terça-feira, 1 de abril de 2025

Confissão

 

Confissão de quem está mais para lá do que para cá:

Quando acabar, acabou-se, até lá vou escrevendo, respirando

acaba-se mais cedo se não respirar, se não escrever. 

 

Com as mãos da poesia estou a construir a minha nova casa.  

 

A casa: "De mim ficam as Palavras" com 

- Palavras avulso e a granel 

- Palavras do eléctrico ou Eléctrico das Palavras 

e com os jardins, hortas e árvores de fruto de outros textos à volta.  


Palavras avulso e a granel / 2

 


Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas.

Fernando Pessoa (Ricardo Reis)


Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Menú semanal


Se eu posso fazer um pequeno pedido 

por favor com esse ar desengonçado 

mostra mais um pouco da tua barriga 

senta-te como vieste despreocupada 

com os pratos e o sorriso na bandeja.

 

O código da pulseira encriptado no olhar 

o telemóvel na mão e ao pescoço o cartão 

a roçar a concha da blusa na rocha da praia 

formação continental de pedra volumosa 

com o fio de algodão enrolado à tentação.

 

Passagens virtuais e realidades paralelas 

ou outra coisa qualquer, os meus olhos 

estavam como lapas coladas ao umbigo 

em pensamentos de alguma fome 

por esse pedacinho menú da tua pele.

 

Menú semanal do prato com mais saída

de quem ao sol já passou boas horas 

dizem o sol quando nasce é para todos 

e da luz, o meu almoço sabe-me melhor.

Assim começava o meu texto de hoje. 


Do tamanho de um camião

 

Quem diria que cansados até os cavalos desistem 

a água fresca ajuda, mas nem o feno e a forragem 

chegam para acreditar na justeza da miragem. 

O que os olhos não sabem, as mãos não podem.

 

Cartola de chocolate e artelhos de cabra lima-limão 

com algemas de cerâmica em tornozelos de papelão. 

Chafarica airosa a Maria empresária de bordel 

nua e bem vestida vai de batel ao mar de papel.

 

Declarava em voz alta, altiva e com convicção 

- Não, os amantes não são artigo de consumo 

nem o amor uma mercadoria de contrabando

porque não é camisola de contrafação 

um par de óculos de sol em segunda mão.

 

Inverdades esterilizadas, fervidas e empacotadas  

com sorte descartáveis, com azar recicláveis.

Tão bom! Rouba aos ricos para dar aos pobres!

Uma ova! Mentira do tamanho de um camião!

Rouba a todos para dar à família e aos amigos! 


Vai-te encher de moscas!

 

Será que nos tempos em que vivemos

estamos cansados de sermos livres  

com vontade de caminhar por alamedas  

de uma só direção cheias de armadilhas?

 

Caminhos ali para os lados mais sombrios  

da humanidade, da nossa condição humana    

da péssima imitação de animais encurralados 

e promessas de que nunca houve regime melhor.

 

Da sua oratória à tona do texto vem a divisão 

do lucro, de encostar a barriga ao balcão 

quem pelo futuro "dos de bem" está autorizado 

a pôr as mãos todas até ao fundo do tacho.

 

O sujeito que estou a pensar é um caganças 

faz o mal e a caramunha e ainda se queixa  

faz-se coitadinho e de vítima, o Vigarista.

Sabes mais impostor? Vai-te encher de moscas!  


O tempo desta vida


É o tempo desta vida e da outra se houver

e para à velha tabuada não ter de recorrer 

o tempo exacto para os olhos se olharem

o tempo certo para as bocas se cruzarem. 

 

É não lamentar os dias gastos por engano

sem a cor do sonho, das palavras sem rumo 

os momentos passados juntos no inverno

repetir e repetir que estarei sempre contigo.

 

Não te percas! Não percas o norte nem o sul. 

Não desesperes, não percas o teu optimismo.  

Faz de maneira que nunca estejas sozinho 

abandonado debaixo de tão vasto universo.


Deixar de ser parvo


Na azáfama de ter tudo pronto a horas

é tempo de descascar favas e ervilhas

com martelinho partir nozes e amêndoas 

lavar à mão na bacia de zinco garfos e pratos. 


Como quer aprender primeiro com a vida

passa os dias a encher e despejar copos

a correr às mesas e mover mundos e fundos

devolver os trocos a pensar no pouco que fica. 

 

Mas há sempre um momento Damasco de clique

de limpar as escamas dos olhos e do pargo

tempo de preparar o novo algoritmo do almoço 

de acender a fogueira e deixar de ser parvo. 


Tarde de primavera


A poesia de hoje apenas faz sentido 

se for dirigida à entrega e à conquista 

escrita para ser lida e depois esquecida

dizia com um rasgado e sábio sorriso.

 

Percorria os caminhos do seu bem amado 

que tão bem sabia como formar e despertar

estrela maior nessa grande avenida da vida

o raio de sol que iluminava a última leitura. 

 

Para a festa acabar asseada e perfumada

pedia sabonete, um pente e uns chinelos

fazia seguro dos pedidos serem atendidos

que tudo faria para ele se sentir em casa.

 

Depois vieram também tempos de outras festas

tempos de ser ignorado e algumas más notícias 

do segredo bem guardado da sua nova descoberta  

do verão que começou nessa tarde de primavera.

 

A poesia de ontem era escrita em pergaminho. 

Hoje está escrita no rosto, escrita no teu corpo.


Lavar os pés


Ser livre é não ter de se rebaixar 

de beijar, lavar e secar os seus pés 

porque tem o costume de não ser barato

permitir-se pelos seus hábitos de mandar.

 

Ter a liberdade de as pilhas recargar

com modernos carregadores e marchar 

porque pensa na família e porque quer

voltar a casa a tempo de fazer o jantar.

 

Saber que houve os tempos de Platão 

platónicos, mas há muito que já não são

e não estar para perder o seu tempo.

Se fosse comigo também não estaria.

 

Entrou apressada e nem se sentou

ao balcão pediu um copo de vinho branco

pão caseiro azeitonas e queijo francês. 

Toca a andar que se faz tarde para chegar. 


Cresceu livre

 

A sua história de vida merece ser contada. 

Nasceu num dia distante quente e abençoado 

num mês com passado e com muito mais futuro.

 

Cresceu livre entre a serra e o mar

rios e vales, paisagens de deslumbrar.

Casou-se bela, muito jovem e por amor.

 

Fizesse o que fizesse tudo lhe saía certo.

Por vezes até parecia abusar da sorte 

que Deus lhe destinou para seu trilho.

 

Segundo o que dizem os que a conhecem 

começou a escrever, a escrever muito bem 

tinha o seu público atento que a seguia

e um leitor distinto que apoiava e corrigia.

 

Um dia para pena de muitos abandonou a escrita

parou porque o seu leitor favorito deixou de estar. 

Com o choque da partida, com a morte do mentor

o desinteresse pela poesia foi imediato e redentor.


No largo da esplanada


Sobressaía pelo corte de cabelo 

muito à frente do seu tempo.

Pelo olhar e o sorriso encantador

no largo da esplanada não havia outro.

 

Sobressaía pela sua silhueta fina

pela sua roupa justa e apertada 

assentava que nem uma luva

parecia toda ela feita à medida.

 

Mostrava-se, mas com moderação 

e não esticava demais a corda atrevida.

Sem se assumir caudal fácil ou vulgar

era para muitos o único rio da imaginação. 


Xadrez


Do xadrez era uma excelente jogadora  

conseguia combinar e jogar para vencer.

Uma boa maçã madura que ganhou o gosto 

pelas simultâneas com várias mesas à volta.


Tinha um bom tabuleiro, mas alternava  

como se habituou ao longo da sua vida 

ao prazer que lhe dava os grandes jogos

que por si não trocava por nenhuns outros.


Ir ao supermercado ou à loja do bairro 

era como se encontrar com o seu amante 

com grande arcaboiço e grande espingarda 

com ele namorar era mesmo para recordar.

Destacava-se por ter menos olhos que barriga.


Marroquinas clementinas ou laranjas de sangue 

a doce acidez do prazer pago a prestações 

de rendas pretas rendinhas vermelhas fetiche

com a utilização da melhor das suas tradições. 

Na frutaria as prateleiras estavam todas vazias.


2024 - 2025

Em "Palavras avulso e a granel"



segunda-feira, 31 de março de 2025

Amor e paz - Ilusão das palavras

 

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Tamar e Mahmoud

 

Diz Rita, minha amada 

na nossa Terra Santa 

porque é o mundo 

connosco tão injusto 

tão duro com o nosso Amor? 

 

Não somos Romeu nem Julieta 

Páris e Helena, Tristão e Isolda 

- nem a triste tristeza do isolamento.

Não somos Lara e Jivago na Rússia 

nem Ilse ou Rick em Casablanca.

 

Somos tão só Tamar e Mahmoud

uma judia e um palestino sem nome.

Dois jovens que se conheceram  

se apaixonaram irremediavelmente 

e se deram perdidamente um ao outro.

 

Porque não podemos nós fazer 

das pedras e do pó dos caminhos 

campos de oliveiras, pomares de laranjeiras 

e do barro construir e erguer a nossa casa 

cuidar do nosso jardim e da nossa horta?

 

Minha israelita de mel insubmissa 

que o nosso Amor nunca acabe 

e eu possa viver contigo a vida inteira 

criar filhos e depois ver os netos crescer.

Rita não te esqueças - o sonho nunca morre! 


Tamara

 

Tamara, doce doçura como a vitória impossível 

a renúncia anunciada e a conquista temporária 

eterna só no sonho mais improvável e mais ingénuo. 

- Castanha de caju e amêndoas recheadas para despistar. 

 

Para disfarçar a dor da melancolia triste

a tristeza que inunda e sufoca a alma

a hospedaria da monotonia mais ausente.

- Dizer adeus à inocência perdida.

 

Abram os olhos e olhem ao vosso redor

não é a abundância do leite, mel e frutos 

a terra prometida por deus que vos espera.

- É tempo de acordar de vez minha flor.


Rita e a espingarda


"Entre a Rita e os meus olhos, uma espingarda"

 

Ele o Poeta, voz da resistência palestina, destacado militante da OLP.

Ela alistou-se nas forças armadas de Israel, depois membro da Mossad.

O abismo entre os dois jovens amantes não parou de crescer. 

O seu Amor não conseguiu sobreviver à realidade das suas vidas. 

Um dia os seus olhos afastaram-se e não se voltaram a ver.

 

Hostil a nossa cidade não nos recebeu de volta 

e nos subúrbios não encontramos onde pernoitar

onde pudéssemos festejar-nos pela última vez. 

Eu poder dizer adeus aos teus olhos de mel 

ao teu corpo e à tua alma de minha gata felina.

 

Ali não havia mais do que apatia. 

O silêncio pesado da casa vazia

tinha tomado o sofá-cama da alegria 

ignorando a pureza do nosso amor.

 

Custa escrever, mas nem a nossa buganvília 

esperou por nós e secou antes da nossa melodia.

"Ah Rita! O que terá afastado os meus olhos dos teus." 


Pense aux autres (Pensa nos outros)

 

Quand tu prépares ton petit-déjeuner, pense aux autres. 

(N'oublie pas le grain aux colombes.) 

 

Quand tu mènes tes guerres, pense aux autres. 

(N'oublie pas ceux qui réclament la paix.)

 

Pensava no tempo ainda tão morno e tão cálido. 

Vestia-se das minhas palavras e dos meus beijos

corria o fecho da saia comprida de linho.

 

Escondia os seus olhos de melaço profundo

por detrás das negras pestanas da noite.

Os lábios pintados com o seu sorriso agridoce

 

Entrevia um amanhã que era definitivo 

um passado sem nós para não recordar.

Sem o nosso amor, sem a nossa alegria. 

Sem nenhuma das nossas promessas.

 

Valeria a pena recomeçar a viver

tentar recriar o nosso mundo sonhado

feito de dedos lisos e de mãos abertas 

de braços meigos e abraços apertados. 

Feitos da nossa biografia perdida.


Quand tu comptes les étoiles pour dormir, pense aux autres. 

(Certains n'ont pas le loisir de rêver.) 

"Pense aux autres". Traduit de l’arabe (Palestine) par Elias Sanbar


Ilusão das palavras

 

Descobri a poesia de Mahmoud Darwich 

- sobretudo a poesia militante e de combate -

através de traduções para francês

nos fins dos anos oitenta do século passado.

 

Mais tarde com o filme-documentário 

Write down, I am an arab (2014)

conheci a vida do poeta e a história de amor 

com a jovem judia Rita (Tamar Ben-Ami).

 

Este filme comoveu-me por acreditar 

que o amor e a paz, a ilusão das palavras 

podem ser mais fortes do que a guerra.

Essa comoção aumentou com a nossa visita 

de sete dias a Israel, Palestina, Terra Santa. 

 

Durante esses dias fiquei a saber que a paz 

e o entendimento ali nunca serão alcançados

não haja ilusões. Não tenhamos ilusões. 

Não quero nem podia morrer sem deixar escrito

sem duas ou três pinceladas do que senti e sinto.

 

Amor e paz - Ilusão das palavras

Budapeste, 28-30 de março de 2025

 

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


quinta-feira, 27 de março de 2025

Palavras do eléctrico ou o eléctrico das Palavras / 2

 

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta

continuarei a escrever. Clarice Lispector



Para o livro "De mim ficam as Palavras"



Um cálice de aguardente

 

Um cálice de aguardente para te trazer de volta 

para me ajudar a guardar-te nos meus braços 

para haver lenha quando as noites frias acabarem 

e da distância as manhãs fechadas abrirem os olhos.

 

Recordar-te como te escondias feminina

como se no prédio fosses a nova inquilina

- Como quem corajosa subias ousada a colina.

 

Recordar-te como desaparecias na neblina

e os teus olhos de gata eram a lamparina

- Feita luz aparecias nua por detrás da cortina.

 

Um cálice de aguardente para te trazer de volta 

tu que dizias que eu era o sal e a tua gasolina

para me ajudar a guardar-te nos meus braços 

resina do meu pinhal sabor da doçura mais fina.


Um prato de lentilhas


Por um prato de lentilhas 

vende o pai e vende a mãe 

vende o avô e vende a avó. 

Vende o cão e vende o sapo.

 

Por um prato de lentilhas 

vende os cornos e a alma

vende a ilusão da mentira 

vende a própria mulher.

 

Hipoteca a vida da filha 

prometida e pré-vendida

ainda antes de nascer 

ainda antes de a fazer.

 

Aqui é um hábito muito antigo 

que por significar abundância 

é comum no primeiro dia do ano  

comer-se um prato de lentilhas. 


Um copo de vinho


Abre os olhos carroça que a mula vai apressada 

e para lá chegar eu tenho tempo de sobra.

Não tanto como Gaudi, o arquitecto de Barcelona 

mas tempo suficiente para parar e para almoçar 

com todos os vagares que a pança merece.

 

A conversa é sempre a mesma sempre condimentada 

a puxar para o meio, abaixo do peito acima do ventre

se não falta nada para dar ao dente e sentar à mesa.

 

Se local novo olhar à volta ver que comem os outros 

pedir para começar meia garrafa, um copo de vinho tinto 

um café e um digestivo para ajudar a digestão.

 

Para ajudar a constatar que as nossas barrigas

são o melhor estímulo para a satisfação ou insatisfação 

dos homens e das mulheres de ontem de hoje de sempre.

Por ser um bom exemplo disso, não me vou esconder. 


Uma taça de gelado


Uma taça de gelado italiano para gente gulosa 

com bom gosto porque não há gelado melhor. 

Uma taça de champanhe francês para gente boa

com paladar desenvolvido e dinheiro para gastar. 

 

Uma taça de salada de fruta para amigos da horta 

que trocam um doce de ovos pela natureza-viva

que sabem da importância da saúde e da comida. 

Sabem se agora se cuidam amanhã tem mais vida.

 

Sabem do grande irmão e outros filhos da puta

as rascas teorias da conspiração teórica e prática

do regresso sufocante orwelliano da mão-morta. 

Mão a menos maçaneta vai bater a outra porta. 


Uma caneca de cerveja


Uma caneca de cerveja alemã com salsichas

as linguiças de Nuremberg com couves roxas  

e repetir a caneca, há coisas piores na vida.

Nem falar do incansável pedinte em mim

a pedinchar e a juntar bases de cerveja.

 

Lembras-te do sítio da primeira cerveja que bebeste comigo?

Não era bebida que estivesses habituada, valeu a com cerejas

da simpatia com que nos atendiam e como se metiam contigo.

Tínhamos vindo de uma festa para continuamos a celebração. 

 

As voltas que o mundo deu, as canecas que eu já bebi.

Como poderei eu esquecer os seus brincos fantasia

cerejas ou ginjas aos pares a caírem sobre os ombros 

a realçar o seu pescoço alto que convidava a beijar.

 

Budapeste, 2024 - 2025


quarta-feira, 26 de março de 2025

Palavras avulso e a granel / 1


Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas.

Fernando Pessoa (Ricardo Reis) 


Palavras ou distâncias

 

Hoje não bebe vinho por ser dia de comer pão.

As últimas semanas serviram para de vez se soltar

libertar-se da teia onde por gosto se tinha enfiado

porque no fundo aceita tudo menos o que não aceita.

 

Estava na varanda a fumar um cigarro e a pensar 

não tinha de estar a olhar para o sentido das palavras 

para as segundas leituras das metáforas mais ariscas

para as imagens que pudessem cair mal ou magoar.

 

Pensar ser uma grande tontice, escrevê-lo ainda mais 

pela primeira vez na vida sentia-se sem colete de forças

quer dizer não ter de estar a olhar para a solidão do cais 

as amarras das suas ideias e dúvidas, das suas palavras.

 

Sabia bem que até a pé ela viria para estar no lançamento.

Pensa no passado, vive o presente e olha também o futuro

palavras escritas em papel, no telemóvel ou no computador.

Palavras, dúvidas e distâncias que no final vão parar ao lixo. 


Repolhinho

 

A imaginação tem coutos que não chegam 

nem aos tornozelos maltratados do irmão.

- Com os ventos do contra clero tão fortes 

quando coitados os bispos já não pensavam 

no coito, no repolho repolhinho por comer.

 

Não podiam acoitar-se por dá aquela palha

com a freira mais tenrinha do convento 

para isso até servia a macia do palheiro 

não fosse o diabo tecê-las, acabar no degredo.

 

Como é costume o mundo mudou para pior

com essa gentalha logo a pensar que é gente.

Põem-se a inventar e a agitar os agitadores 

de coutadas e das noitadas mal dormidas.

 

Esquecem-se que não faziam mais que andar 

em grupo à procura dos ninhos de gambozinos.

Coito ou couto tão diferentes como o dia da noite 

se não houver noites brancas e roxas madrugadas. 


Talvez soubesse

Para Petia Poetisa


Talvez soubesse, mas parece que não sabia 

que devia ouvir os ensinamentos dos mais velhos

que não devia dar um passo maior do que a perna.

E que pernas, que corpo tinha, Deus nosso senhor! 

 

Mas a nova Pandora queria tanto experimentar

dar um salto à canguru que como era de prever

o mais que conseguiu foi chegar de comboio à praça.

E um valente tropeção que a fez cair nua na cama.   

 

Para a lua que não desiste ficou uma grande lição.  

Por falta de cuidado e atenção junto com as garrafas 

e outras miudezas que se tinham acumulado no navio 

também deitou fora as gorduras perfumadas do amor.

 

Provavelmente nem se deu conta do que estava a fazer.

Há muito se sabia, se havia alguém que merecia um poema 

pensava logo na sua lua que deu tudo e nada pediu em troca. 

- Pensava na deusa quase grega, cálida musa meia meteca.


Condicional

 

Para passar no exame de língua

pago a peso de ouro e rara platina

andou semanas a estudar e praticar

o condicional do verbo bem fazer

ou fazer com muito prazer.

 

Passou com nota máxima e distinção  

com uma resposta que até o professor 

considerou ser um exemplo a seguir. 

 

Sabia que se tivesses os olhos abertos

e olhasses para mim irias guardar na memória

o momento em que os meus lábios se fecharam.

 

Mais tarde quando visses uma fotografia desse dia

irias-te lembrar e também pensarias que ninguém

a não ser nós sabia o que a minha boca fazia. 


Cegueira

 

Meu Amor estou no aeroporto, acabei de chegar 

não te disse nada porque quis fazer uma surpresa. 

Sabia muito bem que não podia faltar, estar longe 

estar ausente neste momento tão especial para ti. 

Manda-me a morada para eu dizer ao taxista.

 

Acordou. Na viagem tinha adormecido e teve pena 

de acordar, do sonho não continuar e acabar bem. 

Na manhã do dia seguinte ainda acreditou no milagre 

que na cidade da paixão o sonho fosse a realidade. 

 

Conclusão de quem anda há muitos anos a remar por aqui 

e vê o que muitos outros não veem ou nem querem saber. 

Não há maior cego que aquele que o amor não deixa ver 

cego pela cegueira irracional e profunda ilusão intelectual. 

- Histórias de quando se é a inspiração, mas não faz caso.


Encurtar lonjuras


Estava a refazer o seu jogo de cintura

para de vez lhe chamar a atenção 

e aos poucos ia perdendo a compostura 

com ofertas de vida nas asas da paixão.

 

Estava a alinhavar pelas costuras

de propósito com as costas e o resto à mostra 

as coxas abertas às surpresas da vinha 

mas prontas para encurtar as lonjuras. 

 

Com ela e com os opacos mistérios do amor

assistia-se ao encantamento e a tanta alegria  

de cada vez que a via mais bela lhe parecia. 

Mais fascinante do que no encontro anterior. 


A vida inteira

 

Para lá das margens e pedras da fortuna

de fora e de longe, de perto não se via 

o que rio sentia no mais fundo de si

mas dizia nem tudo o que brilha é ouro.

 

Um certo dia depois de muito caminhar 

para mudar de vez bastou um olhar 

a alma intacta do seu coração mais puro 

que se fez maior para descansar e sonhar.

 

Como se fosse uma história de encantar

para à noite ser contada e melhor vivida.

Docuça encontrou quem sempre procurou 

porque não perdeu a esperança que existia.

 

Por estar há muito em viagem pelos caminhos 

aceitou o desafio, abriu as portas ao destino

nem que fosse apenas para um toque de dedos. 

Um encontro, um dia que valesse a vida inteira.


Tempo das cigarras (soneto)

 

Era o tempo das cigarras e das cerejas 

tempo das bocas se colarem uma à outra 

com a cola do néctar em flor das cerejeiras. 

- As bocas se colarem sedentas e esfomeadas.

 

Tempo de deixar as línguas dançarem 

ao som da música sensual dos desejos.

Tempo dos lábios amantes se degustarem

ao som da música do doce licor do vento.

 

Do canto sedutor da cigarra do pensamento 

com os lábios sedosos e o sabor dos beijos

sabendo das almas ancoradas ao sentimento.


Recordando os olhos no meio da madrugada

eram de Leila lua, bela como a noite mais escura.

- O fascínio de tudo que há de melhor na vida.


Encontrado no chão


No dia de hoje o tempo já fez muitas caras 

mas nenhuma é a tua, o teu rosto e o teu sorriso

o rosto lindo que Deus te deu e a vida aperfeiçoou.

 

Assim começava a carta que tinha encontrado no chão 

tinha apanhado o envelope e aberto sem autorização

li atento e fiquei a saber da intensidade dessa paixão

 

Pensei que aquela carta perdida podia ter sido escrita 

por qualquer um de nós, qualquer um que está vivo

qualquer um que sonha, que ama e se sente amado.

 

Será que hoje ainda se escrevem cartas de amor?

Será que não passa de conversa de velho cansado?

Haverá sempre quem escreva a magia de um sonho!


Exibicionista


Com ousadia e bom gosto não se importava de se mostrar 

de exibicionista exibir-se e realçando o melhor que tinha. 

Com olhos de leigo digo, via-se que era muito e do melhor.

Segundo os livros não devia ser nenhuma Teresa de Calcutá. 

 

Por vezes surpreendia e excitava pela sua transparência

em sentido próprio e figurado, pela sua autenticidade. 

Era tão natural e tão apelativa dos sentidos que os homens

a seguiam como abelhas à volta da flor do mel mais doce.

 

As amigas gostariam de ser como ela, tinham-lhe inveja. 

Também eu teria muita dor de cotovelo se fosse sua amiga.

- Que bom seria ser seu amigo e conhecê-la mais de perto

para sem desafinar poder-lhe cantar a cancão do bandido.

 

Palavras do eléctrico ou o eléctrico das Palavras / 1

 

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta

continuarei a escrever. Clarice Lispector


Sentados no eléctrico

 

Estavam sentados no eléctrico e de forma discreta

tocavam e trocavam de joelhos, de mãos e respiração 

tão sorrateiramente que para ver tinha de ter olho vivo.

 

Não me fazer notado e poder observar com atenção 

captar toda a magia íntima daquele momento 

de entrega em movimento sobre os carris da emoção.

 

De janelas escancaradas trocavam de olhos e sorrisos 

despiam e vestiam a alma a crescer da felicidade

e não escondiam o fogo que lhes ia no coração.

 

Tive pena que saíram antes de mim e não os poder seguir 

saber como caminhavam, abraçados ou de mãos dadas 

beijando-se com tempo junto ao castanheiro bravo

ou apressados para casa dela, sem um minuto a perder.


De mãos dadas e dedos entrelaçados

 

De mãos dadas e dedos entrelaçados 

caminhavam leves à minha frente. 

Eu distraído observava muito atento 

com o gosto a arroz-doce de outras aventuras 

e a velha emoção de novas descobertas. 

 

Observava comovido com tanto deleite  

como quem está saboreando a vida

e bebe água fresca da bica da fonte.

 

Separaram-se com um beijo intenso. 

Os transportes públicos podiam esperar. 

Ela foi para o metro como eu fui

ele para o eléctrico que atravessa a cidade 

e une pelos seus carris Buda a Peste.

 

Não vou terminar este texto de observação do amor 

que nesta manhã cálida senti a obrigação de escrever

sem dizer que estou a pensar em nós e na nossa Lisboa.


Lisboa não te esqueças


Caminhavam lado a lado em passo repousado 

pelo Terreiro do Paço e o Cais das Colunas

como se não se conhecessem, não se tivessem visto.


Perderam-se para Santa Apolónia, subiram as colinas 

por Alfama, na intimidade do miradouro de Santa Luzia

até às Portas do Sol, ao ritmo espaçado das fotografias.

 

Longe sentia-se o ruído da vida, devia ser o barulho  

de um comboio a passar sem parar na estação 

no aeroporto a aterragem brusca de um avião.

 

Na rua encostado ao carro de cigarro na mão 

um taxista de meia idade, vivido e sabido  

com o seu olhar matreiro parecia que dizia 

- Estou a ver o que vocês não devem ter feito.

 

- Não me olhes assim, não me tapes a boca 

deixa-me gemer até eu querer, até me apetecer 

até me cansar e fartar de ter tanto prazer.

Lisboa secreta não te esqueças de nós

e quando for muito tarde recorda a nossa voz.


Combustão


E é eléctrico, imagine-se se fosse a combustão 

muito fogo iria acender, apagar e de novo atiçar  

incendiar o restolho, fazer arder e repetir a dose. 

Por gestos perguntar, tem motor ou tenho de trocar?

 

Diz-se que foram metros e metros de mar adentro 

e nunca declinou uma nova viagem de barco. 

Mas hoje como ontem como depois de amanhã 

não se deve meter o bedelho onde não se é chamado. 

 

Confundir alhos com bugalhos e sarilhos com saralhos 

carvalhos e churrascos na churrasqueira de sempre. 

Ave rara, mas das mansas com classe e filantropia 

coração do tamanho do mundo à venda na mercearia.  


Aqui não se encomendam pedras do arremesso 

nem tão pouco aquela história merece este soneto.


Onde foi bom acordar


"Não é para todos ter um escorpião 

tatuado no ombro direito. 

Um escorpião vivo dentro do peito."


Tinha chegado o tempo de lembrar e de escrever 

sobre a linda lua de maio em flor que iluminou

e brilhou em junho e julho, meses e muitos anos 

que paciente não desistiu até fascinar e seduzir.


Era impossível ficar-se indiferente com a visão

a imagem dos cabelos soltos, longos e loiros

que caiam em cascata sobre as costas 

e se espalhavam com o sol no tapete feito cama.


Nem um barbeiro dos antigos de bata azul 

com creme de sabão e pincel faria melhor.

Nem um pêlo esquecido ou teimoso por ali.


Amigo, tenha cuidado com os joelhos 

para que não fiquem muito esfolados

de tanta prece, de tanto Deus, tanto ajoelhar.


Sim, quase sempre é tarde demais para se voltar 

ao sítio onde se foi feliz, onde foi bom acordar.  


Software inovador


Rosa-dos-ventos feita madame, eleita dona do verbo 

Casada com cavaleiro mal achado, mas bem formado 

Um bússola de alegria como um biscoito de ternura

Isto de um grande amor tem muito que se lhe diga.

 

Em diálogo sem pés nem cabeça meia quadrada 

disseram que a bolacha de água e sal é bissexual

e que chega ao seu destino com a ajuda gratuita

do batedor da polícia do protocolo do estado social 

 

Deixa a hortaliça para quem a precisa para cozinhar 

e o pão e o chouriço para quem tem fome de rachar 

Utiliza o software inovador dos gemidos do sorriso 

do gozo a sério, jouir du plaisir para soar mais fino.


Não tens vergonha usar uma linguagem tão reles

Mentiroso sou eu e não minto tanto como eles

Difícil acreditar, mas não querem roubar a neve

Não é tempo de calar ainda que depois nada mude.


Ferrovia a menos

 

Não é o pão nosso de cada dia 

nem dia ou noite de cada pão.

Acredita, se fores mais optimista

sabe-te muito melhor o galão .

 

A blusa fica mais cremosa e mais pão 

se não usar detergente, mas sabão.

Os montinhos ficam mais redondinhos

e os moranguinhos mais pontiagudos.

 

Quem entra no hipermercado sabe ao que vai

mas quem entra na estação não sabe quando sai.

É o que acontece quando tens um país 

com autoestradas a mais e ferrovia a menos.

 

Em que homem ou mulher pensei?

De que país estarei eu a falar? 

Dou um rebuçado a quem adivinhar 

e dois a quem não se enganar.


Logo se vê

Para o meu amigo e poeta João Miguel Henriques


Se o dia promete pouco, não te rales

Se o dia está a dar, deixa-o andar

Se o dia precisa de ti, faz um biscate

Se o dia não ata nem desata, dorme. 

Se tens o carro avariado, vai a pé 

Se a política te irrita, desliga a televisão 

Se já não mandas nada, calça as pantufas 

Se o teu clube te põe triste, muda de mulher. 

 

Se a gata não mia, dá-lhe uma corneta 

Se a porta não se abre, entra pela janela 

Se te esqueceste de beijar, aprende línguas

Se não tens emprego, vai para o estrangeiro. 

Quando a loucura dos autocratas com as suas maiorias  

tomar conta do mundo e arredores e já não houver humor 

ou ironia que nos valha e nos entretenha, logo se vê! 


Clito, o Negro


Clito, o negro no campo inclusivo da batalha

na promoção e arte de combater com mestria

deixava magia, razão do texto desta geografia

deixava no ar o fascínio de conquista da poesia. 

 

Pelo grito e pelo aroma da cor, o teu clito é de ouro

mas o dela vale mais porque vem das terras raras.

Olhem o meu é negro, feito de plástico reciclado

e foi comprado em promoção na loja das bugigangas.

 

Clito, o Negro (375 a.C. - 328 a.C.) foi um destacado militar do exército de Alexandre, o Grande e salvou a vida deste na grande Batalha do Grânico (334 a.C). Seis anos mais tarde, durante um banquete em Samarcanda e após violenta discussão, Clito foi morto pelo amigo e venerado Alexandre (Wikipédia)


Teodora de Constantinopla


Se a memória não me deixa ficar mal

quando criança conhecia uma Teodora

era uma colega na escola primária

e coitada da menina era gozada por todos  

- Olha, olha a Teodora, tanto ri como chora.

 

Era uma miúda muito envergonhada 

com sardas e cabelo comprido claro

e provavelmente tornou-se uma bela moça.

Estudou direito, fez-se doutora, advogada.  

 

A outra, Teodora de Constantinopla

também conhecida como Teodora do bordel

foi actriz e dançarina, prostituta e comediante.

Imperatriz e esposa do imperador Justino.

 

Tinha talento, era formosa e inteligente 

com bom senso para ela nada era urgente

mas não chegou para convencer muita gente.

 

Que o digam as leituras dos escritos que ficaram da época.

Se não tivesse visitado Istambul e ter-me preparado para a visita

teria perdido alguns detalhes que a tornaram muito mais rica.

Digam lá se a curiosidade e o saber ocupam lugar?

 

2024… 2025…


segunda-feira, 24 de março de 2025

Eco das Palavras

ou a ousadia tonta de me associar a Umberto Eco



Gato

 

"Perguntei-lhe qual era o nome do gato e ele respondeu-me que os gatos

não têm nome porque não são cristãos como os cães" Umberto Eco

 

Caro Mestre, não leve a mal a intromissão 

mas do bastante que Deus me acrescentou 

sei que não é por aí que o gato vai às filhoses.

Estão em grande harmonia e não há jantar sem cão.

 

A não ser que da arranhadela o santo ficou uma fera

e nem a intervenção de Pedro apaziguou a discussão.

Ainda por cima a internet esteve todo o dia de baixa 

e não passou a mensagem do gato a pedir perdão.

 

Boa eucaristia senhor prior e bom jantar de celebração. 

Batize lá o gato no domingo e esqueça a ofensa.

Vai ser um bom cristão vai caçar os ratos da igreja.

O vinho não vai sumir da sacristia. Tenha um bom serão.

 

Sabedoria

 

“O amor é mais sábio do que a sabedoria” Umberto Eco

 

Cada história de amor nasce para não morrer 

não é preciso ser sábio para inventar uma melhor.

O amor é feito de paciência e arte da transpiração 

é feito da sabedoria dos que nasceram para viver.

 

Cada história de amor ou sua fulminante negação 

tem a sua própria época e prioridades a condizer.

Quando as tuas já são outras eu aceito dar o lugar. 

Amigo não pisa amigo se não conta para a equação.

 

Cada história de amor custa mais decorar que despir 

e custa mais vestir do que deixar a cama arrefecer. 

Mas por muitos esforços que faça não vou conseguir 

despir a pele que o Pai escolheu para comigo trazer.

 

Esta frase aprendi há pouco de uns estrangeiros 

- Antes de criticares põem-te nos meus sapatos.

Eu não posso, não consigo ser quem não sou 

- Basta ouvir a sua voz e sei que por aí não vou.

Deus

 

"Deus está morto, a arte deixou de existir, a história 

chegou ao fim e eu próprio não me sinto bem" Umberto Eco

 

Contra a gripe, a febre e a constipação 

contra o mau olhado da porra da infecção

não duvide e não perca mais tempo. 

Abra uma garrafa de vinho tinto.

 

Beba copo a copo com moderação 

e não se esqueça desta minha afirmação. 

 

Não um vinho qualquer meio martelado 

um vinho alentejano bem encorpado

como promoção do melhor medicamento. 

Como tributo à terra, à gente e à produção.

 

Beba copo a copo com devoção 

e não se esqueça desta sábia opinião.

 

Caro leitor que não vai saber quem sou 

até pode não acreditar no que digo 

mas há muitos anos que não tomo 

comprimidos para as dores de cabeça.

 

Em primeiro lugar porque não me dói 

e se for o caso muito raro do contrário 

para começar bebo meio copo de vinho.

Beba com devoção e metade do coração.

 

Vida

 

"O que é a vida senão a sombra de um sonho fugaz?" Umberto Eco

 

A minha vida? Eu sempre fui uma boa boca 

e me contentei com o que vinha para a mesa. 

Se a refeição fosse farta como era contigo

aproveitava o repasto e tirava a barriga de misérias.

Se não fosse o caso, era paciente e não me queixava. 

 

Os milagres das entradas e das nossas sobremesas 

mais pareciam a confirmação que o paraíso existe. 

Eram na terra milagres divinos feito por pessoas

momentos de amor que nos tornavam imortais.

 

Lembras-te quando foi a nossa primeira festa? 

A nossa primeira cama, o primeiro dia da nossa vida?

Foi numa terça-feira de março o nosso primeiro poema. 


Diabo


"O diabo não é o príncipe da matéria, o diabo é a arrogância do espírito, 

a fé sem sorriso, a verdade nunca tocada pela dúvida" Umberto Eco

 

Quando a cegueira colectiva da maioria já for credo e religião obrigatória 

não se respeitar a opinião da agora minoria que pode ser apenas temporária. 

Quando a maioria dos eleitores acreditarem num futuro fácil e barato 

levados pelas respostas do populismo sabe tudo e discurso simplificado.

 

Acredita que não estás sozinho que estás bem acompanhado 

que são muitos que pensam como tu, não te sintas abandonado.

Muitos que sabem pela história que contra a indigna submissão 

temos ao alcance da mão e da alma a nossa infinita insubmissão.

 

Temos de enfrentar o diabo mentiroso de uma mentira maior.

Temos de derrubar o falso profeta de um infame deus menor.

  

Poesia

 

"Fomos suficientemente inteligentes para transformar 

uma lista de roupa suja em poesia" Umberto Eco

 

Bom dia. Com o tempo e a observar como faziam os mais velhos 

- mãe estava longe e a vida era aqui - descobri que era mais prático 

lavar a roupa ao fim do dia, todos os dias no lavatório da sala de banho.

Lavava a roupa com sabão - chegou a ser azul que trouxe de Portugal -  

e punha-a pendurada a secar no radiador do quarto da residência.


Na manhã seguinte estava enxuta. Eram mais complicadas as camisas

- felizmente na época usava sobretudo t-shirts - e pior as calças 

que tinham de ser passadas a ferro, mas como eram de ganga 

se não fossem centrifugadas e ficassem bem esticadas 

mesmo sem ferro de engomar, estavam prontas a serem usadas.

 

Foram sete semestres na residência estudantil da universidade.

Tantas recordações. Tantas histórias. Tão pouca roupa suja para lavar. 

Tanta roupa lavada para amarrotar, cheirar e amar. Tanta poesia. 

Abençoada juventude. Obrigado Ráday kollégium. Obrigado Budapeste.


Invasão dos idiotas

 

"As redes sociais dão a legiões de idiotas o direito de falar, quando antes só falavam num bar depois de um copo de vinho, sem prejudicar a comunidade... mas agora têm o mesmo direito de falar como um Prémio Nobel. É a invasão dos idiotas.” Umberto Eco

 

Estamos cercados por muita raiva de cão  

muito presente por ser apanhado do chão. 

Estamos perdidos com tanta bolinha seca

tanta camisa de vénus suja e esburacada.

 

Tanta trampa, restos de rabos em tampos de sanita

para quê fabricar lavatórios se nem as mãos lavam.

Não lhes chames ralo, sifão nem venerável válvula 

ou vibrador vibração que dá gozo à vulnerável vulva.

 

Quando estava a falar parecia que estava a dormir 

e a dormir parecia que estava a vomitar e a tossir

a ressonar grosso como uma osga ou uma lagartixa.

Mastigava uma salsicha de barba, bigode e barbicha.

 

Que seria se fossem para o diabo que vos carregue

deixassem o presente e o futuro para quem os merece.

 

Budapeste, 2025

Pedro Assis Coimbra

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


sexta-feira, 21 de março de 2025

Tempo de espairecer e envelhecer

 

Não há amor que resista a vinte e quatro horas de filosofia
Camilo Castelo Branco 


Envelheci a pensar em ti

 

E foi assim que envelheci a pensar em ti. 

Envelheci em silêncio e a reduzir a desventura

a distância da cidade portuária mais próxima

tão próxima que não cabia no meu pensamento. 

 

Assim como quem não acredita no destino 

inquieto sem dar conta das mudanças do vento  

com o mais velho e mais escuro caudal do tempo 

fui aguadeiro camaleão a desaguar no rio da vida. 

 

Era tarde para sair e mudar de embarcação 

e cedo para aproveitar a substância da baixa-mar. 

Assim como um estivador abraçado ao seu cais 

sem grandes pressas envelheci a pensar em ti.


Cresci contigo

 

Sem estar vacinado cresci a sonhar contigo 

como se fosses uma madrugada madrinha

ou uma bela mulher que sai à rua para se mostrar 

querer-nos convencer que é ela o nosso futuro. 

 

Cresci contigo porque nasci no tempo da lua cheia 

quando a manhã se atrasava e o sonho era gratuito. 

Não sabia como te beijar, mas coragem não me faltava 

sentia que um amor como o nosso teria de dar certo. 

 

Sem hesitar avancei e ainda hoje sigo em frente contigo 

pelas avenidas que nos ajudam a chegar ao nosso abrigo. 

Partilhando as ideias e os sonhos, escutando os outros

porque sabemos que a liberdade tem valor se for de todos.


Foi por ti que sonhei

 

Foi por ti que sonhei viajar sozinho 

Por ti que sem medo saí do meu país 

Foi por ti que me fiz ao caminho 

Só por ti é que fui árvore e sou raiz.

 

Foi por ti que viajei longe para te trazer até mim

Com violinos nas asas e uma guitarra em cada mão. 

No dia da chegada organizar um grande festim

Onde pudesse juntar num só o teu e o meu coração.

 

Foi por ti que sonhei e foi por ti que fiquei 

- Framboesa húngara e um mirtilho português 

ou vice versa com uma ranchada de rebentos.

Para casar contigo para o resto das nossas vidas.


Para te esquecer

 

Foi para te esquecer que sai de casa a correr

foi para não te lembrar que sai para espairecer 

cai em mim e pensei o que vai ser de mim sem ti 

voltei a casa a correr com medo de te perder.

 

Ainda lá estavas em roupão em frente do monitor 

preparei à pressa um café, mas como me esqueci 

e não aqueci as chávenas como costumas fazer

levei na bandeja para ser bebido antes de arrefecer.

 

Foi por me lembrar o quanto eu gosto de ti 

e que possa de novo sentar-me na poltrona 

foi para te recordar o quanto eu gostei de ti

é que a culpa morre casada, viúva ou solteirona.

 

Emagreci a sonhar contigo



Emagreci a sonhar contigo 

Engordei a olhar-te de longe 

Emagreci ao ver-te de perto 

Infeliz por não saber o teu nome.

 

Emagreci porque estraguei tudo 

Emagreci por me armar em esperto 

Engordei porque ao abrir demais a boca 

Porra sem querer dei cabo do resto.

 

Deixei de comer ao sentir-te tão perto 

Deixei de beber ao ver-te ao meu lado 

Deixei má sorte de o fazer por descuido 

Por um erro primário de folha de cálculo.

 

Emagreci porque esqueci o seu nome 

Será que ela se chamava Clarisse? 

Quem disse que a formiga tem catarro 

Meter-me onde nunca fui chamado.

 

Engordei porque era um esforçado comilão 

Engordei mais porque era um rapaz brincalhão 

Porque brinquei muito contigo à apanhada

Às escondidas às casinhas e à cabra-cega.

 

Emagreci por não ter pingo de vergonha na cara

Engordei à bruta porque nada me vinha à cabeça 

Emagreci porque esqueci o que queria rimar 

Por não ter um buraco onde me pudesse enfiar.


A descer as escadas


A descer as escadas deslizei a correr pelo corrimão 

A descer as escadas faltou pouco para um grande trambolhão. 

A subir as escadas tropecei e bati com o nariz nos degraus 

Dá muito trabalho subir escadas sem bater com ele no chão. 

 

A subir as escadas tive uma vertigem do pior e em grau superior 

Como se nunca tivesse visto uma moça bonita à porta do alçapão. 

Foi um trambolho trampolim da atração tramada pelo trambolhão 

O que me valeu foram os dois paus que tinha trazido do Equador. 

 

A descer as escadas esqueci-me que podia ter apanhado o avião 

Não caia nem tropeçava e bastava agarrar-me ao corrimão. 

A descer as escadas evitei a tempo a distração do tombo da nação

A subir as escadas não tropecei, mas levei um valente empurrão. 


Disserta filosofia

 

Disserta sem descanso filosofia trinta e seis horas por dia

disserta sem desconto cortesia e outros textos da ventania.

Enquanto pões a máquina de lavar roupa a trabalhar 

não te esqueças da vibração que ela sente por te amar.

 

Do ranger das dobradiças da fechadura a precisar de óleo 

E da chave que de não ser usada está cheia de ferrugem 

Se a erva está murcha a sacanice faz muito bem à pele  

à penugem sagrada no espaço vadio da vadiagem.

 

Disserta sem desconto as tuas aulas de filosofia

Disserta sem descanso, noite e dia e a bom preço 

mas não sejas cara de pau, faz-te às vezes de malandro

moleiro a vender o pão à freguesa mais madrugadora.

 

Budapeste, 2025

 

Para o livro “De mim ficam as Palavras”


quinta-feira, 20 de março de 2025

Versos da vida e outras histórias


L’amour est une mer dont la femme est la rive. Victor Hugo




Introdução

 

Querida ele esteve cá hoje? 

Sim, tu sabes que sim. Saiu há pouco.

Fizeram amor, não foi? 

Sim. Fizemos como sempre fazemos.  

 

Olhou-a nos olhos, o convite era tão forte.  

Agora é a nossa vez de crescer. Vamos para cima.

Nesses momentos era outro, transformava-se.

Parecia um potro a correr livre na planície.

 

Naquele tempo bendito de liberdade 

nada se comparava àquela introdução. 

Amaram-se feitos um só, gulosamente 

como se fosse a última vez, não houvesse amanhã.


Sentia-se no ar que nada o excitava tanto 

como imaginar a sua jovem e amada mulher

metida na cama com o seu melhor amigo. 

Era tão bom ter com quem a partilhar.


Estava à sua espera


Havia anos em que o meu amante 

fazia mil e oitocentos quilómetros.  

Conduzia à vez com o meu marido 

para matar as saudades que tinha.

 

Vinha porque sabia que seria bem recebido 

como um dos melhores amigos da família

ao jantar seria dos primeiros a ser servido

sabia que eu também estava à sua espera.

 

Quando é verdadeiro, o amor é entrega. 

Ele fazia todos aqueles quilómetros

para passar comigo duas ou três tardes  

e fazer do verão a rosa da nossa paixão. 

 

Depois despedia-se com o coração cheio.

Voltava feliz contando os dias que faltavam 

para o meu regresso nos finais de agosto. 

Para esse mundo especial que era o nosso. 


A primeira vez

 

Para continuar os estudos deixei a aldeia e fui para a cidade 

para um quarto alugado com uma prima da minha idade. 

Vivia pertinho do liceu e de uns velhos amigos dos meus pais 

de quem, em toda a minha meninice, apenas ouvi dizer bem

do prestígio, ele advogado e ela médica, um exemplo a seguir.

 

As poucas vezes que os vi guardei a imagem de um casal perfeito

de um casal muito bonito e alegre, de gente culta e simples. 

Como criança pensei "quando for grande quero ser como eles".

 

Várias vezes me convidaram para lanchar na sua casa

e depois para ir estudar e fazer os trabalhos de casa 

porque lá estava mais sossegada e concentrada. 

Estudava primeiro na cozinha e depois na biblioteca.  

 

Foi ali que os meus jovens pensamentos voaram, sentia-me atraída

pelos seus cabelos grisalhos, o sorriso aberto, a sua voz melodiosa. 

O sentimento crescia em mim, em demasia para a tenra idade

e na minha imaginação via que os meus sonhos pareciam realidade.

 

Estava escrito, as coisas aconteceram como tinham de acontecer.

No divã, entre livros, deixei de ser menina e tornei-me uma mulher. 

Apesar dos seus remorsos, ali ou no meu quarto continuamos a fazer.

Foi com ele e as nossas tardes que depois da dor descobri o prazer.

 

Por falta de cuidado como quase sempre acontece, fomos apanhados.

O escândalo nunca visto foi abafado, ficou em família. 

Para evitar males maiores tive de mudar de terra, mudei de país.


Esconder os olhos


Nos primeiros meses da minha emigração o meu trabalho 

foi tomar conta de uma menina pequenina enquanto os pais 

trabalhavam, saíam ou estavam em casa, mas sem tempo 

para se ocuparem com a filha. Eram os dois arquitectos 

e viviam numa das melhores zonas dos subúrbios da capital.

 

Era uma miúda acabada de chegar, sem maldade nenhuma

mas cheia de vontade de me integrar e aprender depressa 

a ser moderna, eu que vinha de uma terra tão pequena 

tão atrasada em relação àquela cidade tão cosmopolita.

 

Sentia-me deslocada e insegura, mas nunca tive jeito 

para baixar a cabeça, esconder os olhos e talvez por isso 

o senhor arquitecto aos poucos começou a olhar-me 

e de forma sorrateira os olhos foram conversando.

 

O meu quarto era no rés do chão ao lado da sala do duche

e numa manhã enganou-se na porta e entrou no meu quarto.

Fechou-a atrás de si, pôs o dedo na boca e sorriu-me cúmplice 

como quem diz, não fales, não faço mal, não tenhas medo.

 

Aproximou-se da minha cama e abraçou-me 

suavemente começou a acariciar-me o cabelo

a beijar-me a boca, a descer as mãos pela minha pele.

Tirou-me o pijama, fiquei nua e totalmente indefesa.

 

Estava toda arrepiada, gostava, mas tinha medo 

do que estava a acontecer. Ele olhou-me nos olhos 

e como se fosse a coisa mais natural do mundo

entrou em mim. Eu recebi-o com um gemido contido.

 

Foi assim durante bastante tempo, eram muitas as manhãs

que descalço vinha tomar o duche ao meu quarto.

A esta distância estou convencida que a esposa sabia  

e o incentivava a continuar, talvez desejasse participar 

mas não deram esse passo, não me quiseram assustar. 


À boleia


Estava à experiência a trabalhar num café da periferia.

Era domingo e por um nadinha perdi o autocarro

e pelo próximo tinha de esperar mais de uma hora e pensei

que o melhor seria pôr-me à boleia, talvez tivesse sorte. 

 

Passado um tempo parou um carro, um senhor simpático   

e sorridente perguntou para onde é que eu queria ir.

Disse que me levava, mas antes tinha de parar numa casa

que estava a renovar, não me preocupasse, chegava a tempo.

 

Não me quero fazer de coitadinha ou para mim tanto faz 

mas a verdade é que acabamos com ele em cima de mim 

numa sala vazia apenas com as paredes e janelas acabadas  

com as nossas roupas amarrotadas a servirem de tapete.

 

Depois mais limpos e arranjados levou-me ao trabalho

e quando acabei o meu turno ele estava à minha espera.

Nos dias, meses seguintes continuamos a encontrar-nos

e a levar-me a locais onde nunca imaginei um dia estar.

 

Ele era um homem charmoso com amigos importantes

e como pude observar com hábitos muito surpreendentes

havia muita liberdade, não se importavam quem estivesse a ver.

Clubes muito reservados onde o sexo estava sempre presente. 

 

Ilusão e deslumbramento podia ter caído fundo no poço 

mas foi ele que depois de me mostrar como seu novo troféu

me protegeu, não me deixou ficar sem pé nem afundar.

Estou-lhe grata, mas ainda hoje penso que fui abusada por ele. 

Os versos e reversos da vida e outras histórias que ficam por contar.