Em 18 de setembro de 1979 cheguei a Budapeste, cidade da
minha vida
Palavras escritas em Budapeste, 2026
Para o livro "De mim ficam as
Palavras"
Em 18 de setembro de 1979 cheguei a Budapeste, cidade da
minha vida
Palavras escritas em Budapeste, 2026
Para o livro "De mim ficam as
Palavras"
Sem a taça de prata, a infusão e a cicuta
tal como sabemos e nos contou Platão
pode ser que ao contrário de Sócrates
impiedosa a morte não lhe entre pelos pés.
Ou seja, que a morte não se comece
a sentir nos dedos gastos dos pés.
Se bem que com o frio que está a fazer
e como está no terraço sem meias
de certeza que desta vez não se escapa.
Esta nova realidade faz-nos parar e pensar
mas não é aconselhável perder muito tempo.
Há cada vez mais pessoas conhecidas a morrer
por isso tanto faz, não vale a pena correr
na sua hora, a nossa também vai chegar.
Foi ele que cortou e acertou as tábuas de madeira
da escadaria que levava às flores do seu perfume
às águas limpas e lisas do jardim da sua nascente.
Na clausura, pela janela era de longe a mais bela.
A jovem freira que nasceu no baixo Alentejo
e em pecado perdidamente se apaixonou
soube pelo seu coração e com o seu corpo
aprendeu pelas cartas que ficaram sem resposta
para a dor, a separação definitiva é remédio santo.
Em flor deixou-se murchar dia após dia
a secar vazia e a morrer aos poucos
a ser bombo da festa e escárnio das outras
sem vida nenhuma, umas vivas mortas.
Foram apenas algumas noites guardadas por Deus.
Se aquelas caras de pau e barrigas de milho
rios secos que nem uma azeitona ali cabia
com muito pó e areia seca no meio das pernas
soubessem o bom que foi e o bem que soube.
A chuva quando chega vem quente e vem nua
eles ficam molhados como se estivessem na rua
ficam abraçados e escondidos pela luz da lua.
É do amor que se escreve não de verbos-de-encher.
Filhas da Babilónia, uma de vocês
venha de TGV ter comigo a Paris
para no fim-de-semana prolongado
vermos juntos o museu d'Orsay
museu de Arte Moderna e Petit Palais.
Passearmos pelo jardim do museu Rodin.
Escolhi Paris porque era uma jura antiga.
Vem de Nice, Bruxelas ou da Bretanha
lá estarei na estação à tua espera.
Eu vou de avião de Budapeste
a minha cidade adoptiva que me recebeu
e onde fiquei não tarda há meio século.
Vinho, com queijo e chouriços para comer
e cachimbo ou cigarros para descontrair.
O cheiro espalhava-se e chegava cá acima
não eram as pernas, as coxas que fumavam
era a dona que na relva mostrava quase tudo
para não se perder tempo com a imaginação
Olhando para trás parecia ser um mapa
ou os sentimentos da minha passagem
o espelho ousado da nossa migração tardia.
A minha peregrinação pela vida em viagem.
Filhas de Babilónia (1920) de Aquilino Ribeiro.
Falam de iluminismo e da sabedoria
cidadania, superstição e da subordinação
da noite das trevas rumo à luz libertadora.
Mas não bate a bota com a perdigota
nem os lobos com o focinho do cão.
Estes carreiristas e estas anedotas
quando finalmente chegam lá acima
a ministros ou secretários de estado
pensam que são e falam como profetas!
Se o problema é grande pega na vassoura
não te preocupes varre para debaixo do tapete
se não se vê não existe, assunto arrumado.
Era mesmo nisso que eu estava a pensar
mas estava calado, não sabia como me expressar.
Se fosse cenoura seria como uma beringela
de berbequim na mão e de volta da donzela
com um quilo de berbigão afogado na panela
para condimentar a tristeza do soldado sentinela.
Diria cosmopolita, que são couves de Lisboa
com grelos e nabiças azedas de Varsóvia
calções às riscas e blusas curtas de Barcelona.
a fazer sol e levar com a chuva em cima.
Cada país tem as suas coisas difíceis de entender.
Na Hungria quando faz sol e chove ao mesmo tempo
diz-se que o diabo está a dar porrada na mulher.
Não, em nenhuma, nem mesmo à mulher do diabo!
Diabo sê por uma vez um gajo porreiro.
Aproveita e toma banho com a chuva
põe-te ao sol para secares depressa.
Corre para a cozinha e faz tu o almoço.
Numa conversa de amigos que escrevem
ou escreverem poesia por necessidade e prazer
para se conhecerem ou darem-se a conhecer
cruzaram as mãos sobre a mesa da cervejaria
e fizeram mais um brinde com canecas de cerveja.
Com estilo, alguma solenidade e bem bebidos
declaram que não se é menos poeta
por se ser feliz e se ter uma vida normal
uma vida completa como outra pessoa qualquer.
Decidiram que continuariam a ser felizes e a escrever.
- A nova geografia é a minha nova residência
a narrativa e o silêncio da nossa resiliência.
Enfeitadas com pedras de calcário branco
rodeadas de muros baixinhos de basalto negro.
A casa, nosso refúgio quando me sentir sozinho.
Inteligência Artificial que recentemente o
Extra-Terrestre
infelizmente não é o de Spielberg e amigo de Elliott
mas o outro, eleito pela maioria dos norte-americanos
inquilino da Casa Branca rebatizou de Super Inteligência.
É a corrida desenfreada da humanidade para o abismo
do feudalismo da tecno-oligarquia com a ocupação das almas
com a subordinação das nossas mentes ao deus-algoritmo
ou será o começo de mais um maravilhoso mundo novo?
Até a nossa imaginação é transacionada em bolsa
muda de acionista como quem muda de camisa.
Para escrutinar falta-nos o ânimo, tempo e vontade
dia após dia estamos a perder a indignação da rua.
Eu quando tenho dúvidas, penso e pergunto
quando não tenho, organizo as ideias e afirmo.
Somos uns ganhadores abençoados
ou estamos fodidos, meus amigos?
Era ela a moça da estação de serviço
que a maioria das vezes me atendia
quando depois de atestar o depósito
pagava com cartão e pedia a fatura.
Era alta e esguia, esbelta e muito simpática.
Para quem está desatento, convêm que saiba
que por estes lados muitas vezes a simpatia
é um bem escasso, um item que se vê pouco.
Arranja sempre tempo para falar comigo
gosta Portugal que já visitou várias vezes
e como naturalmente sabe que sou português
não se cansa de repetir - adoro o seu país.
Ontem estava especialmente vistosa
com calças e blusa coladas ao corpo
- Uma bomba na bomba da gasolina.
Fiquei a pensar que estava assim vestida
por ser sexta-feira e depois do trabalho
ia-se encontrar e dançar com o namorado.
Essa imperfeição da curiosidade que ao longo dos anos
fomos descobrindo, selecionando e guardando em nós
sempre nos levou mais longe e a terras mais escondidas
desconhecidas, hospitaleiras como é raro de encontrar.
Que se mostravam como se fossem do sul profundo
com muita gente nas ruas em mangas de camisa
ou em tronco nu com corpos belos ou nem tanto.
Terras onde as mulheres para surpresa de quem chega
novas ou velhas, passam e mostram os peitos fartos
e ao sol ou à chuva andavam de seios à solta
de manhã cedo ou tarde no crepúsculo do anoitecer.
Quando a cor de avelã se mistura com a cor do vinho
com a cor da pele dos seus olhos em repouso
com o lindo arco-íris da vida, a festa pode começar.
As maçãs eram a fruta preferida do meu pai
que comia e dava a comer a toda a família
depois de com a sua navalha da vida inteira
sem pressas as cortar em quatro e descascar.
Em casa tinha de haver maçãs para a refeição acabar.
Ritual que filhos, netos e bisnetos nunca vão esquecer.
Até comia maçãs quem gostava mais de outras frutas.
As maçãs reinetas eram as preferidas da minha mãe.
Nenhum deles sabia da frase feita e do bem que fazia
que uma maçã por dia mantinha o médico à distância.
Cinco anos depois da partida de ambos
uma forma simples de com muita ternura os recordar
nos confortar neste mundo em que a tendência é piorar.
Ao Jorge Alberto, aliás João Abrunhosa
Como escrever sobre a química ou filosofia da
amizade?
Sobre este sentimento e certeza de sermos amigos
e de ficarmos melhor por sabermos que é de verdade?
Nesse mês de julho longínquo do século passado
com transfer em Frankfurt regressamos a Lisboa
e cada um foi para o seu lado, eu feito Pedro
para Santarém e o Jorge Alberto para o Porto.
Depois de termos passado juntos seis meses em Moscovo
protegidos com pseudónimos, com nomes de clandestinos.
estivemos mais de quarenta e sete anos sem nos vermos
e sem sabermos qual era o nome verdadeiro um do
outro.
Eu estava tão feliz, que depois do nosso primeiro
reencontro
quando ia no táxi que me levou ao hotel, contei ao
taxista
que tinha estado a jantar com um amigo que não via
há quase meio século e que foi um momento fantástico.
Que pusemos a conversa em dia, ficamos
grosso modo
a saber o que cada um tinha feito neste interregno de
tempo
falamos como se nos tivéssemos visto na
semana passada.
Senhor, só por ouvir de si essa história
já valeu a pena ter vindo trabalhar no domingo à noite!
- Exclamou o taxista
Não sei se não foi já em Moscovo que começamos
o nosso caminho contra o totalitarismo comunista
mas o culto da personalidade ao morto-vivo Brejnev
com cartazes e fotografias por todo lado, ajudou.
Não foi só estudar, fizemos também várias visitas
uma semana em Leningrado com as noites brancas
dez dias na República autónoma Ossétia do Norte,
no Cáucaso.
Para ‘sol da terra’ do velho camarada, na URSS fazia muito
frio!
João, vais ser o primeiro leitor deste texto
e se não quiseres não será publicado. Um abraço
Olhou para o relógio de parede da cozinha.
Estão a aparecer aqui não tarda nada
disse com um sorriso meigo de quem espera
que apareçam filhos e netos para almoçar.
Era assim em família cada segundo domingo
para durante a semana recordar e comentar.
Por vezes conhecermos jovens e temos dificuldades
de os imaginar adultos e casados, pais a criar filhos.
Ouvi há dias de uma colega e por ser tão bonito
senti que tinha de guardar e deixar aqui
escrito
que se deve sempre confiar e acreditar no futuro.
- Vem a casa passar o Natal connosco
dizia a mãe ao filho que vive no estrangeiro
e está separado da mãe dos seus filhos pequenos
- Não leves a mal, mas não vou.
A minha casa, o meu país é onde estão os meus
filhos.
O mundo de ontem há muito que ruiu e se
afundou
legitimado pelas escolhas da opinião pública.
No regresso apressado à escuridão do passado
já nem se lembram como era antes do dilúvio.
Na caminhada solitária ao interior da vida
de juntar os trapos que o futuro deixou
o que é que eu posso dizer ou acrescentar?
Feito rã disfarçar-me entre as folhas do charco?
Ficar de pé encostado às árvores do bosque?
Ficar mudo como uma cigarra morta de fome?
Esperar que as coisas mudem por si como milagre?
Até ao último dia é não se deixar render
não se calar, é ser grilo e não obedecer.
- Vá com Deus e fique por lá, não volte.
Ouve, não me fales de nobreza nem de linhagem
mas dos códigos enganadores da vossa linguagem
dos negócios que fazem a que chamam arte e coragem
com vocês pode-se aprender tudo o que é sacanagem.
Armado em franco atirador manhoso
se não queres ir para a corte de Viena
tens bom remédio vai para Moscovo
escolhe Ankara ou a Cidade Proibida.
Já que estou com as mãos na massa
deixa-me falar claro sem ironia ou ameaça
vai, corre para o diabo que te carregue
sem ti a nossa terra fica bem entregue.
A menina tem um corpo bonito e bem feito
vestida com um vestido trapalhão que atrapalha
quando tem de descer as escadas a correr
e enfiar-se pela ranhura no carro pequeno.
Entornava as águas mornas do seu peito
pela brecha da janelinha das águas-furtadas.
O vizinho de baixo atento não perdia uma
imaginava-se a secá-la com a sua toalha branca.
Pedra no sapato, dedo no dedal e carne de cão
à mesa sente-se fresca como um carapau ao sol
sardinha no gelo com sal à espera de ser comida.
Leva-me e faz-me com a cozedura do teu pão.
Sim, o mundo já esteve muito melhor.
A normalização do populismo violento
como a relativização do terrorismo
deixa-me cada vez mais angustiado.
Pactuar com a vulgarização do genocídio
como Eichmann e a Banalidade do Mal
que Hannah Arendt tão bem descreveu
deixa-me cada dia mais amargurado.
O presságio das más notícias, da desgraça
que nos traz essa ave de mau agoiro vestida
com as penas da morte e as bombas de Netanyahu
e do seu governo extremista e neofascista.
Não podemos calar perante a demonização
que é feita do Estado de Israel e ao mesmo tempo
temos de levantar a voz e afirmar sem medo
estar contra o sionismo radical não é ser antissemita.
A poesia escreva-se na primeira pessoa do singular
às vezes do plural e a duas mãos, a dois corações
mas para não nos enganarmos a nós, nem aos outros
devemos esclarecer que nem tudo é o que parece.
- Nem tudo o que se diz, o que se escreve, acontece.
No caminho longo de viver a vida, fazer amigos
continuar a que recebemos e construir uma família
por vezes os nossos filhos para saberem quem são
e para onde querem ir têm de chamar pai a outro.
São a forma de ficarmos nos mundos do mundo
a nossa primeira prioridade e preocupação maior
porque é mais fácil dizer: é sábado e estou com fome.
Felizmente nem tudo é: sou eu, somos nós e o destino.
Estava a nevar em Budapeste.
O meu neto Beni do pijama azul-claro
dos seus três anos e uns trocos
dizia aos pais que ele não podia ir dormir.
Tinha de ficar acordado a guardar a neve
para ela não se derreter e desaparecer.
Fomos passear à floresta que fica perto
e que tem à entrada um grande pedregulho.
Nesse dia tinha em cima uma pedra pequena
que de brincadeira alguém tinha ali colocado.
Com aquela doçura natural de criança
disse o nosso Beni - É o papá e o Simi!
Há uns dias estava em casa dos avós
e com cara de novidade informou-nos
- Sabem que o Simi vai para o estrangeiro?
Vai viver para o país onde falam a sua língua
e onde vão entender o que ele diz.
Não é filosofia, mas pode ser o futuro.
Na Estónia pequeno país do Báltico
a digitalização da vida no dia a dia
assume níveis impressionantes.
Durante da nossa visita fiquei a saber
que apenas em três situações
não é possível fazer de forma digital.
É obrigatório a presença física,
para casar, comprar casa e se divorciar.
Quanto à digitalização do amor,
daquele que nem precisa de cama
para arder, mas com cama é melhor
o guia foi omisso e eu não perguntei.
Uso a narrativa fina da minha profissão:
- Métrica da importação e da exportação
métrica da indústria pela urgente inovação
métrica da inércia que leva à capitulação.
Para outros é a arte e o talento de saber medir
o ritmo da esperança e a narrativa da ilusão
ainda antes de desistir desta labuta e partir.
A métrica da parvoíce mal medida da avaliação.
Não sei se é da idade, se é da inquietação
se da impressão e nervosimo da minha percepção
mas cada vez acho menos graça à nova aurora.
Nunca foi tão fácil espalhar a mentira como agora.
Em 18 de setembro de 1979 cheguei a Budapeste, cidade da
minha vida
Palavras escritas em Budapeste, 2026
Novo "capitulo" para o livro De mim ficam as
Palavras
(Em breve vou começar a publicar aqui)
Deixar de escrever, Barátom
Diálogo poético bilingue com Bognár Károly, meu amigo desde o tempo da Universidade MKKE (1980-1985)
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Külvárosi vágy
Feri
elhagyott, most dug a Béla,
Lök egy kis
lóvét piára néha.
Hogy miért?
Igazán nem is értem,
De így megy
ez itt, ezen a téren.
Feri ütötte-verte a testem,
Bélától
gyorsan teherbe estem.
Most itt
növekszik bennem a vérem,
Ezen a
szürke, elhagyott téren.
A napot
szinte sohase látom,
Az éjszaka a legjobb barátom.
Itt állok
nyáron, itt állok télen,
Ezen a
kibaszott, sivár téren.
Nem vagyok
szép, és nem vagyok csúnya,
Nem vagyok szűz, és nem vagyok kurva,
Hogy kerültem ide? Nem is értem,
Miért dekkolok ezen a téren.
Nézz meg jól! Én is egy ember vagyok,
Ha nem
szeretnek, én is megfagyok.
Néha a Jóistent magát kérem,
Ne hagyjon
elveszni itt, a téren.
Szeretni
akarok, ahogy mások,
Ezért is
mosolygok néha rátok.
Nagyon
várom, hogy elgyere értem,
Itt várlak,
ezen a tetves téren.
Bognár
Károly
Desejo da periferia da cidade
O Feri deixou-me, agora fode-me o Béla,
De vez em quando, dá-me dinheiro para a bebida.
Porquê? Na verdade, nem eu entendo
Mas é assim que as coisas acontecem nesta praça.
O Feri batia-me por tudo e por nada,
Com o Béla engravidei rapidamente.
Agora dentro de mim cresce o meu sangue,
Nesta praça cinzenta e abandonada.
Quase nunca vejo o sol,
A noite é a minha melhor amiga.
Aqui estou no verão, aqui estou no inverno,
Nesta desoladora praça de merda.
Não sou bonita, nem sou feia
Não sou virgem, nem sou puta
Como é que vim parar aqui? Nem eu sei,
Porque é que me escondo nesta praça.
Olha bem para mim! Também sou uma pessoa
Se não me amarem também vou congelar.
Por vezes peço ao próprio Deus
Que não me deixe perder aqui nesta praça.
Quero amar, tal como os outros
É por isso que às vezes vos sorrio.
Estou ansiosa que venhas buscar-me
Aqui te espero nesta miserável praça.
(Tradução Joaquim Pimpão)
Estaria em Viena
Se eu não fosse de raça cigana
já há muito que estaria em Viena
a trabalhar num lar de idosos
ou a fazer limpeza na Alemanha.
Mas se nem no meu país me aceitam
como é que me vão aceitar lá fora
com este aspecto tão pouco europeu
e sem saber falar a língua que falam.
Quem nasce numa família organizada
com tudo no sítio e dinheiro que chegue
vai estar sempre à frente da pobreza
da penúria e privações da criança cigana.
Resta-nos fazer filhos como quem lava a loiça
à espera de que comovido Deus faça um milagre
de vez traga à terra o paraíso do céu
sagrado
e acabe com os sacrifícios de quem espera a sua hora.
Pedro Assis Coimbra
Elbújnék
Ráncaim alól szinte ki se látszom,
Rám dől múltamnak szétmálló tűzfala,
És mégis még mindig fiatalt játszom,
Pedig sántikálva kullogok haza.
Szememből lassan elfogynak a fények,
Hajamat vastagon belepi a dér,
Asztalomon hófehér gyertyák égnek,
Törött ablakomon kopogtat a tél.
Testemben
őrjöngve tombol a halál,
Robbannak
mirigyek, rothadnak sejtek,
Elbújnék, de tudom, úgyis megtalál,
Nem rejt el előle semmilyen rejtek.
Készülődni kezdek a hosszú útra,
Bőröndöm és szívem üresen tátong,
Elindulok a végtelenen túlra,
Hol jöttömet már epekedve várod.
Bognár Károly
Gostaria de me esconder
Quase não se vê nada por baixo das minhas rugas,
A parede de fogo em ruínas do meu passado desaba sobre mim,
E, no entanto, continuo a fingir que sou jovem,
Embora vá a coxear quando volto para casa.
Lentamente a luz vai-se esvaindo dos meus olhos,
O gelo cobre fortemente o meu cabelo,
Na minha mesa ardem velas brancas como a neve,
O inverno bate à minha janela partida.
Furiosamente a morte assola o meu corpo,
As glândulas rebentam, as células apodrecem,
Gostaria de me esconder, mas sei que ela me vai encontrar,
Dela nenhum esconderijo me vai proteger.
Começo a preparar-me para a longa viagem,
A minha mala e o meu coração estão vazios,
Vou partir para além do infinito,
Onde já me esperas ansiosamente.
(Tradução Joaquim Pimpão)
O vinho que eu cá deixei
Foi um pensamento que iluminou a noite
uma curta mensagem que dizia apenas
- É agora, é tempo de mudar de vida.
Se fosse uma curta-metragem seria
estou onde mereço estar, em lado nenhum
e passava à tarde no cinema da esquina.
Foi bom, mas acabou. Adeus, inverno. Bem-vinda,
primavera.
Fica em paz com o destino, com a tua peregrinação
que o amor é como a própria vida, dura até acabar.
Uma última informação, mas sem data
- Quando eu morrer por favor não se esqueçam
de beber todo o vinho que eu cá deixar.
Pedro Assis Coimbra
Eljöttél hát
Kopogtatnak.
Ajtót nyitok.
Eljöttél hát értem.
Azt hittem,
hogy nem félek majd,
de remeg a térdem.
Kilépek és elindulok
oda,
ahonnan jöttem.
Hóban,
sárban botladozom,
az egyre
sűrűbb ködben.
Bognár
Károly
Foi então que vieste
Alguém bate à porta.
Abro a porta.
Então vieste buscar-me.
Pensava que não teria medo,
mas os meus joelhos tremem.
Saio e ponho-me a caminho
daquele lugar de onde vim.
Tropeço na neve e na lama,
no nevoeiro cada vez mais denso.
(Tradução Joaquim Pimpão)
Voltar a viver
Dizia, sabes o que é viver de alma vazia?
É melhor morrer para encurtar o caminho
antecipar a partida e a chegada ao deserto.
E se há vampiro ameaçador por perto
esmaga na pedra umas cabeças de alho
que vai fugir dali como diabo foge da cruz.
Se for vampira oferece-lhe uma cebola menina
que surprendida fica mais meiga e apetitosa
que um frasquinho de doce de framboesa.
Ter a ilusão de ser notícia na televisão
e que a solidão não faz mal ao coração.
Morrer para ressuscitar e voltar a viver.
Pedro Assis Coimbra
Budapeste, 15 de agosto de 2026