segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Amizade

Ao Jorge Alberto, aliás João Abrunhosa 

 

Como escrever sobre a química ou filosofia da amizade? 

Sobre este sentimento e certeza de sermos amigos

e de ficarmos melhor por sabermos que é de verdade?

 

Nesse mês de julho longínquo do século passado

com transfer em Frankfurt regressamos a Lisboa 

e cada um foi para o seu lado, eu feito Pedro

para Santarém e o Jorge Alberto para o Porto.

 

Depois de termos passado juntos seis meses em Moscovo

protegidos com pseudónimos, com nomes de clandestinos.

estivemos mais de quarenta e sete anos sem nos vermos 

e sem sabermos qual era o nome verdadeiro um do outro. 

 

Eu estava tão feliz, que depois do nosso primeiro reencontro 

quando ia no táxi que me levou ao hotel, contei ao taxista 

que tinha estado a jantar com um amigo que não via

há quase meio século e que foi um momento fantástico.

 

Que pusemos a conversa em dia, ficamos grosso modo 

a saber o que cada um tinha feito neste interregno de tempo

falamos como se nos tivéssemos visto na semana passada. 

 

Senhor, só por ouvir de si essa história 

já valeu a pena ter vindo trabalhar no domingo à noite!

- Exclamou o taxista 

 

Não sei se não foi já em Moscovo que começamos 

o nosso caminho contra o totalitarismo comunista

mas o culto da personalidade ao morto-vivo Brejnev 

com cartazes e fotografias por todo lado, ajudou.

 

Não foi só estudar, fizemos também várias visitas 

uma semana em Leningrado com as noites brancas 

dez dias na República autónoma Ossétia do Norte, no Cáucaso.

Para ‘sol da terra’ do velho camarada, na URSS fazia muito frio!

 

João, vais ser o primeiro leitor deste texto 

e se não quiseres não será publicado. Um abraço

 

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