quer viver)
Talvez seja desejável. Sabeis isto, mãe.
Eu quero viver. Amar. O meu marido, se tiver um.
Ou outro homem... O meu sangue é quente... quente...
Peço desculpa mãe, por dizer estas coisas.
e se te zangares, deves perdoar-me, sou uma rapariga velha.
Velha. Vinte e oito anos. E o meu sangue é quente. A arder...
a arder, a fermentar como mosto. Eu quero amar...
Pajzs Elemér, 1912
Escritor que encontrei com as pesquisas e preparação
do livro de homenagem aos dois diplomatas portugueses
- Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho -
que em Budapeste no ano 1944 salvaram do holocausto
a vida a cerca de mil judeus húngaros. Gente valente!
Pajzs Elemér, nascido Schön Elemér, escritor, jornalista, autor de peças de cabaré e tradutor literário. Judeu-húngaro convertido, foi um grande admirador de Salazar. Visitou e escreveu vários artigos sobre Portugal. É o autor do livro "Salazar: Egy kis ország nagy építője", 1942 (Salazar: O grande construtor de um pequeno país), mas nem a proteção portuguesa o salvou da morte.
Em 1944, Elemér estava com a mulher e
o único filho numa casa protegida da legação de Portugal e foram os três
assassinados por milícias do partido nazi húngaro.
Budapeste, 3 de março de 2025
Ilyen az élet (É a vida). Tributo a Rejtő Jenő (1904-1943)
Rejtő Jenő, nascido Reich Jenő, pseudónimo P. Howard.
Em jovem também escreveu poesia.
Most
vége... vége... emberek
Bolond az
mind ki vár remél
Ősz van az
űrben ősz hideg
S a föld a sárga falevél
– (Reich Jenő: Világromlás, 1923 k.)
Agora acabou... acabou... gente
Tontos são os que esperam com esperança
É outono no universo, um frio outono
E a terra é uma folha amarela
- (Reich Jenő: Decadência do mundo, 1923)
Banana descascada rima com sacana sem vergonha
Laranja cor-de-rosa rima com canja de pato bravo
Ameixa de perna aberta rima com madeixa da menina
Neste mundo paralelo e virtual de tanta esperteza saloia.
Porque no politicamente correcto do nosso tempo
temos a guerra quase perdida, a ilusão da liberdade.
Há quem diga com a convicção rasca de ilusionista barato
que chegou a hora de desertarmos, abandonarmos a cidade.
Apetece mandá-los um por um para a puta que os pariu
mas a contagem das espingardas é-nos tão desfavorável
que é apanhar, comer e calar, deixar-se ficar
invisível
porque não foi um ditador que depois de tanto mando caiu.
Lembrar como era a vida e a morte há oitenta anos
como era assassinada a cidadania e espezinhada a liberdade.
Não perder a esperança nos homens e mulheres de boa
vontade
porque chegará a hora do ajuste de contas, a morte dos
tiranos.
Um pintassilgo do povo mesmo escondido não desiste de voar
mesmo disfarçado não deixa de ser livre, de pensar e de
cantar.
Rejtő Jenő (29 de março de 1905-1 de janeiro de 1943) judeu húngaro, entre as duas guerras mundiais, foi um destacado jornalista, escritor e dramaturgo. Famoso pelos seus livros e novelas - romances de aventura e policiais, normalmente caracterizados pela ironia e o humor absurdo. Como muitos outros, ele também foi levado como "munkaszolgálat" (recruta forçado sem armas) para a Frente Oriental, para a região do Dom na Ucrânia, URSS, onde o exército húngaro combatia.
Não se sabe exatamente como passou Rejtő os seus últimos meses. Sabe-se que mesmo doente, até ao último dia, continuou a entreter e a divertir os seus camaradas de infortúnio. Não se conhece o local onde foi sepultado nem como morreu. É provável que as suas cinzas estejam algures na actual Ucrânia independente.
Ilyen az
élet; egyszer lenn, egyszer fenn. És végre is: odafenn már nem fáj
semmi. Rejtő Jenó
É a vida: uma vez em baixo, outra vez em cima. E finalmente:
lá em cima, já nada dói.
Budapeste, 4 de março de 2025
Mit is akar a hangya? (O que é que a formiga quer?). Em memória de Liget Ernő
Liget Ernő, antes Lichtenstein Ernő (1899-1944)
Doutorado em direito, foi jornalista, escritor e poeta.
Mit is akar
a hangya? (1916)
Szívem, mit
mondjak néked el,
hogy tűnnek
hosszú évek el,
hogy másnak
kéne lenni
s nem lesz
belőlem semmi.
Szívem, mit
mondjak néked el,
szívemben
madár énekel
tejüveg
gyönyörű hanggal,
mint álomban az angyal.
O que é que a formiga quer? (1916)
Minha querida, como é que eu te vou dizer
Como os longos anos se foram,
Que eu deveria ser diferente
E que de mim não serei nada.
Minha querida, como é que eu te vou dizer
que um pássaro está a cantar no meu coração
Com uma bela voz de cristal
Como um anjo num sonho.
Em 11 de janeiro de 1945 Ligeti Ernő foi assassinado. Ligeti, a mulher e o filho foram arrastados do apartamento que estava sob a proteção da Embaixada da Suíça, por uma brigada de nazis húngaros e levados para a sede do partido na avenida Andrássy, 60. Ali foram torturados e à noite executados na Praça Liszt Ferenc, por ordem do padre católico Kun András, criminoso de guerra que foi enforcado em setembro de 1945.
O filho Ligeti Károly (1928-2015) sobreviveu milagrosamente às balas, em 1946 emigrou para a Alemanha e em 1950 para os Estados Unidos.
Não me digam mais nada senão morro (Ary dos Santos)
Não me digam nunca, nunca mais que os judeus
tanto irritaram tanto provocaram tanto enraiveceram
que alcatroaram o caminho do seu próprio destino.
Que eram um corpo estranho, um inimigo da nação
que se puseram a jeito estavam mesmo a pedi-las
que comeram a sopa que eles próprios cozinharam.
Não me digam mais porque como ainda estou vivo
não tenho alternativa, não vou calar e ficar em
silêncio
antes de morrer vou disparar a matar para nos tentar salvar.
Shoah nunca mais! Não aos outros genocídios!
Levantar a voz de protesto e de luta, denunciar
os genocídios sejam de ontem, de hoje ou de amanhã.
Budapeste, 5 de março de 2025
Carta-Tributo ao Professor Szerb Antal (1901–1945)
Mensagem para aqueles que por acaso venham a ler esta carta sobre
a intolerância, discriminação e racismo assassino, que
na minha opinião
continua mais actual do que seria racional. Oxalá esteja enganado.
Prezado Senhor Professor
Se lhe dá alegria, gostaria que soubesse que mesmo morto
mesmo ausente, continua presente e é mais consultado
do que a maioria dos seus compatriotas contemporâneos.
Eu sei das 3 leis anti-semitas, como os fascistas
húngaros o trataram
como o perseguiram, o proibiram de ensinar, de
publicar, de viver
como o internaram no campo de trabalho forçado de Balf
como o assassinaram quando de tão enfraquecido já não
rendia.
Mataram-no à coronhada no dia 27 de janeiro de 1945
quando era evidente que a guerra estava perdida para a Alemanha
dia da libertação de Birkenau-Auschwitz pelo Exército Vermelho.
Hoje é o Dia Internacional das Vítimas do Holocausto.
Um dos exemplos das tragédias húngaras no século XX.
Apesar de muito religioso, nascido judeu, mas católico
convicto
o jovem Antal amou como se não houvesse um
minuto a perder.
Nem sempre foi bem-sucedido, mas tal não o fez desistir.
Com Klára, a segunda mulher, encontrou o seu próprio
romance
aquela que foi a sua companheira até ao último dia da sua
vida.
Excerto de um soneto escrito com 22 anos para uma colega universitária.
(Como ela não lhe correspondia, casou-se com a irmã 5 anos mais nova.
Casaram e divorciaram-se 2 vezes.)
A távolságot szeretem miköztünk. (...)
Te meg én, világ két sarkából jövők,
a testünk más – szőke a
Te hajad,
a vérünk más – az enyém nyugtalan
s integetnek idegen jövők –
a vágyunk mégis egyfelé halad
(Részlet:
Violaine-szonett), 1923
Gosto da distância entre nós. (...)
Tu e eu, vindos de dois cantos do mundo,
os nossos corpos são diferentes - o teu cabelo é loiro,
o nosso sangue é diferente - o meu é inquieto
e acenam futuros estranhos -
mas o nosso desejo vai na mesma direção.
(Excerto: Soneto de Violaine), 1923
Permita-me a minha resposta, a minha interpretação:
Para saber dar valor à vida, do amor partilhado com a dor
à ansiedade virtuosa de quando moramos na mesma casa
à exaltação da emoção quando dormimos na mesma cama
e à intensidade da sedução quando habitamos um no
outro.
No mundo das nossas vidas, da ternura partilhada com
amargura
a distância é o selo de garantia dos domingos do nosso
Amor.
o certificado fugaz das manhãs frias e das tarde
perdidas.
- Dos cinzentos dias da semana em que nada mais
acontece.
Em nós a distância com desencontro e ausência é nosso refúgio,
o melhor do nosso caminho, a flor da madrugada, a luz do luar.
Para nós a distância é o triho que nos leva ao nosso destino.
Szerb Antal foi uma das principais personalidades da literatura húngara do século XX. Nasceu em Budapeste a 1 de maio de 1901 numa família de judeus convertidos ao catolicismo. Com uma grande apetência para os idiomas rapidamente se destacou como escritor, tradutor e historiador da literatura. Estudou alemão e inglês na Universidade e obteve o doutoramento em 1924, com apenas 23 anos.
Viveu em França, Itália e Inglaterra. Regressou em 1933 e foi eleito presidente da Academia de Literatura Húngara. Em 1937 tornou-se professor de literatura na Universidade de Szeged, ano em que publicou a sua obra mais famosa “Viajante à Luz da Lua”.
Budapeste, 6 de março de 2025
Sem Destino. Tributo a Kertész Imre (1929-2016)
Tributo a Kertész Imre (1929 - 2016)
Aos seus livros, incluídos os que eu não li.
Texto poético dedicado a Ernesto Rodrigues, com o seu
extraordinário livro “Hungarica” aqui à mão de semear.
Kertész
leszek fát nevelek (József Attila)
Jardineiro serei as árvores cuidarei.
Retiro uma a uma as pedras do Coração
com elas enfeito e decoro o nosso jardim
e protejo a velha árvore da nossa Paixão
desse Amor que eterno ficou em mim.
Do tempo em que menino a literatura degenerada
andou a sofrer e a arrastar-se pelo Sorstalanság
Sem Destino, a morrer por Auschwitz e Buchenwald.
O poema cheira a água do riacho do seu ventre
e como eu não fui prisioneiro nem sou sobrevivente
não associo o cabelo rapado à falta de um pente.
Navego somente do meu sonho até à sua nascente.
Vegsö kocsma - a última tasca da última estação do comboio.
- Dos vagões de gado para o matadouro do destino marcado -
A estação sem regresso e se há regresso é porque o milagre
existe.
Não haja ilusões ou ingenuidade mimada pela celebrada
libertação.
Totalitarismo rima com submissão, com obediência e
capitulação
e provavelmente só se pode vencer se derrotado por outro
totalitarismo.
- Mais forte e mais cínico e nós a fazermos uso
cartesiano do optimismo.
Budapeste, 7 de março de 2025
Passei alguns meses na preparação e seleção dos escritores: 6 mártires e 1 sobrevivente do Holocausto Húngaro.
Escrevi os 7 textos nos primeiros 7 dias de março de 2025.
Budapeste, 8 de março de 2025
terça-feira, 8 de agosto de 2023
PALAVRAS E AS MINHAS METÁFORAS
La chanson du vent te dit que mon amour t'attend.
O amor que move o sol e as outras estrelas.
Quero levantar o meu copo de vinho tinto
a tudo o que fui e não fui e gostaria de ter sido
ao que a vida me deu e ao que eu fiz pela vida
a tudo o que deixei por fazer e não foi pouco.
Mesmo em pleno outono avançado da vida
mais inverno que outra qualquer primavera
não quero por nada que este meu tempo
comece a recuar e a fazer marcha atrás.
Como outros já antes e melhor o disseram
para mim, saudades só de ti, só do futuro.
Podia escrever a linha imperfeita das mágoas
que trazia de volta as sombras das lágrimas
o amanhecer adiado das suas águas tépidas.
Mas um dia de surpresa entre gargalhadas
entornou parte do seu perfume na minha alma
que ali ficou e estará até ao fim das palavras.
Para viver à luz dos mistérios da nossa história.
A fragrância suave dos relevos doces da sedução
espelhada nos seus olhos - filha preferida do mar
navegava nas ondas com a salmoeira da emoção.
As carícias lisas das minhas mãos de tanto amar.
A primavera está a chegar em força e em festa
que sejam dias e dias pintados de muitas cores
com muitas flores com dálias e malmequeres.
Nesse dia caminharam pelas ruas estreitas da cidade
Iam de mãos dadas lado a lado nas folhas da lembrança
Não sabiam o que os esperava na esquina da Saudade
Antes de regressarem de táxi aos abrigos da bonança.
Sentiam que quando a lua chegasse para os abraçar
Já não seria muito cedo para quem tanto tinha para dar.
Noite de luar com muitas aventuras para partilhar
Inspiração que vinha da certeza de cada momento
Na calçada quem poderia tanta paixão adivinhar?
Amantes que juntos perdiam a noção do tempo.
Comprei uma caixa de lápis de cor para ajudar.
como se fossem palavras ditas por uma mulher?
Um pensamento, uma mente ousada e livre
que dizia atardar-me e eu entendia deliciar-me
poder ver no fundo da mensagem dos seus olhos.
- Ontem foi a noite que sempre sonhei para nós.
Era um poço fundo e estreito que indicava
Depois uma chuva morna de pouca dura
que mais fazia lembrar o sabor da tua boca.
Sim, quem nada quer, nada consegue
mas aqui, pelo contrário ela tudo fez.
Era o sol na figueira e mulher meia nua
de tanto seduzir nem o melro lhe resiste.
Ainda estou com o cabelo molhado
das carícias infinitas das tuas mãos.
No final sinto o coracão com mais fome
das tuas palavras e da nossa saudade.
Uma opinião criativa, muito atenta
de quem desconfia do verbo insinuar
e não o troca pela sua arte de encantar.
Intuitiva como o grande espelho de sala
que a devolve, me mostra e a ilumina
e deixa resplandecente a minha janela.
A framboesa mais deslumbrante da minha rua
às primeiras horas do dia passeava quase nua
vestida pelo sorriso da lua que a imaginava sua.
Um corpo que pela manhã se assemelhava à água
pronto a ser cantado para regalo dos ouvidos
que corria da bica da fonte na festa dos seus peitos
e ganhava voz de cigarra na noite toda da dádiva.
A atração irresistível que tanto desejo acendia
a um coração que ficava a descansar junto ao rio
com a mão deslizando por entre a roupa mais clara
enquanto ela se abandonava como terra em pousio.
Navio calmo que lentamente nos encaminhava
enquanto ao acaso os dedos procuravam a entrada
o cheiro profundo do pequeno milagre da mina.
A vontade do refrão de se aconchegar
sorriso vadio que disfarçava a impaciência
de chegar depressa ao seu destino
e a sua sombra a contraluz abraçar.
Por onde será que ele se demorou
se era para chegar bem mais cedo
e atrasado só agora aqui chegou?
Se o regaço fosse a cacimba do riacho
a embriaguez anunciada do vinho novo
os lábios subindo docemente as colinas.
O perfume intenso da vida por descobrir.
Pedaço de terra primeira do sonho
desejo banhar-me nos teus olhos
perder-me nos corredores do teu corpo.
Trago ramos de papoilas e alperces maduros
que ao fim da tarde apanhei pelo caminho
segredos e narrativa de algumas aventuras.
Eu retiro o lençol que afinal não te protege
e olho com atenção a geografia do teu país.
Venho aqui para te acariciar enquanto dormes
nos vestígios e nas humidades do teu prazer.
Flor de rosmaninho penso em ti a cada momento.
Na tecelagem das palavras artesã do meu coração.
Quero escrever-te até não ter mais nada para dizer.
Na esplanada do bar no anoitecer da cidade
ouvia-se uma voz vinda de dentro do seu véu
descendo afoita às escuras sem destino certo
debaixo das mil luzes ciumentas do novo céu.
Atrás de ti murmurando palavras indecentes
os teus frutos propriedade das minhas mãos
e sem pressa os dedos alisando o terreno
até ao fundo da tua alma, até ao fundo de ti.
O intenso relevo da sedução tão próxima
com os teus seios, os teus lábios agridoces
a pele do teu ventre e a encosta milagrosa
até a nascente do lago ou desse rio calmo.
Puxa o fecho do vestido e desce lentamente
os lábios à medida que o fecho vai abrindo.
Segue-lhe o trilho e não pares de me beijar.
