Deixar de escrever, Barátom
Diálogo poético bilingue com Bognár Károly, meu amigo desde o tempo da Universidade MKKE (1980-1985)
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Deixar de escrever, Barátom
Diálogo poético bilingue com Bognár Károly, meu amigo desde o tempo da Universidade MKKE (1980-1985)
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Külvárosi vágy
Feri
elhagyott, most dug a Béla,
Lök egy kis
lóvét piára néha.
Hogy miért?
Igazán nem is értem,
De így megy
ez itt, ezen a téren.
Feri ütötte-verte a testem,
Bélától
gyorsan teherbe estem.
Most itt
növekszik bennem a vérem,
Ezen a
szürke, elhagyott téren.
A napot
szinte sohase látom,
Az éjszaka a legjobb barátom.
Itt állok
nyáron, itt állok télen,
Ezen a
kibaszott, sivár téren.
Nem vagyok
szép, és nem vagyok csúnya,
Nem vagyok szűz, és nem vagyok kurva,
Hogy kerültem ide? Nem is értem,
Miért dekkolok ezen a téren.
Nézz meg jól! Én is egy ember vagyok,
Ha nem
szeretnek, én is megfagyok.
Néha a Jóistent magát kérem,
Ne hagyjon
elveszni itt, a téren.
Szeretni
akarok, ahogy mások,
Ezért is
mosolygok néha rátok.
Nagyon
várom, hogy elgyere értem,
Itt várlak,
ezen a tetves téren.
Bognár
Károly
Desejo da periferia da cidade
O Feri deixou-me, agora fode-me o Béla,
De vez em quando, dá-me dinheiro para a bebida.
Porquê? Na verdade, nem eu entendo
Mas é assim que as coisas acontecem nesta praça.
O Feri batia-me por tudo e por nada,
Com o Béla engravidei rapidamente.
Agora dentro de mim cresce o meu sangue,
Nesta praça cinzenta e abandonada.
Quase nunca vejo o sol,
A noite é a minha melhor amiga.
Aqui estou no verão, aqui estou no inverno,
Nesta desoladora praça de merda.
Não sou bonita, nem sou feia
Não sou virgem, nem sou puta
Como é que vim parar aqui? Nem eu sei,
Porque é que me escondo nesta praça.
Olha bem para mim! Também sou uma pessoa
Se não me amarem também vou congelar.
Por vezes peço ao próprio Deus
Que não me deixe perder aqui nesta praça.
Quero amar, tal como os outros
É por isso que às vezes vos sorrio.
Estou ansiosa que venhas buscar-me
Aqui te espero nesta miserável praça.
(Tradução Joaquim Pimpão)
Estaria em Viena
Se eu não fosse de raça cigana
já há muito que estaria em Viena
a trabalhar num lar de idosos
ou a fazer limpeza na Alemanha.
Mas se nem no meu país me aceitam
como é que me vão aceitar lá fora
com este aspecto tão pouco europeu
e sem saber falar a língua que falam.
Quem nasce numa família organizada
com tudo no sítio e dinheiro que chegue
vai estar sempre à frente da pobreza
da penúria e privações da criança cigana.
Resta-nos fazer filhos como quem lava a loiça
à espera de que comovido Deus faça um milagre
de vez traga à terra o paraíso do céu
sagrado
e acabe com os sacrifícios de quem espera a sua hora.
Pedro Assis Coimbra
Elbújnék
Ráncaim alól szinte ki se látszom,
Rám dől múltamnak szétmálló tűzfala,
És mégis még mindig fiatalt játszom,
Pedig sántikálva kullogok haza.
Szememből lassan elfogynak a fények,
Hajamat vastagon belepi a dér,
Asztalomon hófehér gyertyák égnek,
Törött ablakomon kopogtat a tél.
Testemben
őrjöngve tombol a halál,
Robbannak
mirigyek, rothadnak sejtek,
Elbújnék, de tudom, úgyis megtalál,
Nem rejt el előle semmilyen rejtek.
Készülődni kezdek a hosszú útra,
Bőröndöm és szívem üresen tátong,
Elindulok a végtelenen túlra,
Hol jöttömet már epekedve várod.
Bognár Károly
Gostaria de me esconder
Quase não se vê nada por baixo das minhas rugas,
A parede de fogo em ruínas do meu passado desaba sobre mim,
E, no entanto, continuo a fingir que sou jovem,
Embora vá a coxear quando volto para casa.
Lentamente a luz vai-se esvaindo dos meus olhos,
O gelo cobre fortemente o meu cabelo,
Na minha mesa ardem velas brancas como a neve,
O inverno bate à minha janela partida.
Furiosamente a morte assola o meu corpo,
As glândulas rebentam, as células apodrecem,
Gostaria de me esconder, mas sei que ela me vai encontrar,
Dela nenhum esconderijo me vai proteger.
Começo a preparar-me para a longa viagem,
A minha mala e o meu coração estão vazios,
Vou partir para além do infinito,
Onde já me esperas ansiosamente.
(Tradução Joaquim Pimpão)
O vinho que eu cá deixei
Foi um pensamento que iluminou a noite
uma curta mensagem que dizia apenas
- É agora, é tempo de mudar de vida.
Se fosse uma curta-metragem seria
estou onde mereço estar, em lado nenhum
e passava à tarde no cinema da esquina.
Foi bom, mas acabou. Adeus, inverno. Bem-vinda,
primavera.
Fica em paz com o destino, com a tua peregrinação
que o amor é como a própria vida, dura até acabar.
Uma última informação, mas sem data
- Quando eu morrer por favor não se esqueçam
de beber todo o vinho que eu cá deixei.
Pedro Assis Coimbra
Eljöttél hát
Kopogtatnak.
Ajtót nyitok.
Eljöttél hát értem.
Azt hittem,
hogy nem félek majd,
de remeg a térdem.
Kilépek és elindulok
oda,
ahonnan jöttem.
Hóban,
sárban botladozom,
az egyre
sűrűbb ködben.
Bognár
Károly
Foi então que vieste
Alguém bate à porta.
Abro a porta.
Então vieste buscar-me.
Pensava que não teria medo,
mas os meus joelhos tremem.
Saio e ponho-me a caminho
daquele lugar de onde vim.
Tropeço na neve e na lama,
no nevoeiro cada vez mais denso.
(Tradução Joaquim Pimpão)
Voltar a viver
Dizia, sabes o que é viver de alma vazia?
É melhor morrer para encurtar o caminho
antecipar a partida e a chegada ao deserto.
E se há vampiro ameaçador por perto
esmaga na pedra umas cabeças de alho
que vai fugir dali como diabo foge da cruz.
Se for vampira oferece-lhe uma cebola menina
que surprendida fica mais meiga e apetitosa
que um frasquinho de doce de framboesa.
Ter a ilusão de ser notícia na televisão
e que a solidão não faz mal ao coração.
Morrer para ressuscitar e voltar a viver.
Pedro Assis Coimbra
Budapeste, 15 de agosto de 2026