segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A jovem freira

 

Foi ele que cortou e acertou as tábuas de madeira 

da escadaria que levava às flores do seu perfume 

às águas limpas e lisas do jardim da sua nascente.

Na clausura, pela janela era de longe a mais bela.

 

A jovem freira que nasceu no baixo Alentejo

e em pecado perdidamente se apaixonou

soube pelo seu coração e com o seu corpo 

aprendeu pelas cartas que ficaram sem resposta

para a dor, a separação definitiva é remédio santo.

 

Em flor deixou-se murchar dia após dia 

a secar vazia e a morrer aos poucos

a ser bombo da festa e escárnio das outras 

sem vida nenhuma, umas vivas mortas.

 

Foram apenas algumas noites guardadas por Deus.

Se aquelas caras de pau e barrigas de milho 

rios secos que nem uma azeitona ali cabia 

com muito pó e areia seca no meio das pernas

soubessem o bom que foi e o bem que soube.

 

A chuva quando chega vem quente e vem nua

eles ficam molhados como se estivessem na rua 

ficam abraçados e escondidos pela luz da lua.

É do amor que se escreve não de verbos-de-encher.


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