Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta
continuarei a escrever. Clarice Lispector
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta
continuarei a escrever. Clarice Lispector
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
"Les yeux cherchant le ciel mais le cœur mis en terre"
Meu bicho-da-seda, minha lagarta da amoreira
que se faz a mais bela das borboletas
e em ti representa a vida, o fim e o renascimento
o feio feito feitiço da beleza ou precisamente o contrário.
Da vida ontem da vida sempre, vida nunca e vida eterna
no baixo-relevo do teu copo abaixo e acima em tudo
na vertical, na horizontal e nas escadinhas do bairro
ou no tapete voador, de paraquedas para-quedistas
- Borlistas e carteiristas, vigaristas e feiticeiras...
Na autoestrada da chuva
nas curvas e contracurvas do vento
no cruzamento tardio da noite
na acalmia da tempestade
na estação para recomeço do novo dia
no apreço comovente na praça do nosso reencontro.
Nunca é tarde para tentar como se fosse a primeira vez
Nunca é tarde para voltar a errar se é a mando do
coração
Nunca é tarde para voltar ao local onde tudo começou
Nunca é tarde para chorar o passado e lamentar o futuro.
Para deixar o coração em terra e apanhar o avião
Levar consigo os olhos, o olhar do mundo nos teus
olhos
Cantar o passado e agradecer o futuro - a minha gratidão.
Do princípio ao fim do mundo
do século perdido, a algazarra
não abrandava e o apara-lápis
não parava de ser emprestado
por vezes trocado por um beijo.
Cães e gatas já estavam habituados à confusão
a alfazema e o alecrim não espantavam ninguém
nem o alfarrabista da esquina que não vendia
não se desfazia de nenhum dos seus melhores livros
- que faria se não os tivesse à mão para os desfolhar.
Os bailes do bairro acabaram "et les lilas sont morts"
os sindicatos perderam o pio e os trabalhadores
amoucharam
sentados no chão de pernas cruzadas à espera do
milagre
mas temos os jovens como ontem hoje também não se
calam
- é do futuro deles que escrevia e cantava o arménio
Aznavour.
Em Montmartre de Paris do antigamente
eram pobres, ele passava fome e ela posava nua
sentia-se em tudo a liberdade, decadência e liberdade
que bem precioso é viver democracia num país livre
sem perseguição - num país do dito decadente ocidente.
"La chair des femmes se nourrit de caresses comme
l'abeille de fleurs."
Anatole France
Aquarela e a tinta dos seus olhos
a doce conspiração das suas coxas
com a flanela nocturna dos seus braços
na água morna dos seus lábios
quando os beijo para saciar a sede.
Cortiço mel das flores da sua serra
com a cobiça do fascínio maior
da planície lunar do seu olhar
com a cotovia ou confraria do amor
para não me esquecer e te esperar.
Pôe a papoila a humedecer na tua papoila para crescer
Fotografia da ousadia que não deixou nada por mostrar
A cadeira da sala onde tanta coisa boa ficou por fazer
A bagageira da alma onde ainda hoje a quero guardar.
Com a cerveja à frente pausadamente dizia
- Se é pecado se por comer pouco pão
me descuidar e beber mais que a conta
pior seria ter sido moço de cabeça no chão.
Se me distrair a olhar aquela ilha vistosa
ao lado sentada e pensar noutros tempos
e dar asas de avioneta à imaginação
é não temer a régua de castigo e educação.
Se é pecado cuidar e regar essa rosa
para lhe dar cor e não a deixar murchar
como é deixar-se envolver pelo seu aroma
e com ela se perder e em silêncio florescer.
Escrevia Pedro Homem de Mello e Amália
tão bem cantava quando iam a Viana
- Os pecados têm vinte anos
e os remorsos têm oitenta -
O pecado (i)mortal mora na guloseima
e cresce no bom gosto e na certeza
do bem que faz pelo melhor que sabe.
Pelas outras vidas que nos
traz de volta.
Prefácio
Na manhã desse dia lavei-me e vesti-me
arranjei-me, tratei da pele com mais cuidado
valia a pena, sabia bem por que o fazia.
Talvez tenha deixado a pele sem nenhuma defesa
mas sabia que a tua pele na minha a iria proteger.
Sabia que não seriam os teus beijos ardentes
os teus dedos e os lábios que a iriam maltratar.
Na manhã desse dia saí de cedo de casa
o coração estremecia e quase me saía do peito
estava ansiosa, sentia muito impaciência.
A única certeza que tinha é que vacilava de receio
se seria um sorriso, um abraço, um beijo forçado.
Felizmente perto de ti perdia sempre o medo
via abrir-se o céu, vivia a paixão que era a nossa.
Posfácio
Desatentos não se deram conta
que o melhor tempo se tinha gasto
e se foi de vez para outro país.
A última pele pelo que parece secou
e fez-se deserto árido sem um oásis
sem uma mãcheia de ternura doce.
O coração, com a lenha dos corações
esse sabe-se continuou a arder feito fogo
até ser borralha e cinza levadas pelo vento.
Recordar a terra encharcada da margem do lago.
Descrever a dança do mar que nunca dançaram.
Mundo que mudou muito, já não se parece ao nosso.
Para António Rosas
Esta noite a minha intenção é fazer um breve relance pelo
erotismo
e algumas liberdades da classe operária e dos seus
representantes
no Portugal da primavera marcelista antes do 25 de Abril
libertador.
- Aquele é o padrinho, não é o afilhado famoso dos
selfies
que foi primeiro comentador referência da televisão
e depois S.E. O Presidente da República Portuguesa…
Era o magusto e jeropiga de São Martinho na fábrica de
fiação
e houve quem se tenha acelerado mais do que devia
ultrapassou a barreira do pudor e alguma timidez recalcada.
Depois do almoço voltou-se ao trabalho, mas uma das
operárias
no corredor menos iluminado fez-lhe uma espera
inesperada
- Não gostas? É tudo para ti! Bata no chão blusa aberta sem
soutien.
- Porque se acabava duas três vezes por semana pedia-me fio
eu fazia-lhe sinal para subir ao terceiro andar à sala dos
rolos
onde nos enrolávamos ouvindo as máquinas a trabalhar.
Era ali para os lados do Martim Moniz quando as
fábricas
ainda funcionavam em pleno centro da cidade
- O prazer operário e não apenas ser explorado pelo patrão.
Tenho andado de volta revendo Almada Negreiros
com o Manifesto Anti-Dantas, 1915, e a Taca de chá*.
Recordando: As Banhistas, 1925, A Sesta, 1939,
O Retrato de Fernando Pessoa, 1954 ou o meu favorito
Art Déco, Estudo para uma Decoração de Teatro,1929.
*”Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar
por entre os bambús,
e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um
leque de marfim.”
Preâmbulo: Se Almada visse a pose e a roupa colada ao
corpo
- Uma segunda pele da jovem mulher por baixo da gabardine -
esta tarde na paragem do eléctrico... eu fiquei com a
sensação
que teria escrito rápido e certeiro, dizendo em voz
alta:
Eléctricos do mundo libertem-se! Sejam uns fora de
caixa
saltem dos carris, não aceitem a escravidão fixa dos
horários.
Parem, façam greve para que aprendam, chega de brincadeiras.
Com os condutores dos eléctricos não se brinca nem a
brincar.
Assim tinha tempo podia observar mais uns minutos
sem a ver desaparecer ou ter de se apressar, entrar a
correr
para a continuar a ter aquela visão mais algumas
paragens.
Não estava sozinho naquela observação de admiração.
Segundo preâmbulo: descobri Almada na minha adolescência.
O nosso primeiro encontro foi com o Manifesto
Anti-Dantas
declamado por Mário Viegas. Se fosse hoje, 110 anos
depois
estou convencido que o título seria: Manifesto
Anti-Ventura.
Ultimamente tenho jogado com a ideia-provocação de pensar
- Qual seria a sensata-opinião do wokismo sobre Almada?
Será que seria queimado na fogueira da inquisição wokista?
As pestanas postiças, falsas eram mais compridas
que a mais curta das pontes sueco-dinamarquesas
distante da tal Groenlândia que Trump quer anexar.
Os lábios carnudos, espalhafato a mais de tão inchados
quase caiam da boca e deixavam os dentes à mostra.
Os seios tão esticados que nem quatro mãos chegariam
para os cobrir e esconder, para proteger do mau olhado
que infelizmente do silicone já não havia nada a fazer.
Não teria mais de 20 anos e antes de se industrializar
em exageros e afins deve ter sido uma miúda jeitosa
mas agora está feito um super armazém de plástico.
Feita uma carroçaria que não precisa de bate-chapas
mecânico de amortecedores e assentos para fixar o dito.
Não há tempo para recriar a história sacana da palha
seca
se faz um bom colchão porque se tem de limpar a palha
que tem no rabo, rabo de palha na ponta da navalha.
O primo californiano veio à Hungria visitar a família.
É uma jóia de pessoa
e apesar de ali ter nascido há quase 70 anos e nunca aqui
ter vivido
sente-se húngaro e não esqueceu o idioma que aprendeu com os
pais.
Foi o primeiro, o idioma que se falava em casa, o
inglês aprendeu na rua
com as outras crianças e na escola, onde no
início sentiu algumas dificuldades.
O pai, Andor, órfão criado pelos tios, a convite de um
famoso professor húngaro
de quem era discípulo, em 1939 com 32 anos foi para os
Estados Unidos.
A mãe, Margit foi em 1950, depois de ter passado 5
anos num campo de refugiados
Na Áustria. Falava 8 idiomas e era a tradutora. Tinha vinda
da Jugoslávia
de uma região habitada sobretudo por húngaros e alemães,
perto da fronteira
da cidade universitária de Szeged, a Coimbra da Hungria,
cidade onde nasceu.
O pai era um abastado industrial têxtil, húngaro, mas com
nome alemão.
Com o aproximar do fim da guerra, o avanço dos
partisans de Tito
e do Exército Vermelho, tiveram de fugir, deixando tudo
para trás.
O pai era há muito um entusiasta, grande colecionador de
selos
selos que durante aqueles anos austríacos os ajudaram a
sobreviver.
Na América os húngaros casadoiros eram informados
quando chegava um barco da Europa com jovens húngaras.
Foi assim que Margit e Andor se conheceram e se
casaram
namorando entre Pasadena, Los Angeles e S. Francisco.
Após várias tentativas, nasceu Tibor e o médico disse
- Este bebé precisa da sua mãe, não tente nem mais uma
vez.
Esteve cá este fim-de-semana e é sempre muito bom estar com
ele.
Comove ver como se emociona a falar dos pais, das suas
raízes húngaras.
Está do outro lado do Atlântico e pensa como nós sobre
o mundo
sobre a América de hoje. Estivemos a ouvi-lo com
atenção
a aprender, por isso é primo californiano e não primo
americano.
Neste momento já está na Índia, vai até aos Himalaias.
A última vez que passou por Budapeste
ofereci-lhe um cachecol do Sporting
comprado quando do jogo com o Estoril (5-1).
Com ele enviou uma fotografia do
Kilimanjaro.
Continuação de boa viagem Tibor!
2024 - 2025
Confissão de quem está mais para lá do que para cá:
Quando acabar, acabou-se, até lá vou escrevendo, respirando
acaba-se mais cedo se não respirar, se
não escrever.
Com as mãos da poesia estou a construir a minha nova
casa.
A casa: "De mim ficam as Palavras" com
- Palavras avulso e a granel
- Palavras do eléctrico ou Eléctrico das Palavras
e com os jardins, hortas e árvores de fruto de outros textos
à volta.
Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas.
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Se eu posso fazer um pequeno pedido
por favor com esse ar desengonçado
mostra mais um pouco da tua barriga
senta-te como vieste despreocupada
com os pratos e o sorriso na bandeja.
O código da pulseira encriptado no olhar
o telemóvel na mão e ao pescoço o cartão
a roçar a concha da blusa na rocha da praia
formação continental de pedra volumosa
com o fio de algodão enrolado à tentação.
Passagens virtuais e realidades paralelas
ou outra coisa qualquer, os meus olhos
estavam como lapas coladas ao umbigo
em pensamentos de alguma fome
por esse pedacinho menú da tua pele.
Menú semanal do prato com mais saída
de quem ao sol já passou boas horas
dizem o sol quando nasce é para todos
e da luz, o meu almoço sabe-me melhor.
Assim começava o meu texto de hoje.
Quem diria que cansados até os cavalos desistem
a água fresca ajuda, mas nem o feno e a forragem
chegam para acreditar na justeza da miragem.
O que os olhos não sabem, as mãos não podem.
Cartola de chocolate e artelhos de cabra lima-limão
com algemas de cerâmica em tornozelos de papelão.
Chafarica airosa a Maria empresária de bordel
nua e bem vestida vai de batel ao mar de papel.
Declarava em voz alta, altiva e com convicção
- Não, os amantes não são artigo de consumo
nem o amor uma mercadoria de contrabando
porque não é camisola de contrafação
um par de óculos de sol em segunda mão.
Inverdades esterilizadas, fervidas e empacotadas
com sorte descartáveis, com azar recicláveis.
Tão bom! Rouba aos ricos para dar aos pobres!
Uma ova! Mentira do tamanho de um camião!
Rouba a todos para dar à família e aos amigos!
Será que nos tempos em que vivemos
estamos cansados de sermos livres
com vontade de caminhar por alamedas
de uma só direção cheias de armadilhas?
Caminhos ali para os lados mais sombrios
da humanidade, da nossa condição humana
da péssima imitação de animais encurralados
e promessas de que nunca houve regime melhor.
Da sua oratória à tona do texto vem a divisão
do lucro, de encostar a barriga ao balcão
quem pelo futuro "dos de bem" está autorizado
a pôr as mãos todas até ao fundo do tacho.
O sujeito que estou a pensar é um caganças
faz o mal e a caramunha e ainda se queixa
faz-se coitadinho e de vítima, o Vigarista.
Sabes mais impostor? Vai-te encher de moscas!
É o tempo desta vida e da outra se houver
e para à velha tabuada não ter de recorrer
o tempo exacto para os olhos se olharem
o tempo certo para as bocas se cruzarem.
É não lamentar os dias gastos por engano
sem a cor do sonho, das palavras sem rumo
os momentos passados juntos no inverno
repetir e repetir que estarei sempre contigo.
Não te percas! Não percas o norte nem o sul.
Não desesperes, não percas o teu optimismo.
Faz de maneira que nunca estejas sozinho
abandonado debaixo de tão vasto universo.
Na azáfama de ter tudo pronto a horas
é tempo de descascar favas e ervilhas
com martelinho partir nozes e amêndoas
lavar à mão na bacia de zinco garfos e pratos.
Como quer aprender primeiro com a vida
passa os dias a encher e despejar copos
a correr às mesas e mover mundos e fundos
devolver os trocos a pensar no pouco que fica.
Mas há sempre um momento Damasco de clique
de limpar as escamas dos olhos e do pargo
tempo de preparar o novo algoritmo do almoço
de acender a fogueira e deixar de ser parvo.
A poesia de hoje apenas faz sentido
se for dirigida à entrega e à conquista
escrita para ser lida e depois esquecida
dizia com um rasgado e sábio sorriso.
Percorria os caminhos do seu bem amado
que tão bem sabia como formar e despertar
estrela maior nessa grande avenida da vida
o raio de sol que iluminava a última leitura.
Para a festa acabar asseada e perfumada
pedia sabonete, um pente e uns chinelos
fazia seguro dos pedidos serem atendidos
que tudo faria para ele se sentir em casa.
Depois vieram também tempos de outras festas
tempos de ser ignorado e algumas más notícias
do segredo bem guardado da sua nova descoberta
do verão que começou nessa tarde de primavera.
A poesia de ontem era escrita em pergaminho.
Hoje está escrita no rosto, escrita no teu corpo.
Ser livre é não ter de se rebaixar
de beijar, lavar e secar os seus pés
porque tem o costume de não ser barato
permitir-se pelos seus hábitos de mandar.
Ter a liberdade de as pilhas recargar
com modernos carregadores e marchar
porque pensa na família e porque quer
voltar a casa a tempo de fazer o jantar.
Saber que houve os tempos de Platão
platónicos, mas há muito que já não são
e não estar para perder o seu tempo.
Se fosse comigo também não estaria.
Entrou apressada e nem se sentou
ao balcão pediu um copo de vinho branco
pão caseiro azeitonas e queijo francês.
Toca a andar que se faz tarde para chegar.
A sua história de vida merece ser contada.
Nasceu num dia distante quente e abençoado
num mês com passado e com muito mais futuro.
Cresceu livre entre a serra e o mar
rios e vales, paisagens de deslumbrar.
Casou-se bela, muito jovem e por amor.
Fizesse o que fizesse tudo lhe saía certo.
Por vezes até parecia abusar da sorte
que Deus lhe destinou para seu trilho.
Segundo o que dizem os que a conhecem
começou a escrever, a escrever muito bem
tinha o seu público atento que a seguia
e um leitor distinto que apoiava e corrigia.
Um dia para pena de muitos abandonou a escrita
parou porque o seu leitor favorito deixou de estar.
Com o choque da partida, com a morte do mentor
o desinteresse pela poesia foi imediato e redentor.
Sobressaía pelo corte de cabelo
muito à frente do seu tempo.
Pelo olhar e o sorriso encantador
no largo da esplanada não havia outro.
Sobressaía pela sua silhueta fina
pela sua roupa justa e apertada
assentava que nem uma luva
parecia toda ela feita à medida.
Mostrava-se, mas com moderação
e não esticava demais a corda atrevida.
Sem se assumir caudal fácil ou vulgar
era para muitos o único rio da imaginação.
Do xadrez era uma excelente jogadora
conseguia combinar e jogar para vencer.
Uma boa maçã madura que ganhou o gosto
pelas simultâneas com várias mesas à volta.
Tinha um bom tabuleiro, mas alternava
como se habituou ao longo da sua vida
ao prazer que lhe dava os grandes jogos
que por si não trocava por nenhuns outros.
Ir ao supermercado ou à loja do bairro
era como se encontrar com o seu amante
com grande arcaboiço e grande espingarda
com ele namorar era mesmo para recordar.
Destacava-se por ter menos olhos que barriga.
Marroquinas clementinas ou laranjas de sangue
a doce acidez do prazer pago a prestações
de rendas pretas rendinhas vermelhas fetiche
com a utilização da melhor das suas tradições.
Na frutaria as prateleiras estavam todas vazias.
2024 - 2025
Em "Palavras avulso e a granel"
Diz Rita, minha amada
na nossa Terra Santa
porque é o mundo
connosco tão injusto
tão duro com o nosso Amor?
Não somos Romeu nem Julieta
Páris e Helena, Tristão e Isolda
- nem a triste tristeza do isolamento.
Não somos Lara e Jivago na Rússia
nem Ilse ou Rick em Casablanca.
Somos tão só Tamar e Mahmoud
uma judia e um palestino sem nome.
Dois jovens que se conheceram
se apaixonaram irremediavelmente
e se deram perdidamente um ao outro.
Porque não podemos nós fazer
das pedras e do pó dos caminhos
campos de oliveiras, pomares de laranjeiras
e do barro construir e erguer a nossa casa
cuidar do nosso jardim e da nossa horta?
Minha israelita de mel insubmissa
que o nosso Amor nunca acabe
e eu possa viver contigo a vida inteira
criar filhos e depois ver os netos crescer.
Rita não te esqueças - o sonho nunca morre!
Tamara, doce doçura como a vitória impossível
a renúncia anunciada e a conquista temporária
eterna só no sonho mais improvável e mais
ingénuo.
- Castanha de caju e amêndoas recheadas para
despistar.
Para disfarçar a dor da melancolia triste
a tristeza que inunda e sufoca a alma
a hospedaria da monotonia mais ausente.
- Dizer adeus à inocência perdida.
Abram os olhos e olhem ao vosso redor
não é a abundância do leite, mel e frutos
a terra prometida por deus que vos espera.
- É tempo de acordar de vez minha flor.
"Entre a Rita e os meus olhos, uma espingarda"
Ele o Poeta, voz da resistência palestina, destacado
militante da OLP.
Ela alistou-se nas forças armadas de Israel, depois membro
da Mossad.
O abismo entre os dois jovens amantes não parou de
crescer.
O seu Amor não conseguiu sobreviver à realidade das suas
vidas.
Um dia os seus olhos afastaram-se e não se voltaram a ver.
Hostil a nossa cidade não nos recebeu de volta
e nos subúrbios não encontramos onde pernoitar
onde pudéssemos festejar-nos pela última
vez.
Eu poder dizer adeus aos teus olhos de mel
ao teu corpo e à tua alma de minha gata felina.
Ali não havia mais do que apatia.
O silêncio pesado da casa vazia
tinha tomado o sofá-cama da alegria
ignorando a pureza do nosso amor.
Custa escrever, mas nem a nossa buganvília
esperou por nós e secou antes da nossa melodia.
"Ah Rita! O que terá afastado os meus olhos dos teus."
Quand tu prépares ton petit-déjeuner, pense aux
autres.
(N'oublie
pas le grain aux colombes.)
Quand tu mènes tes guerres, pense aux autres.
(N'oublie pas ceux qui réclament la paix.)
Pensava no tempo ainda tão morno e tão cálido.
Vestia-se das minhas palavras e dos meus beijos
corria o fecho da saia comprida de linho.
Escondia os seus olhos de melaço profundo
por detrás das negras pestanas da noite.
Os lábios pintados com o seu sorriso agridoce
Entrevia um amanhã que era definitivo
um passado sem nós para não recordar.
Sem o nosso amor, sem a nossa alegria.
Sem nenhuma das nossas promessas.
Valeria a pena recomeçar a viver
tentar recriar o nosso mundo sonhado
feito de dedos lisos e de mãos abertas
de braços meigos e abraços apertados.
Feitos da nossa biografia perdida.
Quand tu comptes les étoiles pour dormir, pense aux autres.
(Certains n'ont pas le loisir de rêver.)
"Pense aux autres". Traduit de l’arabe (Palestine)
par Elias Sanbar
Descobri a poesia de Mahmoud Darwich
- sobretudo a poesia militante e de combate -
através de traduções para francês
nos fins dos anos oitenta do século passado.
Mais tarde com o filme-documentário
Write down,
I am an arab (2014)
conheci a vida do poeta e a história de amor
com a jovem judia Rita (Tamar Ben-Ami).
Este filme comoveu-me por acreditar
que o amor e a paz, a ilusão das palavras
podem ser mais fortes do que a guerra.
Essa comoção aumentou com a nossa visita
de sete dias a Israel, Palestina, Terra Santa.
Durante esses dias fiquei a saber que a paz
e o entendimento ali nunca serão alcançados
não haja ilusões. Não tenhamos ilusões.
Não quero nem podia morrer sem deixar escrito
sem duas ou três pinceladas do que senti e sinto.
Amor e paz - Ilusão das palavras
Budapeste, 28-30 de março de 2025
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta
continuarei a escrever. Clarice Lispector
Um cálice de aguardente para te trazer de volta
para me ajudar a guardar-te nos meus braços
para haver lenha quando as noites frias acabarem
e da distância as manhãs fechadas abrirem os olhos.
Recordar-te como te escondias feminina
como se no prédio fosses a nova inquilina
- Como quem corajosa subias ousada a colina.
Recordar-te como desaparecias na neblina
e os teus olhos de gata eram a lamparina
- Feita luz aparecias nua por detrás da cortina.
Um cálice de aguardente para te trazer de volta
tu que dizias que eu era o sal e a tua gasolina
para me ajudar a guardar-te nos meus braços
resina do meu pinhal sabor da doçura mais fina.
Por um prato de lentilhas
vende o pai e vende a mãe
vende o avô e vende a avó.
Vende o cão e vende o sapo.
Por um prato de lentilhas
vende os cornos e a alma
vende a ilusão da mentira
vende a própria mulher.
Hipoteca a vida da filha
prometida e pré-vendida
ainda antes de nascer
ainda antes de a fazer.
Aqui é um hábito muito antigo
que por significar abundância
é comum no primeiro dia do ano
comer-se um prato de lentilhas.
Abre os olhos carroça que a mula vai apressada
e para lá chegar eu tenho tempo de sobra.
Não tanto como Gaudi, o arquitecto de Barcelona
mas tempo suficiente para parar e para almoçar
com todos os vagares que a pança merece.
A conversa é sempre a mesma sempre condimentada
a puxar para o meio, abaixo do peito acima do ventre
se não falta nada para dar ao dente e sentar à mesa.
Se local novo olhar à volta ver que comem os outros
pedir para começar meia garrafa, um copo de vinho
tinto
um café e um digestivo para ajudar a digestão.
Para ajudar a constatar que as nossas barrigas
são o melhor estímulo para a satisfação ou
insatisfação
dos homens e das mulheres de ontem de hoje de sempre.
Por ser um bom exemplo disso, não me vou esconder.
Uma taça de gelado italiano para gente gulosa
com bom gosto porque não há gelado melhor.
Uma taça de champanhe francês para gente boa
com paladar desenvolvido e dinheiro para gastar.
Uma taça de salada de fruta para amigos da horta
que trocam um doce de ovos pela natureza-viva
que sabem da importância da saúde e da comida.
Sabem se agora se cuidam amanhã tem mais vida.
Sabem do grande irmão e outros filhos da puta
as rascas teorias da conspiração teórica e prática
do regresso sufocante orwelliano da mão-morta.
Mão a menos maçaneta vai bater a outra porta.
Uma caneca de cerveja alemã com salsichas
as linguiças de Nuremberg com couves roxas
e repetir a caneca, há coisas piores na vida.
Nem falar do incansável pedinte em mim
a pedinchar e a juntar bases de cerveja.
Lembras-te do sítio da primeira cerveja que bebeste comigo?
Não era bebida que estivesses habituada, valeu a com
cerejas
da simpatia com que nos atendiam e como se metiam contigo.
Tínhamos vindo de uma festa para continuamos a
celebração.
As voltas que o mundo deu, as canecas que eu já bebi.
Como poderei eu esquecer os seus brincos fantasia
cerejas ou ginjas aos pares a caírem sobre os ombros
a realçar o seu pescoço alto que convidava a beijar.
Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas.
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)
Hoje não bebe vinho por ser dia de comer pão.
As últimas semanas serviram para de vez se soltar
libertar-se da teia onde por gosto se tinha enfiado
porque no fundo aceita tudo menos o que não aceita.
Estava na varanda a fumar um cigarro e a pensar
não tinha de estar a olhar para o sentido das
palavras
para as segundas leituras das metáforas mais ariscas
para as imagens que pudessem cair mal ou magoar.
Pensar ser uma grande tontice, escrevê-lo ainda
mais
pela primeira vez na vida sentia-se sem colete de forças
quer dizer não ter de estar a olhar para a solidão do cais
as amarras das suas ideias e dúvidas, das suas palavras.
Sabia bem que até a pé ela viria para estar no lançamento.
Pensa no passado, vive o presente e olha também o futuro
palavras escritas em papel, no telemóvel ou no computador.
Palavras, dúvidas e distâncias que no final vão parar ao lixo.
A imaginação tem coutos que não chegam
nem aos tornozelos maltratados do irmão.
- Com os ventos do contra clero tão fortes
quando coitados os bispos já não pensavam
no coito, no repolho repolhinho por comer.
Não podiam acoitar-se por dá aquela palha
com a freira mais tenrinha do convento
para isso até servia a macia do palheiro
não fosse o diabo tecê-las, acabar no degredo.
Como é costume o mundo mudou para pior
com essa gentalha logo a pensar que é gente.
Põem-se a inventar e a agitar os agitadores
de coutadas e das noitadas mal dormidas.
Esquecem-se que não faziam mais que andar
em grupo à procura dos ninhos de gambozinos.
Coito ou couto tão diferentes como o dia da noite
se não houver noites brancas e roxas madrugadas.
Para Petia Poetisa
Talvez soubesse, mas parece que não sabia
que devia ouvir os ensinamentos dos mais velhos
que não devia dar um passo maior do que a perna.
E que pernas, que corpo tinha, Deus nosso senhor!
Mas a nova Pandora queria tanto experimentar
dar um salto à canguru que como era de prever
o mais que conseguiu foi chegar de comboio à praça.
E um valente tropeção que a fez cair nua na cama.
Para a lua que não desiste ficou uma grande lição.
Por falta de cuidado e atenção junto com as garrafas
e outras miudezas que se tinham acumulado no navio
também deitou fora as gorduras perfumadas do amor.
Provavelmente nem se deu conta do que estava a fazer.
Há muito se sabia, se havia alguém que merecia um
poema
pensava logo na sua lua que deu tudo e nada pediu em
troca.
- Pensava na deusa quase grega, cálida musa meia meteca.
Para passar no exame de língua
pago a peso de ouro e rara platina
andou semanas a estudar e praticar
o condicional do verbo bem fazer
ou fazer com muito prazer.
Passou com nota máxima e distinção
com uma resposta que até o professor
considerou ser um exemplo a seguir.
Sabia que se tivesses os olhos abertos
e olhasses para mim irias guardar na memória
o momento em que os meus lábios se fecharam.
Mais tarde quando visses uma fotografia desse dia
irias-te lembrar e também pensarias que ninguém
a não ser nós sabia o que a minha boca fazia.
Meu Amor estou no aeroporto, acabei de chegar
não te disse nada porque quis fazer uma surpresa.
Sabia muito bem que não podia faltar, estar longe
estar ausente neste momento tão especial para ti.
Manda-me a morada para eu dizer ao taxista.
Acordou. Na viagem tinha adormecido e teve pena
de acordar, do sonho não continuar e acabar bem.
Na manhã do dia seguinte ainda acreditou no milagre
que na cidade da paixão o sonho fosse a
realidade.
Conclusão de quem anda há muitos anos a remar por
aqui
e vê o que muitos outros não veem ou nem querem saber.
Não há maior cego que aquele que o amor não deixa
ver
cego pela cegueira irracional e profunda ilusão intelectual.
- Histórias de quando se é a inspiração, mas não faz caso.
Estava a refazer o seu jogo de cintura
para de vez lhe chamar a atenção
e aos poucos ia perdendo a compostura
com ofertas de vida nas asas da paixão.
Estava a alinhavar pelas costuras
de propósito com as costas e o resto à mostra
as coxas abertas às surpresas da vinha
mas prontas para encurtar as lonjuras.
Com ela e com os opacos mistérios do amor
assistia-se ao encantamento e a tanta alegria
de cada vez que a via mais bela lhe parecia.
Mais fascinante do que no encontro anterior.
Para lá das margens e pedras da fortuna
de fora e de longe, de perto não se via
o que rio sentia no mais fundo de si
mas dizia nem tudo o que brilha é ouro.
Um certo dia depois de muito caminhar
para mudar de vez bastou um olhar
a alma intacta do seu coração mais puro
que se fez maior para descansar e sonhar.
Como se fosse uma história de encantar
para à noite ser contada e melhor vivida.
Docuça encontrou quem sempre procurou
porque não perdeu a esperança que existia.
Por estar há muito em viagem pelos caminhos
aceitou o desafio, abriu as portas ao destino
nem que fosse apenas para um toque de dedos.
Um encontro, um dia que valesse a vida inteira.
Era o tempo das cigarras e das cerejas
tempo das bocas se colarem uma à outra
com a cola do néctar em flor das cerejeiras.
- As bocas se colarem sedentas e esfomeadas.
Tempo de deixar as línguas dançarem
ao som da música sensual dos desejos.
Tempo dos lábios amantes se degustarem
ao som da música do doce licor do vento.
Do canto sedutor da cigarra do pensamento
com os lábios sedosos e o sabor dos beijos
sabendo das almas ancoradas ao sentimento.
Recordando os olhos no meio da madrugada
eram de Leila lua, bela como a noite mais escura.
- O fascínio de tudo que há de melhor na vida.
No dia de hoje o tempo já fez muitas caras
mas nenhuma é a tua, o teu rosto e o teu sorriso
o rosto lindo que Deus te deu e a vida aperfeiçoou.
Assim começava a carta que tinha encontrado no chão
tinha apanhado o envelope e aberto sem autorização
li atento e fiquei a saber da intensidade dessa paixão
Pensei que aquela carta perdida podia ter sido escrita
por qualquer um de nós, qualquer um que está vivo
qualquer um que sonha, que ama e se sente amado.
Será que hoje ainda se escrevem cartas de amor?
Será que não passa de conversa de velho cansado?
Haverá sempre quem escreva a magia de um sonho!
Com ousadia e bom gosto não se importava de se mostrar
de exibicionista exibir-se e realçando o melhor que
tinha.
Com olhos de leigo digo, via-se que era muito e do melhor.
Segundo os livros não devia ser nenhuma Teresa de
Calcutá.
Por vezes surpreendia e excitava pela sua transparência
em sentido próprio e figurado, pela sua autenticidade.
Era tão natural e tão apelativa dos sentidos que os homens
a seguiam como abelhas à volta da flor do mel mais doce.
As amigas gostariam de ser como ela, tinham-lhe
inveja.
Também eu teria muita dor de cotovelo se fosse sua amiga.
- Que bom seria ser seu amigo e conhecê-la mais de perto
para sem desafinar poder-lhe cantar a cancão do bandido.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta
continuarei a escrever. Clarice Lispector
Estavam sentados no eléctrico e de forma discreta
tocavam e trocavam de joelhos, de mãos e respiração
tão sorrateiramente que para ver tinha de ter olho vivo.
Não me fazer notado e poder observar com atenção
captar toda a magia íntima daquele momento
de entrega em movimento sobre os carris da emoção.
De janelas escancaradas trocavam de olhos e sorrisos
despiam e vestiam a alma a crescer da felicidade
e não escondiam o fogo que lhes ia no coração.
Tive pena que saíram antes de mim e não os poder seguir
saber como caminhavam, abraçados ou de mãos dadas
beijando-se com tempo junto ao castanheiro bravo
ou apressados para casa dela, sem um minuto a perder.
De mãos dadas e dedos entrelaçados
caminhavam leves à minha frente.
Eu distraído observava muito atento
com o gosto a arroz-doce de outras aventuras
e a velha emoção de novas descobertas.
Observava comovido com tanto deleite
como quem está saboreando a vida
e bebe água fresca da bica da fonte.
Separaram-se com um beijo intenso.
Os transportes públicos podiam esperar.
Ela foi para o metro como eu fui
ele para o eléctrico que atravessa a cidade
e une pelos seus carris Buda a Peste.
Não vou terminar este texto de observação do amor
que nesta manhã cálida senti a obrigação de escrever
sem dizer que estou a pensar em nós e na nossa Lisboa.
Caminhavam lado a lado em passo repousado
pelo Terreiro do Paço e o Cais das Colunas
como se não se conhecessem, não se tivessem visto.
Perderam-se para Santa Apolónia, subiram as
colinas
por Alfama, na intimidade do miradouro de Santa Luzia
até às Portas do Sol, ao ritmo espaçado das
fotografias.
Longe sentia-se o ruído da vida, devia ser o
barulho
de um comboio a passar sem parar na estação
no aeroporto a aterragem brusca de um avião.
Na rua encostado ao carro de cigarro na mão
um taxista de meia idade, vivido e sabido
com o seu olhar matreiro parecia que dizia
- Estou a ver o que vocês não devem ter feito.
- Não me olhes assim, não me tapes a boca
deixa-me gemer até eu querer, até me apetecer
até me cansar e fartar de ter tanto prazer.
Lisboa secreta não te esqueças de nós
e quando for muito tarde recorda a nossa voz.
E é eléctrico, imagine-se se fosse a combustão
muito fogo iria acender, apagar e de novo atiçar
incendiar o restolho, fazer arder e repetir a dose.
Por gestos perguntar, tem motor ou tenho de trocar?
Diz-se que foram metros e metros de mar adentro
e nunca declinou uma nova viagem de barco.
Mas hoje como ontem como depois de amanhã
não se deve meter o bedelho onde não se é chamado.
Confundir alhos com bugalhos e sarilhos com saralhos
carvalhos e churrascos na churrasqueira de sempre.
Ave rara, mas das mansas com classe e filantropia
coração do tamanho do mundo à venda na mercearia.
Aqui n
nem tão pouco aquela história merece este soneto.
"Não é para todos ter um escorpião
tatuado no ombro direito.
Um escorpião vivo dentro do peito."
Tinha chegado o tempo de lembrar e de escrever
sobre a linda lua de maio em flor que iluminou
e brilhou em junho e julho, meses e muitos anos
que paciente não desistiu até fascinar e seduzir.
Era impossível ficar-se indiferente com a visão
a imagem dos cabelos soltos, longos e loiros
que caiam em cascata sobre as costas
e se espalhavam com o sol no tapete feito cama.
Nem um barbeiro dos antigos de bata azul
com creme de sabão e pincel faria melhor.
Nem um pêlo esquecido ou teimoso por ali.
Amigo, tenha cuidado com os joelhos
para que não fiquem muito esfolados
de tanta prece, de tanto Deus, tanto ajoelhar.
Rosa-dos-ventos feita madame, eleita dona do
verbo
Casada com cavaleiro mal achado, mas bem formado
Um bússola de alegria como um biscoito de ternura
Isto de um grande amor tem muito que se lhe diga.
Em diálogo sem pés nem cabeça meia quadrada
disseram que a bolacha de água e sal é bissexual
e que chega ao seu destino com a ajuda gratuita
do batedor da polícia do protocolo do estado social
Deixa a hortaliça para quem a precisa para cozinhar
e o pão e o chouriço para quem tem fome de rachar
Utiliza o software inovador dos gemidos do sorriso
do gozo a sério, jouir du plaisir para soar mais fino.
Não tens vergonha usar uma linguagem tão reles
Mentiroso sou eu e não minto tanto como eles
Difícil acreditar, mas não querem roubar a neve
Não é tempo de calar ainda que depois nada mude.
Não é o pão nosso de cada dia
nem dia ou noite de cada pão.
Acredita, se fores mais optimista
sabe-te muito melhor o galão .
A blusa fica mais cremosa e mais pão
se não usar detergente, mas sabão.
Os montinhos ficam mais redondinhos
e os moranguinhos mais pontiagudos.
Quem entra no hipermercado sabe ao que vai
mas quem entra na estação não sabe quando sai.
É o que acontece quando tens um país
com autoestradas a mais e ferrovia a menos.
Em que homem ou mulher pensei?
De que país estarei eu a falar?
Dou um rebuçado a quem adivinhar
e dois a quem não se enganar.
Para o meu amigo e poeta João Miguel Henriques
Se o dia promete pouco, não te rales
Se o dia está a dar, deixa-o andar
Se o dia precisa de ti, faz um biscate
Se o dia não ata nem desata, dorme.
Se tens o carro avariado, vai a pé
Se a política te irrita, desliga a televisão
Se já não mandas nada, calça as pantufas
Se o teu clube te põe triste, muda de mulher.
Se a gata não mia, dá-lhe uma corneta
Se a porta não se abre, entra pela janela
Se te esqueceste de beijar, aprende línguas
Se não tens emprego, vai para o estrangeiro.
Quando a loucura dos autocratas com as suas
maiorias
tomar conta do mundo e arredores e já não houver
humor
ou ironia que nos valha e nos entretenha, logo se
vê!
Clito, o negro no campo inclusivo da batalha
na promoção e arte de combater com mestria
deixava magia, razão do texto desta geografia
deixava no ar o fascínio de conquista da poesia.
Pelo grito e pelo aroma da cor, o teu clito é de ouro
mas o dela vale mais porque vem das terras raras.
Olhem o meu é negro, feito de plástico reciclado
e foi comprado em promoção na loja das bugigangas.
Clito, o Negro (375 a.C. - 328 a.C.) foi um destacado
militar do exército de Alexandre, o Grande e salvou a vida deste na grande
Batalha do Grânico (334 a.C). Seis anos mais tarde, durante um banquete em
Samarcanda e após violenta discussão, Clito foi morto pelo amigo e venerado
Alexandre (Wikipédia)
Se a memória não me deixa ficar mal
quando criança conhecia uma Teodora
era uma colega na escola primária
e coitada da menina era gozada por todos
- Olha, olha a Teodora, tanto ri como chora.
Era uma miúda muito envergonhada
com sardas e cabelo comprido claro
e provavelmente tornou-se uma bela moça.
Estudou direito, fez-se doutora, advogada.
A outra, Teodora de Constantinopla
também conhecida como Teodora do bordel
foi actriz e dançarina, prostituta e comediante.
Imperatriz e esposa do imperador Justino.
Tinha talento, era formosa e inteligente
com bom senso para ela nada era urgente
mas não chegou para convencer muita gente.
Que o digam as leituras dos escritos que ficaram
da época.
Se não tivesse visitado Istambul e ter-me preparado para a
visita
teria perdido alguns detalhes que a tornaram muito mais
rica.
Digam lá se a curiosidade e o saber ocupam lugar?
2024… 2025…
"Perguntei-lhe qual era o nome do gato e ele
respondeu-me que os gatos
não têm nome porque não são cristãos como os cães" Umberto
Eco
Caro Mestre, não leve a mal a intromissão
mas do bastante que Deus me acrescentou
sei que não é por aí que o gato vai às filhoses.
Estão em grande harmonia e não há jantar sem cão.
A não ser que da arranhadela o santo ficou uma fera
e nem a intervenção de Pedro apaziguou a discussão.
Ainda por cima a internet esteve todo o dia de baixa
e não passou a mensagem do gato a pedir perdão.
Boa eucaristia senhor prior e bom jantar de
celebração.
Batize lá o gato no domingo e esqueça a ofensa.
Vai ser um bom cristão vai caçar os ratos da igreja.
O vinho não vai sumir da sacristia. Tenha um bom serão.
“O amor é mais sábio do que a sabedoria” Umberto Eco
Cada história de amor nasce para não morrer
não é preciso ser sábio para inventar uma melhor.
O amor é feito de paciência e arte da transpiração
é feito da sabedoria dos que nasceram para viver.
Cada história de amor ou sua fulminante negação
tem a sua própria época e prioridades a condizer.
Quando as tuas já são outras eu aceito dar o
lugar.
Amigo não pisa amigo se não conta para a equação.
Cada história de amor custa mais decorar que despir
e custa mais vestir do que deixar a cama arrefecer.
Mas por muitos esforços que faça não vou conseguir
despir a pele que o Pai escolheu para comigo trazer.
Esta frase aprendi há pouco de uns estrangeiros
- Antes de criticares põem-te nos meus sapatos.
Eu não posso, não consigo ser quem não sou
- Basta ouvir a sua voz e sei que por aí não vou.
"Deus está morto, a arte deixou de existir, a
história
chegou ao fim e eu próprio não me sinto bem" Umberto
Eco
Contra a gripe, a febre e a constipação
contra o mau olhado da porra da infec
não duvide e não perca mais tempo.
Abra uma garrafa de vinho tinto.
Beba copo a copo com moderação
e não se esqueça desta minha afirmação.
Não um vinho qualquer meio martelado
um vinho alentejano bem encorpado
como promoção do melhor medicamento.
Como tributo à terra, à gente e à produção.
Beba copo a copo com devoção
e não se esqueça desta sábia opinião.
Caro leitor que não vai saber quem sou
até pode não acreditar no que digo
mas há muitos anos que não tomo
comprimidos para as dores de cabeça.
Em primeiro lugar porque não me dói
e se for o caso muito raro do contrário
para começar bebo meio copo de vinho.
Beba com devoção e metade do coração.
"O que é a vida senão a sombra de um sonho
fugaz?" Umberto Eco
A minha vida? Eu sempre fui uma boa boca
e me contentei com o que vinha para a mesa.
Se a refeição fosse farta como era contigo
aproveitava o repasto e tirava a barriga de misérias.
Se não fosse o caso, era paciente e não me queixava.
Os milagres das entradas e das nossas sobremesas
mais pareciam a confirmação que o paraíso existe.
Eram na terra milagres divinos feito por pessoas
momentos de amor que nos tornavam imortais.
Lembras-te quando foi a nossa primeira festa?
A nossa primeira cama, o primeiro dia da nossa vida?
Foi numa terça-feira de março o nosso primeiro poema.
"O diabo não é o príncipe da matéria, o diabo é a
arrogância do espírito,
a fé sem sorriso, a verdade nunca tocada pela dúvida" Umberto
Eco
Quando a cegueira colectiva da maioria já for credo e
religião obrigatória
não se respeitar a opinião da agora minoria que pode ser
apenas temporária.
Quando a maioria dos eleitores acreditarem num futuro fácil
e barato
levados pelas respostas do populismo sabe tudo e discurso
simplificado.
Acredita que não estás sozinho que estás bem
acompanhado
que são muitos que pensam como tu, não te sintas abandonado.
Muitos que sabem pela história que contra a indigna
submissão
temos ao alcance da mão e da alma a nossa infinita insubmissão.
Temos de enfrentar o diabo mentiroso de uma mentira maior.
Temos de derrubar o falso profeta de um infame deus menor.
"Fomos suficientemente inteligentes para
transformar
uma lista de roupa suja em poesia" Umberto Eco
Bom dia. Com o tempo e a observar como faziam os mais
velhos
- mãe estava longe e a vida era aqui - descobri que era mais
prático
lavar a roupa ao fim do dia, todos os dias no lavatório
da sala de banho.
Lavava a roupa com sabão - chegou a ser azul que trouxe de Portugal -
e punha-a pendurada a secar no radiador do quarto da
residência.
Na manhã seguinte estava enxuta. Eram mais complicadas
as camisas
- felizmente na época usava sobretudo t-shirts - e pior as
calças
que tinham de ser passadas a ferro, mas como eram de
ganga
se não fossem centrifugadas e ficassem bem esticadas
mesmo sem ferro de engomar, estavam prontas a serem usadas.
Foram sete semestres na residência estudantil da
universidade.
Tantas recordações. Tantas histórias. Tão pouca roupa suja
para lavar.
Tanta roupa lavada para amarrotar, cheirar e amar. Tanta
poesia.
Abençoada juventude. Obrigado Ráday kollégium. Obrigado
Budapeste.
"As redes sociais dão a legiões de idiotas o direito de
falar, quando antes só falavam num bar depois de um copo de vinho, sem
prejudicar a comunidade... mas agora têm o mesmo direito de falar como um
Prémio Nobel. É a invasão dos idiotas.” Umberto Eco
Estamos cercados por muita raiva de cão
muito presente por ser apanhado do chão.
Estamos perdidos com tanta bolinha seca
tanta camisa de vénus suja e esburacada.
Tanta trampa, restos de rabos em tampos de sanita
para quê fabricar lavatórios se nem as mãos lavam.
Não lhes chames ralo, sifão nem venerável válvula
ou vibrador vibração que dá gozo à vulnerável vulva.
Quando estava a falar parecia que estava a dormir
e a dormir parecia que estava a vomitar e a tossir
a ressonar grosso como uma osga ou uma lagartixa.
Mastigava uma salsicha de barba, bigode e barbicha.
Que seria se fossem para o diabo que vos carregue
deixassem o presente e o futuro para quem os merece.
Budapeste, 2025
Pedro Assis Coimbra
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Não há amor que
resista a vinte e quatro horas de filosofia
Camilo Castelo Branco
E foi assim que
envelheci a pensar em ti.
Envelheci em
silêncio e a reduzir a desventura
a
distância da cidade portuária mais próxima
tão próxima que
não cabia no meu pensamento.
Assim como quem
não acredita no destino
inquieto sem
dar conta das mudanças do vento
com o mais velho
e mais escuro caudal do tempo
fui aguadeiro camaleão
a desaguar no rio da vida.
Era tarde para sair
e mudar de embarcação
e cedo para aproveitar
a substância da baixa-mar.
Assim como um
estivador abraçado ao seu cais
sem grandes
pressas envelheci a pensar em ti.
Sem estar vacinado
cresci a sonhar contigo
como se fosses
uma madrugada madrinha
ou uma bela
mulher que sai à rua para se mostrar
querer-nos
convencer que é ela o nosso futuro.
Cresci contigo
porque nasci no tempo da lua cheia
quando a manhã
se atrasava e o sonho era gratuito.
Não sabia como
te beijar, mas coragem não me faltava
sentia que um
amor como o nosso teria de dar certo.
Sem hesitar avancei
e ainda hoje sigo em frente contigo
pelas avenidas
que nos ajudam a chegar ao nosso abrigo.
Partilhando as
ideias e os sonhos, escutando os outros
porque sabemos
que a liberdade tem valor se for de todos.
Foi por ti que
sonhei viajar sozinho
Por ti que sem medo saí do meu país
Foi por ti que
me fiz ao caminho
Só por ti é que
fui árvore e sou raiz.
Foi por ti que
viajei longe para te trazer até mim
Com violinos
nas asas e uma guitarra em cada mão.
No dia da
chegada organizar um grande festim
Onde pudesse juntar num só o teu e o meu coração.
Foi por ti que
sonhei e foi por ti que fiquei
- Framboesa húngara e um mirtilho português
ou vice versa com uma ranchada de rebentos.
Para casar
contigo para o resto das nossas vidas.
Foi para te
esquecer que sai de casa a correr
foi para não te
lembrar que sai para espairecer
cai em mim e
pensei o que vai ser de mim sem ti
voltei a casa a
correr com medo de te perder.
Ainda lá
estavas em roupão em frente do monitor
preparei à
pressa um café, mas como me esqueci
e não aqueci as
chávenas como costumas fazer
levei na
bandeja para ser bebido antes de arrefecer.
Foi por me
lembrar o quanto eu gosto de ti
e que possa de
novo sentar-me na poltrona
foi para te
recordar o quanto eu gostei de ti
é que a culpa
morre casada, viúva ou solteirona.