segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Palavras Escritas em Budapeste

 

Em 18 de setembro de 1979 cheguei a Budapeste, cidade da minha vida

 

Palavras escritas em Budapeste, 2026

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Taça de prata

 

Sem a taça de prata, a infusão e a cicuta 

tal como sabemos e nos contou Platão 

pode ser que ao contrário de Sócrates

impiedosa a morte não lhe entre pelos pés.

 

Ou seja, que a morte não se comece 

a sentir nos dedos gastos dos pés. 

Se bem que com o frio que está a fazer

e como está no terraço sem meias 

de certeza que desta vez não se escapa.

 

Esta nova realidade faz-nos parar e pensar

mas não é aconselhável perder muito tempo.

Há cada vez mais pessoas conhecidas a morrer

por isso tanto faz, não vale a pena correr

na sua hora, a nossa também vai chegar.

 

A jovem freira

 

Foi ele que cortou e acertou as tábuas de madeira 

da escadaria que levava às flores do seu perfume 

às águas limpas e lisas do jardim da sua nascente.

Na clausura, pela janela era de longe a mais bela.

 

A jovem freira que nasceu no baixo Alentejo

e em pecado perdidamente se apaixonou

soube pelo seu coração e com o seu corpo 

aprendeu pelas cartas que ficaram sem resposta

para a dor, a separação definitiva é remédio santo.

 

Em flor deixou-se murchar dia após dia 

a secar vazia e a morrer aos poucos

a ser bombo da festa e escárnio das outras 

sem vida nenhuma, umas vivas mortas.

 

Foram apenas algumas noites guardadas por Deus.

Se aquelas caras de pau e barrigas de milho 

rios secos que nem uma azeitona ali cabia 

com muito pó e areia seca no meio das pernas

soubessem o bom que foi e o bem que soube.

 

A chuva quando chega vem quente e vem nua

eles ficam molhados como se estivessem na rua 

ficam abraçados e escondidos pela luz da lua.

É do amor que se escreve não de verbos-de-encher.


Filhas da Babilónia

 

Filhas da Babilónia, uma de vocês 

venha de TGV ter comigo a Paris

para no fim-de-semana prolongado 

vermos juntos o museu d'Orsay

museu de Arte Moderna e Petit Palais.

Passearmos pelo jardim do museu Rodin.


Escolhi Paris porque era uma jura antiga.

Vem de Nice, Bruxelas ou da Bretanha 

lá estarei na estação à tua espera.

Eu vou de avião de Budapeste 

a minha cidade adoptiva que me recebeu 

e onde fiquei não tarda há meio século. 

 

Vinho, com queijo e chouriços para comer

e cachimbo ou cigarros para descontrair. 

O cheiro espalhava-se e chegava cá acima

não eram as pernas, as coxas que fumavam

era a dona que na relva mostrava quase tudo 

para não se perder tempo com a imaginação 

Olhando para trás parecia ser um mapa 

ou os sentimentos da minha passagem 

o espelho ousado da nossa migração tardia. 

A minha peregrinação pela vida em viagem.

Filhas de Babilónia (1920) de Aquilino Ribeiro.

 

Carreiristas e anedotas

 

Falam de iluminismo e da sabedoria 

cidadania, superstição e da subordinação 

da noite das trevas rumo à luz libertadora.

Mas não bate a bota com a perdigota

nem os lobos com o focinho do cão.

 

Estes carreiristas e estas anedotas 

quando finalmente chegam lá acima

a ministros ou secretários de estado

pensam que são e falam como profetas!

 

Se o problema é grande pega na vassoura 

não te preocupes varre para debaixo do tapete

se não se vê não existe, assunto arrumado. 


Era mesmo nisso que eu estava a pensar 

mas estava calado, não sabia como me expressar.

 

Corre para a cozinha

 

Se fosse cenoura seria como uma beringela 

de berbequim na mão e de volta da donzela 

com um quilo de berbigão afogado na panela 

para condimentar a tristeza do soldado sentinela. 

 

Diria cosmopolita, que são couves de Lisboa

com grelos e nabiças azedas de Varsóvia 

calções às riscas e blusas curtas de Barcelona.

a fazer sol e levar com a chuva em cima. 

 

Cada país tem as suas coisas difíceis de entender.

Na Hungria quando faz sol e chove ao mesmo tempo 

diz-se que o diabo está a dar porrada na mulher.

Não, em nenhuma, nem mesmo à mulher do diabo! 

 

Diabo sê por uma vez um gajo porreiro. 

Aproveita e toma banho com a chuva 

põe-te ao sol para secares depressa.

Corre para a cozinha e faz tu o almoço.


Conversa de amigos

 

Numa conversa de amigos que escrevem 

ou escreverem poesia por necessidade e prazer 

para se conhecerem ou darem-se a conhecer

cruzaram as mãos sobre a mesa da cervejaria 

e fizeram mais um brinde com canecas de cerveja.

 

Com estilo, alguma solenidade e bem bebidos

declaram que não se é menos poeta 

por se ser feliz e se ter uma vida normal

uma vida completa como outra pessoa qualquer.

Decidiram que continuariam a ser felizes e a escrever.

 

- A nova geografia é a minha nova residência 

a narrativa e o silêncio da nossa resiliência.

Enfeitadas com pedras de calcário branco

rodeadas de muros baixinhos de basalto negro.

A casa, nosso refúgio quando me sentir sozinho.


Inteligência Artificial (IA) ou Super Inteligência (SI)

 

Inteligência Artificial que recentemente o Extra-Terrestre

infelizmente não é o de Spielberg e amigo de Elliott

mas o outro, eleito pela maioria dos norte-americanos

inquilino da Casa Branca rebatizou de Super Inteligência.

 

É a corrida desenfreada da humanidade para o abismo

do feudalismo da tecno-oligarquia com a ocupação das almas

com a subordinação das nossas mentes ao deus-algoritmo

ou será o começo de mais um maravilhoso mundo novo?

 

Até a nossa imaginação é transacionada em bolsa

muda de acionista como quem muda de camisa.

Para escrutinar falta-nos o ânimo, tempo e vontade

dia após dia estamos a perder a indignação da rua.

 

Eu quando tenho dúvidas, penso e pergunto

quando não tenho, organizo as ideias e afirmo.

Somos uns ganhadores abençoados

ou estamos fodidos, meus amigos?


A moça da estação de serviço

 

Era ela a moça da estação de serviço

que a maioria das vezes me atendia 

quando depois de atestar o depósito 

pagava com cartão e pedia a fatura.

 

Era alta e esguia, esbelta e muito simpática. 

Para quem está desatento, convêm que saiba

que por estes lados muitas vezes a simpatia 

é um bem escasso, um item que se vê pouco.

 

Arranja sempre tempo para falar comigo 

gosta Portugal que já visitou várias vezes 

e como naturalmente sabe que sou português  

não se cansa de repetir - adoro o seu país.

 

Ontem estava especialmente vistosa

com calças e blusa coladas ao corpo 

- Uma bomba na bomba da gasolina.

 

Fiquei a pensar que estava assim vestida 

por ser sexta-feira e depois do trabalho 

ia-se encontrar e dançar com o namorado.


O arco-íris da vida

 

Essa imperfeição da curiosidade que ao longo dos anos

fomos descobrindo, selecionando e guardando em nós

sempre nos levou mais longe e a terras mais escondidas

desconhecidas, hospitaleiras como é raro de encontrar.

 

Que se mostravam como se fossem do sul profundo

com muita gente nas ruas em mangas de camisa

ou em tronco nu com corpos belos ou nem tanto.

 

Terras onde as mulheres para surpresa de quem chega

novas ou velhas, passam e mostram os peitos fartos

e ao sol ou à chuva andavam de seios à solta

de manhã cedo ou tarde no crepúsculo do anoitecer.

 

Quando a cor de avelã se mistura com a cor do vinho

com a cor da pele dos seus olhos em repouso

com o lindo arco-íris da vida, a festa pode começar.

 

As maçãs do meu pai

 

As maçãs eram a fruta preferida do meu pai

que comia e dava a comer a toda a família

depois de com a sua navalha da vida inteira

sem pressas as cortar em quatro e descascar.

Em casa tinha de haver maçãs para a refeição acabar.


Ritual que filhos, netos e bisnetos nunca vão esquecer.

Até comia maçãs quem gostava mais de outras frutas.

As maçãs reinetas eram as preferidas da minha mãe.

Nenhum deles sabia da frase feita e do bem que fazia

que uma maçã por dia mantinha o médico à distância.

 

Cinco anos depois da partida de ambos

uma forma simples de com muita ternura os recordar

nos confortar neste mundo em que a tendência é piorar.


Amizade

Ao Jorge Alberto, aliás João Abrunhosa 

 

Como escrever sobre a química ou filosofia da amizade? 

Sobre este sentimento e certeza de sermos amigos

e de ficarmos melhor por sabermos que é de verdade?

 

Nesse mês de julho longínquo do século passado

com transfer em Frankfurt regressamos a Lisboa 

e cada um foi para o seu lado, eu feito Pedro

para Santarém e o Jorge Alberto para o Porto.

 

Depois de termos passado juntos seis meses em Moscovo

protegidos com pseudónimos, com nomes de clandestinos.

estivemos mais de quarenta e sete anos sem nos vermos 

e sem sabermos qual era o nome verdadeiro um do outro. 

 

Eu estava tão feliz, que depois do nosso primeiro reencontro 

quando ia no táxi que me levou ao hotel, contei ao taxista 

que tinha estado a jantar com um amigo que não via

há quase meio século e que foi um momento fantástico.

 

Que pusemos a conversa em dia, ficamos grosso modo 

a saber o que cada um tinha feito neste interregno de tempo

falamos como se nos tivéssemos visto na semana passada. 

 

Senhor, só por ouvir de si essa história 

já valeu a pena ter vindo trabalhar no domingo à noite!

- Exclamou o taxista 

 

Não sei se não foi já em Moscovo que começamos 

o nosso caminho contra o totalitarismo comunista

mas o culto da personalidade ao morto-vivo Brejnev 

com cartazes e fotografias por todo lado, ajudou.

 

Não foi só estudar, fizemos também várias visitas 

uma semana em Leningrado com as noites brancas 

dez dias na República autónoma Ossétia do Norte, no Cáucaso.

Para ‘sol da terra’ do velho camarada, na URSS fazia muito frio!

 

João, vais ser o primeiro leitor deste texto 

e se não quiseres não será publicado. Um abraço

 

Vem a casa passar o Natal

 

Olhou para o relógio de parede da cozinha.

Estão a aparecer aqui não tarda nada 

disse com um sorriso meigo de quem espera 

que apareçam filhos e netos para almoçar. 

Era assim em família cada segundo domingo 

para durante a semana recordar e comentar.

Por vezes conhecermos jovens e temos dificuldades 

de os imaginar adultos e casados, pais a criar filhos.

Ouvi há dias de uma colega e por ser tão bonito 

senti que tinha de guardar e deixar aqui escrito 

que se deve sempre confiar e acreditar no futuro. 

- Vem a casa passar o Natal connosco

dizia a mãe ao filho que vive no estrangeiro 

e está separado da mãe dos seus filhos pequenos 

- Não leves a mal, mas não vou. 

A minha casa, o meu país é onde estão os meus filhos.


O mundo de ontem

 

O mundo de ontem há muito que ruiu e se afundou 

legitimado pelas escolhas da opinião pública.

No regresso apressado à escuridão do passado 

já nem se lembram como era antes do dilúvio.

 

Na caminhada solitária ao interior da vida 

de juntar os trapos que o futuro deixou 

o que é que eu posso dizer ou acrescentar?

 

Feito rã disfarçar-me entre as folhas do charco?

Ficar de pé encostado às árvores do bosque?

Ficar mudo como uma cigarra morta de fome? 

Esperar que as coisas mudem por si como milagre?

 

Até ao último dia é não se deixar render 

não se calar, é ser grilo e não obedecer.

- Vá com Deus e fique por lá, não volte.


Franco atirador

 

Ouve, não me fales de nobreza nem de linhagem

mas dos códigos enganadores da vossa linguagem

dos negócios que fazem a que chamam arte e coragem

com vocês pode-se aprender tudo o que é sacanagem.

 

Armado em franco atirador manhoso

se não queres ir para a corte de Viena

tens bom remédio vai para Moscovo

escolhe Ankara ou a Cidade Proibida.

 

Já que estou com as mãos na massa

deixa-me falar claro sem ironia ou ameaça

vai, corre para o diabo que te carregue

sem ti a nossa terra fica bem entregue.


Cozedura do pão

 

A menina tem um corpo bonito e bem feito 

vestida com um vestido trapalhão que atrapalha

quando tem de descer as escadas a correr 

e enfiar-se pela ranhura no carro pequeno.

 

Entornava as águas mornas do seu peito 

pela brecha da janelinha das águas-furtadas. 

O vizinho de baixo atento não perdia uma 

imaginava-se a secá-la com a sua toalha branca.

 

Pedra no sapato, dedo no dedal e carne de cão 

à mesa sente-se fresca como um carapau ao sol 

sardinha no gelo com sal à espera de ser comida.

Leva-me e faz-me com a cozedura do teu pão.

 

A vulgarização do mal

 

Sim, o mundo já esteve muito melhor.

A normalização do populismo violento 

como a relativização do terrorismo 

deixa-me cada vez mais angustiado.

 

Pactuar com a vulgarização do genocídio 

como Eichmann e a Banalidade do Mal

que Hannah Arendt tão bem descreveu

deixa-me cada dia mais amargurado.

O presságio das más notícias, da desgraça

que nos traz essa ave de mau agoiro vestida

com as penas da morte e as bombas de Netanyahu 

e do seu governo extremista e neofascista. 

 

Não podemos calar perante a demonização

que é feita do Estado de Israel e ao mesmo tempo 

temos de levantar a voz e afirmar sem medo 

estar contra o sionismo radical não é ser antissemita.


Por vezes os nossos filhos

 

A poesia escreva-se na primeira pessoa do singular

às vezes do plural e a duas mãos, a dois corações

mas para não nos enganarmos a nós, nem aos outros

devemos esclarecer que nem tudo é o que parece.

- Nem tudo o que se diz, o que se escreve, acontece.

 

No caminho longo de viver a vida, fazer amigos

continuar a que recebemos e construir uma família

por vezes os nossos filhos para saberem quem são

e para onde querem ir têm de chamar pai a outro.

 

São a forma de ficarmos nos mundos do mundo

a nossa primeira prioridade e preocupação maior

porque é mais fácil dizer: é sábado e estou com fome.

Felizmente nem tudo é: sou eu, somos nós e o destino.


Beni e Simi

 

Estava a nevar em Budapeste.

O meu neto Beni do pijama azul-claro

dos seus três anos e uns trocos

dizia aos pais que ele não podia ir dormir.

Tinha de ficar acordado a guardar a neve

para ela não se derreter e desaparecer.

 

Fomos passear à floresta que fica perto

e que tem à entrada um grande pedregulho.

Nesse dia tinha em cima uma pedra pequena

que de brincadeira alguém tinha ali colocado.

Com aquela doçura natural de criança

disse o nosso Beni - É o papá e o Simi!

 

Há uns dias estava em casa dos avós

e com cara de novidade informou-nos

- Sabem que o Simi vai para o estrangeiro?

Vai viver para o país onde falam a sua língua

e onde vão entender o que ele diz.


A digitalização da vida

 

Não é filosofia, mas pode ser o futuro.

Na Estónia pequeno país do Báltico 

a digitalização da vida no dia a dia 

assume níveis impressionantes.


Durante da nossa visita fiquei a saber 

que apenas em três situações 

não é possível fazer de forma digital. 

É obrigatório a presença física, 

para casar, comprar casa e se divorciar. 

 

Quanto à digitalização do amor, 

daquele que nem precisa de cama

para arder, mas com cama é melhor 

o guia foi omisso e eu não perguntei.

 

Métrica da capitulação

 

Uso a narrativa fina da minha profissão:

- Métrica da importação e da exportação 

métrica da indústria pela urgente inovação

métrica da inércia que leva à capitulação.


Para outros é a arte e o talento de saber medir 

o ritmo da esperança e a narrativa da ilusão

ainda antes de desistir desta labuta e partir.

A métrica da parvoíce mal medida da avaliação.

 

Não sei se é da idade, se é da inquietação 

se da impressão e nervosimo da minha percepção

mas cada vez acho menos graça à nova aurora.

Nunca foi tão fácil espalhar a mentira como agora.


sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Palavras escritas em Budapeste


Em 18 de setembro de 1979 cheguei a Budapeste, cidade da minha vida

 

Palavras escritas em Budapeste, 2026

Novo "capitulo" para o livro De mim ficam as Palavras

(Em breve vou começar a publicar aqui)


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Tilos (Proibido)

Deixar de escrever, Barátom

 

Diálogo poético bilingue com Bognár Károly, meu amigo desde o tempo da Universidade MKKE (1980-1985)  


Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Külvárosi vágy (Desejo da periferia da cidade) / Estaria em Viena

 

Külvárosi vágy 

 

Feri elhagyott, most dug a Béla,

Lök egy kis lóvét piára néha.

Hogy miért? Igazán nem is értem,

De így megy ez itt, ezen a téren.

 

Feri ütötte-verte a testem,

Bélától gyorsan teherbe estem.

Most itt növekszik bennem a vérem,

Ezen a szürke, elhagyott téren.

 

A napot szinte sohase látom,

Az éjszaka a legjobb barátom.

Itt állok nyáron, itt állok télen,

Ezen a kibaszott, sivár téren.

 

Nem vagyok szép, és nem vagyok csúnya,

Nem vagyok szűz, és nem vagyok kurva,

Hogy kerültem ide? Nem is értem,

Miért dekkolok ezen a téren.

 

Nézz meg jól! Én is egy ember vagyok,

Ha nem szeretnek, én is megfagyok.

Néha a Jóistent magát kérem,

Ne hagyjon elveszni itt, a téren.

 

Szeretni akarok, ahogy mások,

Ezért is mosolygok néha rátok.

Nagyon várom, hogy elgyere értem,

Itt várlak, ezen a tetves téren.

Bognár Károly

  

Desejo da periferia da cidade 

 

O Feri deixou-me, agora fode-me o Béla,

De vez em quando, dá-me dinheiro para a bebida.

Porquê? Na verdade, nem eu entendo 

Mas é assim que as coisas acontecem nesta praça.

 

O Feri batia-me por tudo e por nada,

Com o Béla engravidei rapidamente.

Agora dentro de mim cresce o meu sangue,

Nesta praça cinzenta e abandonada.

 

Quase nunca vejo o sol,

A noite é a minha melhor amiga.

Aqui estou no verão, aqui estou no inverno,

Nesta desoladora praça de merda.

 

Não sou bonita, nem sou feia

Não sou virgem, nem sou puta

Como é que vim parar aqui? Nem eu sei,

Porque é que me escondo nesta praça.

 

Olha bem para mim! Também sou uma pessoa

Se não me amarem também vou congelar.

Por vezes peço ao próprio Deus

Que não me deixe perder aqui nesta praça.

 

Quero amar, tal como os outros

É por isso que às vezes vos sorrio.

Estou ansiosa que venhas buscar-me

Aqui te espero nesta miserável praça.

(Tradução Joaquim Pimpão) 

 

 

Estaria em Viena

 

Se eu não fosse de raça cigana

já há muito que estaria em Viena 

a trabalhar num lar de idosos 

ou a fazer limpeza na Alemanha.

 

Mas se nem no meu país me aceitam 

como é que me vão aceitar lá fora 

com este aspecto tão pouco europeu 

e sem saber falar a língua que falam.

 

Quem nasce numa família organizada 

com tudo no sítio e dinheiro que chegue 

vai estar sempre à frente da pobreza 

da penúria e privações da criança cigana.

 

Resta-nos fazer filhos como quem lava a loiça 

à espera de que comovido Deus faça um milagre 

de vez traga à terra o paraíso do céu sagrado 

e acabe com os sacrifícios de quem espera a sua hora.

Pedro Assis Coimbra


Elbújnék (Gostaria de me esconder) / O vinho que eu cá deixar

 

Elbújnék 

 

Ráncaim alól szinte ki se látszom,

Rám dől múltamnak szétmálló tűzfala,

És mégis még mindig fiatalt játszom,

Pedig sántikálva kullogok haza.

 

Szememből lassan elfogynak a fények,

Hajamat vastagon belepi a dér,

Asztalomon hófehér gyertyák égnek,

Törött ablakomon kopogtat a tél.

 

Testemben őrjöngve tombol a halál,

Robbannak mirigyek, rothadnak sejtek,

Elbújnék, de tudom, úgyis megtalál,

Nem rejt el előle semmilyen rejtek.

 

Készülődni kezdek a hosszú útra,

Bőröndöm és szívem üresen tátong,

Elindulok a végtelenen túlra,

Hol jöttömet már epekedve várod.

Bognár Károly

 

Gostaria de me esconder

 

Quase não se vê nada por baixo das minhas rugas,

A parede de fogo em ruínas do meu passado desaba sobre mim,

E, no entanto, continuo a fingir que sou jovem,

Embora vá a coxear quando volto para casa.

 

Lentamente a luz vai-se esvaindo dos meus olhos,

O gelo cobre fortemente o meu cabelo,

Na minha mesa ardem velas brancas como a neve,

O inverno bate à minha janela partida.

 

Furiosamente a morte assola o meu corpo,

As glândulas rebentam, as células apodrecem,

Gostaria de me esconder, mas sei que ela me vai encontrar,

Dela nenhum esconderijo me vai proteger.

 

Começo a preparar-me para a longa viagem,

A minha mala e o meu coração estão vazios,

Vou partir para além do infinito,

Onde já me esperas ansiosamente.

(Tradução Joaquim Pimpão) 



O vinho que eu cá deixei 

 

Foi um pensamento que iluminou a noite 

uma curta mensagem que dizia apenas 

- É agora, é tempo de mudar de vida.

 

Se fosse uma curta-metragem seria 

estou onde mereço estar, em lado nenhum

e passava à tarde no cinema da esquina.

 

Foi bom, mas acabou. Adeus, inverno. Bem-vinda, primavera. 

Fica em paz com o destino, com a tua peregrinação

que o amor é como a própria vida, dura até acabar.


Uma última informação, mas sem data

- Quando eu morrer por favor não se esqueçam 

de beber todo o vinho que eu cá deixar.

Pedro Assis Coimbra


Eljöttél hát (Foi então que vieste) / Voltar a viver


Eljöttél hát 


Kopogtatnak.

Ajtót nyitok.

Eljöttél hát értem.

Azt hittem, hogy nem félek majd,

de remeg a térdem.

 

Kilépek és elindulok

oda, ahonnan jöttem.

Hóban, sárban botladozom,

az egyre sűrűbb ködben.

Bognár Károly

 

Foi então que vieste

 

Alguém bate à porta.

Abro a porta.

Então vieste buscar-me.

Pensava que não teria medo,

mas os meus joelhos tremem.

 

Saio e ponho-me a caminho

daquele lugar de onde vim.

Tropeço na neve e na lama,

no nevoeiro cada vez mais denso.

(Tradução Joaquim Pimpão) 

 

 

Voltar a viver

 

Dizia, sabes o que é viver de alma vazia?

É melhor morrer para encurtar o caminho 

antecipar a partida e a chegada ao deserto.


E se há vampiro ameaçador por perto 

esmaga na pedra umas cabeças de alho 

que vai fugir dali como diabo foge da cruz.


Se for vampira oferece-lhe uma cebola menina 

que surprendida fica mais meiga e apetitosa 

que um frasquinho de doce de framboesa.

 

Ter a ilusão de ser notícia na televisão 

e que a solidão não faz mal ao coração.

Morrer para ressuscitar e voltar a viver. 

Pedro Assis Coimbra

 

Budapeste, 15 de agosto de 2026