sexta-feira, 19 de outubro de 2018

PAREDES DO TRIBUNAL



"e devagar tornei-me transparente"
Sophia de Mello Breyner Andersen

Escrevia nas paredes do liceu nacional
envolvida no disfarce e embrulhada
na túnica transparente da pouca sorte.
Aqui antes da morte ninguêm se rende!
E nem com deus o povo desiste!

Dizia com a alegria das certezas absolutas
enquanto extendia os braços à lua
pegava nas mãos da nossa negação
e com a ponta salgada dos dedos
fazia uma festa demorada de mar calmo.

De envelope e correio postal
quase em segredo espalhava
as últimas novidades do litoral.
Desde a fronteira entre o abismo
da bruxa descoberta pela bússula
até ao bilhete de avião por validar.

À noite cresceu ficou mais linda
no fundo dos seus olhos imensos
envolvia o verão de contentamento.

Escrevia a vermelho nas paredes do tribunal
exigindo a verdadeira justiça popular
nas madrugadas sadías do seu coração.

UM CORPO INCERTO



Um corpo incerto que parecia
vir a descer de pára-quedas
mesmo ao encontro do inferno privado
desse vulcão livre imoral e pagão
que não acorda nem deixa dormir.

Um corpo incerto seguido
pelos radares de defesa da pátria
caças de combate prontos a avançar.
As televisões interrompiam as emissões
colocavam no ar imagens não editadas.

Um corpo incerto desalinhado
vítima dos excessos da notícia
da busca constante do crime
que leva a privacidade à morte.
Os malvados só podem ser os outros.

Se fosse possível voltar atrás haveria
um inferno de pecados abençoados
uma cratera de bebidas e entregas
corpo de raíz que traria a vida de volta.

Um corpo certo de mulher em chamas
que nos chama para a cidadania da paixão
para a soberania da liberdade da escolha.
Arderia se não fosse de talha dourada?

ESPELHOS COSMOPOLITAS



Os bicos escondiam com amoras pretas.
sem tu saberes minha flôr
os espelhos côncavos e cosmopolitas
do nosso coração apaziguador.

Com a chuva impiedosa de janeiro
em interiores de sonhos incompletos
em ervas medicinais cobertas de seda
pelas escadas envelhecidas do tempo.

O seu rosto da dor mal se reconhece
não se sabe se é da tempestade de ontem
ou do pó fino do que resta da memória.
Se é da neblina da distància ou da escuridão.

Não sei se os teus olhos são resposta
se apenas uma pergunta deaté logo.
Sei isso sim que os teus lábios tão íntimos
nunca estiveram tão próximos do fogo.

HÁ UM OLHAR NOCTURNO



"Vejo o meu último dia
pintado em rolos de fumo"  Mário de Sá-Carneiro

Há um longo olhar nocturno
dos que nunca deixaram o dia
sintomas claros de salmoeira seca
com a tinta-da-china-mais-negra.

Sem os guardas dos bons costumes
doutores da revolução que descobrem
negando maresia desse mar riscado
que a culpa das desgraças e tragédias
é das carnes à mostra das mulheres.

Há um olhar nocturno infiel de injúria 
com as cores intensas do luto
da intolerância avassaladora do dogma
que nos deixa cada vez mais inquietos.
Saibam é que eu tenho vários filhos.

Que diram os poetas da poesia antiga
se soubessem pela vida ser preciso
escurecer a noite tapar a cara ensaiar a fuga
aos castigos-chicotes-da-punição-pública?

AO AMOR DA PEDREIRA




Por muito que custe escrever suportar
não se devem fechar os olhos
pedreira ao primeiro amor que partiu
com a aflição a rebate dos sinos
antes do profeta do tempo cantar.

Na cidade apenas frangos de aviário
galos só congelados ou no forno
modelo do corpo que antecedia a estátua.
Tinham pêlos a mais as irmãs-gêmeas
filhas paridas do peito da mesma mãe.

Muitas tetas e tanta noite louca tanto cão
à coca sim cegos da fome do apetite
pelo céu da carne no talho asseado.
Deitados como víboras no chão-das-putas
nas traseiras redondas dessa velha igreja.

Era em Amesterdão nas tetas do gado
e na libertinagem ilimitada das vitrines.
Dos excessos cometidos a estátua
foi removida pedra a pedra pela cidade.
Foi pintada e devolvida ao amor da pedreira.

ERA BONITA DEMAIS



"Lábios húmidos do amor da manhã
polpas de cereja”" António Gedeão

Era bonita demais para ter chegado
empoleirada nos postes de luz
dissolvida na floresta do passado
e arrastada pelo robusto navio mercante
com óculos escuros e rosto de meio-dia.

Trazida em pacotes de batata frita
bem ao gosto da multidão criadas de casa
com as asas do ferro pesado do delito
finança a mais e economia a menos.
Poesia hoje já ninguêm quer ser pobre!

Ele falava vários idiomas estrangeiros
pássaro tardío militar sedento de paz
de tanta batalha na folha de serviço
tanto homem tanta morte tão pouca mulher.

Do fundo da alma no confronto dos corpos
ouvia-se – tu falas muito acertas pouco
merda não comes nada nem ninguêm
nem peixe-faca corvina ou facalhão!

CHOCOLATE SE DERRETIA



"Desde que nasci que todos me enganam
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel"
António Gedeão

De longe pareceu que comia chocolate belga
com cheirinho envolvente a licor proíbido
anis azul de bordel a mais e avé-marias a menos.
Eram as fadas verdes dos artistas e dos pintores.

Deram agora lugar a mesas limpas sem moscas
bem comportados almoços de auto-estrada
para a rentabilidade objectiva da gerência com lucros
sem necessidade de recurso à fuga aos impostos.

Assim fossem as broas e e os pudins d'avó.
Sabia-se de fonte segura da decisão
pelo analista do risco a subir na hierarquia
de negar o pedido de empréstimo bonificado.

Este mau fígado da poesia de combate!
A culpa é do chocolate que religiosamente
que ela comia com um tal requinte feminino
comodamente sentada em frente ao retrovisor.
Daqui à distância de um olhar não sabia
devo dizer se era ela que comia o chocolate
se era o chocolate feito homem que a comia
e por ela e por dentro em fogo se derretia.

VESTIDO DA CIDADE



Importavam berinjelas de Goa
em vasilhas de vinte litros
mirra da terra da sabedoria
com promessas de canela e arroz-doce.
Ainda assim eram capazes de escrever
que as viagens com muitas curvas
não davam volta ao estômago.

Sabiam lá eles do que falavam.
Ficariam calados que nem mudo-azeviche
se soubessem como era bom andar
a subir e a descer e a contornar o perigo
das ravinas e alisar as quedas do tempo.
No fim descansar de olhos abertos
por debaixo do vestido da cidade.

Eram consumidores de fabrico artesanal
no jardim interior do prédio posto à venda
ao fundo do rio livre do pensamento.
Protegidos contra a falsificação da liberdade
da topografia do amor melro virtual
de basalto afastando os números da má sorte.
O mau olhado da noite na lotaria da vida.

Florista Polícia ou Sacristão



Era segundo o cobrador do gás
a neta mais velha da relação-solipampa
da feiticeira-tesoura da Praça do Chile
da capital sem fronteiras de Portugal
e do chefe-de-mesa da Galiza
do melhor restaurante da Corunha.

Livre e sabida solteira e sedutora
tinha a escola toda lá isso tinha
pois a professora do ensino público
metia baixa coitadinha na hora certa
para não ter a bruta trabalheira
dos exames nacionais no fim de ano.

Previa um futuro colectivo melhor
substantivo raro na história dos homens
para ricos e pobres magras e gordas
e sempre com um sorriso no olhar
que abria a carteira e o coração-cliente
fosse ele florista polícia ou sacristão.

LES FEMMES DE PICASSO



Talvez um dia seja capaz
de copiar em palavras
redondilha as curvas redondas
das mulheres de Picasso
na rua das laranjeiras de todos.

A geometria inicial do pescoço de girafa
a escadaria imperfeita que vai da boca
até à cisterna no meio das pernas
umas mais curtas outras mais grossas
a volumetria negra dos púbis.

Interpretar as mamas com história
muito leite de cabra virada ao céu
como se fossem pedras altas
prontas a enfrentar a história
pedras ou mamas a desfazerem-se.

Com a chama fria do Inverno
a negar as bombas-aviação sem piedade
a acertar contas Gernika com o passado
que condiciona as lajes do futuro
e os arquivos queimados da República.

LAS DONAS DE PICASSO



Reconstruir as mulheres redondas
corpos que apetecem mesmo tocar
na tinta com a ponta da língua
mexer com os dedos de esteira seca
maria de los remédios y hematomas.

Armar paredes à volta do chapéu-de-sol
pelas areias das praias da Catalunha
com o pincel e o mata-borrão
das metáforas malditas da censura
da liberdade que não se deixa vencer.

Com sombrinhas encarnadas
guloseimas ao melhor preço
das raparigas espalhadas pelas ruas
à espera de serem pagas para em permuta
serem as flores da primeira penetração.

Corpos áridos de balões de sopro
e do toldo alugado ao dia por Olga
com a pele branca e indefesa
as pernas do mel fácil de ontem
abertas ao rebuliço do formigueiro.

Do mal que faz pelo bem que sabe
o absinto a escorrer pela barriga abaixo
tremores dos pés do velho piano
da santíssima trindade e do chumbo de caras
do malfadado exame de álgebra.

LAS MUJERES DE PICASSO



Sem segundas intenções afirmava
que o pano que servia
para secar as mãos e a testa
poupando usavam para limpar o sexo.
Parece que as mulheres de Picasso
já sabiam se lavado fica como novo.

Desenhar as bocas cruzadas
no cabide tonto da luz de madeira
os beijos de falso marfim
pendurados no bengaleiro austero
na messe oficial da noite franquista.

Colava língua como ninguêm
com cuspo condimentado de carteiro
na nudez distante do modelo
os morangos vindos da Galicia
nos bicos carregados de begónia cansada.

Pôr o sol a brilhar no bolso na carteira
do cavalete entre as pernas de pau-preto
local onde as enguias acasalavam Pablo
por debaixo das intimidades precoces
da folhagem expessa verde do feijão.

Para ajudar a festa do polegar em riste
do giz a poltrona de Paris partiu-se.
Ainda bem que a areia do corpo dela
era macia húmida e acolhedora tão boa
como o sofá das tardes às quintas-feiras.

AS MULLERES DE PICASSO



Porcelana a perdiz azul-azul esguia
a saltitar ao espelho fazia lembrar
da antiguidade uma galinha-de-água
na sensual embriaguez Dora do ciúme
que o vinho francês multiplicava mais.

Era nos fortes cheiros que ficavam
notícia as noitadas das insónias repetidas
para provisórias guerreiros fazerem as pazes
e a perdiz rosa-rosa a penetrar-se de prazer
entre épocas e cubas cheias de uvas azedas.

Seriam musas das que falam pouco
e fazem muito da fase da tela para vender
no bar da invenção das virgens
com búzios e caracoletas a subirem
as costas de bronze as paredes do quarto.

Cama alugada com os maços de dinheiros
que ganhou no concurso de dança
do retrato moderno da princesa eslava
que trazia a luz curva pela mão tão amada
e valiosa pele de arminho sobre os ombros.

HISTÓRIAS PÚBLICAS E ESCRITA PRIVADA

NOITES DAS FLORES



Foi nas noites longas das flores
- era assim que deixava de ser puro
aos olhos das bruxas velhas
dias de luzes e gemidos contidos
da malícia finita e sedução de fêmea.
Com as luas no corpo e o sol nas pernas
as cebolas roxas de Sansão e Dalila.
Minarete talvez fosse um pouco bizantino
em pequeno insonso tinha sido mordido
pelo cão-patriarca do avô-templário.

Os olhos mortiços de aprendiz
princesas às ordens do deus colérico
de Medina e d'Avignon da santa fé.
As embalagens clássicas de pó-de-arroz
sacas e sacos de chá pau-de-marmeleiro.

Assembleias gerais legalmente manipuladas
accionistas referência em postura de camaleão.
Seriam os testas-verniz de contraplacado
de bocas bem ditas e ámen-convincentes
nas longas noites da negação das flores.

SEM ABRIR OS OLHOS



Mesmo sem abrir os olhos
deixa espalhadas umas pinceladas
na transpiração viva das cores
pelas altas temperaturas do alcatrão.

Ali onde às telas inacabadas
se acomoda o seu peito de pedra
em traços rápidos de mais unos dibujos
os últimos retoques dos corpos
para merecer um bom almoço contigo.

Mesmo sem abrir os olhos
recorria a todas as forças para decifrar
os segredos forrados de veludo
por detrás da sua janela fechada.
Sorriso ousado de trapezista sem rede
desenhado no dourado das cortinas.

Só muito mais tarde soube
mesmo sem sair da penumbra
que conhecia o histórico do seu olhar.
Os sinais da biblioteca o livro proibido
entregue por debaixo do balcão
por cima das saudades da tua mão.

À pressa a fugir dos olhos abertos
do competéncia dos agentes nunca ausentes.
Assim o calvário da liberdade
do mito da dita ditadura do proletariado
da vitória bruta do ferro sobre a insubmissão.

FOTOGRAFIAS DO PASSADO



Recolhe as palavras fechadas no peito
partilha a desilusão das falsas profecias
esquece os piolhos a caspa do louco
e divide o povo como pão das maresias.

Meu irmão torneiro-mecânico das minas
empregado ou limpa-chaminés do azar
personagem sem história nem televisão
um nada mesmo que tenha sangue e coração.
A não ser por ser sexta-feira e o gato preto
andar com as ingratas promessas da gata do cio.

Isso de lavadeiras a lavar com sabão
não passam de fotografias do século passado
como o operariado e sindicatos a sério.
Nos tempos da ditadura nas férias de verão
ia feliz à farmácia levantar o jornal
para ser lido na taberna-barbearia do meu tio.

À MESA DO GALIFÃO



Lenta vinha e mais fazia lembrar a lesma
pois incautos vivem condicionados
por tempos cada vez mais provisórios.

A gema d’ovo azul da pata choca
na lentidão de quando nada acontece
e dos teoremas dos novos perigos.

Do medo de ser caçada pelo cão
ser no mercado abalroada pelo sardão
pasto e ementa à mesa do galifão.

Lenta por baixo da galifoa da costura
costureira que belo par de marmelos
Nossa Senhora da Conceição!

Casou-se e nunca mais se calou
bem casada cheia de tesouras
tesouros e muita moeda estrangeira.

O médico marido trata-lhe da saúde
uma vez por mês ao espelho no dia certo
a ver se família acerta algum herdeiro.
Património há de sobra para desbaratar
mas para a vaca mal-comida nada lhe chega
tudo é pouco não se contenta com a mesada
nem com a carne de plástico do pavão.

ÁGUIA DO DESERTO



Transcrevo para as minhas palavras
sem recurso a metáforas trabalhadas
o que aprendi com a moça de Macau um dia
ao fim da tarde sem chuva em Bruxelas.

- Sabes uma águia pode voar
mais baixo que uma galinha
mas uma galinha jamais
voará mais alto que uma águia!

Queria apenas na urgência de um texto
de vão-de-escada ou de sotão desarrumado
re-inventado pelo gozo de estar contigo
regressar às fotos que amanhã nos esperam.

Saber dos teus dedos de azeite a frio
de um verde grosso que coalhava
que não cantavas nem te abandonava.
em silêncio nos teus olhos de verdilhão.

Eu meu amor com a tua permissão
temperava com vinagre para adocicar
para avivar os sabores do teu corpo.
No prazer do fogo minha águia do deserto!

QUEM MUITO DORME



Trocava as voltas aos bigodes da gata
que à esquina da lua nas barbas da chuva
fazia insolente negaças ao passado.

Se o coração de madeira a arder
palpita que nem uma batata frita
não compre no talho que não compensa.

Use pré-mastigados made in usa-europe
que fabricam à medida de gordos e gordinhos
e de borla plastificam camelos e barrigudos.

Se quem muito dorme pouco aprende
não te deixes ficar dormente à espera
que não há pão que não dé em fartura.

Não confundas a Vénus partida de Mileto
de perna aberta e maminha ao céu
com a ninfa da ilha por cima da rocha.

HÚMIDA NAS MARGENS



Por baixo do frio da noite
do idioma mal-conhecido da pele
o rio já não corria para a foz
com a metáfora do nosso mar
que seria húmida nas margens
estranhamente seca na fenda.

Sabe-se que para fazer bem
era preciso arder fazer doer
e depois caminhar devagar
andar sózinho durante horas 
para bem-aventurado mais tarde
ir até ao bar mais próximo.

Depois de uma caneca de cerveja
voltar à rua inspirar e sentir o vento norte
olhar o frio do rio feito pista de gelo
respirar e ouvir propostas indecentes
e só pensar em a surpreender com flores.

Cansaço erotismo alguma criatividade poética
mas que importância tem alinhar as palavras
escritas como festas que se sentem no rosto?
Assim não nem de veludo há cabra que resista!

BAINHA DA ILUSÃO



Apesar da chuva a gabardine
estrategicamente aberta
mostrava as pernas perfeitas
aos que aquela hora ali passavam.

Nem a chuva oblíqua
de que escreveu Pessoa
ganhou coragem para as tocar
nem os olhos do homem
que matinal passeava o cão.

Nem mesmo quando este
rafeiro e matreiro juntou o pêlo
à pele brilhante das meias de vidro.

Ao mais simples cidadão
pareciam porcelana oriental
humedecida pelo bafo do passeio
pela vidraça oculta molhada
pelo culto divino do pecador.

Que vergonha! Ficou noite clara
quando cruzei o meu olhar
com os olhos do dono do cão.

Continuamos em frente
vontade de deixar a imaginação
a dar cavalos e força ao motor
projectos para a bainha da ilusão.

GUEIXAS E CONCUBINAS



No oriente as gueixas e as concubinas
estudaram aprenderam e cresceram
acabaram o liceu a escola superior a universidade.
Hoje em vez de servirem chá com panos mornos
em salas climatizadas montam micro-processores 
computadores montam tudo as papoilas.

As de cá chapim de pernas mais altas
fúcsias tristes com ramos de laranjeira 
em terra azul seriam aves com asas de borracha.
Anjinhos a ponto cruz bordados ao pé da sé
na toalha branca da mesa de jantar devagar
mas sem emprego alfacinhas não montam nada.

Em vez da farinha de trigo longe das searas
do vinho das uvas da vinha do médico
do azeite virgem do novo olival de van Gogh.
Acredita girassol foi a orelha direita
que já nos baldíos dos caminhos da morte
ofereceu a Rachel a puta amiga do bordel.

NAMOROS À CONSIGNAÇÃO



                                         A Leonard Cohen
Os dedos viajavam sem eira nem beira
por cidades vilas e outros lugares ermos.
Pelas ruas mais improváveis da alegria.
Continuavam pelos ombros a descer
até pararem no descampado da planície.

Continuavam a subir pela montanha acima
montados em bicicleta de competição
observando as marcas do assalto nocturno
deixadas ali por bandidos de lábios abelhudos
quando a maioria dormia que nem uma pedra.

Com receio da opinião pública juravam
que já não podiam com uma gata pelo rabo.
Dedos cinzento-escuro de tanto cigarro
gengivas castanhas apesar da escova
da cara cuidada e al dente da pasta italiana.

Dentes de lactícinio de tanto chocolate
comidos para ajudar a passar o café do tempo.
Do farnel de tanta azeitona preta para recordar
o local onde foram abandonados sem remorsos
no primeiro passeio dos namoros à consignação.

HOSPITAL PÚBLICO



Vinha sentada no autocarro
atrasado por causa do trânsito
que o carro tinha ficado em casa
mais barato e menor a poluição.

Vinha sentada no autocarro
junto à janela e era tão vistosa
que até de longe sem olhar se sentia
a pressa de chegar introduzir o cartão.
Entrar ao serviço e acompanhar
a primeira visita médica do dia
no hospital público da burguesia de Buda
que do luxo e bem estar privado parecia.
Quem não tém cartão usa a combustão.
Aconteceu no cruzamento tripartido
entre muito automóvel a passo curto
malabarismos de autocarros à pinha
e a curta-metragem da imaginação.
Novelas de encantamento e sedução.

SOBREMESAS EUROPEIAS



Depois de um bom Sholet e um tinto Villányi
com o Luis (Madureira Pires) no Fülemüle*

De algumas conjunturas e video-conferências
soube do especialista que aquelas personagens
vinham directamente do tempo em que os ilhéus
ignoravam o desenvolvimento regional estruturante.
Sem os custos da insularidades nem subsídios
e solidariedade para reforço da coesão nacional.

Vinham e traziam para vender no mercado mundial
com qualidade garantida canela bastante em tijolos
cravinho aplicado em palitos no toucinho magro
e aos sábados condimentavam as patas de ganso.
Enriqueciam a ementa com nóz-moscada e pimenta
enquanto serviam as mulheres como contrapeso
entrecosto para as sobremesas das elites europeias.

Agora é a hora dos cremes dos novos mercadores
plebeus que andam de comboio e também de metro.
Os de outrora mais classissistas deixavam os camelos
e os cavalos com corridas por ganhar a descansar
a fazer em frente ao antigo palácio do imperador
e é hoje residência oficial do presidente da república.
*No mês anterior tinha sido no Carmel

O MOTORISTA O MENINO E O SINDICALISTA



A Cseh Tamás, muito mais que um cantor
e a quem já em 1982 escrevi em texto que começava
- Vá parte o copo Tamás, vá lá parte os copos!

Ave ausente a irmã gémea era mais discreta
mais siléncio por isso ninguêm se lembra dela.

A mãe-flor afinal em vez de cravo encarnado
já um pouco murcha era malmequer de estufa
com beiços muito pintados para compensar.
A língua azul de ladrilho ou azulejo nacional
de vaca tresmalhada porque o funeral inoportuno
lhe estragou a ida à ópera com os amigos.

Não podia ter morrido um dia mais tarde?
Fazia alguma diferença? Estes indígenas!

O menino precoce socialmente comprometido
quando for grande será libertário como é tradição
na família e da escola dos intelectuais em Paris
com o coração à esquerda e canivete a carteira
bem recheada no bolso da camisa à direita.

O menino de oiro formatado em tapas e mapas
e em ciência politica ficava parado à espera
- com uma grande carreira à sua frente.
Esperava coitadinho que o motorista
lhe abrisse a porta e ele saciado de mansinho
finalmente pudesse abancar o traseiro.

O sindicalista reformado que continuava
com o hábito saudável de não se calar
e mandar à merda com todas as letras dizia

- Olha lá! Foi para estes meninos-tótós
copinhos de leite aquecido em micro-ondas
que corremos com a ditadura fizemos a revolução?