segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Tilos (Proibido)

Deixar de escrever, Barátom

 

Diálogo poético bilingue com Bognár Károly, meu amigo desde o tempo da Universidade MKKE (1980-1985)  


Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Külvárosi vágy (Desejo da periferia da cidade) / Estaria em Viena

 

Külvárosi vágy 

 

Feri elhagyott, most dug a Béla,

Lök egy kis lóvét piára néha.

Hogy miért? Igazán nem is értem,

De így megy ez itt, ezen a téren.

 

Feri ütötte-verte a testem,

Bélától gyorsan teherbe estem.

Most itt növekszik bennem a vérem,

Ezen a szürke, elhagyott téren.

 

A napot szinte sohase látom,

Az éjszaka a legjobb barátom.

Itt állok nyáron, itt állok télen,

Ezen a kibaszott, sivár téren.

 

Nem vagyok szép, és nem vagyok csúnya,

Nem vagyok szűz, és nem vagyok kurva,

Hogy kerültem ide? Nem is értem,

Miért dekkolok ezen a téren.

 

Nézz meg jól! Én is egy ember vagyok,

Ha nem szeretnek, én is megfagyok.

Néha a Jóistent magát kérem,

Ne hagyjon elveszni itt, a téren.

 

Szeretni akarok, ahogy mások,

Ezért is mosolygok néha rátok.

Nagyon várom, hogy elgyere értem,

Itt várlak, ezen a tetves téren.

Bognár Károly

  

Desejo da periferia da cidade 

 

O Feri deixou-me, agora fode-me o Béla,

De vez em quando, dá-me dinheiro para a bebida.

Porquê? Na verdade, nem eu entendo 

Mas é assim que as coisas acontecem nesta praça.

 

O Feri batia-me por tudo e por nada,

Com o Béla engravidei rapidamente.

Agora dentro de mim cresce o meu sangue,

Nesta praça cinzenta e abandonada.

 

Quase nunca vejo o sol,

A noite é a minha melhor amiga.

Aqui estou no verão, aqui estou no inverno,

Nesta desoladora praça de merda.

 

Não sou bonita, nem sou feia

Não sou virgem, nem sou puta

Como é que vim parar aqui? Nem eu sei,

Porque é que me escondo nesta praça.

 

Olha bem para mim! Também sou uma pessoa

Se não me amarem também vou congelar.

Por vezes peço ao próprio Deus

Que não me deixe perder aqui nesta praça.

 

Quero amar, tal como os outros

É por isso que às vezes vos sorrio.

Estou ansiosa que venhas buscar-me

Aqui te espero nesta miserável praça.

(Tradução Joaquim Pimpão) 

 

 

Estaria em Viena

 

Se eu não fosse de raça cigana

já há muito que estaria em Viena 

a trabalhar num lar de idosos 

ou a fazer limpeza na Alemanha.

 

Mas se nem no meu país me aceitam 

como é que me vão aceitar lá fora 

com este aspecto tão pouco europeu 

e sem saber falar a língua que falam.

 

Quem nasce numa família organizada 

com tudo no sítio e dinheiro que chegue 

vai estar sempre à frente da pobreza 

da penúria e privações da criança cigana.

 

Resta-nos fazer filhos como quem lava a loiça 

à espera de que comovido Deus faça um milagre 

de vez traga à terra o paraíso do céu sagrado 

e acabe com os sacrifícios de quem espera a sua hora.

Pedro Assis Coimbra


Elbújnék (Gostaria de me esconder) / O vinho que eu cá deixei

 

Elbújnék 

 

Ráncaim alól szinte ki se látszom,

Rám dől múltamnak szétmálló tűzfala,

És mégis még mindig fiatalt játszom,

Pedig sántikálva kullogok haza.

 

Szememből lassan elfogynak a fények,

Hajamat vastagon belepi a dér,

Asztalomon hófehér gyertyák égnek,

Törött ablakomon kopogtat a tél.

 

Testemben őrjöngve tombol a halál,

Robbannak mirigyek, rothadnak sejtek,

Elbújnék, de tudom, úgyis megtalál,

Nem rejt el előle semmilyen rejtek.

 

Készülődni kezdek a hosszú útra,

Bőröndöm és szívem üresen tátong,

Elindulok a végtelenen túlra,

Hol jöttömet már epekedve várod.

Bognár Károly

 

Gostaria de me esconder

 

Quase não se vê nada por baixo das minhas rugas,

A parede de fogo em ruínas do meu passado desaba sobre mim,

E, no entanto, continuo a fingir que sou jovem,

Embora vá a coxear quando volto para casa.

 

Lentamente a luz vai-se esvaindo dos meus olhos,

O gelo cobre fortemente o meu cabelo,

Na minha mesa ardem velas brancas como a neve,

O inverno bate à minha janela partida.

 

Furiosamente a morte assola o meu corpo,

As glândulas rebentam, as células apodrecem,

Gostaria de me esconder, mas sei que ela me vai encontrar,

Dela nenhum esconderijo me vai proteger.

 

Começo a preparar-me para a longa viagem,

A minha mala e o meu coração estão vazios,

Vou partir para além do infinito,

Onde já me esperas ansiosamente.

(Tradução Joaquim Pimpão) 



O vinho que eu cá deixei 

 

Foi um pensamento que iluminou a noite 

uma curta mensagem que dizia apenas 

- É agora, é tempo de mudar de vida.

 

Se fosse uma curta-metragem seria 

estou onde mereço estar, em lado nenhum

e passava à tarde no cinema da esquina.

 

Foi bom, mas acabou. Adeus, inverno. Bem-vinda, primavera. 

Fica em paz com o destino, com a tua peregrinação

que o amor é como a própria vida, dura até acabar.


Uma última informação, mas sem data

- Quando eu morrer por favor não se esqueçam 

de beber todo o vinho que eu cá deixei.

Pedro Assis Coimbra


Eljöttél hát (Foi então que vieste) / Voltar a viver


Eljöttél hát 


Kopogtatnak.

Ajtót nyitok.

Eljöttél hát értem.

Azt hittem, hogy nem félek majd,

de remeg a térdem.

 

Kilépek és elindulok

oda, ahonnan jöttem.

Hóban, sárban botladozom,

az egyre sűrűbb ködben.

Bognár Károly

 

Foi então que vieste

 

Alguém bate à porta.

Abro a porta.

Então vieste buscar-me.

Pensava que não teria medo,

mas os meus joelhos tremem.

 

Saio e ponho-me a caminho

daquele lugar de onde vim.

Tropeço na neve e na lama,

no nevoeiro cada vez mais denso.

(Tradução Joaquim Pimpão) 

 

 

Voltar a viver

 

Dizia, sabes o que é viver de alma vazia?

É melhor morrer para encurtar o caminho 

antecipar a partida e a chegada ao deserto.


E se há vampiro ameaçador por perto 

esmaga na pedra umas cabeças de alho 

que vai fugir dali como diabo foge da cruz.


Se for vampira oferece-lhe uma cebola menina 

que surprendida fica mais meiga e apetitosa 

que um frasquinho de doce de framboesa.

 

Ter a ilusão de ser notícia na televisão 

e que a solidão não faz mal ao coração.

Morrer para ressuscitar e voltar a viver. 

Pedro Assis Coimbra

 

Budapeste, 15 de agosto de 2026