Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta
continuarei a escrever. Clarice Lispector
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta
continuarei a escrever. Clarice Lispector
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Les yeux cherchant le ciel mais le cœur mis en terre
Meu bicho-da-seda, minha lagarta da amoreira
que se faz a mais bela das borboletas
e em ti representa a vida, o fim e o renascimento
o feio feito feitiço da beleza ou precisamente o contrário.
Da vida ontem da vida sempre, vida nunca e vida eterna
no baixo-relevo do teu copo abaixo e acima em tudo
na vertical, na horizontal e nas escadinhas do bairro
ou no tapete voador, de paraquedas para-quedistas
- Borlistas e carteiristas, vigaristas e feiticeiras...
Na autoestrada da chuva
nas curvas e contracurvas do vento
no cruzamento tardio da noite
na acalmia da tempestade
na estação para recomeço do novo dia
no apreço comovente na praça do nosso reencontro.
Nunca é tarde para tentar como se fosse a primeira vez
Nunca é tarde para voltar a errar se é a mando do
coração
Nunca é tarde para voltar ao local onde tudo começou
Nunca é tarde para chorar o passado e soluçar o futuro.
Para deixar o coração em terra e apanhar o avião
Levar consigo os olhos, o olhar do mundo nos teus
olhos
Cantar o passado e agradecer o futuro - a minha gratidão.
Do princípio ao fim do mundo
do século perdido, a algazarra
não abrandava e o apara-lápis
não parava de ser emprestado
por vezes trocado por um beijo.
Cães e as gatas já estavam habituados à confusão
a alfazema e o alecrim não espantavam ninguém
nem o alfarrabista da esquina que não vendia
não se desfazia de nenhum dos seus melhores livros
- que faria se não os tivesse à mão para os desfolhar.
Os bailes do bairro acabaram et les lilas sont morts
os sindicatos perderam o pio e os trabalhadores
amoucharam
sentados no chão de pernas cruzadas à espera do
milagre
mas temos os jovens como ontem hoje também não se
calam
- é do futuro deles que escrevia e cantava o arménio
Aznavour.
Em Montmartre de Paris do antigamente
eram pobres, ele passava fome e ela posava nua
sentia-se em tudo a liberdade, decadência e liberdade
que bem precioso é viver democracia num país livre
sem perseguição - num país do decadente ocidente.
"La chair des femmes se nourrit de caresses comme
l'abeille de fleurs."
Anatole France
Aquarela e a tinta dos seus olhos
a doce conspiração das suas coxas
com a flanela nocturna dos seus braços
e a água morna dos seus lábios
Quando os beijo para saciar a sede.
Cortiço mel das flores da sua serra
com a cobiça do fascínio maior
da planície lunar do seu olhar
com a cotovia ou confraria do amor
Para não me esquecer e te esperar.
Cadeira onde tanta coisa boa ficou por fazer.
Bagageira onde ainda hoje a quero guardar.
Com uma cerveja à frente dizia
- Se é pecado se de vez em quando
me descuidar e beber um pouco a mais
que mau seria nunca ter sido moço.
Se me distrair a olhar aquela ilha vistosa
ao lado sentada e pensar noutros tempos
dar asas de avioneta à imaginação
é não temer a régua de castigo e educação.
Se é pecado cuidar e regar essa rosa
para lhe dar cor e não a deixar murchar
como é deixar-se envolver pelo seu perfume
com ela se perder e em silêncio florescer.
Dizia Pedro Homem de Mello e Amália
tão bem cantava quando iam a Viana
- Os pecados têm vinte anos
e os remorsos têm oitenta -
O pecado (i)mortal mora na guloseima
e cresce no gosto e na certeza
do bem que faz pelo melhor que sabe.
E pelas vidas que nos
traz de volta.
Prefácio
Na manhã desse dia lavei-me e vesti-me
arranjei-me, tratei da pele com mais cuidado
valia a pena, sabia bem por que o fazia.
Talvez tenha deixado a pele sem defesa nenhuma
mas sabia que a tua pele na minha a iria proteger.
Sabia que não seriam os teus beijos ardentes
os teus dedos e os lábios que a iriam maltratar.
Na manhã desse dia saí de cedo de casa
o coração estremecia e quase me saia do peito
estava ansiosa, sentia muito impaciência.
A única certeza que tenho é que vacilava de receio
se seria um sorriso, um abraço, um beijo forçado.
Felizmente perto de ti sempre perdia o medo
e vi abrir-se o céu, vivi a paixão do nosso amor.
Posfácio
Desatentos não se deram conta
que o seu tempo passou
e se foi para não mais voltar.
A pele parece que secou
e fez-se um deserto sem oásis
sem fonte nem areia molhada.
O coração a lenha dos corações
esse continua a arder feito fogo
até se fazer cinza e depois vento.
Recordar a terra húmida da margem do rio.
Mundo que já não é o nosso e depois nada.
Para António Rosas
Esta noite a minha intenção é fazer um breve relance pelo
erotismo
e algumas liberdades da classe operária e dos seus
representantes
no Portugal da primavera marcelista antes do 25 de Abril
libertador.
- Aquele é o padrinho, não é o afilhado famoso dos
selfies
que foi primeiro comentador referência da televisão
e depois S.E. O Presidente da República Portuguesa…
Era o magusto e jeropiga de São Martinho na fábrica de
fiação
e houve quem tenha se acelerado mais do que devia
ultrapassou a barreira do pudor e alguma timidez recalcada.
Depois do almoço voltou-se ao trabalho, mas uma das
operárias
no corredor menos iluminado fez-lhe uma espera
inesperada
- Não gostas? É tudo para ti! Bata no chão blusa aberta sem
soutien.
- Porque se acabava duas três vezes por semana pedia-me fio
eu fazia-lhe sinal para subir ao terceiro andar à sala dos
rolos
onde nos enrolávamos ouvindo as máquinas a trabalhar.
Era ali para os lados do Martim Moniz quando as
fábricas
ainda funcionavam em pleno centro da cidade
- O prazer operário e não apenas ser explorado pelo patrão.
Tenho andado de volta revendo Almada Negreiros
com o Manifesto Anti-Dantas, 1915, e a Taca de chá*.
Recordando: As Banhistas, 1925, A Sesta, 1939,
O Retrato de Fernando Pessoa, 1954 ou o meu favorito
Art Déco, Estudo para uma Decoração de Teatro,1929.
*”Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar
por entre os bambús,
e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um
leque de marfim.”
Preâmbulo: Se Almada visse a pose e a roupa colada ao
corpo
- Uma segunda pele da jovem mulher por baixo da gabardine -
esta tarde na paragem do eléctrico... eu fiquei com a
sensação
que teria escrito rápido e certeiro, dizendo em voz
alta:
Eléctricos do mundo libertem-se! Sejam uns fora de
caixa
saltem dos carris, não aceitem a escravidão fixa dos
horários.
Parem, façam greve para que aprendam, chega de brincadeiras.
Com os condutores dos eléctricos não se brinca nem a
brincar.
Assim tinha tempo podia observar mais uns minutos
sem a ver desaparecer ou ter de se apressar, entrar a
correr
para a continuar a ter aquela visão mais algumas
paragens.
Não estava sozinho naquela observação de admiração.
Segundo preâmbulo: descobri Almada na minha adolescência.
O nosso primeiro encontro foi com o Manifesto
Anti-Dantas
declamado por Mário Viegas. Se fosse hoje, 110 anos
depois
estou convencido que o título seria: Manifesto
Anti-Ventura.
Ultimamente tenho jogado com a ideia-provocação de pensar
- Qual seria a sensata-opinião do wokismo sobre Almada?
Será que seria queimado na fogueira da inquisição wokista?
As pestanas postiças, falsas eram mais compridas
que a mais curta das pontes sueco-dinamarquesas
distante da Groenlândia que Trump tramposo quer dominar.
Os lábios carnudos, espalhafato a mais de tão inchados
quase caiam da boca e deixavam os dentes à mostra.
Os seios tão esticados nem quatro mãos chegariam
para os cobrir e esconder e proteger do mau olhado
que do silicone já não havia nada a fazer.
Não teria mais de 20 anos e antes de se industrializar
em plástico e afins deve ter sido uma miúda jeitosa
agora está feito um armazém de plástico. Feita um plástico.
Uma carroçaria que não precisa de bate-chapas
Mecânico de amortecedores e assentos para assentar o dito.
Não há tempo para recriar a história sacana da palha
seca
se faz um bom colchão porque se tem de limpar a palha
que tem no rabo, rabo de palha na ponta da navalha.
O primo californiano veio à Hungria visitar a família.
É uma jóia de pessoa
e apesar de ali ter nascido há quase 70 anos e nunca aqui
ter vivido
sente-se húngaro e não esqueceu o idioma que aprendeu com os
pais.
Foi o primeiro, o idioma que se falava em casa, o
inglês aprendeu na rua
com as outras crianças e na escola, onde no
início sentiu algumas dificuldades.
O pai, Andor, órfão criado pelos tios, a convite de um
famoso professor húngaro
de quem era discípulo, em 1939 com 32 anos foi para os
Estados Unidos.
A mãe, Margit foi em 1950, depois de ter passado 5
anos num campo de refugiados
Na Áustria. Falava 8 idiomas e era a tradutora. Tinha vinda
da Jugoslávia
de uma região habitada sobretudo por húngaros e alemães,
perto da fronteira
da cidade universitária de Szeged, a Coimbra da Hungria,
cidade onde nasceu.
O pai era um abastado industrial têxtil, húngaro, mas com
nome alemão.
Com o aproximar do fim da guerra, o avanço dos
partisans de Tito
e do Exército Vermelho, tiveram de fugir, deixando tudo
para trás.
O pai era há muito um entusiasta, grande colecionador de
selos
selos que durante aqueles anos austríacos os ajudaram a
sobreviver.
Na América os húngaros casadoiros eram informados
quando chegava um barco da Europa com jovens húngaras.
Foi assim que Margit e Andor se conheceram e se
casaram
namorando entre Pasadena, Los Angeles e S. Francisco.
Após várias tentativas, nasceu Tibor e o médico disse
- Este bebé precisa da sua mãe, não tente nem mais uma
vez.
Esteve cá este fim-de-semana e é sempre muito bom estar com
ele.
Comove ver como se emociona a falar dos pais, das suas
raízes húngaras.
Está do outro lado do Atlântico e pensa como nós sobre
o mundo
sobre a América de hoje. Estivemos a ouvi-lo com
atenção
a aprender, por isso é primo californiano e não primo
americano.
Neste momento já está na Índia, vai até aos Himalaias.
A última vez que passou por Budapeste
ofereci-lhe um cachecol do Sporting
comprado quando do jogo com o Estoril (5-1).
Com ele enviou uma fotografia do
Kilimanjaro.
Continuação de boa viagem Tibor!
Confissão de quem está mais para lá do que para cá:
Quando acabar, acabou-se, até lá vou escrevendo, respirando
acaba-se mais cedo se não respirar, se
não escrever.
Com as mãos da poesia estou a construir a minha nova
casa.
A casa: "De mim ficam as Palavras" com
- Palavras avulso e a granel
- Palavras do eléctrico ou Eléctrico das Palavras
e com os jardins, hortas e árvores de fruto de outros textos
à volta.
Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas.
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Se eu posso fazer um pequeno pedido
por favor com esse ar desengonçado
mostra mais um pouco da tua barriga
senta-te como vieste despreocupada
com os pratos e o sorriso na bandeja.
O código da pulseira encriptado no olhar
o telemóvel na mão e ao pescoço o cartão
a roçar na blusa da roca da rocha da praia
formação continental de pedra volumosa
com o fio de algodão enrolado à tentação.
Passagens virtuais e realidades paralelas
ou outra coisa qualquer, os meus olhos
estavam como lapas coladas ao umbigo
agarradas em pensamentos de fome
a esse pedacinho menú da tua pele.
Menú semanal do prato com mais saída
de quem ao sol já passou boas horas
dizem o sol quando nasce é para todos
e da luz o meu almoço sabe-me melhor.
Assim começava o meu texto de hoje…
No estádio onde decorria o jogo
não estava sozinho em campo.
Dava nas vistas e destacava-se
fosse das bancadas ou no relvado.
Pela qualidade do seu bom jogo
na arte via-se estar noutro patamar.
Excelente e adulto toque de bola
era também o mais expansivo.
Treinava apenas quando podia
mas quando o fazia era com tudo.
Chegou ao preferido da multidão.
Assim se fez um grande campeão.
Fora de mim e fora de nós
a coisa por aqui já esteve melhor
mas também já esteve muito pior.
Os camaradas continuam o projecto
do esplendor de humanismo libertador
Mentiroso sou eu e não minto tanto.
Do lado de lá do oceano
a casa é branca de nome
na verdade, é casa do louco.
Louco que se não parar
não vai deixar pedra sobre pedra
e é capaz de acabar com o mundo.
Senhoras e senhores
mesmo que nada mude
não são tempos de ficar calado.
Na pele da dúvida pôs-se a pensar
a matutar antes de vestir o pijama
- Será que tenho alma de galinha
vida de pato, nervos de serpente
cabeça de porco e espinha de peixe?
No iPhone quero escrever século
e por me ter esquecido do acento
sem mais sugere-me sex ou sexo.
Devo ser o culpado, deve imaginar
que não passo de um velho tarado.
No final é tudo uma questão
de encostar a barriga ao balcão
quem está autorizado pelo regime
a pôr as mãos todas no tacho
e refrescar os pés na bacia de zinco.
Descascar favas e ervilhas
Partir nozes e amêndoas
Lavar e limpar pratos.
Encher e despejar copos
Mover mundos e fundos
Correr listas e pistas.
Preparar o almoço de pargo
Acender o fogão a lenha
E no fim deixar de ser parvo.
A poesia de hoje apenas faz sentido
se for dirigida à entrega e à conquista
escrita para ser lida e depois esquecida.
Dizia com um sorriso sábio e maroto.
Seguindo as orientações do seu professor
que tão bem sabia como formar e formatar
guia espiritual na grande avenida da vida
a irradiação solar compensava-se em géneros.
Para o dia de festa acabar em beleza
pedia um sabonete, um pente e chinelos
fazia seguro dos pedidos serem atendidos
que a devoção tudo faria para os satisfazer.
Tempos de ser protegido das más notícias
como quando não aceitou a oferta das danças.
Da aventura que em segredo tinha começado
com outro em tarde de primavera no outono.
A poesia de ontem era escrita em pergaminho.
Hoje está escrita no rosto, escrita no teu corpo.
Ser livre é não ter de se rebaixar
de beijar, lavar e secar os seus pés
porque tem o hábito de não ser barato
permitir-se só pelo seu costume de mandar.
Ter a liberdade de as pilhas recargar
com modernos carregadores e marchar
porque quer e porque pensa na família
voltar a casa a tempo de fazer o jantar.
Saber que os tempos de Platão
foram, mas há muito que já não são
não estar para perder o seu tempo
Se fosse eu também não estaria.
Entrou a despachar e nem se sentou
ao balcão pediu um copo de vinho branco
pão caseiro azeitonas e queijo francês.
Toca a andar que se fazia tarde para chegar.
A sua história merece ser contada.
Nasceu num dia de abençoado
num mês com futuro e com passado.
Cresceu entre a serra e o mar
rios e paisagens de deslumbrar
socializou-se com outro tipo de vida.
Fizesse o que fizesse tudo lhe saía bem.
Por vezes parecia que abusava da sorte
que deus lhe destinou para o seu caminho.
Em tempos recentes de fios, teias e malhas
escrevia muito bem, tinha o seu público
e um mestre que lia, apoiava e corrigia.
Um dia de inverno, para pena de muitos
decidiu abandonar a escrita, deixar de escrever
porque o mestre leitor deixou de aparecer.
Sobressaía pelo corte de cabelo
muito à frente do seu tempo.
Pelo olhar e sorriso encantador
na praça não havia outro.
Sobressaía pela sua silhueta
pela sua roupa apertada
assentava que nem uma luva
parecia toda ela feita à medida.
Mostrava-se, mas com moderação
e não esticava a corda da ousadia.
Sem se assumir caudal fácil ou vulgar
era para muitos o rio da imaginação.
Era exímia jogadora de xadrez
conseguia combinar para vencer
uma apaixonada por simultâneas.
Jogadora em vários tabuleiros.
Estava com ele mas alternava
como livre sempre fez na vida.
Ganhou-lhe por isso o gosto
e já não queria outra conversa.
Com tanto estilo e presença
de muito competir e praticar
devia ser ela monitora a ensinar
e não ter um treinador para aturar.
É assim que tu me vês
será assim que eu sou
ou será assim que tu és?
Em "Palavras avulso e a granel"
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Diz Rita, minha amada
na nossa Terra Santa
porque é o mundo
connosco tão injusto
tão duro com o nosso Amor?
Não somos Romeu nem Julieta
Páris e Helena, Tristão e Isolda
- nem a triste tristeza do isolamento.
Não somos Lara e Jivago na Rússia
nem Ilse ou Rick em Casablanca.
Somos tão só Tamar e Mahmoud
uma judia e um palestino sem nome.
Dois jovens que se conheceram
se apaixonaram irremediavelmente
e se deram perdidamente um ao outro.
Porque não podemos nós fazer
das pedras e do pó dos caminhos
campos de oliveiras, pomares de laranjeiras
e do barro construir e erguer a nossa casa
cuidar do nosso jardim e da nossa horta?
Minha israelita de mel insubmissa
que o nosso Amor nunca acabe
e eu possa viver contigo a vida inteira
criar filhos e depois ver os netos crescer.
Rita não te esqueças - o sonho nunca morre!
Tamara, doce doçura como a vitória impossível
a renúncia anunciada e a conquista temporária
eterna só no sonho mais improvável e mais
ingénuo.
- Castanha de caju e amêndoas recheadas para
despistar.
Para disfarçar a dor da melancolia triste
a tristeza que inunda e sufoca a alma
a hospedaria da monotonia mais ausente.
- Dizer adeus à inocência perdida.
Abram os olhos e olhem ao vosso redor
não é a abundância do leite, mel e frutos
a terra prometida por deus que vos espera.
- É tempo de acordar de vez minha flor.
"Entre a Rita e os meus olhos, uma espingarda"
Ele o Poeta, voz da resistência palestina, destacado
militante da OLP.
Ela alistou-se nas forças armadas de Israel, depois membro
da Mossad.
O abismo entre os dois jovens amantes não parou de
crescer.
O seu Amor não conseguiu sobreviver à realidade das suas
vidas.
Um dia os seus olhos afastaram-se e não se voltaram a ver.
Hostil a nossa cidade não nos recebeu de volta
e nos subúrbios não encontramos onde pernoitar
onde pudéssemos festejar-nos pela última
vez.
Eu poder dizer adeus aos teus olhos de mel
ao teu corpo e à tua alma de minha gata felina.
Ali não havia mais do que apatia.
O silêncio pesado da casa vazia
tinha tomado o sofá-cama da alegria
ignorando a pureza do nosso amor.
Custa escrever, mas nem a nossa buganvília
esperou por nós e secou antes da nossa melodia.
"Ah Rita! O que terá afastado os meus olhos dos teus."
Quand tu prépares ton petit-déjeuner, pense aux
autres.
(N'oublie
pas le grain aux colombes.)
Quand tu mènes tes guerres, pense aux autres.
(N'oublie pas ceux qui réclament la paix.)
Pensava no tempo ainda tão morno e tão cálido.
Vestia-se das minhas palavras e dos meus beijos
corria o fecho da saia comprida de linho.
Escondia os seus olhos de melaço profundo
por detrás das negras pestanas da noite.
Os lábios pintados com o seu sorriso agridoce
Entrevia um amanhã que era definitivo
um passado sem nós para não recordar.
Sem o nosso amor, sem a nossa alegria.
Sem nenhuma das nossas promessas.
Valeria a pena recomeçar a viver
tentar recriar o nosso mundo sonhado
feito de dedos lisos e de mãos abertas
de braços meigos e abraços apertados.
Feitos da nossa biografia perdida.
Quand tu comptes les étoiles pour dormir, pense aux autres.
(Certains n'ont pas le loisir de rêver.)
"Pense aux autres". Traduit de l’arabe (Palestine)
par Elias Sanbar
Descobri a poesia de Mahmoud Darwich
- sobretudo a poesia militante e de combate -
através de traduções para francês
nos fins dos anos oitenta do século passado.
Mais tarde com o filme-documentário
Write down,
I am an arab (2014)
conheci a vida do poeta e a história de amor
com a jovem judia Rita (Tamar Ben-Ami).
Este filme comoveu-me por acreditar
que o amor e a paz, a ilusão das palavras
podem ser mais fortes do que a guerra.
Essa comoção aumentou com a nossa visita
de sete dias a Israel, Palestina, Terra Santa.
Durante esses dias fiquei a saber que a paz
e o entendimento ali nunca serão alcançados
não haja ilusões. Não tenhamos ilusões.
Não quero nem podia morrer sem deixar escrito
sem duas ou três pinceladas do que senti e sinto.
Amor e paz - Ilusão das palavras
Budapeste, 28-30 de março
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta
continuarei a escrever. Clarice Lispector
Um cálice de aguardente para te trazer de volta
para me ajudar a guardar-te nos meus braços
para haver lenha quando as noites frias acabarem
e da distância as manhãs fechadas abrirem os olhos.
Recordar-te como te escondias feminina
como se no prédio fosses a nova inquilina
- Como quem corajosa subias ousada a colina.
Recordar-te como desaparecias na neblina
e os teus olhos de gata eram a lamparina
- Feita luz aparecias nua por detrás da cortina.
Um cálice de aguardente para te trazer de volta
tu que dizias que eu era o sal e a tua gasolina
para me ajudar a guardar-te nos meus braços
resina do meu pinhal sabor da doçura mais fina.
Por um prato de lentilhas
vende o pai e vende a mãe
vende o avô e vende a avó.
Vende o cão e vende o sapo.
Por um prato de lentilhas
vende os cornos e a alma
vende a ilusão da mentira
vende a própria mulher.
Hipoteca a vida da filha
prometida e pré-vendida
ainda antes de nascer
ainda antes de a fazer.
Aqui é um hábito muito antigo
que por significar abundância
é comum no primeiro dia do ano
comer-se um prato de lentilhas.
Abre os olhos carroça que a mula vai apressada
e para lá chegar eu tenho tempo de sobra.
Não tanto como Gaudi, o arquitecto de Barcelona
mas tempo suficiente para parar e para almoçar
com todos os vagares que a pança merece.
A conversa é sempre a mesma sempre condimentada
a puxar para o meio, abaixo do peito acima do ventre
se não falta nada para dar ao dente e sentar à mesa.
Se local novo olhar à volta ver que comem os outros
pedir para começar meia garrafa, um copo de vinho
tinto
um café e um digestivo para ajudar a digestão.
Para ajudar a constatar que as nossas barrigas
são o melhor estímulo para a satisfação ou
insatisfação
dos homens e das mulheres de ontem de hoje de sempre.
Por ser um bom exemplo disso não me vou esconder.
Uma taça de gelado italiano para gente gulosa
com bom gosto porque não há gelado melhor.
Uma taça de champanhe francês para gente boa
com paladar desenvolvido e dinheiro para gastar.
Uma taça de salada de fruta para amigos da horta
que trocam um doce de ovos pela natureza-viva
que sabem da importância da saúde e da comida.
Sabem se agora se cuidam, amanhã tem mais vida.
Sabem do grande irmão e outros filhos da puta
as rascas teorias da conspiração teórica e prática
do regresso sufocante orwelliano da mão-morta.
Mão a menos maçaneta vai bater a outra porta.
Uma caneca de cerveja alemã com salsichas
as linguiças de Nuremberg com couves roxas
e repetir a caneca, há coisas piores na vida.
Nem falar do incansável pedinte em mim
a pedinchar e a juntar bases de cerveja.
Lembras-te do sítio da primeira cerveja que bebeste comigo?
Não era bebida que estivesses habituada, valeu-me com
cerejas
da simpatia com que nos atendiam, como se metiam contigo.
Tínhamos vindo de uma festa para continuamos a
celebração.
As voltas que o mundo deu, as canecas que eu já bebi.
Como poderei eu esquecer os seus brincos fantasia
cerejas ou ginjas aos pares a caírem sobre os ombros
a realçar o seu pescoço alto que convidava a beijar.
2024 – 2025…
Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas.
Fernando Pessoa (Ricardo Reis)
(Para continuar)
As últimas semanas serviram para se soltar
libertar-se da teia onde se tinha deixado enfiar.
Estava na varanda a fumar um cigarro e a pensar
não tinha de estar a olhar para o sentido das
palavras
para as segundas leituras das metáforas mais rudes
para as afirmações que pudessem cair mal ou magoar.
Pensar devia ser uma grande tontice, escrevê-lo ainda
mais
mas pela primeira vez na vida sentia-se nada discípulo
quer dizer não ter de estar a olhar para os efeitos
colaterais
das suas ideias, das suas dúvidas e das suas palavras.
Palavras escritas em papel, no telemóvel ou no computador.
Palavras, dúvidas ou distâncias que no final podem parar no lixo.
A imaginação tem coutos que não chegam
nem aos tornozelos maltratados do irmão.
- Com os ventos do contra clero tão fortes
quando coitados os bispos já não pensavam
no coito, no repolho repolhinho por comer.
Não podiam acoitar-se por dá aquela palha
com a freira mais tenrinha do convento
para isso até servia a macia do palheiro
não fosse o diabo tecê-las, acabar no degredo.
Como é costume o mundo mudou para pior
com essa gentalha logo a pensar que é gente.
Põem-se a inventar e a agitar os agitadores
de coutadas e das noitadas mal dormidas.
Esquecem-se que não faziam mais que andar
em grupo à procura dos ninhos de gambozinos.
Coito ou couto tão diferentes como o dia da noite
se não houver noites brancas e roxas madrugadas.
Para passar no exame de língua
pago a peso de ouro, de rara platina
andou semanas a estudar e praticar
o condicional do verbo bem fazer
ou fazer com muito prazer.
Passou com nota máxima e distinção
com uma resposta que até o professor
considerou ser um exemplo a seguir.
Sabia que se tivesses os olhos abertos
e olhasses para mim irias guardar na memória
o momento em que os meus lábios se fecharam.
Mais tarde quando visses uma fotografia desse dia
irias-te lembrar e também pensarias que ninguém
a não ser nós sabia o que a minha boca fazia.
Talvez soubesse,
mas parece que não sabia
que não devia arriscar
não devia dar um passo
maior do que a perna.
Mas queria tanto
dar um salto à canguru
que o máximo que conseguiu
foi dar um salto de caranguejo.
Para sua grande tristeza
nunca mais se voltaram a encontrar.
Meu Amor estou no aeroporto, acabei de chegar
não te disse nada porque quis fazer uma surpresa.
Sabia muito bem que não podia faltar, estar longe
estar ausente neste momento tão especial para ti.
Manda-me a morada para eu dizer ao taxista.
Acordou. Tinha adormecido no avião e teve pena
de acordar, do sonho não continuar, não se
realizar.
No dia seguinte acalentou a derradeira esperança
que na cidade da paixão o sonho fosse a
realidade.
Conclusão de quem anda há muitos anos por
aqui
e vê o que muitos outros não veem ou não querem ver.
- Não há cego maior do que aquele que o amor não deixa
ver
cego pela cegueira irracional e profunda da ilusão intelectual.
Estava a refazer o seu jogo de cintura
para de vez lhe chamar a atenção
e aos poucos ia perdendo a compostura
com ofertas de vida e asas de paixão.
Estava a rebentar pelas costuras
Com as costas e o resto à mostra
Com as coxas abertas à lua nova
prontas para encurtar as lonjuras.
Com ela e com os mistérios do amor
aconteceu esse encantamento único
cada vez que a via mais linda a achava
mais fascinante que no encontro anterior.
Para lá de todos os êxitos e alegrias
de fora e de longe não se via
o que sentia no mais fundo de si.
Mas um dia depois de muito caminhar
bastou um olhar para de vez mudar
a alma intacta do seu coração mais puro
que se fez maior para sonhar e descansar.
Como se fosse uma história de encantar
para à noite ser vivida e bem contada
encontrou quem sempre procurou
porque não perdeu a esperança que existia.
Por estar há muito tempo à sua espera
nem que fosse apenas para um toque de dedos
Um encontro, um dia que valesse a vida inteira.
Era o tempo das cigarras e das cerejas
tempo das bocas se colarem uma à outra
com a cola do néctar em flor das cerejeiras.
- As bocas se colarem sedentas e esfomeadas.
Tempo de deixar as línguas dançarem
ao som da música sensual dos desejos.
Tempo dos lábios amantes se degustarem
ao som da música doce do prazer e do licor.
O canto cigarra sedutor do acasalamento
com os lábios sedosos e o sabor do beijo
e com as almas abraçadas ao sentimento.
- O fascínio de tudo o que é o nosso amor.
Como novidade e prova de amor dizia
que devido ao seu gradual afastamento
após troca de mensagens tinham estado
à conversa ao telefone bastante tempo.
Conversa que entrou pela noite dentro.
Que teve na ponta da língua a vontade
de lhe falar do seu novo romance
mas que lhe tinha faltado a coragem
e ainda tinha pena de terem acabado.
- Queria guardar algo desse passado.
Tinha pensado em mudar de vida
ficar apenas com um novelo de fio
mas com este balde de água fria
ora toma, lá se foram os remorsos
pelo muito de errado que fazia.
Com ousadia e bom gosto não se importava de se mostrar
de exibicionista exibir-se e realçando o melhor que
tinha.
Com olhos de leigo digo, via-se que era muito e do melhor.
Segundo os livros não devia ser nenhuma Teresa de
Calcutá.
Por vezes surpreendia e excitava pela sua transparência
em sentido próprio e figurado, pela sua autenticidade.
Era tão natural e tão apelativa dos sentidos que os homens
a seguiam como se fossem abelhas de volta do mel mais doce.
As amigas gostariam de ser como ela, tinham-lhe
inveja.
Também eu teria muita dor de cotovelo se fosse sua amiga.
- Que bom seria ser seu amigo e conhecê-la mais de perto
para sem desafinar poder-lhe cantar a cancão do bandido.
2024… 2025….
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta
continuarei a escrever. Clarice Lispector
(vão continuar)
Estavam sentados no eléctrico e de forma discreta
tocavam e trocavam de joelhos, de mãos e respiração
tão discretamente que tinha de estar atento.
Não me fazer notado e observar com atenção para captar
apreender toda a íntima magia daqueles momentos
um local público sem grandes pressas, em movimento.
De janelas escancaradas trocavam de olhos e sorrisos
despiam e vestiam a alma a rebentar de felicidade
não escondiam, mostravam tudo o que lhes ia no coração.
Tive pena que saíram antes de mim e não os pude seguir
ver como caminhavam, abraçados ou de mãos dadas
beijando-se junto ao castanheiro bravo
com tempo e com vagar ou correndo
para casa dele ou dela sem tempo de esperar.
No dia de hoje o tempo já fez muitas caras
mas nenhuma é a tua, o teu rosto e o teu sorriso
o rosto lindo que Deus te deu e a vida aperfeiçoou.
Assim começava a carta que tinha encontrado no chão
tinha apanhado o envelope e aberto sem ter autorização.
Li atento e fiquei a saber da intensidade dessa paixão
Pensei que aquela carta perdida podia ter sido escrita
por qualquer um de nós, qualquer um que sente
qualquer um que sonha, qualquer um que ama e é amado.
Será que hoje ainda se escrevem cartas de amor?
Será que não passa de conversa de idoso cansado?
- Todas as vidas se escreveram cartas e mensagens
poemas e metáforas de ternura e encantamento.
São tempos de dar ao chinelo
sem isso não temos sopa
e algum conduto na mesa
ouvia dizer à minha avó, à tia Olinda
já lá vão sessenta anos.
E agora? Está melhor, mas não para todos.
Vivemos tempos de dar ao tamanco
à sandália de cortiça, andar à chinelada.
Sapato novo e chinelo velho
sapato lindo e chinelo feio
rimar apenas para desconversar.
e dar ao pedal enquanto há força.
Pasteleira para pastar, para andar devagar
a pisar ovos, a pastelar, a fazer tempo
a fazer que faz, a correr para quê?
Pôr tudo em pratos limpos na pastelaria.
Acabar por dormir sentado e de pé
a dormir deitado, inquieto de olho aberto
deitado com um verdadeiro tesouro ao lado.
E é eléctrico, imagine-se se fosse a combustão
muito fogo iria acender, apagar e de novo atiçar
incendiar o restolho, fazer arder e repetir a dose.
Diz-se que foram metros e metros de coisa dentro
e nunca declinou mais um uma boleia, uma viagem.
Hoje como ontem, como depois de amanhã
não se deve meter o bedelho onde não se é chamado.
Confundir alhos com bugalhos e sarilhos com saralhos
carvalhos e churrascos na churrasqueira de sempre.
Corno, mas manso, dos mansos com classe e filantropia
- Um coração do tamanho do mundo à venda na mercearia.
Nesta casa não há nada que se coma?
Ou que se possa beber
para enganar o estômago?
Ajudar a despertar?
Não é preciso olhar muito para ver
uma bicicleta parada no meio da sala.
Estar aqui a entreter, a pedalar
para não perder o equilíbrio
para não tombar.
Com um olho no burro
e outro na barriga à mostra
e de repente acabar por cair
com pontaria em cima dela.
Dizia: a bicicleta que ele usava era eu.
Tângera é uma laranja mais pequena
e ancora é uma tangerina maior
explicava com ar de quem sabe
por ter laranjeiras no pomar da família.
Ir à loja do bairro ou ao supermercado
era como encontrar-se com o amante
com grande arcaboiço e grande espingarda.
- Com ele sexo era mesmo para recordar.
Criticado por ter mais olhos que barriga
porque cada gaveta tinha fruta diferente
e na frutaria as prateleiras estavam vazias.
Era o caso de a procura ser maior que a oferta.
Marroquina clementina ou laranja de sangue
a doce acidez do prazer pago a prestações
de rendas pretas rendinhas vermelhas fetiche.
Com a utilização da melhor das tradições.
Não é o pão nosso de cada dia
nem dia ou noite de cada pão.
Acredita, se fores optimista
o café sabe-te muito melhor.
A blusa fica mais cremosa e mais pão
se não usar detergente, mas sabão.
Os montinhos ficam mais redondinhos
e os moranguinhos mais pontiagudos.
Quem entra no hipermercado sabe ao que vai
mas quem entra na estação não sabe quando sai.
É o que acontece quando tens um país
com autoestradas a mais e ferrovias a menos.
Em que homem ou mulher pensei?
De que país estarei eu a falar?
Dou um rebuçado a quem adivinhar
e dois a quem não se enganar.
Se o dia promete pouco, não te rales
Se o dia está a dar, deixa-o andar
Se o dia precisa de ti, faz um biscate
Se o dia não ata nem desata, dorme.
Se tens o carro avariado, vai a pé
Se a política te irrita, desliga a televisão
Se já não mandas nada, calça as pantufas
Se o teu clube te põe triste, muda de mulher.
Se a gata não mia, dá-lhe uma corneta
Se a porta não abre, entra pela janela
Se te esqueceste de beijar, aprende línguas
Se não tens emprego, vai para o estrangeiro.
Quando a loucura dos autocratas com as suas
maiorias
tomar conta do mundo e arredores e já não houver
humor
ou ironia que nos valha e nos entretenha, logo se
vê!
Clito, o negro no campo inclusivo da batalha
na promoção e arte de combater com mestria
deixava magia, razão do texto desta geografia
deixava no ar o fascínio de conquista da poesia.
Pelo grito e pelo aroma da cor, o teu clito é de ouro
mas o dela vale mais porque vem das terras raras.
Olhem o meu é negro, feito de plástico reciclado
e foi comprado em promoção na loja das bugigangas.
Clito, o Negro (375 a.C. - 328 a.C.) foi um destacado
militar do exército de Alexandre, o Grande e salvou a vida deste na grande
Batalha do Grânico (334 a.C). Seis anos mais tarde, durante um banquete em
Samarcanda e após violenta discussão, Clito foi morto pelo amigo e venerado
Alexandre (Wikipédia)
Se a memória não me deixa ficar mal
quando criança conhecia uma Teodora
era uma colega na escola primária
e coitada da menina era gozada por todos
- Olha, olha a Teodora, tanto ri como chora.
Era uma menina muito envergonhada
com sardas e cabelo comprido claro
e provavelmente tornou-se uma bela moça.
Estudou direito, fez-se doutora, advogada.
A outra, Teodora de Constantinopla
também conhecida como Teodora do bordel
foi actriz e dançarina, prostituta e comediante.
Imperatriz e esposa do imperador Justino.
Tinha talento, era formosa e inteligente
com bom senso para ela nada era urgente
mas não chegou para convencer muita gente.
Que o digam as leituras dos escritos que ficaram
da época.
Se não tivesse visitado Istambul e ter-me preparado para a
visita
teria perdido alguns detalhes que a tornaram muito mais
rica.
Digam lá se a curiosidade e o saber ocupam lugar?
2024… 2025…
"Perguntei-lhe qual era o nome do gato e ele
respondeu-me que os gatos
não têm nome porque não são cristãos como os cães" Umberto
Eco
Caro Mestre, não leve a mal a intromissão
mas do pouco que Deus me acrescentou
sei que não é por aí que o gato vai às filhoses.
Estão em grande harmonia e não há jantar sem cão.
A não ser que da arranhadela o santo ficou uma fera
e nem a intervenção de Pedro apaziguou a discussão.
Ainda por cima a internet esteve todo o dia de baixa
e não passou a mensagem do gato a pedir perdão.
Boa eucaristia senhor prior e bom jantar de
celebração.
Batize lá o gato no domingo e esqueça a ofensa.
Vai ser um bom cristão vai caçar os ratos na igreja.
O vinho não vai sumir da sacristia. Tenha um bom serão.
“O amor é mais sábio do que a sabedoria” Umberto Eco
Cada história de amor nasce para não morrer
não é preciso ser sábio para inventar uma melhor.
O amor é feito de paciência e arte da transpiração
é feito da sabedoria dos que nasceram para viver.
Cada história de amor ou sua fulminante negação
tem a sua própria época e prioridades a condizer.
Quando as tuas já são outras eu aceito dar o
lugar.
Amigo não atrasa amigo se não contar para a equação.
Cada história de amor custa mais decorar do que despir
e custa mais vestir do que deixar a cama arrefecer
mas por muitos esforços que faça não vou conseguir
despir-me da pele que Deus escolheu para comigo trazer.
Esta frase aprendi há pouco de uns estrangeiros
- Antes de criticares põem-te nos meus sapatos.
Eu não posso, não consigo ser quem não sou
- Ouço a minha voz e sei que por aí eu não vou.
"Deus está morto, a arte deixou de existir, a
história
chegou ao fim e eu próprio não me sinto bem" Umberto
Eco
Contra a gripe, a febre e a constipação
contra o mau olhado da desilusão
não duvide não perca mais tempo.
Abra uma garrafa de vinho tinto.
Beba copo a copo com moderação
e não se esqueça desta afirmação.
Não um vinho qualquer meio martelado
um vinho alentejano bem encorpado
como promoção do melhor medicamento.
Como tributo à terra, à gente e à produção.
Beba copo a copo com devoção
e não se esqueça desta opinião.
Caro leitor que nunca me vai ler
até pode não acreditar no que digo
mas há muitos anos que não tomo
comprimidos para as dores de cabeça.
Em primeiro lugar porque não me dói
e se for o caso muito raro do contrário
para começar bebo meio copo de vinho.
Beba com devoção e beba com o coração.
"O que é a vida senão a sombra de um sonho
fugaz?" Umberto Eco
A minha vida? Eu sempre fui uma boa boca
e me contentei com o que vinha para a mesa.
Se a refeição fosse farta como acontecia contigo
aproveitava o repasto e tirava a barriga de misérias.
Se não fosse o caso, era paciente e não me queixava.
Os milagres das entradas das nossas sobremesas
de tão divinos e tão humanos, eram o paraíso na terra
eram momentos de amor que nos tornavam imortais.
Eram milagres, não feitos por Deus, mas por nós.
Lembras-te quando foi?
Foi numa terça-feira
a nossa primeira festa
a nossa primeira cama.
O nosso primeiro poema
o primeiro dia da nossa vida.
Foi numa terça-feira de março.
"O diabo não é o príncipe da matéria, o diabo é a
arrogância do espírito,
a fé sem sorriso, a verdade nunca tocada pela dúvida" Umberto
Eco
Quando a cegueira colectiva da maioria já for credo e
religião obrigatória
não se respeitar a opinião da agora minoria que pode ser
apenas temporária.
Quando a maioria dos eleitores acreditarem num futuro fácil
e barato
levados pelas respostas do populismo sabe tudo e discurso
simplificado.
Acredita que não estás sozinho que estás bem
acompanhado
que são muitos que pensam como tu, não te sintas abandonado.
Muitos que sabem pela história que contra a indigna
submissão
temos ao alcance da mão e da alma a nossa infinita insubmissão.
Temos de enfrentar o diabo mentiroso de uma mentira maior.
Temos de derrubar o falso profeta de um infame deus menor.
"Fomos suficientemente inteligentes para
transformar
uma lista de roupa suja em poesia" Umberto Eco
Bom dia. Com o tempo e a observar como faziam os mais
velhos
- mãe estava longe e a vida era aqui - descobri que era mais
prático
lavar a roupa ao fim do dia, todos os dias no lavatório
da sala de banho.
e punha-a pendurada a secar no radiador do quarto da
residência.
Na manhã seguinte estava enxuta. Eram mais complicadas
as camisas
- felizmente na época usava sobretudo t-shirts - e pior as
calças
que tinham de ser passadas a ferro, mas como eram de
ganga
se não fossem centrifugadas e ficassem bem esticadas
mesmo sem ferro de engomar, estavam prontas a serem usadas.
Foram sete semestres na residência estudantil da
universidade.
Tantas recordações. Tantas histórias. Tão pouca roupa suja
para lavar.
Tanta roupa lavada para amarrotar, cheirar e amar. Tanta
poesia.
Abençoada juventude. Obrigado Ráday kollégium. Obrigado
Budapeste.
"As redes sociais dão a legiões de idiotas o direito de
falar, quando antes só falavam num bar depois de um copo de vinho, sem
prejudicar a comunidade... mas agora têm o mesmo direito de falar como um
Prémio Nobel. É a invasão dos idiotas.” Umberto Eco
Estamos cercados por muita raiva de cão
muito presente por ser apanhado do chão.
Estamos perdidos com tanta merda seca
tanta camisa de vénus suja e esburacada.
Tanta trampa, rabo de gente em tampo de sanita
para quê tanto lavatório se nem as mãos lavam.
Não lhes chames ralo, sifão nem venerável válvula
ou vibrador vibração que dá gozo à vulnerável vulva.
Quando estava a falar parecia que estava a dormir
e a dormir parecia que estava a tossir e a vomitar
a ressonar grosso como uma osga ou uma lagartixa.
Um safado a comer salsicha de barba, bigode e barbicha.
Que seria se fossem para o diabo que vos carregue
e deixassem o Nobel e o futuro para quem o merece.
Budapeste, 2025
Pedro Assis Coimbra
Para o livro "De mim ficam as Palavras"
Não há amor que
resista a vinte e quatro horas de filosofia
Camilo Castelo Branco
E foi assim que
envelheci a pensar em ti.
Envelheci em
silêncio e a reduzir a lonjura
a
distância da cidade portuária mais próxima
tão próxima que
não cabia no meu pensamento.
Assim como quem
não acredita no destino
inquieto sem
dar conta das mudanças do vento
com o mais velho
e mais escuro caudal do tempo
fui aguadeiro camaleão
a desaguar no rio da vida.
Era tarde para sair
e mudar de embarcação
e cedo para aproveitar
a substância da baixa-mar.
Assim como um
estivador abraçado ao seu cais
sem grandes
pressas envelheci a pensar em ti.
Sem estar vacinado
cresci a sonhar contigo
como se fosses
uma madrugada madrinha
ou uma bela
mulher que sai à rua para se mostrar
querer-nos
convencer que é ela a nossa liberdade.
Cresci contigo
porque nasci no tempo da lua cheia
quando a manhã
se atrasava e o sonho era gratuito.
Não sabia como
te beijar, mas coragem não me faltava
sentia que um
amor como o nosso teria de dar certo.
Sem hesitar avancei
e ainda hoje sigo em frente contigo
pelas avenidas
que nos ajudam a chegar ao nosso abrigo.
Partilhando as
ideias e os sonhos, escutando os outros
porque sabemos
que a liberdade tem valor se for de todos.
Foi por ti que
sonhei viajar sozinho
Foi por ti que
saí do meu país
Foi por ti que
me fiz ao caminho
Só por ti é que
fui árvore e fui raiz.
Foi por ti que
viajei longe para te trazer até mim
Com violinos
nas asas e guitarras em cada mão.
No dia da
chegada organizar um grande festim
Onde juntasse
num só o teu e o meu coração.
Foi por ti que
sonhei e foi por ti que viajei
Para casar
contigo perante a praça e a lei.
Foi para te
esquecer que sai de casa a correr
foi para não te
lembrar que sai para espairecer
cai em mim e
pensei o que vai ser de mim sem ti
voltei a casa a
correr com medo de te perder.
Ainda lá
estavas em roupão em frente do monitor
preparei à
pressa um café, mas como me esqueci
e não aqueci as
chávenas como costumas fazer
levei na
bandeja para ser bebido antes de arrefecer.
Foi por me
lembrar o quanto eu gosto de ti
e que possa de
novo sentar-me na poltrona
foi para te
recordar o quanto eu gostei de ti
é que a culpa
morre casada, viúva ou solteirona.
Emagreci a
sonhar contigo
Engordei a
olhar-te de longe
Emagreci ao
ver-te de perto
Infeliz por não
saber o teu nome.
Emagreci porque
estraguei tudo
Emagreci por me
armar em esperto
Engordei porque
ao abrir a boca fechada
Porra sem
querer dei cabo do resto.
Deixei de comer
ao sentir-te tão perto
Deixei de beber
ao ver-te ao meu lado
Deixei má sorte
de o fazer por descuido
Por um erro
criança de folha de cálculo.
Emagreci porque
esqueci o seu nome
Será que ela se
chamava Clarisse
Quem disse que
a formiga tem catarro
Meter-me onde
nunca fui chamado.
Engordei porque
era um esforçado comilão
Engordei porque
era um rapaz brincalhão
Porque brinquei
muito contigo à apanhada
Às escondidas e
também à cabra-cega.
Emagreci por
não ter vergonha na cara
Engordei porque
nada me vem à cabeça
Emagreci porque
esqueci o que queria rimar.
Por
não ter um buraco onde me possa enfiar.