sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Florista Polícia ou Sacristão



Era segundo o cobrador do gás
a neta mais velha da relação-solipampa
da feiticeira-tesoura da Praça do Chile
da capital sem fronteiras de Portugal
e do chefe-de-mesa da Galiza
do melhor restaurante da Corunha.

Livre e sabida solteira e sedutora
tinha a escola toda lá isso tinha
pois a professora do ensino público
metia baixa coitadinha na hora certa
para não ter a bruta trabalheira
dos exames nacionais no fim de ano.

Previa um futuro colectivo melhor
substantivo raro na história dos homens
para ricos e pobres magras e gordas
e sempre com um sorriso no olhar
que abria a carteira e o coração-cliente
fosse ele florista polícia ou sacristão.

LES FEMMES DE PICASSO



Talvez um dia seja capaz
de copiar em palavras
redondilha as curvas redondas
das mulheres de Picasso
na rua das laranjeiras de todos.

A geometria inicial do pescoço de girafa
a escadaria imperfeita que vai da boca
até à cisterna no meio das pernas
umas mais curtas outras mais grossas
a volumetria negra dos púbis.

Interpretar as mamas com história
muito leite de cabra virada ao céu
como se fossem pedras altas
prontas a enfrentar a história
pedras ou mamas a desfazerem-se.

Com a chama fria do Inverno
a negar as bombas-aviação sem piedade
a acertar contas Gernika com o passado
que condiciona as lajes do futuro
e os arquivos queimados da República.

LAS DONAS DE PICASSO



Reconstruir as mulheres redondas
corpos que apetecem mesmo tocar
na tinta com a ponta da língua
mexer com os dedos de esteira seca
maria de los remédios y hematomas.

Armar paredes à volta do chapéu-de-sol
pelas areias das praias da Catalunha
com o pincel e o mata-borrão
das metáforas malditas da censura
da liberdade que não se deixa vencer.

Com sombrinhas encarnadas
guloseimas ao melhor preço
das raparigas espalhadas pelas ruas
à espera de serem pagas para em permuta
serem as flores da primeira penetração.

Corpos áridos de balões de sopro
e do toldo alugado ao dia por Olga
com a pele branca e indefesa
as pernas do mel fácil de ontem
abertas ao rebuliço do formigueiro.

Do mal que faz pelo bem que sabe
o absinto a escorrer pela barriga abaixo
tremores dos pés do velho piano
da santíssima trindade e do chumbo de caras
do malfadado exame de álgebra.

LAS MUJERES DE PICASSO



Sem segundas intenções afirmava
que o pano que servia
para secar as mãos e a testa
poupando usavam para limpar o sexo.
Parece que as mulheres de Picasso
já sabiam se lavado fica como novo.

Desenhar as bocas cruzadas
no cabide tonto da luz de madeira
os beijos de falso marfim
pendurados no bengaleiro austero
na messe oficial da noite franquista.

Colava língua como ninguêm
com cuspo condimentado de carteiro
na nudez distante do modelo
os morangos vindos da Galicia
nos bicos carregados de begónia cansada.

Pôr o sol a brilhar no bolso na carteira
do cavalete entre as pernas de pau-preto
local onde as enguias acasalavam Pablo
por debaixo das intimidades precoces
da folhagem expessa verde do feijão.

Para ajudar a festa do polegar em riste
do giz a poltrona de Paris partiu-se.
Ainda bem que a areia do corpo dela
era macia húmida e acolhedora tão boa
como o sofá das tardes às quintas-feiras.

AS MULLERES DE PICASSO



Porcelana a perdiz azul-azul esguia
a saltitar ao espelho fazia lembrar
da antiguidade uma galinha-de-água
na sensual embriaguez Dora do ciúme
que o vinho francês multiplicava mais.

Era nos fortes cheiros que ficavam
notícia as noitadas das insónias repetidas
para provisórias guerreiros fazerem as pazes
e a perdiz rosa-rosa a penetrar-se de prazer
entre épocas e cubas cheias de uvas azedas.

Seriam musas das que falam pouco
e fazem muito da fase da tela para vender
no bar da invenção das virgens
com búzios e caracoletas a subirem
as costas de bronze as paredes do quarto.

Cama alugada com os maços de dinheiros
que ganhou no concurso de dança
do retrato moderno da princesa eslava
que trazia a luz curva pela mão tão amada
e valiosa pele de arminho sobre os ombros.

HISTÓRIAS PÚBLICAS E ESCRITA PRIVADA

NOITES DAS FLORES



Foi nas noites longas das flores
- era assim que deixava de ser puro
aos olhos das bruxas velhas
dias de luzes e gemidos contidos
da malícia finita e sedução de fêmea.
Com as luas no corpo e o sol nas pernas
as cebolas roxas de Sansão e Dalila.
Minarete talvez fosse um pouco bizantino
em pequeno insonso tinha sido mordido
pelo cão-patriarca do avô-templário.

Os olhos mortiços de aprendiz
princesas às ordens do deus colérico
de Medina e d'Avignon da santa fé.
As embalagens clássicas de pó-de-arroz
sacas e sacos de chá pau-de-marmeleiro.

Assembleias gerais legalmente manipuladas
accionistas referência em postura de camaleão.
Seriam os testas-verniz de contraplacado
de bocas bem ditas e ámen-convincentes
nas longas noites da negação das flores.

SEM ABRIR OS OLHOS



Mesmo sem abrir os olhos
deixa espalhadas umas pinceladas
na transpiração viva das cores
pelas altas temperaturas do alcatrão.

Ali onde às telas inacabadas
se acomoda o seu peito de pedra
em traços rápidos de mais unos dibujos
os últimos retoques dos corpos
para merecer um bom almoço contigo.

Mesmo sem abrir os olhos
recorria a todas as forças para decifrar
os segredos forrados de veludo
por detrás da sua janela fechada.
Sorriso ousado de trapezista sem rede
desenhado no dourado das cortinas.

Só muito mais tarde soube
mesmo sem sair da penumbra
que conhecia o histórico do seu olhar.
Os sinais da biblioteca o livro proibido
entregue por debaixo do balcão
por cima das saudades da tua mão.

À pressa a fugir dos olhos abertos
do competéncia dos agentes nunca ausentes.
Assim o calvário da liberdade
do mito da dita ditadura do proletariado
da vitória bruta do ferro sobre a insubmissão.

FOTOGRAFIAS DO PASSADO



Recolhe as palavras fechadas no peito
partilha a desilusão das falsas profecias
esquece os piolhos a caspa do louco
e divide o povo como pão das maresias.

Meu irmão torneiro-mecânico das minas
empregado ou limpa-chaminés do azar
personagem sem história nem televisão
um nada mesmo que tenha sangue e coração.
A não ser por ser sexta-feira e o gato preto
andar com as ingratas promessas da gata do cio.

Isso de lavadeiras a lavar com sabão
não passam de fotografias do século passado
como o operariado e sindicatos a sério.
Nos tempos da ditadura nas férias de verão
ia feliz à farmácia levantar o jornal
para ser lido na taberna-barbearia do meu tio.

À MESA DO GALIFÃO



Lenta vinha e mais fazia lembrar a lesma
pois incautos vivem condicionados
por tempos cada vez mais provisórios.

A gema d’ovo azul da pata choca
na lentidão de quando nada acontece
e dos teoremas dos novos perigos.

Do medo de ser caçada pelo cão
ser no mercado abalroada pelo sardão
pasto e ementa à mesa do galifão.

Lenta por baixo da galifoa da costura
costureira que belo par de marmelos
Nossa Senhora da Conceição!

Casou-se e nunca mais se calou
bem casada cheia de tesouras
tesouros e muita moeda estrangeira.

O médico marido trata-lhe da saúde
uma vez por mês ao espelho no dia certo
a ver se família acerta algum herdeiro.
Património há de sobra para desbaratar
mas para a vaca mal-comida nada lhe chega
tudo é pouco não se contenta com a mesada
nem com a carne de plástico do pavão.

ÁGUIA DO DESERTO



Transcrevo para as minhas palavras
sem recurso a metáforas trabalhadas
o que aprendi com a moça de Macau um dia
ao fim da tarde sem chuva em Bruxelas.

- Sabes uma águia pode voar
mais baixo que uma galinha
mas uma galinha jamais
voará mais alto que uma águia!

Queria apenas na urgência de um texto
de vão-de-escada ou de sotão desarrumado
re-inventado pelo gozo de estar contigo
regressar às fotos que amanhã nos esperam.

Saber dos teus dedos de azeite a frio
de um verde grosso que coalhava
que não cantavas nem te abandonava.
em silêncio nos teus olhos de verdilhão.

Eu meu amor com a tua permissão
temperava com vinagre para adocicar
para avivar os sabores do teu corpo.
No prazer do fogo minha águia do deserto!

QUEM MUITO DORME



Trocava as voltas aos bigodes da gata
que à esquina da lua nas barbas da chuva
fazia insolente negaças ao passado.

Se o coração de madeira a arder
palpita que nem uma batata frita
não compre no talho que não compensa.

Use pré-mastigados made in usa-europe
que fabricam à medida de gordos e gordinhos
e de borla plastificam camelos e barrigudos.

Se quem muito dorme pouco aprende
não te deixes ficar dormente à espera
que não há pão que não dé em fartura.

Não confundas a Vénus partida de Mileto
de perna aberta e maminha ao céu
com a ninfa da ilha por cima da rocha.

HÚMIDA NAS MARGENS



Por baixo do frio da noite
do idioma mal-conhecido da pele
o rio já não corria para a foz
com a metáfora do nosso mar
que seria húmida nas margens
estranhamente seca na fenda.

Sabe-se que para fazer bem
era preciso arder fazer doer
e depois caminhar devagar
andar sózinho durante horas 
para bem-aventurado mais tarde
ir até ao bar mais próximo.

Depois de uma caneca de cerveja
voltar à rua inspirar e sentir o vento norte
olhar o frio do rio feito pista de gelo
respirar e ouvir propostas indecentes
e só pensar em a surpreender com flores.

Cansaço erotismo alguma criatividade poética
mas que importância tem alinhar as palavras
escritas como festas que se sentem no rosto?
Assim não nem de veludo há cabra que resista!

BAINHA DA ILUSÃO



Apesar da chuva a gabardine
estrategicamente aberta
mostrava as pernas perfeitas
aos que aquela hora ali passavam.

Nem a chuva oblíqua
de que escreveu Pessoa
ganhou coragem para as tocar
nem os olhos do homem
que matinal passeava o cão.

Nem mesmo quando este
rafeiro e matreiro juntou o pêlo
à pele brilhante das meias de vidro.

Ao mais simples cidadão
pareciam porcelana oriental
humedecida pelo bafo do passeio
pela vidraça oculta molhada
pelo culto divino do pecador.

Que vergonha! Ficou noite clara
quando cruzei o meu olhar
com os olhos do dono do cão.

Continuamos em frente
vontade de deixar a imaginação
a dar cavalos e força ao motor
projectos para a bainha da ilusão.

GUEIXAS E CONCUBINAS



No oriente as gueixas e as concubinas
estudaram aprenderam e cresceram
acabaram o liceu a escola superior a universidade.
Hoje em vez de servirem chá com panos mornos
em salas climatizadas montam micro-processores 
computadores montam tudo as papoilas.

As de cá chapim de pernas mais altas
fúcsias tristes com ramos de laranjeira 
em terra azul seriam aves com asas de borracha.
Anjinhos a ponto cruz bordados ao pé da sé
na toalha branca da mesa de jantar devagar
mas sem emprego alfacinhas não montam nada.

Em vez da farinha de trigo longe das searas
do vinho das uvas da vinha do médico
do azeite virgem do novo olival de van Gogh.
Acredita girassol foi a orelha direita
que já nos baldíos dos caminhos da morte
ofereceu a Rachel a puta amiga do bordel.

NAMOROS À CONSIGNAÇÃO



                                         A Leonard Cohen
Os dedos viajavam sem eira nem beira
por cidades vilas e outros lugares ermos.
Pelas ruas mais improváveis da alegria.
Continuavam pelos ombros a descer
até pararem no descampado da planície.

Continuavam a subir pela montanha acima
montados em bicicleta de competição
observando as marcas do assalto nocturno
deixadas ali por bandidos de lábios abelhudos
quando a maioria dormia que nem uma pedra.

Com receio da opinião pública juravam
que já não podiam com uma gata pelo rabo.
Dedos cinzento-escuro de tanto cigarro
gengivas castanhas apesar da escova
da cara cuidada e al dente da pasta italiana.

Dentes de lactícinio de tanto chocolate
comidos para ajudar a passar o café do tempo.
Do farnel de tanta azeitona preta para recordar
o local onde foram abandonados sem remorsos
no primeiro passeio dos namoros à consignação.

HOSPITAL PÚBLICO



Vinha sentada no autocarro
atrasado por causa do trânsito
que o carro tinha ficado em casa
mais barato e menor a poluição.

Vinha sentada no autocarro
junto à janela e era tão vistosa
que até de longe sem olhar se sentia
a pressa de chegar introduzir o cartão.
Entrar ao serviço e acompanhar
a primeira visita médica do dia
no hospital público da burguesia de Buda
que do luxo e bem estar privado parecia.
Quem não tém cartão usa a combustão.
Aconteceu no cruzamento tripartido
entre muito automóvel a passo curto
malabarismos de autocarros à pinha
e a curta-metragem da imaginação.
Novelas de encantamento e sedução.

SOBREMESAS EUROPEIAS



Depois de um bom Sholet e um tinto Villányi
com o Luis (Madureira Pires) no Fülemüle*

De algumas conjunturas e video-conferências
soube do especialista que aquelas personagens
vinham directamente do tempo em que os ilhéus
ignoravam o desenvolvimento regional estruturante.
Sem os custos da insularidades nem subsídios
e solidariedade para reforço da coesão nacional.

Vinham e traziam para vender no mercado mundial
com qualidade garantida canela bastante em tijolos
cravinho aplicado em palitos no toucinho magro
e aos sábados condimentavam as patas de ganso.
Enriqueciam a ementa com nóz-moscada e pimenta
enquanto serviam as mulheres como contrapeso
entrecosto para as sobremesas das elites europeias.

Agora é a hora dos cremes dos novos mercadores
plebeus que andam de comboio e também de metro.
Os de outrora mais classissistas deixavam os camelos
e os cavalos com corridas por ganhar a descansar
a fazer em frente ao antigo palácio do imperador
e é hoje residência oficial do presidente da república.
*No mês anterior tinha sido no Carmel

O MOTORISTA O MENINO E O SINDICALISTA



A Cseh Tamás, muito mais que um cantor
e a quem já em 1982 escrevi em texto que começava
- Vá parte o copo Tamás, vá lá parte os copos!

Ave ausente a irmã gémea era mais discreta
mais siléncio por isso ninguêm se lembra dela.

A mãe-flor afinal em vez de cravo encarnado
já um pouco murcha era malmequer de estufa
com beiços muito pintados para compensar.
A língua azul de ladrilho ou azulejo nacional
de vaca tresmalhada porque o funeral inoportuno
lhe estragou a ida à ópera com os amigos.

Não podia ter morrido um dia mais tarde?
Fazia alguma diferença? Estes indígenas!

O menino precoce socialmente comprometido
quando for grande será libertário como é tradição
na família e da escola dos intelectuais em Paris
com o coração à esquerda e canivete a carteira
bem recheada no bolso da camisa à direita.

O menino de oiro formatado em tapas e mapas
e em ciência politica ficava parado à espera
- com uma grande carreira à sua frente.
Esperava coitadinho que o motorista
lhe abrisse a porta e ele saciado de mansinho
finalmente pudesse abancar o traseiro.

O sindicalista reformado que continuava
com o hábito saudável de não se calar
e mandar à merda com todas as letras dizia

- Olha lá! Foi para estes meninos-tótós
copinhos de leite aquecido em micro-ondas
que corremos com a ditadura fizemos a revolução?

AVIÃO AEROPORTOS E ALGUMAS HOSPEDEIRAS



Arturo (Portuondo) Carlos (Sánchez x 2) Daniel (Mañana) Guille (Blanco)
Jorge (Bernal) Ricardo (Farrú) Victor (Medina)

Saudades de quê? Das noites com chuva a mais?
Da despedida para sempre da minha aldeia?
Da catequese voluntária e a primeira comunhão?
Da vida pela causa e da saída do adeus definitivo?

Saudades de quê? Do taller literário dos amigos no exílio?
Das viagens de comboio e algumas de avião?
Do sorriso onde se metia a libertinagem marota?
Das manhãs com aguardente para passar no exame?

Passar a dor de cabeça porque no Hary à noite há mais?
Passar o meu coração à sua legítima proprietária?
Saudades da única tarde do primeiro milésimo de beijo?
Todas as noites e dias as alegrias que vieram depois?

Da visita obrigatória à feira das farinheiras curtidas em casa
dos queijos de cabra curados fortes os cheiros e paladares?
De algumas vaidades à mostra a falar alto a dar nas vistas
à custa do prestígio do passado da sagrada conspiração a três?
Do avião aeroportos algumas hospedeiras e muitos comboios?

Do indicador direito a indicar o caminho errado do cais
a insolvência da idade e a coerências das calças cingidas
a evidência do tronco liso da primavera de peitos à solta
- Diego sem música acima da nascente da reserva protegida?
De incêndios e invasões militares o inoxidável do pescoço?

Não. É o caos pré-programado pelo cálculo da álgebra
a côr do nacionalismo que pode ser preto como castanho
vermelho como côr de metal e ás vezes de olhos em bico?
Quem não têm cão caça com gato e escreve para esquecer!

A PELUDA DE VARSÓVIA PORTUGUESA



A José de Almada-Negreiros

Na hidráulica do pensamento chupa-perfeito
que se quebrava ao sentir próximo o peso da morte
a poção de veneno para trilhar o caminho do poder
era mais nem menos que a cartilha magna da bosta
de boi agora baptizada competividade bocal-dentária.

Oficial enviava telegramas encriptados ao quilo 
sobre as perpétuas que cresciam indiferentes 
à penúria engajada das camélias do bairro anti-social.
Da renda mensal e as rendas íntimas do Vístula
e do condomínio dos que tinham muito cacau.

Particular escrevia à mãe do colesterol elevado
da prima gioconda pois mina lisa minha irmã
dela era propagandista dizia vegetariana militante.
Para nosso penar a peluda de Varsóvia era portuguesa.

Entre o requinte e a elegância titular e vozeirona
a senhora era a mais ruidosa entre os homens
e a mais avantajada entre as mulheres.
Sentia-se a meio-palácio que não era dali.

Na cidade de Szpilman do café Sztuka e de Chopin
da Igreja Católica do povo têm alguma importância
interessa a alguêm quem era esse queijo amanteigado?

O COXO CARTESIANO E A DULCE DULCINEIA



Tudo aconteceu num instante de alta cilidragem
estavam mortinhos de sede, parou de repente
como se tivesse levado um valente coice dos cavalos  
entre a berma do viaduto e o separador de cobrição.

Resultado de um furo violento nem artesiano
nem cartesiano como gostava de sublinhar
doutorado na Sorbonne e de matemática sabia
que dividir por zero o poderia levar ao infinito.

Na esperança com a ajuda de deus e da física
de fazer parte clube dos que citam Aron e Barthes.
Ela doce de bolo de bolachas bem se fez ouvir
saltou mesmo sem praga que nem um gafanhoto.

No momento seguinte estava dobrada
não para escrever um poema no asfalto
mas leoa sobre o macaco para mudar o pneu.
A velha Europa farta de guerra fria agradeceu.

Um mulher deste calibre é um diamante
com rimas na cabeça talento e força nas mãos
assim podem ir de carro até Caracas a Hong-Kong.
Ele se não fosse ex-professor seria cosmonauta.

Piloto-aviador em honra das sardas sardentas
da mocinha que viajava horas e horas e vinha
só para o ouvir falar da metafísica e de Descartes.
Quando se punha inocente e ousada ao seu colo.
a perna mais curta tremia que nem varas secas.

FALAVA COM A BOCA CHEIA



Cuspindo comida e gafanhotes
transpirava banha e confiança
sardão era daqueles que se metia
com tudo no meio da estátua viva
sentada à sua frente bem comportada.

Peitos volumosos e paradinhos
rabinho redondo saliente e retocado
não havia nada nada para deitar fora
deitar só com ele anunciava vencedor.

De calendário boca de tão apetitosa
mais parecia um quilo de cerejas maduras
sainha curta levantada e apertada
é agora é desta sentia lá se vai o coração.

Esbracejava da expessura dos seus braços
dos seus músculos de partem tudo
da largura força armário dos seus ombros
misturava no intestino grosso a carne
mal mastigada com cerveja da Baviera.

Falava comia com a boca cheia
e enquanto ruminava à bruta
deitava-lhe uns olhos deus a valha!
Nem navalha tinha nem a astucia de David.

Provavelmente seriam apenas
mais uns estalos que roupa tão boa
tanto tempo a fazer menos de nada
no ginásio piscina solárium pelas curvas
tem um preço minha cabeça de galinha.

O EXEMPLO DO PAI



À luz do dia tinha uma compressa no joelho
às escuras uma mais acima fundas feridas as duas
associadas às lágrimas verdadeiras vindas da alma
do ventre da planície e que ninguêm pode acudir.

Até um cego quanto mais as colegas a quem dizia
ter tropeçado na cozinha sobre um frasco partido
e ao caír o vidro ter-se espetado até ao osso.

Não não foi! Diziam entre lamentos e um gozo
mal contido no cabeleireiro as colegas do trabalho
de longe a mais linda com sucesso entre os homens
que paravam para ver e muita inveja nas mulheres.

Foi um pontapé mal parido quem diria!
Sempre bem vestido bem barbeado delicado
com modos de gente fina lidera a empresa
que tinha ganho o prémio do melhor empregador.

Estava convencido ao crescer tinha aprendido
com o exemplo do pai que quanto mais castiga
mais submissa fica dependente mais dele gosta
depois do sêlo garantia do prazer acrescido.
Nunca adormece sem a ter levado directamente
do    inferno ao gozo do único paraíso que conhece.

PÉS DE BARRO E INICIATIVA PRIVADA



Reformista na aplicação cautelosa da lei
em vigor e do primado da iniciativa privada
molhava os pés de barro no poço
que se desfaziam em lama e orçamentos.

Foi quando a imperatriz coberta de ouro
e de safiras se pôs de pé a negociar
o que lhe restava dos rubis e esmeraldas
e pelo peso devia ser uma boa dose.

Vinha apenas embrulhada num cobertor
porque o lençol e a camisa de dormir
tinham ficados sujos outros tempos
com as marcas certas da mensalidade.

Receitas decantadas de caminhos fáceis
de respostas redondas e evidentes
sempre em nome dos interesses do povo
como pacotes de TVs em sinal aberto.

Em nome da inovação dos tempos modernos
dos produtos financeiros que nos afogam
rupturas e derrames trágicos de crude
de pretensos geniais de fraldas sem cú.

Dizem que os deuses se sentem envergonhados
traídos por alguns sacerdotes que passam a vida
a pregar fruta natural e hortaliça fresca
e só se contentam com a carne mais tenrinha.
Será que com terços e avés-marias serão perdoados?

PRAÇA DO TEMPLO



Ao entrar na praça do tempo sagrado
acalorado quase desfalecia de emoção.
Estava finalmente onde sempre sonhou estar
ali junto às colunas decoradas de toscana
muros ladrilhos e paineis da renascença
história de pedras de talha-mar das palavras.

Faziam sem comissão apenas por amor
pedreiros livres que nunca dormem.
Com palavras mansas esperam deixam
os que não são adormecer e combinam
debaixo do alpendre taxímetro da partilha
os sofás e outras cadeiras almofadadas.

Seria possivelmente um pensamento
de ontem a telha-vã sobre barrotes ripas
pelas costas direitas dos irmãos.
As vigas do sonho inútil de imaginar
acreditar em caminhos mais amplos
uma manhã mais clara e talvez mais justa.

Se insiste muito as fantasias acabam depressa
não com pedra dura de ébano nem tão pouco
com um habano puro incluido no preço.
A recepcionista foi contratada para isso
lá onde o amor se faz em salvas de prata
e se desfaz em pinças de escorpião. Que merda!


Budapeste. Baleal, Lisboa e outras cidades (2010)