Ao Jorge Alberto, aliás João Abrunhosa
Como escrever sobre a química ou filosofia da
amizade?
Sobre este sentimento e certeza de sermos amigos
e de ficarmos melhor por sabermos que é de verdade?
Nesse mês de julho longínquo do século passado
com transfer em Frankfurt regressamos a Lisboa
e cada um foi para o seu lado, eu feito Pedro
para Santarém e o Jorge Alberto para o Porto.
Depois de termos passado juntos seis meses em Moscovo
protegidos com pseudónimos, com nomes de clandestinos.
estivemos mais de quarenta e sete anos sem nos vermos
e sem sabermos qual era o nome verdadeiro um do
outro.
Eu estava tão feliz, que depois do nosso primeiro
reencontro
quando ia no táxi que me levou ao hotel, contei ao
taxista
que tinha estado a jantar com um amigo que não via
há quase meio século e que foi um momento fantástico.
Que pusemos a conversa em dia, ficamos
grosso modo
a saber o que cada um tinha feito neste interregno de
tempo
falamos como se nos tivéssemos visto na
semana passada.
Senhor, só por ouvir de si essa história
já valeu a pena ter vindo trabalhar no domingo à noite!
- Exclamou o taxista
Não sei se não foi já em Moscovo que começamos
o nosso caminho contra o totalitarismo comunista
mas o culto da personalidade ao morto-vivo Brejnev
com cartazes e fotografias por todo lado, ajudou.
Não foi só estudar, fizemos também várias visitas
uma semana em Leningrado com as noites brancas
dez dias na República autónoma Ossétia do Norte,
no Cáucaso.
Para ‘sol da terra’ do velho camarada, na URSS fazia muito
frio!
João, vais ser o primeiro leitor deste texto
e se não quiseres não será publicado. Um abraço

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