quarta-feira, 19 de março de 2025

Sem Destino. Tributo a Kertész Imre (1929-2016)

 

Tributo a Kertész Imre (1929 - 2016)

Aos seus livros, incluídos os que eu não li.

Texto poético dedicado a Ernesto Rodrigues, com o seu

extraordinário livro “Hungarica” aqui à mão de semear.

 

Kertész leszek fát nevelek (József Attila)

Jardineiro serei as árvores cuidarei.

 

Retiro uma a uma as pedras do Coração 

com elas enfeito e decoro o nosso jardim 

e protejo a velha árvore da nossa Paixão 

desse Amor que eterno ficou em mim.

 

Do tempo em que menino a literatura degenerada 

andou a sofrer e a arrastar-se pelo Sorstalanság 

Sem Destino, a morrer por Auschwitz e Buchenwald.

 

O poema cheira a água do riacho do seu ventre

e como eu não fui prisioneiro nem sou sobrevivente

não associo o cabelo rapado à falta de um pente.

Navego somente do meu sonho até à sua nascente.

 

Vegsö kocsma - a última tasca da última estação do comboio.

- Dos vagões de gado para o matadouro do destino marcado -

A estação sem regresso e se há regresso é porque o milagre existe.

 

Não haja ilusões ou ingenuidade mimada pela celebrada libertação.

Totalitarismo rima com submissão, com obediência e capitulação 

e provavelmente só se pode vencer se derrotado por outro totalitarismo.

- Mais forte e mais cínico e nós a fazermos uso cartesiano do optimismo.

 

Budapeste, 7 de março de 2025

 

Passei alguns meses na preparação e seleção dos escritores: 6 mártires e 1 sobrevivente do Holocausto Húngaro. Escrevi os 7 textos nos primeiros 7 dias de março de 2025.


Budapeste, 8 de março de 2025


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