quinta-feira, 3 de abril de 2025

Palavras do eléctrico ou o eléctrico das Palavras /3

 


Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta  

continuarei a escrever. Clarice Lispector 


Para o livro "De mim ficam as Palavras"

Hier encore - Charles Aznavour


Les yeux cherchant le ciel mais le cœur mis en terre

 

Meu bicho-da-seda, minha lagarta da amoreira 

que se faz a mais bela das borboletas 

e em ti representa a vida, o fim e o renascimento 

o feio feito feitiço da beleza ou precisamente o contrário.

 

Da vida ontem da vida sempre, vida nunca e vida eterna 

no baixo-relevo do teu copo abaixo e acima em tudo

na vertical, na horizontal e nas escadinhas do bairro 

ou no tapete voador, de paraquedas para-quedistas 

- Borlistas e carteiristas, vigaristas e feiticeiras...

 

Na autoestrada da chuva 

nas curvas e contracurvas do vento 

no cruzamento tardio da noite 

na acalmia da tempestade 

na estação para recomeço do novo dia

no apreço comovente na praça do nosso reencontro.

 

Nunca é tarde para tentar como se fosse a primeira vez 

Nunca é tarde para voltar a errar se é a mando do coração 

Nunca é tarde para voltar ao local onde tudo começou 

Nunca é tarde para chorar o passado e soluçar o futuro. 

 

Para deixar o coração em terra e apanhar o avião 

Levar consigo os olhos, o olhar do mundo nos teus olhos 

Cantar o passado e agradecer o futuro - a minha gratidão.  

La bohème - Charles Aznavour

 

Do princípio ao fim do mundo 

do século perdido, a algazarra  

não abrandava e o apara-lápis  

não parava de ser emprestado  

por vezes trocado por um beijo.

 

Cães e as gatas já estavam habituados à confusão  

a alfazema e o alecrim não espantavam ninguém  

nem o alfarrabista da esquina que não vendia  

não se desfazia de nenhum dos seus melhores livros 

- que faria se não os tivesse à mão para os desfolhar.

 

Os bailes do bairro acabaram et les lilas sont morts  

os sindicatos perderam o pio e os trabalhadores amoucharam 

sentados no chão de pernas cruzadas à espera do milagre 

mas temos os jovens como ontem hoje também não se calam 

- é do futuro deles que escrevia e cantava o arménio Aznavour.

 

Em Montmartre de Paris do antigamente

eram pobres, ele passava fome e ela posava nua  

sentia-se em tudo a liberdade, decadência e liberdade  

que bem precioso é viver democracia num país livre  

sem perseguição - num país do decadente ocidente.


Cotovia ou confraria

 

"La chair des femmes se nourrit de caresses comme l'abeille de fleurs." 

Anatole France

 

Aquarela e a tinta dos seus olhos 

a doce conspiração das suas coxas

com a flanela nocturna dos seus braços 

e a água morna dos seus lábios 

Quando os beijo para saciar a sede. 

 

Cortiço mel das flores da sua serra

com a cobiça do fascínio maior

da planície lunar do seu olhar 

com a cotovia ou confraria do amor 

Para não me esquecer e te esperar. 

 

Cadeira onde tanta coisa boa ficou por fazer. 

Bagageira onde ainda hoje a quero guardar.


Os pecados

 

Com uma cerveja à frente dizia 

- Se é pecado se de vez em quando 

me descuidar e beber um pouco a mais

que mau seria nunca ter sido moço.

 

Se me distrair a olhar aquela ilha vistosa 

ao lado sentada e pensar noutros tempos 

dar asas de avioneta à imaginação

é não temer a régua de castigo e educação. 

 

Se é pecado cuidar e regar essa rosa 

para lhe dar cor e não a deixar murchar

como é deixar-se envolver pelo seu perfume 

com ela se perder e em silêncio florescer.

 

Dizia Pedro Homem de Mello e Amália 

tão bem cantava quando iam a Viana

- Os pecados têm vinte anos 

e os remorsos têm oitenta -

 

O pecado (i)mortal mora na guloseima 

e cresce no gosto e na certeza  

do bem que faz pelo melhor que sabe.

 E pelas vidas que nos traz de volta. 


Prefácio & Posfácio

 

Prefácio 

 

Na manhã desse dia lavei-me e vesti-me 

arranjei-me, tratei da pele com mais cuidado

valia a pena, sabia bem por que o fazia.

 

Talvez tenha deixado a pele sem defesa nenhuma  

mas sabia que a tua pele na minha a iria proteger. 

Sabia que não seriam os teus beijos ardentes 

os teus dedos e os lábios que a iriam maltratar. 

 

Na manhã desse dia saí de cedo de casa 

o coração estremecia e quase me saia do peito 

estava ansiosa, sentia muito impaciência. 

 

A única certeza que tenho é que vacilava de receio 

se seria um sorriso, um abraço, um beijo forçado.

Felizmente perto de ti sempre perdia o medo 

e vi abrir-se o céu, vivi a paixão do nosso amor. 

Prefácio & Posfácio

 

Posfácio

 

Desatentos não se deram conta 

que o seu tempo passou

e se foi para não mais voltar. 

 

A pele parece que secou 

e fez-se um deserto sem oásis

sem fonte nem areia molhada. 

 

O coração a lenha dos corações 

esse continua a arder feito fogo

até se fazer cinza e depois vento.

 

Recordar a terra húmida da margem do rio.   

Mundo que já não é o nosso e depois nada.

Erotismo da classe operária

Para António Rosas

 

Esta noite a minha intenção é fazer um breve relance pelo erotismo 

e algumas liberdades da classe operária e dos seus representantes 

no Portugal da primavera marcelista antes do 25 de Abril libertador.

 

- Aquele é o padrinho, não é o afilhado famoso dos selfies 

que foi primeiro comentador referência da televisão 

e depois S.E. O Presidente da República Portuguesa…

 

Era o magusto e jeropiga de São Martinho na fábrica de fiação 

e houve quem tenha se acelerado mais do que devia

ultrapassou a barreira do pudor e alguma timidez recalcada.

 

Depois do almoço voltou-se ao trabalho, mas uma das operárias

no corredor menos iluminado fez-lhe uma espera inesperada 

- Não gostas? É tudo para ti! Bata no chão blusa aberta sem soutien. 

 

- Porque se acabava duas três vezes por semana pedia-me fio

eu fazia-lhe sinal para subir ao terceiro andar à sala dos rolos

onde nos enrolávamos ouvindo as máquinas a trabalhar. 

 

Era ali para os lados do Martim Moniz quando as fábricas 

ainda funcionavam em pleno centro da cidade 

- O prazer operário e não apenas ser explorado pelo patrão. 


Revendo Almada

 

Tenho andado de volta revendo Almada Negreiros

com o Manifesto Anti-Dantas, 1915, e a Taca de chá*.

Recordando: As Banhistas, 1925, A Sesta, 1939,

O Retrato de Fernando Pessoa, 1954 ou o meu favorito

Art Déco, Estudo para uma Decoração de Teatro,1929.

 

*”Pela manhã vinham os visinhos em bicos dos pés espreitar por entre os bambús,

e todos viram acocorada a gueisha abanando o morto com um leque de marfim.”

 

Preâmbulo: Se Almada visse a pose e a roupa colada ao corpo 

- Uma segunda pele da jovem mulher por baixo da gabardine - 

esta tarde na paragem do eléctrico... eu fiquei com a sensação

que teria escrito rápido e certeiro, dizendo em voz alta: 

 

Eléctricos do mundo libertem-se! Sejam uns fora de caixa 

saltem dos carris, não aceitem a escravidão fixa dos horários.

Parem, façam greve para que aprendam, chega de brincadeiras.

Com os condutores dos eléctricos não se brinca nem a brincar.

 

Assim tinha tempo podia observar mais uns minutos  

sem a ver desaparecer ou ter de se apressar, entrar a correr 

para a continuar a ter aquela visão mais algumas paragens. 

Não estava sozinho naquela observação de admiração.

 

Segundo preâmbulo: descobri Almada na minha adolescência.

O nosso primeiro encontro foi com o Manifesto Anti-Dantas 

declamado por Mário Viegas. Se fosse hoje, 110 anos depois

estou convencido que o título seria: Manifesto Anti-Ventura.

 

Ultimamente tenho jogado com a ideia-provocação de pensar

- Qual seria a sensata-opinião do wokismo sobre Almada?

Será que seria queimado na fogueira da inquisição wokista?  


Feita de plástico

 

As pestanas postiças, falsas eram mais compridas 

que a mais curta das pontes sueco-dinamarquesas

distante da Groenlândia que Trump tramposo quer dominar. 

 

Os lábios carnudos, espalhafato a mais de tão inchados

quase caiam da boca e deixavam os dentes à mostra. 

Os seios tão esticados nem quatro mãos chegariam 

para os cobrir e esconder e proteger do mau olhado 

que do silicone já não havia nada a fazer.

 

Não teria mais de 20 anos e antes de se industrializar 

em plástico e afins deve ter sido uma miúda jeitosa

agora está feito um armazém de plástico. Feita um plástico. 

Uma carroçaria que não precisa de bate-chapas

Mecânico de amortecedores e assentos para assentar o dito.

 

Não há tempo para recriar a história sacana da palha seca 

se faz um bom colchão porque se tem de limpar a palha 

que tem no rabo, rabo de palha na ponta da navalha.

 

Primo californiano

 

O primo californiano veio à Hungria visitar a família. É uma jóia de pessoa 

e apesar de ali ter nascido há quase 70 anos e nunca aqui ter vivido 

sente-se húngaro e não esqueceu o idioma que aprendeu com os pais. 

Foi o primeiro, o idioma que se falava em casa, o inglês aprendeu na rua 

com as outras crianças e na escola, onde no início sentiu algumas dificuldades. 

 

O pai, Andor, órfão criado pelos tios, a convite de um famoso professor húngaro 

de quem era discípulo, em 1939 com 32 anos foi para os Estados Unidos. 

A mãe, Margit foi em 1950, depois de ter passado 5 anos num campo de refugiados

Na Áustria. Falava 8 idiomas e era a tradutora. Tinha vinda da Jugoslávia 

de uma região habitada sobretudo por húngaros e alemães, perto da fronteira 

da cidade universitária de Szeged, a Coimbra da Hungria, cidade onde nasceu. 

 

O pai era um abastado industrial têxtil, húngaro, mas com nome alemão.

Com o aproximar do fim da guerra, o avanço dos partisans de Tito 

e do Exército Vermelho, tiveram de fugir, deixando tudo para trás. 

O pai era há muito um entusiasta, grande colecionador de selos

selos que durante aqueles anos austríacos os ajudaram a sobreviver. 

 

Na América os húngaros casadoiros eram informados

quando chegava um barco da Europa com jovens húngaras. 

Foi assim que Margit e Andor se conheceram e se casaram 

namorando entre Pasadena, Los Angeles e S. Francisco.  

Após várias tentativas, nasceu Tibor e o médico disse

- Este bebé precisa da sua mãe, não tente nem mais uma vez.

 

Esteve cá este fim-de-semana e é sempre muito bom estar com ele.

Comove ver como se emociona a falar dos pais, das suas raízes húngaras. 

Está do outro lado do Atlântico e pensa como nós sobre o mundo 

sobre a América de hoje. Estivemos a ouvi-lo com atenção 

a aprender, por isso é primo californiano e não primo americano. 

 

Neste momento já está na Índia, vai até aos Himalaias. 

A última vez que passou por Budapeste

ofereci-lhe um cachecol do Sporting 

comprado quando do jogo com o Estoril (5-1). 

Com ele enviou uma fotografia do Kilimanjaro. 

Continuação de boa viagem Tibor!


terça-feira, 1 de abril de 2025

Confissão

 

Confissão de quem está mais para lá do que para cá:

Quando acabar, acabou-se, até lá vou escrevendo, respirando

acaba-se mais cedo se não respirar, se não escrever. 

 

Com as mãos da poesia estou a construir a minha nova casa.  

 

A casa: "De mim ficam as Palavras" com 

- Palavras avulso e a granel 

- Palavras do eléctrico ou Eléctrico das Palavras 

e com os jardins, hortas e árvores de fruto de outros textos à volta.  


Palavras avulso e a granel / 2

 


Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas.

Fernando Pessoa (Ricardo Reis)


Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Menú semanal


Se eu posso fazer um pequeno pedido 

por favor com esse ar desengonçado 

mostra mais um pouco da tua barriga 

senta-te como vieste despreocupada 

com os pratos e o sorriso na bandeja.

 

O código da pulseira encriptado no olhar 

o telemóvel na mão e ao pescoço o cartão 

a roçar na blusa da roca da rocha da praia 

formação continental de pedra volumosa 

com o fio de algodão enrolado à tentação.

 

Passagens virtuais e realidades paralelas 

ou outra coisa qualquer, os meus olhos 

estavam como lapas coladas ao umbigo 

agarradas em pensamentos de fome 

a esse pedacinho menú da tua pele.

 

Menú semanal do prato com mais saída

de quem ao sol já passou boas horas 

dizem o sol quando nasce é para todos 

e da luz o meu almoço sabe-me melhor.

Assim começava o meu texto de hoje… 

No estádio

 

No estádio onde decorria o jogo 

não estava sozinho em campo.

Dava nas vistas e destacava-se 

fosse das bancadas ou no relvado.

 

Pela qualidade do seu bom jogo 

na arte via-se estar noutro patamar.

Excelente e adulto toque de bola

era também o mais expansivo.

 

Treinava apenas quando podia 

mas quando o fazia era com tudo.

Chegou ao preferido da multidão.

Assim se fez um grande campeão.


Tempos de ficar calado

 

Fora de mim e fora de nós 

a coisa por aqui já esteve melhor 

mas também já esteve muito pior.

 

Os camaradas continuam o projecto 

do esplendor de humanismo libertador 

Mentiroso sou eu e não minto tanto.

 

Do lado de lá do oceano 

a casa é branca de nome 

na verdade, é casa do louco. 

Louco que se não parar 

não vai deixar pedra sobre pedra 

e é capaz de acabar com o mundo.

Senhoras e senhores 

mesmo que nada mude

não são tempos de ficar calado.


Barriga ao balcão


Na pele da dúvida pôs-se a pensar 

a matutar antes de vestir o pijama 

- Será que tenho alma de galinha 

vida de pato, nervos de serpente 

cabeça de porco e espinha de peixe?

 

No iPhone quero escrever século 

e por me ter esquecido do acento 

sem mais sugere-me sex ou sexo.

Devo ser o culpado, deve imaginar 

que não passo de um velho tarado.

 

No final é tudo uma questão 

de encostar a barriga ao balcão 

quem está autorizado pelo regime 

a pôr as mãos todas no tacho 

e refrescar os pés na bacia de zinco. 

Deixar de ser parvo


Descascar favas e ervilhas

Partir nozes e amêndoas 

Lavar e limpar pratos. 

 

Encher e despejar copos

Mover mundos e fundos 

Correr listas e pistas.

 

Preparar o almoço de pargo

Acender o fogão a lenha 

E no fim deixar de ser parvo. 

Em tarde de primavera


A poesia de hoje apenas faz sentido 

se for dirigida à entrega e à conquista 

escrita para ser lida e depois esquecida.

Dizia com um sorriso sábio e maroto.

 

Seguindo as orientações do seu professor 

que tão bem sabia como formar e formatar

guia espiritual na grande avenida da vida

a irradiação solar compensava-se em géneros.

 

Para o dia de festa acabar em beleza

pedia um sabonete, um pente e chinelos

fazia seguro dos pedidos serem atendidos

que a devoção tudo faria para os satisfazer.

 

Tempos de ser protegido das más notícias 

como quando não aceitou a oferta das danças. 

Da aventura que em segredo tinha começado 

com outro em tarde de primavera no outono.  

 

A poesia de ontem era escrita em pergaminho.

Hoje está escrita no rosto, escrita no teu corpo. 

Lavar os pés


Ser livre é não ter de se rebaixar 

de beijar, lavar e secar os seus pés 

porque tem o hábito de não ser barato

permitir-se só pelo seu costume de mandar.

 

Ter a liberdade de as pilhas recargar

com modernos carregadores e marchar 

porque quer e porque pensa na família 

voltar a casa a tempo de fazer o jantar.

 

Saber que os tempos de Platão 

foram, mas há muito que já não são

não estar para perder o seu tempo

Se fosse eu também não estaria.

 

Entrou a despachar e nem se sentou

ao balcão pediu um copo de vinho branco

pão caseiro azeitonas e queijo francês. 

Toca a andar que se fazia tarde para chegar. 

Cresceu com outra vida

 

A sua história merece ser contada. 

Nasceu num dia de abençoado 

num mês com futuro e com passado.

 

Cresceu entre a serra e o mar

rios e paisagens de deslumbrar

socializou-se com outro tipo de vida.

 

Fizesse o que fizesse tudo lhe saía bem.

Por vezes parecia que abusava da sorte 

que deus lhe destinou para o seu caminho.

 

Em tempos recentes de fios, teias e malhas

escrevia muito bem, tinha o seu público

e um mestre que lia, apoiava e corrigia.

 

Um dia de inverno, para pena de muitos

decidiu abandonar a escrita, deixar de escrever 

porque o mestre leitor deixou de aparecer.


Na praça não havia outro


Sobressaía pelo corte de cabelo 

muito à frente do seu tempo.

Pelo olhar e sorriso encantador

na praça não havia outro.

 

Sobressaía pela sua silhueta

pela sua roupa apertada 

assentava que nem uma luva

parecia toda ela feita à medida.

 

Mostrava-se, mas com moderação 

e não esticava a corda da ousadia.

Sem se assumir caudal fácil ou vulgar

era para muitos o rio da imaginação. 

Jogadora de xadrez

 

Era exímia jogadora de xadrez 

conseguia combinar para vencer

uma apaixonada por simultâneas.

Jogadora em vários tabuleiros.

 

Estava com ele mas alternava  

como livre sempre fez na vida.

Ganhou-lhe por isso o gosto 

e já não queria outra conversa.

 

Com tanto estilo e presença 

de muito competir e praticar

devia ser ela monitora a ensinar 

e não ter um treinador para aturar.

 

É assim que tu me vês 

será assim que eu sou 

ou será assim que tu és?



Em "Palavras avulso e a granel"

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


segunda-feira, 31 de março de 2025

Amor e paz - Ilusão das palavras

 

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Tamar e Mahmoud

 

Diz Rita, minha amada 

na nossa Terra Santa 

porque é o mundo 

connosco tão injusto 

tão duro com o nosso Amor? 

 

Não somos Romeu nem Julieta 

Páris e Helena, Tristão e Isolda 

- nem a triste tristeza do isolamento.

Não somos Lara e Jivago na Rússia 

nem Ilse ou Rick em Casablanca.

 

Somos tão só Tamar e Mahmoud

uma judia e um palestino sem nome.

Dois jovens que se conheceram  

se apaixonaram irremediavelmente 

e se deram perdidamente um ao outro.

 

Porque não podemos nós fazer 

das pedras e do pó dos caminhos 

campos de oliveiras, pomares de laranjeiras 

e do barro construir e erguer a nossa casa 

cuidar do nosso jardim e da nossa horta?

 

Minha israelita de mel insubmissa 

que o nosso Amor nunca acabe 

e eu possa viver contigo a vida inteira 

criar filhos e depois ver os netos crescer.

Rita não te esqueças - o sonho nunca morre! 


Tamara

 

Tamara, doce doçura como a vitória impossível 

a renúncia anunciada e a conquista temporária 

eterna só no sonho mais improvável e mais ingénuo. 

- Castanha de caju e amêndoas recheadas para despistar. 

 

Para disfarçar a dor da melancolia triste

a tristeza que inunda e sufoca a alma

a hospedaria da monotonia mais ausente.

- Dizer adeus à inocência perdida.

 

Abram os olhos e olhem ao vosso redor

não é a abundância do leite, mel e frutos 

a terra prometida por deus que vos espera.

- É tempo de acordar de vez minha flor.


Rita e a espingarda


"Entre a Rita e os meus olhos, uma espingarda"

 

Ele o Poeta, voz da resistência palestina, destacado militante da OLP.

Ela alistou-se nas forças armadas de Israel, depois membro da Mossad.

O abismo entre os dois jovens amantes não parou de crescer. 

O seu Amor não conseguiu sobreviver à realidade das suas vidas. 

Um dia os seus olhos afastaram-se e não se voltaram a ver.

 

Hostil a nossa cidade não nos recebeu de volta 

e nos subúrbios não encontramos onde pernoitar

onde pudéssemos festejar-nos pela última vez. 

Eu poder dizer adeus aos teus olhos de mel 

ao teu corpo e à tua alma de minha gata felina.

 

Ali não havia mais do que apatia. 

O silêncio pesado da casa vazia

tinha tomado o sofá-cama da alegria 

ignorando a pureza do nosso amor.

 

Custa escrever, mas nem a nossa buganvília 

esperou por nós e secou antes da nossa melodia.

"Ah Rita! O que terá afastado os meus olhos dos teus." 

Pense aux autres (Pensa nos outros)

 

Quand tu prépares ton petit-déjeuner, pense aux autres. 

(N'oublie pas le grain aux colombes.) 

 

Quand tu mènes tes guerres, pense aux autres. 

(N'oublie pas ceux qui réclament la paix.)

 

Pensava no tempo ainda tão morno e tão cálido. 

Vestia-se das minhas palavras e dos meus beijos

corria o fecho da saia comprida de linho.

 

Escondia os seus olhos de melaço profundo

por detrás das negras pestanas da noite.

Os lábios pintados com o seu sorriso agridoce

 

Entrevia um amanhã que era definitivo 

um passado sem nós para não recordar.

Sem o nosso amor, sem a nossa alegria. 

Sem nenhuma das nossas promessas.

 

Valeria a pena recomeçar a viver

tentar recriar o nosso mundo sonhado

feito de dedos lisos e de mãos abertas 

de braços meigos e abraços apertados. 

Feitos da nossa biografia perdida.


Quand tu comptes les étoiles pour dormir, pense aux autres. 

(Certains n'ont pas le loisir de rêver.) 

"Pense aux autres". Traduit de l’arabe (Palestine) par Elias Sanbar


Ilusão das palavras

 

Descobri a poesia de Mahmoud Darwich 

- sobretudo a poesia militante e de combate -

através de traduções para francês

nos fins dos anos oitenta do século passado.

 

Mais tarde com o filme-documentário 

Write down, I am an arab (2014)

conheci a vida do poeta e a história de amor 

com a jovem judia Rita (Tamar Ben-Ami).

 

Este filme comoveu-me por acreditar 

que o amor e a paz, a ilusão das palavras 

podem ser mais fortes do que a guerra.

Essa comoção aumentou com a nossa visita 

de sete dias a Israel, Palestina, Terra Santa. 

 

Durante esses dias fiquei a saber que a paz 

e o entendimento ali nunca serão alcançados

não haja ilusões. Não tenhamos ilusões. 

Não quero nem podia morrer sem deixar escrito

sem duas ou três pinceladas do que senti e sinto.

 

Amor e paz - Ilusão das palavras

Budapeste, 28-30 de março 

 

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


quinta-feira, 27 de março de 2025

Palavras do eléctrico ou o eléctrico das Palavras / 2

 

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta

continuarei a escrever. Clarice Lispector



Para o livro "De mim ficam as Palavras"



Um cálice de aguardente

 

Um cálice de aguardente para te trazer de volta 

para me ajudar a guardar-te nos meus braços 

para haver lenha quando as noites frias acabarem 

e da distância as manhãs fechadas abrirem os olhos.

 

Recordar-te como te escondias feminina

como se no prédio fosses a nova inquilina

- Como quem corajosa subias ousada a colina.

 

Recordar-te como desaparecias na neblina

e os teus olhos de gata eram a lamparina

- Feita luz aparecias nua por detrás da cortina.

 

Um cálice de aguardente para te trazer de volta 

tu que dizias que eu era o sal e a tua gasolina

para me ajudar a guardar-te nos meus braços 

resina do meu pinhal sabor da doçura mais fina.


Um prato de lentilhas


Por um prato de lentilhas 

vende o pai e vende a mãe 

vende o avô e vende a avó. 

Vende o cão e vende o sapo.

 

Por um prato de lentilhas 

vende os cornos e a alma

vende a ilusão da mentira 

vende a própria mulher.

 

Hipoteca a vida da filha 

prometida e pré-vendida

ainda antes de nascer 

ainda antes de a fazer.

 

Aqui é um hábito muito antigo 

que por significar abundância 

é comum no primeiro dia do ano  

comer-se um prato de lentilhas. 

Um copo de vinho


Abre os olhos carroça que a mula vai apressada 

e para lá chegar eu tenho tempo de sobra.

Não tanto como Gaudi, o arquitecto de Barcelona 

mas tempo suficiente para parar e para almoçar 

com todos os vagares que a pança merece.

 

A conversa é sempre a mesma sempre condimentada 

a puxar para o meio, abaixo do peito acima do ventre

se não falta nada para dar ao dente e sentar à mesa.

 

Se local novo olhar à volta ver que comem os outros 

pedir para começar meia garrafa, um copo de vinho tinto 

um café e um digestivo para ajudar a digestão.

 

Para ajudar a constatar que as nossas barrigas

são o melhor estímulo para a satisfação ou insatisfação 

dos homens e das mulheres de ontem de hoje de sempre.

Por ser um bom exemplo disso não me vou esconder. 

Uma taça de gelado


Uma taça de gelado italiano para gente gulosa 

com bom gosto porque não há gelado melhor. 

Uma taça de champanhe francês para gente boa

com paladar desenvolvido e dinheiro para gastar. 

 

Uma taça de salada de fruta para amigos da horta 

que trocam um doce de ovos pela natureza-viva

que sabem da importância da saúde e da comida. 

Sabem se agora se cuidam, amanhã tem mais vida.

 

Sabem do grande irmão e outros filhos da puta

as rascas teorias da conspiração teórica e prática

do regresso sufocante orwelliano da mão-morta. 

Mão a menos maçaneta vai bater a outra porta. 

Uma caneca de cerveja


Uma caneca de cerveja alemã com salsichas

as linguiças de Nuremberg com couves roxas  

e repetir a caneca, há coisas piores na vida.

Nem falar do incansável pedinte em mim

a pedinchar e a juntar bases de cerveja.

 

Lembras-te do sítio da primeira cerveja que bebeste comigo?

Não era bebida que estivesses habituada, valeu-me com cerejas

da simpatia com que nos atendiam, como se metiam contigo.

Tínhamos vindo de uma festa para continuamos a celebração. 

 

As voltas que o mundo deu, as canecas que eu já bebi.

Como poderei eu esquecer os seus brincos fantasia

cerejas ou ginjas aos pares a caírem sobre os ombros 

a realçar o seu pescoço alto que convidava a beijar.

 

2024 – 2025…


quarta-feira, 26 de março de 2025

Palavras avulso e a granel


Segue o teu destino
Rega as tuas plantas
Ama as tuas rosas.

Fernando Pessoa (Ricardo Reis) 


(Para continuar)

Palavras ou distâncias

 

As últimas semanas serviram para se soltar

libertar-se da teia onde se tinha deixado enfiar.

 

Estava na varanda a fumar um cigarro e a pensar 

não tinha de estar a olhar para o sentido das palavras 

para as segundas leituras das metáforas mais rudes

para as afirmações que pudessem cair mal ou magoar.

 

Pensar devia ser uma grande tontice, escrevê-lo ainda mais 

mas pela primeira vez na vida sentia-se nada discípulo 

quer dizer não ter de estar a olhar para os efeitos colaterais 

das suas ideias, das suas dúvidas e das suas palavras.

 

Palavras escritas em papel, no telemóvel ou no computador.

Palavras, dúvidas ou distâncias que no final podem parar no lixo. 

Repolhinho

 

A imaginação tem coutos que não chegam 

nem aos tornozelos maltratados do irmão.

- Com os ventos do contra clero tão fortes 

quando coitados os bispos já não pensavam 

no coito, no repolho repolhinho por comer.

 

Não podiam acoitar-se por dá aquela palha

com a freira mais tenrinha do convento 

para isso até servia a macia do palheiro 

não fosse o diabo tecê-las, acabar no degredo.

 

Como é costume o mundo mudou para pior

com essa gentalha logo a pensar que é gente.

Põem-se a inventar e a agitar os agitadores 

de coutadas e das noitadas mal dormidas.

 

Esquecem-se que não faziam mais que andar 

em grupo à procura dos ninhos de gambozinos.

Coito ou couto tão diferentes como o dia da noite 

se não houver noites brancas e roxas madrugadas. 

Condicional

 

Para passar no exame de língua

pago a peso de ouro, de rara platina

andou semanas a estudar e praticar

o condicional do verbo bem fazer

ou fazer com muito prazer.

 

Passou com nota máxima e distinção  

com uma resposta que até o professor 

considerou ser um exemplo a seguir. 

 

Sabia que se tivesses os olhos abertos

e olhasses para mim irias guardar na memória

o momento em que os meus lábios se fecharam.

 

Mais tarde quando visses uma fotografia desse dia

irias-te lembrar e também pensarias que ninguém

a não ser nós sabia o que a minha boca fazia. 

Talvez soubesse

 

Talvez soubesse, 

mas parece que não sabia 

que não devia arriscar 

não devia dar um passo 

maior do que a perna. 

 

Mas queria tanto 

dar um salto à canguru 

que o máximo que conseguiu 

foi dar um salto de caranguejo.

 

Para sua grande tristeza 

nunca mais se voltaram a encontrar. 

Cegueira

 

Meu Amor estou no aeroporto, acabei de chegar 

não te disse nada porque quis fazer uma surpresa. 

Sabia muito bem que não podia faltar, estar longe 

estar ausente neste momento tão especial para ti. 

Manda-me a morada para eu dizer ao taxista.

 

Acordou. Tinha adormecido no avião e teve pena 

de acordar, do sonho não continuar, não se realizar.  

No dia seguinte acalentou a derradeira esperança 

que na cidade da paixão o sonho fosse a realidade. 

 

Conclusão de quem anda há muitos anos por aqui 

e vê o que muitos outros não veem ou não querem ver. 

- Não há cego maior do que aquele que o amor não deixa ver 

cego pela cegueira irracional e profunda da ilusão intelectual.

Encurtar lonjuras


Estava a refazer o seu jogo de cintura

para de vez lhe chamar a atenção 

e aos poucos ia perdendo a compostura 

com ofertas de vida e asas de paixão.

 

Estava a rebentar pelas costuras

Com as costas e o resto à mostra 

Com as coxas abertas à lua nova

prontas para encurtar as lonjuras. 

 

Com ela e com os mistérios do amor

aconteceu esse encantamento único 

cada vez que a via mais linda a achava

mais fascinante que no encontro anterior. 

A vida inteira

 

Para lá de todos os êxitos e alegrias 

de fora e de longe não se via 

o que sentia no mais fundo de si.

 

Mas um dia depois de muito caminhar 

bastou um olhar para de vez mudar  

a alma intacta do seu coração mais puro 

que se fez maior para sonhar e descansar.

 

Como se fosse uma história de encantar

para à noite ser vivida e bem contada

encontrou quem sempre procurou 

porque não perdeu a esperança que existia.

 

Por estar há muito tempo à sua espera 

nem que fosse apenas para um toque de dedos 

Um encontro, um dia que valesse a vida inteira.

Tempo das cigarras

 

Era o tempo das cigarras e das cerejas 

tempo das bocas se colarem uma à outra 

com a cola do néctar em flor das cerejeiras. 

- As bocas se colarem sedentas e esfomeadas.

 

Tempo de deixar as línguas dançarem 

ao som da música sensual dos desejos.

Tempo dos lábios amantes se degustarem

ao som da música doce do prazer e do licor.

 

O canto cigarra sedutor do acasalamento 

com os lábios sedosos e o sabor do beijo

e com as almas abraçadas ao sentimento.

- O fascínio de tudo o que é o nosso amor.

Remorsos


Como novidade e prova de amor dizia 

que devido ao seu gradual afastamento  

após troca de mensagens tinham estado 

à conversa ao telefone bastante tempo. 

Conversa que entrou pela noite dentro.

 

Que teve na ponta da língua a vontade 

de lhe falar do seu novo romance 

mas que lhe tinha faltado a coragem 

e ainda tinha pena de terem acabado.

- Queria guardar algo desse passado.

 

Tinha pensado em mudar de vida

ficar apenas com um novelo de fio

mas com este balde de água fria 

ora toma, lá se foram os remorsos 

pelo muito de errado que fazia.  


Exibicionista


Com ousadia e bom gosto não se importava de se mostrar 

de exibicionista exibir-se e realçando o melhor que tinha. 

Com olhos de leigo digo, via-se que era muito e do melhor.

Segundo os livros não devia ser nenhuma Teresa de Calcutá. 

 

Por vezes surpreendia e excitava pela sua transparência

em sentido próprio e figurado, pela sua autenticidade. 

Era tão natural e tão apelativa dos sentidos que os homens

a seguiam como se fossem abelhas de volta do mel mais doce.

 

As amigas gostariam de ser como ela, tinham-lhe inveja. 

Também eu teria muita dor de cotovelo se fosse sua amiga.

- Que bom seria ser seu amigo e conhecê-la mais de perto

para sem desafinar poder-lhe cantar a cancão do bandido.

 

2024… 2025…. 

Palavras do eléctrico ou o eléctrico das Palavras

 

Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta

continuarei a escrever. Clarice Lispector


(vão continuar)

Sentados no eléctrico

 

Estavam sentados no eléctrico e de forma discreta

tocavam e trocavam de joelhos, de mãos e respiração 

tão discretamente que tinha de estar atento.

 

Não me fazer notado e observar com atenção para captar 

apreender toda a íntima magia daqueles momentos 

um local público sem grandes pressas, em movimento.

 

De janelas escancaradas trocavam de olhos e sorrisos 

despiam e vestiam a alma a rebentar de felicidade

não escondiam, mostravam tudo o que lhes ia no coração.

 

Tive pena que saíram antes de mim e não os pude seguir 

ver como caminhavam, abraçados ou de mãos dadas 

beijando-se junto ao castanheiro bravo

com tempo e com vagar ou correndo 

para casa dele ou dela sem tempo de esperar.


Encontrado no chão

 

No dia de hoje o tempo já fez muitas caras 

mas nenhuma é a tua, o teu rosto e o teu sorriso

o rosto lindo que Deus te deu e a vida aperfeiçoou.

 

Assim começava a carta que tinha encontrado no chão 

tinha apanhado o envelope e aberto sem ter autorização.

Li atento e fiquei a saber da intensidade dessa paixão

 

Pensei que aquela carta perdida podia ter sido escrita 

por qualquer um de nós, qualquer um que sente

qualquer um que sonha, qualquer um que ama e é amado.

 

Será que hoje ainda se escrevem cartas de amor?

Será que não passa de conversa de idoso cansado?

- Todas as vidas se escreveram cartas e mensagens

poemas e metáforas de ternura e encantamento.

 


Dar ao chinelo


São tempos de dar ao chinelo 

sem isso não temos sopa 

e algum conduto na mesa 

ouvia dizer à minha avó, à tia Olinda 

já lá vão sessenta anos. 

 

E agora? Está melhor, mas não para todos.

Vivemos tempos de dar ao tamanco 

à sandália de cortiça, andar à chinelada.

 

Sapato novo e chinelo velho

sapato lindo e chinelo feio

rimar apenas para desconversar.

e dar ao pedal enquanto há força.

 

Pasteleira para pastar, para andar devagar 

a pisar ovos, a pastelar, a fazer tempo 

a fazer que faz, a correr para quê?

Pôr tudo em pratos limpos na pastelaria.

 

Acabar por dormir sentado e de pé 

a dormir deitado, inquieto de olho aberto 

deitado com um verdadeiro tesouro ao lado.

  

Combustão


E é eléctrico, imagine-se se fosse a combustão 

muito fogo iria acender, apagar e de novo atiçar  

incendiar o restolho, fazer arder e repetir a dose.

 

Diz-se que foram metros e metros de coisa dentro 

e nunca declinou mais um uma boleia, uma viagem. 

Hoje como ontem, como depois de amanhã 

não se deve meter o bedelho onde não se é chamado. 

 

Confundir alhos com bugalhos e sarilhos com saralhos 

carvalhos e churrascos na churrasqueira de sempre. 

Corno, mas manso, dos mansos com classe e filantropia 

- Um coração do tamanho do mundo à venda na mercearia. 

  

Nesta casa

 

Nesta casa não há nada que se coma? 

Ou que se possa beber 

para enganar o estômago? 

Ajudar a despertar?

 

Não é preciso olhar muito para ver

uma bicicleta parada no meio da sala.

Estar aqui a entreter, a pedalar 

para não perder o equilíbrio 

para não tombar. 

 

Com um olho no burro 

e outro na barriga à mostra 

e de repente acabar por cair  

com pontaria em cima dela.

Dizia: a bicicleta que ele usava era eu. 


Tângera pequena


Tângera é uma laranja mais pequena 

e ancora é uma tangerina maior 

explicava com ar de quem sabe 

por ter laranjeiras no pomar da família.

 

Ir à loja do bairro ou ao supermercado 

era como encontrar-se com o amante 

com grande arcaboiço e grande espingarda.  

- Com ele sexo era mesmo para recordar.

 

Criticado por ter mais olhos que barriga 

porque cada gaveta tinha fruta diferente 

e na frutaria as prateleiras estavam vazias.

Era o caso de a procura ser maior que a oferta. 

 

Marroquina clementina ou laranja de sangue 

a doce acidez do prazer pago a prestações 

de rendas pretas rendinhas vermelhas fetiche. 

Com a utilização da melhor das tradições. 

Ferrovia a menos

 

Não é o pão nosso de cada dia 

nem dia ou noite de cada pão.

Acredita, se fores optimista

o café sabe-te muito melhor.

 

A blusa fica mais cremosa e mais pão 

se não usar detergente, mas sabão.

Os montinhos ficam mais redondinhos

e os moranguinhos mais pontiagudos.

 

Quem entra no hipermercado sabe ao que vai

mas quem entra na estação não sabe quando sai.

É o que acontece quando tens um país 

com autoestradas a mais e ferrovias a menos.

 

Em que homem ou mulher pensei?

De que país estarei eu a falar? 

Dou um rebuçado a quem adivinhar 

e dois a quem não se enganar.

Logo se vê

 

Se o dia promete pouco, não te rales

Se o dia está a dar, deixa-o andar

Se o dia precisa de ti, faz um biscate

Se o dia não ata nem desata, dorme. 

Se tens o carro avariado, vai a pé 

Se a política te irrita, desliga a televisão 

Se já não mandas nada, calça as pantufas 

Se o teu clube te põe triste, muda de mulher. 

 

Se a gata não mia, dá-lhe uma corneta 

Se a porta não abre, entra pela janela 

Se te esqueceste de beijar, aprende línguas

Se não tens emprego, vai para o estrangeiro. 

Quando a loucura dos autocratas com as suas maiorias  

tomar conta do mundo e arredores e já não houver humor 

ou ironia que nos valha e nos entretenha, logo se vê! 

Clito, o Negro


Clito, o negro no campo inclusivo da batalha

na promoção e arte de combater com mestria

deixava magia, razão do texto desta geografia

deixava no ar o fascínio de conquista da poesia. 

 

Pelo grito e pelo aroma da cor, o teu clito é de ouro

mas o dela vale mais porque vem das terras raras.

Olhem o meu é negro, feito de plástico reciclado

e foi comprado em promoção na loja das bugigangas.

 

Clito, o Negro (375 a.C. - 328 a.C.) foi um destacado militar do exército de Alexandre, o Grande e salvou a vida deste na grande Batalha do Grânico (334 a.C). Seis anos mais tarde, durante um banquete em Samarcanda e após violenta discussão, Clito foi morto pelo amigo e venerado Alexandre (Wikipédia)


Teodora de Constantinopla


Se a memória não me deixa ficar mal

quando criança conhecia uma Teodora

era uma colega na escola primária

e coitada da menina era gozada por todos  

- Olha, olha a Teodora, tanto ri como chora.

 

Era uma menina muito envergonhada 

com sardas e cabelo comprido claro

e provavelmente tornou-se uma bela moça.

Estudou direito, fez-se doutora, advogada.  

 

A outra, Teodora de Constantinopla

também conhecida como Teodora do bordel

foi actriz e dançarina, prostituta e comediante.

Imperatriz e esposa do imperador Justino.

 

Tinha talento, era formosa e inteligente 

com bom senso para ela nada era urgente

mas não chegou para convencer muita gente.

 

Que o digam as leituras dos escritos que ficaram da época.

Se não tivesse visitado Istambul e ter-me preparado para a visita

teria perdido alguns detalhes que a tornaram muito mais rica.

Digam lá se a curiosidade e o saber ocupam lugar?

 

2024… 2025…


segunda-feira, 24 de março de 2025

Eco das Palavras

ou a ousadia tonta de me associar a Umberto Eco

Gato

 

"Perguntei-lhe qual era o nome do gato e ele respondeu-me que os gatos

não têm nome porque não são cristãos como os cães" Umberto Eco

 

Caro Mestre, não leve a mal a intromissão 

mas do pouco que Deus me acrescentou 

sei que não é por aí que o gato vai às filhoses.

Estão em grande harmonia e não há jantar sem cão.

 

A não ser que da arranhadela o santo ficou uma fera

e nem a intervenção de Pedro apaziguou a discussão.

Ainda por cima a internet esteve todo o dia de baixa 

e não passou a mensagem do gato a pedir perdão.

 

Boa eucaristia senhor prior e bom jantar de celebração. 

Batize lá o gato no domingo e esqueça a ofensa.

Vai ser um bom cristão vai caçar os ratos na igreja.

O vinho não vai sumir da sacristia. Tenha um bom serão.

 

Sabedoria

 

“O amor é mais sábio do que a sabedoria” Umberto Eco

 

Cada história de amor nasce para não morrer 

não é preciso ser sábio para inventar uma melhor.

O amor é feito de paciência e arte da transpiração 

é feito da sabedoria dos que nasceram para viver.

 

Cada história de amor ou sua fulminante negação 

tem a sua própria época e prioridades a condizer.

Quando as tuas já são outras eu aceito dar o lugar. 

Amigo não atrasa amigo se não contar para a equação.

 

Cada história de amor custa mais decorar do que despir 

e custa mais vestir do que deixar a cama arrefecer 

mas por muitos esforços que faça não vou conseguir 

despir-me da pele que Deus escolheu para comigo trazer.

 

Esta frase aprendi há pouco de uns estrangeiros 

- Antes de criticares põem-te nos meus sapatos.

Eu não posso, não consigo ser quem não sou 

- Ouço a minha voz e sei que por aí eu não vou.

Deus

 

"Deus está morto, a arte deixou de existir, a história 

chegou ao fim e eu próprio não me sinto bem" Umberto Eco

 

Contra a gripe, a febre e a constipação 

contra o mau olhado da desilusão 

não duvide não perca mais tempo. 

Abra uma garrafa de vinho tinto.

 

Beba copo a copo com moderação 

e não se esqueça desta afirmação. 

 

Não um vinho qualquer meio martelado 

um vinho alentejano bem encorpado

como promoção do melhor medicamento. 

Como tributo à terra, à gente e à produção.

 

Beba copo a copo com devoção 

e não se esqueça desta opinião.

 

Caro leitor que nunca me vai ler

até pode não acreditar no que digo 

mas há muitos anos que não tomo 

comprimidos para as dores de cabeça.

 

Em primeiro lugar porque não me dói 

e se for o caso muito raro do contrário 

para começar bebo meio copo de vinho.

Beba com devoção e beba com o coração.

 

Vida

 

"O que é a vida senão a sombra de um sonho fugaz?"  Umberto Eco

 

A minha vida? Eu sempre fui uma boa boca 

e me contentei com o que vinha para a mesa. 

Se a refeição fosse farta como acontecia contigo

aproveitava o repasto e tirava a barriga de misérias.

Se não fosse o caso, era paciente e não me queixava. 

 

Os milagres das entradas das nossas sobremesas 

de tão divinos e tão humanos, eram o paraíso na terra 

eram momentos de amor que nos tornavam imortais.

Eram milagres, não feitos por Deus, mas por nós.

 

Lembras-te quando foi?

Foi numa terça-feira 

a nossa primeira festa 

a nossa primeira cama.

 

O nosso primeiro poema 

o primeiro dia da nossa vida. 

Foi numa terça-feira de março. 

Diabo


"O diabo não é o príncipe da matéria, o diabo é a arrogância do espírito, 

a fé sem sorriso, a verdade nunca tocada pela dúvida" Umberto Eco

 

Quando a cegueira colectiva da maioria já for credo e religião obrigatória 

não se respeitar a opinião da agora minoria que pode ser apenas temporária. 

Quando a maioria dos eleitores acreditarem num futuro fácil e barato 

levados pelas respostas do populismo sabe tudo e discurso simplificado.

 

Acredita que não estás sozinho que estás bem acompanhado 

que são muitos que pensam como tu, não te sintas abandonado.

Muitos que sabem pela história que contra a indigna submissão 

temos ao alcance da mão e da alma a nossa infinita insubmissão.

 

Temos de enfrentar o diabo mentiroso de uma mentira maior.

Temos de derrubar o falso profeta de um infame deus menor.

  

Poesia

 

"Fomos suficientemente inteligentes para transformar 

uma lista de roupa suja em poesia" Umberto Eco

 

Bom dia. Com o tempo e a observar como faziam os mais velhos 

- mãe estava longe e a vida era aqui - descobri que era mais prático 

lavar a roupa ao fim do dia, todos os dias no lavatório da sala de banho.

 Lavava a roupa com sabão - chegou a ser azul que trouxe de Portugal -  

e punha-a pendurada a secar no radiador do quarto da residência.


Na manhã seguinte estava enxuta. Eram mais complicadas as camisas

- felizmente na época usava sobretudo t-shirts - e pior as calças 

que tinham de ser passadas a ferro, mas como eram de ganga 

se não fossem centrifugadas e ficassem bem esticadas 

mesmo sem ferro de engomar, estavam prontas a serem usadas.

 

Foram sete semestres na residência estudantil da universidade.

Tantas recordações. Tantas histórias. Tão pouca roupa suja para lavar. 

Tanta roupa lavada para amarrotar, cheirar e amar. Tanta poesia. 

Abençoada juventude. Obrigado Ráday kollégium. Obrigado Budapeste.

Nobel

 

"As redes sociais dão a legiões de idiotas o direito de falar, quando antes só falavam num bar depois de um copo de vinho, sem prejudicar a comunidade... mas agora têm o mesmo direito de falar como um Prémio Nobel. É a invasão dos idiotas.” Umberto Eco

 

Estamos cercados por muita raiva de cão  

muito presente por ser apanhado do chão. 

Estamos perdidos com tanta merda seca

tanta camisa de vénus suja e esburacada.

 

Tanta trampa, rabo de gente em tampo de sanita

para quê tanto lavatório se nem as mãos lavam.

Não lhes chames ralo, sifão nem venerável válvula 

ou vibrador vibração que dá gozo à vulnerável vulva.

 

Quando estava a falar parecia que estava a dormir 

e a dormir parecia que estava a tossir e a vomitar

a ressonar grosso como uma osga ou uma lagartixa.

Um safado a comer salsicha de barba, bigode e barbicha.

 

Que seria se fossem para o diabo que vos carregue

e deixassem o Nobel e o futuro para quem o merece.

 

Budapeste, 2025

Pedro Assis Coimbra

Para o livro "De mim ficam as Palavras"

sexta-feira, 21 de março de 2025

Tempo de espairecer e envelhecer

 

Não há amor que resista a vinte e quatro horas de filosofia
Camilo Castelo Branco 


Envelheci a pensar em ti

 

E foi assim que envelheci a pensar em ti. 

Envelheci em silêncio e a reduzir a lonjura

a distância da cidade portuária mais próxima

tão próxima que não cabia no meu pensamento. 

 

Assim como quem não acredita no destino 

inquieto sem dar conta das mudanças do vento  

com o mais velho e mais escuro caudal do tempo 

fui aguadeiro camaleão a desaguar no rio da vida. 

 

Era tarde para sair e mudar de embarcação 

e cedo para aproveitar a substância da baixa-mar. 

Assim como um estivador abraçado ao seu cais 

sem grandes pressas envelheci a pensar em ti.


Cresci contigo

 

Sem estar vacinado cresci a sonhar contigo 

como se fosses uma madrugada madrinha

ou uma bela mulher que sai à rua para se mostrar 

querer-nos convencer que é ela a nossa liberdade. 

 

Cresci contigo porque nasci no tempo da lua cheia 

quando a manhã se atrasava e o sonho era gratuito. 

Não sabia como te beijar, mas coragem não me faltava 

sentia que um amor como o nosso teria de dar certo. 

 

Sem hesitar avancei e ainda hoje sigo em frente contigo 

pelas avenidas que nos ajudam a chegar ao nosso abrigo. 

Partilhando as ideias e os sonhos, escutando os outros

porque sabemos que a liberdade tem valor se for de todos.


Foi por ti que sonhei

 

Foi por ti que sonhei viajar sozinho 

Foi por ti que saí do meu país 

Foi por ti que me fiz ao caminho 

Só por ti é que fui árvore e fui raiz.

 

Foi por ti que viajei longe para te trazer até mim

Com violinos nas asas e guitarras em cada mão. 

No dia da chegada organizar um grande festim

Onde juntasse num só o teu e o meu coração.

 

Foi por ti que sonhei e foi por ti que viajei 

Para casar contigo perante a praça e a lei.


Para te esquecer

 

Foi para te esquecer que sai de casa a correr

foi para não te lembrar que sai para espairecer 

cai em mim e pensei o que vai ser de mim sem ti 

voltei a casa a correr com medo de te perder.

 

Ainda lá estavas em roupão em frente do monitor 

preparei à pressa um café, mas como me esqueci 

e não aqueci as chávenas como costumas fazer

levei na bandeja para ser bebido antes de arrefecer.

 

Foi por me lembrar o quanto eu gosto de ti 

e que possa de novo sentar-me na poltrona 

foi para te recordar o quanto eu gostei de ti

é que a culpa morre casada, viúva ou solteirona.

 

Emagreci a sonhar contigo



Emagreci a sonhar contigo 

Engordei a olhar-te de longe 

Emagreci ao ver-te de perto 

Infeliz por não saber o teu nome.

 

Emagreci porque estraguei tudo 

Emagreci por me armar em esperto 

Engordei porque ao abrir a boca fechada

Porra sem querer dei cabo do resto.

 

Deixei de comer ao sentir-te tão perto 

Deixei de beber ao ver-te ao meu lado 

Deixei má sorte de o fazer por descuido 

Por um erro criança de folha de cálculo.

 

Emagreci porque esqueci o seu nome 

Será que ela se chamava Clarisse 

Quem disse que a formiga tem catarro 

Meter-me onde nunca fui chamado.

 

Engordei porque era um esforçado comilão 

Engordei porque era um rapaz brincalhão 

Porque brinquei muito contigo à apanhada

Às escondidas e também à cabra-cega.

 

Emagreci por não ter vergonha na cara

Engordei porque nada me vem à cabeça 

Emagreci porque esqueci o que queria rimar. 

Por não ter um buraco onde me possa enfiar.