quarta-feira, 19 de março de 2025

Oxalá

 

Queira Deus que não seja o que se sente vir...

Foi pior, o horror metódico e criminoso: o Holocausto


Carta a Radnóti Miklós (1909-1944)

 

 Sabes, Poeta, o meu neto, com a mãe e o meu genro

- O irmãozinho vem a caminho - vivem numa rua

que cruza com a rua que leva o teu nome - Radnóti Miklós

em Lipótváros, no bairro que foi sempre o teu, o bairro XIII.

Assim, sempre que os vamos visitar ou levá-lo a passear

passamos pela tua rua e vemos a tua estátua discreta.

 

Miklós - Glatter antes de ser Radnóti -, estive a ver as tuas fotografias

fiquei com a ideia de que eras um rapaz bonito, um homem elegante

um Poeta conhecido, de renome, com P grande. Lias regularmente

a tua poesia na rádio. Não admira que muitas miúdas, as mulheres

tivessem um fraquinho por ti. Sabes que eras um homem com sorte?

 

Fanni a tua Musa-Namorada de sempre era paciente e compreensiva

- Sim, eu sei que começaram a namorar eram ainda quase crianças -

e mesmo cheia de ciúmes, das zangas, perdoava as tuas aventuras,

com a jovem alemã klementine ou com a fogosa Judit, a tua pintora.

 

Arckép

Huszonkét éves vagyok. Így

nézhetett ki ősszel Krisztus is

ennyi idősen; még nem volt

szakálla, szőke volt és lányok

álmodtak véle éjjelenként!

1930. október 11.

 

Retrato

Tenho vinte e dois anos. Assim

devia ser a aparência de Cristo no outono

nessa idade; ainda não tinha

barba, era louro e as raparigas

sonhavam com ele à noite!

11 de outubro de 1930.

 

Caro Poeta, já estamos no primeiro quarto do século vinte e um.

Agora é comum falar sobre a importância da baixa pegada carbónica

de desenhar a estratégia sustentável para o futuro da humanidade

da comunicação imediata das redes sociais, das novas liberdades

e dos velhos discursos do ódio recauchutado, sempre mobilizadores.

A cegueira dos custos não imputados ao populismo assassino.

 

De custos, direi que para ti era em primeiro lugar a vida, a sobrevivência

que te custava caminhar, estar de pé, estar sentado, estar deitado.

Que morrer só depois de sonhar e de voar, de cair e de novo se levantar.

Escrever a última agonia antes da última bala, o último postal ilustrado.


Poeta, 4 postais para te ilustrar e iluminar, para te recordar e eternizar.


Negyedik Razglednica

Mellézuhantam, átfordult a teste

s feszes volt már, mint húr, ha pattan.

Tarkólövés. - Így végzed hát te is, -

súgtam magamnak, - csak feküdj nyugodtan.

Halált virágzik most a türelem. -

Der springt noch auf, - hangzott fölöttem.

Sárral kevert vér száradt fülemen.

Szentkirályszabadja, 1944. október 31.

 

Quarto postal ilustrado

Eu caí ao seu lado, o seu corpo virou-se

e já estava esticado, como a corda quando se parte.

Um tiro na nuca. - Assim acabas tu também, -

Sussurrei para mim próprio, - fica calmo e quieto.

A paciência floresce agora na morte. -

Der springt noch auf*, - ouviu-se por cima de mim.

Sangue misturado com lama secou nas minhas orelhas.

*Ele continua a saltar

Szentkirályszabadja, 31 de outubro de 1944

 

Acorda meu amigo, a Fanni está à tua espera, jovem, bela e apaixonada

como nos dias especiais, com um bolo de requeijão e um körtepálinka

com um exemplar do teu Bori notesz, símbolo maior do pior pesadelo.


Para te dar a novidade que em Budapeste há um teatro com o teu nome

que nenhum judeu é perseguido, nem os católicos convertidos como tu.

Há presente e há futuro mesmo quando a negra escuridão 

parece ser mais forte que a luz, que o clamor do amor!

 

Budapeste, 1 de março de 2025


Születik a Vers (Nasce o Poema). Em memória de Hajnal László

 

Hajnal László, nascido Grün László (1902-1943)

Foi jornalista, em jornais como Magyar Szó (Palavra Húngara)

Zsidó Jövö (Futuro Judeu) e na revista Fekete Macska (Gato Preto).


Velho companheiro, com o Gato Preto vieram-me à cabeça

outros gatos, outras gatas nocturnas, outras épocas… 



Em Budapeste no início dos anos oitenta do século passado

numa esquina perto da residência da rua Ráday havia um bar 

"Fekete Macska", eu era um törzsvendég (cliente habitual).

Como estava perto da cama, podia abusar e abusei muitas vezes.  


Foi ali entre canecas de cerveja e copinhos de aguardente 

que comecei a série do Gato Preto. No verão seguinte 

o Zetho convenceu-me a publicar em edição para amigos. 


Como não encontro o único exemplar que tinha dos 50

editados por uma tipografia de Almeirim, vou tentar de cabeça  

reinventar um dos 13 textos que compunham a plaquete. 


Por volta dos quarenta, de calças apertadas caminhava pela rua. 

Na cidade não havia quem soubesse dançar assim como ela  

a dança moderna e indiscreta das ancas e das nádegas pela calçada.   

Os homens nem verbo-piropo tinham, calados ficavam sentados 

a olhar, a imaginar outros bailes e outras festas, outros arraiais.



Era tão fogosa que com medo de se queimar, 

ficarem com os dedos esturricados, não havia alma 

que se chegasse à frente, que atravessasse a ponte da fortaleza.

Quem ganhava com a falta de coragem era o gato preto da casa

habituado que estava não a caçar ratos ou pardais, mas a dormir  

na borralha da cinza morna, quentes e boas, entre as coxas da dona.     

 

Hajnal László escreveu poesia, prosa, peças de teatro e crítica literária.


Születik a vers

Ilyenkor tárjuk fel a mellünk,

A napsugárt szívjuk le mélyre

Kitárt két karral ünnepeljünk,

Mert az isten született bennünk,

Dobjunk el minden földit félre,

Mert elindult felénk a Vers...!


Nasce o poema

É chegado o tempo de abrir o peito

Deixar o sol descer até ao fundo,

Festejar de braços abertos,

Porque Deus nasceu em nós,

Deixemos de lado todas as coisas terrenas

Porque o Poema vem ao nosso encontro...!


Nasceu no último dia do ano, 2 depois da madrugada do século XX e em janeiro de 1943, desapareceu como "munkaszolgálat" (recruta forçado sem armas) na Frente Oriental, na URSS. Não se sabe onde nem exatamente quando, como judeu-carne para canhão, desarmado, esfomeado e muitas vezes espancado só porque lhes apetecia.

O munkaszolgálat foi uma instituição militar especial criada na Hungria durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto. Era um “serviço” de guerra realizado nas forças armadas húngaras, mas sem armas e exclusivamente sob a forma de trabalhos forçados. Normalmente nos combates iam à frente dos soldados do exército húngaro.


Budapeste, 2 de março de 2025


Éva élni akar (Éva quer viver). Em memória de Pajzs Elemér

 

A Pajzs Elemér (1894-1944)


A Éva desta história, ao telefone não parava de falar. 

Falava, falava e sorria dos seus lindos olhos escuros 

lanternas para os lábios finos e a sua boca bem feita. 

À volta todos sabiam sobre de que falava com a amiga. 

 

Para os curiosos, a história conta-se em um minuto.  

No sábado à noite tinha estado com colegas do trabalho 

a beber uns copos, alguns cocktails e sem se dar conta 

tinha-se deixado seduzir, na verdade tinha seduzido 

o empregado mais jeitoso do famoso bar em ruínas. 

Ia ter com ele. Há muito tempo que não estava tão feliz. 

 

Tinha um cabelo louro que chamava a atenção

e apesar da pouca luz, fim de tarde de um dia escuro

- ainda não tinham acendido as luzes do eléctrico -

via-se um rosto perfeito e umas sobrancelhas cuidadas.

 

As unhas arranjadas, discretas destacavam-se.  

Estavam pintadas de azul com tons de março 

mês que anuncia e desperta paixões ardentes.

Éva era a jovem mais bonita das viagens da semana

(mas também é verdade que era só segunda-feira). 

 

Seria Éva ou será que fui eu que inventei o nome  

à jovem e esbelta desconhecida sentada à minha frente? 

Talvez porque nesse dia tinha estado a ler Pajzs Elemér. 

Um texto escrito há mais de cem anos e que não disfarça 

o erotismo natural de um convertido askhenazi húngaro.

 

Éva élni akar (Éva quer viver)


Talvez seja desejável. Sabeis isto, mãe.

Eu quero viver. Amar. O meu marido, se tiver um.

Ou outro homem... O meu sangue é quente... quente...

Peço desculpa mãe, por dizer estas coisas.

e se te zangares, deves perdoar-me, sou uma rapariga velha.


Velha. Vinte e oito anos. E o meu sangue é quente. A arder...

a arder, a fermentar como mosto. Eu quero amar...

Pajzs Elemér, 1912

 

Escritor que encontrei com as pesquisas e preparação 

do livro de homenagem aos dois diplomatas portugueses 

- Sampaio Garrido e Teixeira Branquinho -

que em Budapeste no ano 1944 salvaram do holocausto 

a vida a cerca de mil judeus húngaros. Gente valente!

 

Pajzs Elemér, nascido Schön Elemér, escritor, jornalista, autor de peças de cabaré e tradutor literário. Judeu-húngaro convertido, foi um grande admirador de Salazar. Visitou e escreveu vários artigos sobre Portugal. É o autor do livro "Salazar: Egy kis ország nagy építője", 1942 (Salazar: O grande construtor de um pequeno país), mas nem a proteção portuguesa o salvou da morte. Em 1944, Elemér estava com a mulher e o único filho numa casa protegida da legação de Portugal e foram os três assassinados por milícias do partido nazi húngaro. 

 

Budapeste, 3 de março de 2025


Ilyen az élet (É a vida). Tributo a Rejtő Jenő (1904-1943)

 

Rejtő Jenő, nascido Reich Jenő, pseudónimo P. Howard.

Em jovem também escreveu poesia. 


Most vége... vége... emberek

Bolond az mind ki vár remél

Ősz van az űrben ősz hideg

S a föld a sárga falevél

– (Reich Jenő: Világromlás, 1923 k.)

 

Agora acabou... acabou... gente

Tontos são os que esperam com esperança

É outono no universo, um frio outono

E a terra é uma folha amarela

- (Reich Jenő: Decadência do mundo, 1923)

 

Banana descascada rima com sacana sem vergonha

Laranja cor-de-rosa rima com canja de pato bravo

Ameixa de perna aberta rima com madeixa da menina

Neste mundo paralelo e virtual de tanta esperteza saloia.

 

Porque no politicamente correcto do nosso tempo

temos a guerra quase perdida, a ilusão da liberdade.

Há quem diga com a convicção rasca de ilusionista barato

que chegou a hora de desertarmos, abandonarmos a cidade.

 

Apetece mandá-los um por um para a puta que os pariu

mas a contagem das espingardas é-nos tão desfavorável

que é apanhar comer e calar, deixar-se ficar invisível

porque não foi um ditador que depois de tanto mando caiu.

 

Lembrar como era a vida e a morte há oitenta anos

como era assassinada a cidadania e espezinhada a liberdade.

Não perder a esperança nos homens e mulheres de boa vontade

porque chegará a hora do ajuste de contas, a morte dos tiranos.

Um pintassilgo do povo mesmo escondido não desiste de voar

mesmo disfarçado não deixa de ser livre, de pensar e de cantar.

 

Rejtő Jenő (29 de março de 1905-1 de janeiro de 1943) judeu húngaro, entre as duas guerras mundiais, foi um destacado jornalista, escritor e dramaturgo. Famoso pelos seus livros e novelas - romances de aventura e policiais, normalmente caracterizados pela ironia e o humor absurdo. Como muitos outros, ele também foi levado como "munkaszolgálat" (recruta forçado sem armas) para a Frente Oriental, para a região do Don na Ucrânia, URSS, onde o exército húngaro combatia. 

Não se sabe exatamente como passou Rejtő os seus últimos meses. Sabe-se que mesmo doente, até ao último dia, continuou a entreter e a divertir os seus camaradas de infortúnio. Não se conhece a sua sepultura, nem como morreu. É provável que as cinzas estejam algures na actual Ucrânia independente.

 

Ilyen az élet; egyszer lenn, egyszer fenn. És végre is: odafenn már nem fáj semmi. Rejtő Jenó

É a vida: uma vez em baixo, outra vez em cima. E finalmente: lá em cima, já nada dói.

 

Budapeste, 4 de março de 2025


Mit is akar a hangya? (O que é que a formiga quer?). Em memória de Liget Ernő


Liget Ernő, antes Lichtenstein Ernő (1899-1944)

Doutorado em direito, foi jornalista, escritor e poeta. 


Mit is akar a hangya? (1916)

Szívem, mit mondjak néked el,

hogy tűnnek hosszú évek el,

hogy másnak kéne lenni

s nem lesz belőlem semmi.

 

Szívem, mit mondjak néked el,

szívemben madár énekel

tejüveg gyönyörű hanggal,

mint álomban az angyal.

 

O que é que a formiga quer? (1916)

Minha querida, como é que eu te vou dizer 

Como os longos anos se foram,

Que eu deveria ser diferente

E que de mim não serei nada.



Minha querida, como é que eu te vou dizer 

que um pássaro está a cantar no meu coração

Com uma bela voz de cristal  

Como um anjo num sonho.

 

Em 11 de janeiro de 1945 Ligeti Ernő foi assassinado. Ligeti, a mulher e o filho foram arrastados do apartamento que estava sob a proteção da Embaixada da Suíça, por uma brigada de nazis húngaros e levados para a sede do partido na avenida Andrássy, 60. Ali foram torturados e à noite executados na Praça Liszt Ferenc, por ordem do Padre católico Kun András, criminoso de guerra que foi enforcado em setembro de 1945. 

O filho Ligeti Károly (1928-2015) sobreviveu milagrosamente às balas, em 1946 emigrou para a Alemanha e em 1950 foi para os Estados Unidos.

 

Não me digam mais nada senão morro (Ary dos Santos)

Não me digam nunca, nunca mais que os judeus 

tanto irritaram tanto provocaram tanto enraiveceram 

que alcatroaram o caminho do seu próprio destino. 

 

Que eram um corpo estranho, um inimigo da nação 

que se puseram a jeito estavam mesmo a pedi-las 

que comeram a sopa que eles próprios cozinharam.

 

Não me digam mais porque como ainda estou vivo

não tenho alternativa, não vou calar e ficar em silêncio 

antes de morrer vou disparar a matar para nos tentar salvar. 


Shoah nunca mais! Não aos outros genocídios!

Levantar a voz de protesto e de luta, denunciar 

os genocídios sejam de ontem, de hoje ou de amanhã.

 

Budapeste, 5 de março de 2025

 

Carta-Tributo ao Professor Szerb Antal (1901–1945)

 

Mensagem para aqueles que por acaso venham a ler esta carta sobre

a intolerância, discriminação e racismo assassino, que na minha opinião

continua mais actual do que seria racional. Oxalá esteja enganado.

 

Prezado Senhor Professor 

Se lhe dá alegria, gostaria que soubesse que mesmo morto

mesmo ausente, continua presente e é mais consultado

do que a maioria dos seus compatriotas contemporâneos.

 

Eu sei das 3 leis anti-semitas, como os fascistas húngaros o trataram

como o perseguiram, o proibiram de ensinar, de publicar, de viver

como o internaram no campo de trabalho forçado de Balf

como o assassinaram quando de tão enfraquecido já não rendia.

 

Mataram-no à coronhada no dia 27 de janeiro de 1945

quando era evidente que a guerra estava perdida para a Alemanha 

dia da libertação de Birkenau-Auschwitz pelo Exército Vermelho. 

Hoje é o Dia Internacional das Vítimas do Holocausto.

Um dos exemplos das tragédias húngaras no século XX.

 

Apesar de muito religioso, nascido judeu, mas católico convicto  

o jovem Antal amou como se não houvesse um minuto a perder. 

Nem sempre foi bem-sucedido, mas tal não o fez desistir. 

Com Klára, a segunda mulher, encontrou o seu próprio romance 

aquela que foi a sua companheira até ao último dia da sua vida. 

 

Excerto de um soneto escrito com 22 anos para uma colega universitária.

(Como ela não lhe correspondia, casou-se com a irmã 5 anos mais nova.

Casaram e divorciaram-se 2 vezes.)

 

A távolságot szeretem miköztünk. (...) 


Te meg én, világ két sarkából jövők, 

a testünk más – szőke a Te hajad, 

a vérünk más – az enyém nyugtalan 

s integetnek idegen jövők – 

a vágyunk mégis egyfelé halad

(Részlet: Violaine-szonett), 1923

 

Gosto da distância entre nós. (...)


Tu e eu, vindos de dois cantos do mundo,

os nossos corpos são diferentes - o teu cabelo é loiro,

o nosso sangue é diferente - o meu é inquieto

e acenam futuros estranhos -

mas o nosso desejo vai na mesma direção.

(Excerto: Soneto de Violaine), 1923

 

Permita-me a minha resposta, a minha interpretação:

Para saber dar valor à vida, do amor partilhado com a dor

à ansiedade virtuosa de quando moramos na mesma casa

à exaltação da emoção quando dormimos na mesma cama

e à intensidade da sedução quando habitamos um no outro. 

 

No mundo das nossas vidas, da ternura partilhada com amargura

a distância é o selo de garantia dos domingos do nosso Amor. 

o certificado fugaz das manhãs frias e das tarde perdidas. 

- Dos cinzentos dias da semana em que nada mais acontece. 

 

Em nós a distância com desencontro e ausência é nosso refúgio,

o melhor do nosso caminho, a flor da madrugada, a luz do luar. 

Para nós a distância é o triho que nos leva ao nosso destino.

 

Szerb Antal foi uma das principais personalidades da literatura húngara do século XX. Nasceu em Budapeste a 1 de maio de 1901 numa família de judeus convertidos ao catolicismo. Com uma grande apetência para os idiomas rapidamente se destacou como escritor, tradutor e historiador da literatura. Estudou alemão e inglês na Universidade e obteve o doutoramento em 1924, com apenas 23 anos.

Viveu em França, Itália e Inglaterra. Regressou em 1933 e foi eleito presidente da Academia de Literatura Húngara. Em 1937 tornou-se professor de literatura na Universidade de Szeged, ano em que publicou a sua obra mais famosa “Viajante à Luz da Lua”. 


Budapeste, 6 de março de 2025


Sem Destino. Tributo a Kertész Imre (1929-2016)

 

Tributo a Kertész Imre (1929 - 2016)

Aos seus livros, incluídos os que eu não li.

Texto poético dedicado a Ernesto Rodrigues, com o seu

extraordinário livro “Hungarica” aqui à mão de semear.

 

Kertész leszek fát nevelek (József Attila)

Jardineiro serei as árvores cuidarei.

 

Retiro uma a uma as pedras do Coração 

com elas enfeito e decoro o nosso jardim 

e protejo a velha árvore da nossa Paixão 

desse Amor que eterno ficou em mim.

 

Do tempo em que menino a literatura degenerada 

andou a sofrer e a arrastar-se pelo Sorstalanság 

Sem Destino, a morrer por Auschwitz e Buchenwald.

 

O poema cheira a água do riacho do seu ventre

e como eu não fui prisioneiro nem sou sobrevivente

não associo o cabelo rapado à falta de um pente.

Navego somente do meu sonho até à sua nascente.

 

Vegsö kocsma - a última tasca da última estação do comboio.

- Dos vagões de gado para o matadouro do destino marcado -

A estação sem regresso e se há regresso é porque o milagre existe.

 

Não haja ilusões ou ingenuidade mimada pela celebrada libertação.

Totalitarismo rima com submissão, com obediência e capitulação 

e provavelmente só se pode vencer se derrotado por outro totalitarismo.

- Mais forte e mais cínico e nós a fazermos uso cartesiano do optimismo.

 

Budapeste, 7 de março de 2025

 

Passei alguns meses na preparação e seleção dos escritores: 6 mártires e 1 sobrevivente do Holocausto Húngaro. Escrevi os 7 textos nos primeiros 7 dias de março de 2025.


Budapeste, 8 de março de 2025


terça-feira, 8 de agosto de 2023

 


COM AS PALAVRAS ATÉ AO FIM



Palavras e as Minhas Metáforas
Mulher com Mar no Olhar
Caminho e Solidão das Palavras
Provérbios com Palavras
Textos e Panfletos do Contra 



Pedro Assis Coimbra

PALAVRAS E AS MINHAS METÁFORAS


 
La chanson du vent te dit que mon amour t'attend. 
Boris Vian

O amor que move o sol e as outras estrelas.
Dante Alighieri




Levantar o meu copo de vinho
 
Quero levantar o meu copo de vinho tinto
a tudo o que fui e não fui e gostaria de ter sido
ao que a vida me deu e ao que eu fiz pela vida
a tudo o que deixei por fazer e não foi pouco.
 
Mesmo em pleno outono avançado da vida
mais inverno que outra qualquer primavera
não quero por nada que este meu tempo
comece a recuar e a fazer marcha atrás.
 
Como outros já antes e melhor o disseram
para mim, saudades só de ti, só do futuro.



Até ao fim das palavras 
  
Podia escrever a linha imperfeita das mágoas 
que trazia de volta as sombras das lágrimas
o amanhecer adiado das suas águas tépidas.
 
Mas um dia de surpresa entre gargalhadas
entornou parte do seu perfume na minha alma 
que ali ficou e estará até ao fim das palavras.
Para viver à luz dos mistérios da nossa história.
 
A fragrância suave dos relevos doces da sedução
espelhada nos seus olhos - filha preferida do mar 
navegava nas ondas com a salmoeira da emoção.
As carícias lisas das minhas mãos de tanto amar.
 
A primavera está a chegar em força e em festa
que sejam dias e dias pintados de muitas cores
com muitas flores com dálias e malmequeres.



Ruas da cidade

Nesse dia caminharam pelas ruas estreitas da cidade
Iam de mãos dadas lado a lado nas folhas da lembrança
Não sabiam o que os esperava na esquina da Saudade 
Antes de regressarem de táxi aos abrigos da bonança.

Sentiam que quando a lua chegasse para os abraçar
Já não seria muito cedo para quem tanto tinha para dar.
 
Noite de luar com muitas aventuras para partilhar
Inspiração que vinha da certeza de cada momento
Na calçada quem poderia tanta paixão adivinhar? 
Amantes que juntos perdiam a noção do tempo.



Palavras ditas por uma mulher
 
Comprei uma caixa de lápis de cor para ajudar.
Diz-me poesia, como posso dar a volta ao texto
como fazer que sentir e inventar, como escrever 
como se fossem palavras ditas por uma mulher?
 
Um pensamento, uma mente ousada e livre 
que dizia atardar-me e eu entendia deliciar-me   
poder ver no fundo da mensagem dos seus olhos.  
- Ontem foi a noite que sempre sonhei para nós.
 
Como estou preguiçosa entre pétalas de jasmim 
peço-te que me tragas um café curto sem açúcar 
com um beijo abrasador e uma flor do teu jardim.
Depois vou-me vestir e do nosso amor me enfeitar. 



Uma poça de água 

Introdução
Seja de hoje de ontem ou de amanhã
é uma bela e maravilhosa fotografia
de uma sensualidade encantadora
com essa luz fantástica do pôr do sol.

Os amantes de Lisboa abrem os braços ao desejo.
Entregam-se ao beijo no nascer da lua à beira Tejo.

Continuação
No recanto interior da pequena baía
que nos protegia das marés imprevistas
havia um búzio entre os teus seios.
Do encantamento pareciamos perdidos

Para nos encontrarmos e nos fundirmos
com o regresso à praia na barriga das ondas
e uma concha negra entre as tuas coxas.
Uma poça de água de ventura e descoberta.



Chuva de pouca dura 
 
Era um poço fundo e estreito que indicava
nos dizia para refrescar a cara da horta.
Depois uma chuva morna de pouca dura 
que mais fazia lembrar o sabor da tua boca.
 
Sim, quem nada quer, nada consegue 
mas aqui, pelo contrário ela tudo fez.
Era o sol na figueira e mulher meia nua
de tanto seduzir nem o melro lhe resiste.
 
Ainda estou com o cabelo molhado
das carícias infinitas das tuas mãos.
No final sinto o coracão com mais fome
das tuas palavras e da nossa saudade.
 
Uma opinião criativa, muito atenta
de quem desconfia do verbo insinuar
e não o troca pela sua arte de encantar. 
 
Intuitiva como o grande espelho de sala 
que a devolve, me mostra e a ilumina 
e deixa resplandecente a minha janela. 



As noites da vida

Se um dia soubesse escrever
as palavras para um só poema
haveria de dizer em voz alta
para quem me quisesse ouvir.

Que este amor que sinto por ti
se escapou de uma fina falha
que tinha esquecida dentro do peito.
Milagre sentido num dia de inverno.

Desde esse momento a tua presença
deu voz à razão da minha opção definitiva
de substituir as velhas por novas palavras
para poder saborear as tuas metáforas.

No pátio interior desta história 
tu és a estrela da manhã
o sol forte do meio-dia
a lua das minhas noites.
- O cobertor do meu sono.
- Os dias e as noites da vida.



Pequeno milagre da mina
 
A framboesa mais deslumbrante da minha rua
às primeiras horas do dia passeava quase nua 
vestida pelo sorriso da lua que a imaginava sua. 
 
Um corpo que pela manhã se assemelhava à água
pronto a ser cantado para regalo dos ouvidos
que corria da bica da fonte na festa dos seus peitos
e ganhava voz de cigarra na noite toda da dádiva.
 
A atração irresistível que tanto desejo acendia 
a um coração que ficava a descansar junto ao rio
com a mão deslizando por entre a roupa mais clara
enquanto ela se abandonava como terra em pousio. 
 
Navio calmo que lentamente nos encaminhava  
enquanto ao acaso os dedos procuravam a entrada   
o cheiro profundo do pequeno milagre da mina.



O perfume por descobrir 
 
A vontade do refrão de se aconchegar   
andava por aqueles lados meio perdido   
sorriso vadio que disfarçava a impaciência   
de chegar depressa ao seu destino   
e a sua sombra a contraluz abraçar.
 
Por onde será que ele se demorou   
se era para chegar bem mais cedo   
e atrasado só agora aqui chegou?
 
Se o regaço fosse a cacimba do riacho   
teria o esplendor húmido do mármore   
a embriaguez anunciada do vinho novo   
os lábios subindo docemente as colinas.   
O perfume intenso da vida por descobrir. 
 
Pedaço de terra primeira do sonho
desejo banhar-me nos teus olhos
perder-me nos corredores do teu corpo.



A geografia do teu país
 
Trago ramos de papoilas e alperces maduros
que ao fim da tarde apanhei pelo caminho
segredos e narrativa de algumas aventuras.
Eu retiro o lençol que afinal não te protege
e olho com atenção a geografia do teu país.  
 
Venho aqui para te acariciar enquanto dormes
saber a tua essência mais íntima de mulher
é comovente sentir os meus dedos na tua pele.
Destino maravilhoso de me deixar fascinar
nos vestígios e nas humidades do teu prazer.
 
Flor de rosmaninho penso em ti a cada momento.
Quero sem rima contar-te o meu sonho de amanhã.
Na tecelagem das palavras artesã do meu coração. 
Quero escrever-te até não ter mais nada para dizer.



Na esplanada do bar
 
Na esplanada do bar no anoitecer da cidade   
ouvia-se uma voz vinda de dentro do seu véu   
descendo afoita às escuras sem destino certo     
debaixo das mil luzes ciumentas do novo céu. 
 
Atrás de ti murmurando palavras indecentes   
os teus frutos propriedade das minhas mãos   
e sem pressa os dedos alisando o terreno  
até ao fundo da tua alma, até ao fundo de ti.
 
O intenso relevo da sedução tão próxima    
com os teus seios, os teus lábios agridoces   
a pele do teu ventre e a encosta milagrosa   
até a nascente do lago ou desse rio calmo.  
 
Puxa o fecho do vestido e desce lentamente   
os lábios à medida que o fecho vai abrindo.   
Segue-lhe o trilho e não pares de me beijar.

Abrir as asas e voar

Deslumbrante estava sentada até a magia da perfeição
sítio que pela sua resiliência persistente lhe pertence.
Bosque ou destino que merece pela entrega e sedução
viagens e doce descoberta de ave migratória e livre. 
 
Depois abrir as asas e voar mais alto e mais longe  
para sentir o pão em si, a conquista da liberdade  
por debaixo das penas em cada cm2 da sua plenitude  
ou quando exige silêncio, que não a olhe nem lhe fale. 
 
Que se escreva de vez para que se saiba a verdade.
Nada se assemelha a esse amor e a essa devoção 
a essa comunhão, a esse clamor, a essa paixão. 

Denominada património sentimental da humanidade
que neste caso particular poderia ser simplesmente
património pessoal e intransmissível do meu coração.



No início dessa aventura
 
Na estação da palavra, no início dessa aventura
em silêncio ou de voz aberta gostaria de sublinhar
para que não fiquem dúvidas por falta ou omissão 
- tudo o que de mais íntimo penso e deixo escrito
é-me ditado por esse fogo que não pára de ditar.
 
Porque se és a nascente, na cidade sou a fonte 
somos o cântaro de água para saciar a nossa sede.
As minhas metáforas nascem e crescem por ti
para ti e são tuas para o que falta da minha vida.
 
Agora vou regar as minhas novas plantas
porque ontem à noite acabei por não o fazer.
As flores em botão que no domingo comprei
para felizes na primavera nos sorrirem 
e perfumarem as ruas do nosso entardecer.



Praça das nossas promessas

Primeira versão
Eva, do verão muito quente estava nua no alpendre 
com as entradas do corpo à mercê da boa serpente 
feita homem da vertigem, feito Adão de fogo ardente. 
A ceder ao pecado, a merecerem o perdão da noite.

Segunda versão
Sabia da terra amanhada e cultivada
que bem cedo prometia abundante colheita.
Era a noite do dia, dessa lua tão desnudada.  
Suspiro, é esse o meu espirro de amor!
 
A lua cheia a morar entre o sol e a terra 
e lá do alto a olhar por nós pecadores.
A sementeira desalinhada pelo vento.
 
Pelos nossos frutos os nossos alimentos 
os nossos outonos e os nossos invernos  
o nosso março, a alegria da nossa festa.
 
Na praça de encontro das nossas promessas
porque a terra atrai a lua e a lua atrai a terra 
e até os cães se calavam à nossa passagem. 
 
Sabe-se que a vida começa com a lua nova 
e atinge o seu apogeu com a lua cheia. 
Será assim o amor? Será assim o nosso?



Celebração e adeus

Primeira versão 
O espelho de mão do olival a madrugar  
sentia o encanto da colheita dos frutos 
e a doçura da sua compota por degustar.

As azeitonas maduras dos seus olhos.  
O vale profundo, as uvas do seu olhar.
Está tão distante como se quer mostrar?
 
Segunda versão 
Durante a noite enquanto não sonho nem durmo 
os fazedores de opinião com o seu bom senso 
dizem-me convictos agora mais do que nunca.
 
Nos casos da poesia sem rosto nem rasto 
com as pegadas do pouco tempo que resta
os anos não perdoam a ninguém, nem ao poeta.
 
Ser urgente, chegou a hora de assumir a ventania 
o outro cinzentão das nossas vidas como futuro.
Da celebração do amor e do adeus mastigado. 
O melhor das memórias? O tempo passado contigo.



Malmequer a rimar

Bem-me-quer. Bem-me-quis. Mal-me-quer.

Malmequer porque me queres convencer
aqui de pé ao balcão da nossa pastelaria
que já não conto e me ofereceu uns patins
me pôs na lista dos que lhe são indiferentes.
Mudou de página e já não gosta de mim?
 
Nunca te esqueças que para me teres
tens de me conquistar todos os dias
seduzir no início de todas as noites
porque todos os dias sou outra aventura
que floresce nos olhos e canta a ternura.
 
Malmequer a rimar, flor que não sabe mentir.
Quando se perde a magia é o fim da poesia.
Fica para nos lembrar o amor que acabou.
Para acompanhar a saudade da distância.
O vazio e o quase tudo da sua ausência. 



Partir é prolongar o coração

Primeira versão
Da sedução, soube um dia
que a sua alma era feita
do tecido mais vulgar 
o mais reles de todos.
 
Por isso e para não naufragar, 
fez-se ao mar, para por entre as ondas navegar.
Sabia, partir meu amor é prolongar o coração.
 
Segunda versão
Foi nas areias húmidas da maresia da manhã
que chegou a notícia do outro lado do destino.
- Está na hora da partida de se pôr a caminho.
 
Da sedução, entre lágrimas e acusações
soube sem remissão que a sua alma mal nascida 
era feita de tecido barato, o mais reles de todos.
 
Por isso e para não naufragar, fez-se ao mar
para, por entre as ondas, poder navegar
porque sabia, recordava um texto anterior
- Partir meu amor, partir é prolongar o coração. 



Triste entre a gente

Aqui estou de olhos abertos, contigo no pensamento
como sempre acontece quando estou só entre gente. 
 
Em divagação refazendo o momento da chegada
já com o bilhete na mão antes da nova partida 
da viagem prolongada ao fundo do teu mundo.
As palavras de arremesso de palácios prometidos
e a ilusão de quando ainda havia bairros operários. 
 
Lamentos pelas juras antigas trazidas pelo vento 
para espairecer e desanuviar, distrair e se entreter.
Como desde o início se sentia, que o nosso tempo 
já não o era, nem tempo para recordar e reviver
os momentos que vivemos. Seria melhor não dizer?
 
Aqui estou de olhos fechados, contigo no pensamento 
como sempre acontece quando estou triste entre gente.  



Não são o mar que já foram

Discreta e calada a dúvida estendia-se pelas dunas
dissimulava-se como tomilho no chapéu de aba larga
colava-se ao sal, às rochas verdes de algas pintadas.

Não te chega a atenção e paixão, o amor que te dou.
As minhas palavras já não são o mar que já foram
as suas ondas já não molham, limpam as tuas praias.

Posso responder com os versos cantados pelo povo?
"O mar enrola na areia, ninguém sabe o que ele quer"
o meu enrola na tua, sabes muito bem o que eu quero.

Sentia as tuas mãos que não sabiam onde pousar
como os barcos e a tripulação, as famílias em aflição.
Grandes tempestades é o que anseia a nossa paixão.



Morte da memória 

Cartografia de luto, chegará o dia minha flor 
ainda que a mãe-terra não falte com o seu calor
e a fotografia nos traga de volta o nosso clamor 
que até o amor mais profundo morrerá de dor.
 
Lembro que foi nas raras tardes de abundância
era na fonte da tua boca que recolhia as águas
que guardava para quando as noites e os dias
fossem ocupados por desertos frios e sem vida.
 
Ainda que a entrega, a paixão fosse tão notória
esse  amor para ser verdadeiramente eterno  
como dizia a canção, um dia tem de acabar.  
Para ficar até à morte, à morte da memória. 
As carícias da alegria podem não mais voltar. 



Verão quente

Acordar na manhã seguinte à nossa noite   
com a colcha, a manta aos pés da chama.   
A toalha tinha ainda bordado o teu perfume   
que nos convidada a continuar na cama. 

Não eram rosas cansadas em ramo sisudo 
sem o sorriso aberto das begónias da paz.
Era tão só a túlipa mais bela do passado
que nas coisas do sonho tão bem nos faz.
 
Estavam tanto no fundo da alma um do outro
que bastava uma brisa, um nevoeiro teimoso  
para fazer de um detalhe ou de um pormenor
de um nada, um alçapão maior ou ainda pior.
 
Eu estou na margem da ternura onde te espero 
na almofada com a tua sobremesa preferida.
A interpretação da filosofia no começo da tarde 
na caligrafia do verão quente da sensualidade.

 

No teu café com devoção 

 
Dizem que grosseiro o inverno chegou 
e que gélido pela casa dentro entrou
o calor do nosso namoro quer congelar
e o melhor dos pensamentos apagar.
 
Porque para acender a nossa lareira
não há como ter boa lenha guardada
com as achas prontas do melhor fogo.
Com as brasas de desejo do teu corpo. 

Lembra-te daquelas fugas douradas 
pautando silêncios que crescem em flor
no murmurar das pétalas mais valiosas.
O salvamento da barcaça frágil do amor.
 
Subimos as encostas do primeiro anoitecer
levando nos bolsos a luz até amanhecer.
De manhã bebe-me no teu café com devoção.
Preciso de ti para os meus olhos terem vida.



As semanas sem nós

“Tu, céu claro sobre mim,
Quero confiar-me a ti.”  Lou Andreas-Salomé
 
Há muitas luas que os campos tinham sido abandonados
Desejo maior do mundo, os pensamentos estavam em ti 
Não havia tempo a perder era imperioso chegar ao cais
Abastecer de mantimentos que fazem a terra ser gente.
 
“Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua?”  Rainer Maria Rilke
 
Percorrer lentamente a tua sombra antes de me fazer anunciar 
Juntar nas minhas mãos todas as carícias das semanas sem nós
Procurar no teu peito as marcas mais íntimas da minha paixão 
Recolher no teu regaço os sinais mais profundos do nosso amor. 
Saberão as minhas palavras encontrar o caminho do teu coração? 



Convidava a sonhar

“O despertar das pedras,
os abismos com que te deparas.” Rainer Maria Rilke
 
Com um irresistível charme e uma elegância de esplendor 
Sorriso que convidava a sonhar de tão contagiante e sedutor 
Se ela fosse a rainha do povo, seria uma das mais esbeltas 
Das mais poderosas e admiradas, perfume único da história. 

A pensar em ti de forma profana escrevi que se fosses igreja
terias a arquitectura perfeita, serias uma basílica bizantina.
 
“Espaço e mais espaço é o que quero sobre mim!
Para ajoelhar-me sobre o azul e venerar-te.” Lou Andreas-Salomé
 
Com o bater do meu coração das ondas salgado  
É por entre as margens dentro de mim que corre 
O rio cheio que desagua lento no fundo do teu mar.
 
Entrega-se feito fogueira azul no porto de abrigo 
Junto à embarcação que adormeceu nas areias 
Onde estamos de mãos dadas e braços trocados 
A arder na humidade da noite, no murmurar das brasas.



Voltar ao cais

“Com todas as minhas forças te aperto!
Que as tuas chamas me devorem.” Lou Andreas-Salomé

O beijo vinha de longe e para chegar
A tempo e tão depressa como o carinho 
No seu ardor não parou nem descansou
Não perdeu nem um minuto no caminho. 
 
“Depois regressa o silêncio.
Os meus olhos, muito abertos, pousaram em ti.” Rainer Maria Rilke
 
Depois da fome marinheira e da sede na fonte saciada 
Depois da festa do reencontro chegou a hora da partida 
Para um regresso de promessas entre beijos demorados.
 
E os seus lábios? Perderam-se na água ou no fumo? 
O barco saiu do porto sem ventos fortes nem rumo 
O único desejo era voltar ao cais e aos seus braços.  



Nas minhas asas

Se até hoje ainda não tinha sentido
é porque contigo estava destinado
que haverias de ser tu o primeiro
a fazer-me conhecer este sentimento. 

Onde a imaginação e a fascinação
de um contentamento assim sem fim
é o começo da minha melhor excursão.
- Deixa a porta sempre aberta para mim.

A bela e terna ave que me acompanha
com a sua penugem suave e colorida
e que elegante me envolve e me fascina
me prende, me seduz e me liberta.

Finalmente livres pego-te na mão
e levo-te comigo nas minhas asas
até às sombras dos ramos e das copas 
até à invenção de novas madrugadas.

Tenho vindo ao longo dos tempos
a deixar pelas ruas pedaços da alma
a espalhar pequenas histórias de amor.
- Uma é minha, outra é tua
e a outra é de quem a escrever.



Inventar a festa e documentar o prazer

Os braços pressentiam a chegada da maresia
por ela tão desejada, destacavam-se ousados
nos detalhes íntimos das suas vestes de fantasia.
No sorriso, no convite mais lindo dos seus olhos.
 
O morango da minha horta, amargo sei que não era. 
São doces para os amantes os frutos da primavera. 
Ela para com sensualidade à noite se despir para ele 
de rendas se vestiu por debaixo do seu vestido leve.
 
És toda a minha vida. A alma da outra parte de mim.
A minha inspiracão para descobrir o mundo da alegria.
Espalhar ao vento para que todos os viajantes saibam.
Para inventar a festa e documentar o prazer da poesia.



Amor da melhor malha

Há uma obra-prima que realizamos os dois 
tu com a tua meada de fio e eu com a minha.
Hoje tecemos o nosso amor da melhor malha
com as linhas entrelaçadas e rolos de entrega. 
 
Artesã jeitosa e jovial da rua que fica em cima 
de pernas à mostra, sentada no degrau da sua porta.  
Mulher que com os seus diligentes e hábeis dedos 
todos sabem, faz o melhor crochê do seu bairro  
e colorir como ninguém o pasmo do inverno cinzento. 

Crochet valioso deixe-me aprender com o seu jeito 
experimentar a sua agulha e algum do seu fio. 
Luz da lua para viver com o vento o resto do tempo
passageira do sonho que chegou de madrugada
a rimar com desejo, a rimar com pêssego maduro.  



É aí a minha casa

Diziam como quem reza por um deus maior
feito homem e feita mulher: O verdadeiro amor 
é onde nos sentimos desejados e compreendidos.
O nosso amor tem chão, sala e lareira, o quarto 
e muito mais para nos conhecermos um ao outro.
 
Ainda te lembras do dia primeiro em que cúmplice  
a cidade nos recebeu? Era janeiro e chovia, chovia 
como era hábito, mas nem a chuva nem o frio 
sentíamos, e até sonhamos uma banda de música 
de boas-vindas para o desfile folião da felicidade. 
 
Por ser assim, porteira portadora das chaves 
dos portões para as catacumbas do meu mundo. 
Quero que saibas que lá onde bate o teu coração 
seja aldeia, vila, grande cidade ou terra sem nome
é aí a minha casa onde eu moro e cuido das árvores.



Acácias da mesma raiz

Próximas de ti escorregavam no licor das pedras
junto à margem do rio, nos espelhos dos dedos
com as rimas exactas pelos jardins do teu peito
bem guardadas no bolso, no navio das promessas.
 
Minha alegria renovada meu passeio de mãos dadas
pelas avenidas sem fim de uma desejada aventura
onde tu, meu amor, és o meu sal e eu a tua doçura.
Quem diria, mas porque o nosso tempo não condiz
é conversa fiada que nos encontraremos em Paris.
 
Abraça-me forte, sem dó para que pensem ser só pó
e os nossos beijos serão a voz mais falada entre nós.
Memórias da mesma terra e acácias da mesma raiz.
Digam, será que nestes dias ainda é moda ser feliz?



Um sorriso assim

Se não fosse a vida valeria a pena inventar?
Valeria a pena recriar os sonhos dos outros
sentir os melhores momentos nunca vividos
escrever do passado para no futuro recordar
para o presente de promessas prolongar?
 
Numa mistura de curiosidade, excitação 
e amor, procurei-me nas tuas palavras. 
Quis ver-me nesse espelho sem fim
que resulta da tua atenta observação 
do estudo cuidadoso que fazes de mim.
 
Se estivéssemos deitados ou sentados lado a lado 
ia pedir-te que em voz alta me lesses o teu poema 
e me desses um breve e ligeiro beijo a cada palavra 
que dissesse em segredo o meu nome. Sorrio… 
Quanto não vale um olhar e um sorriso assim?  
 
Diz-me amor, seriam muitos os teus beijos? 
Não sei porquê, mas sinto que a tua leitura 
não iria muito além do primeiro. Sabes que sorrio...
Há quanto tempo esperava um sorriso assim!  



Linhas retas da geometria 

Frase do dia. De triângulo em triângulo 
no estúdio onde a tinta corria até a noite ser dia
e a jovem modelo sem pressa se vestia e se despia
nos olhos do pintor se encontrava e se perdia.
 
Frase da noite. O desejo confesso do pintor 
era pintar à mão um azulejo, um quadrângulo. 
do musgo escuro que seria tão bom percorrer.
 
Na tela a caneta comovida do poeta dizia 
como fazer linhas retas da geometria dessas curvas. 
Diz, que pintaria o poeta? O pintor que escreveria?



Alma de alfarrabista

Para uma última vez amolar as palavras
Com o violino e a harpa da nossa melodia.
Com a chegada do verão afinar as metáforas
Que nos afastam do frio e trazem a poesia.

Era um local muito próximo da povoação
Que quando era preciso abrigava e protegia
Libertava o teu coração alegre de gaivota
E da chuva a minha alma de alfarrabista.

Alisar com as mãos os lençóis do mundo
O álibi da noite que nos fazia recordar.
Partir é morrer no deserto árido da alvorada
Partir é viver na vastidão, no oásis do teu olhar.

Limoeiro de abrigo


Depois de muita conversa fiquei a saber que nessa terra
de montes, vales e serras, sapeiro não era ave de rapina.
Queria dizer nevoeiro. Ensapeirado, enevoado e o limoeiro
quando estava neblina, servia de abrigo ao velho sapateiro.
 
Se vais à vila não te esqueças e visita a cabeleireira
e no carreiro temos as nêsperas das melhores nespereiras.
Pergunta se do frio e da braseira lhe voltaram as frieiras.
Aproveita e bebe o café de cevada que faz na cafeteira. 

No chão, no asfalto, nas pedras não cheira a chuva.
Com um tempo tão seco dói ver as flores com sede.
Não sabes mas em menina ganhei os meus calos 
nas mãos a descascar e cortar batatas e cebolas. 

Eu existo! Sim estou aqui. Deitei fogo em ti. 
Deixa-o arder! Ele é a vida que nos faz viver. 



Soneto à caça 
 
O troféu, a peça de caça não interessa 
se nem é necessário ficar à espreita 
para o tiro certeiro, está e não dá luta.
 
A dizer que não vende lebre por gato
que sem sã concorrência e competição 
sem a disputa em que vale quase tudo
nem um pouco lhe chama a atenção.
 
Em terras de perdiz, coelho ou veado 
gosto paladar cheiro carne pele penas 
ou hastes que não tragam apetite novo.
 
Sem nada que desperte os instintos 
anuncie novas conquistas e aventuras
que traga à vida morna novos desafios
e outra vez lhe entusiasme os sentidos.
 
Ouvir a voz terna que espalha graça 
e para destacar a caçadora mais bela
desenhar um soneto ao jogo e à caça.



As amoras dos lábios
 
Primeira versão 
Na luz mais profunda do meu olhar  
Que nas margens se mistura com o teu
No rio onde tu mostras que sabes nadar
Gostaria que soubesses quem sou eu. 
 
Eu vim até aqui para escutar o vento 
Para o sentir em toda a minha pele 
Deixar o meu vestido abrir-se para ele 
Deixá-lo entrar pela minha casa dentro.
 
Segunda versão 
É nos olhares rápidos que trocamos  
Que deixamos escapar o que somos.
Porque há uma mão faminta de novo
Que delícia se afunda toda no lodo
No fogo rosa da bela moça do povo.
 
Escurecida pelas cinzas quentes da noite 
Sobre a imaginação dos caminhos de xisto  
Na planície de seda da sede da sua pele  
Bordada no vitral lento e valioso do vento.
 
No tricot ousado do pulôver cor de mulher  
Acentuada nos seios pelo perfume dos olhos  
Para beber feito homem o néctar do prazer 
As amoras mais saborosas dos seus lábios.  



Corpo em combustão
 
Primeira versão 
Porque os corações são diferentes
também se ama de muitas maneiras.
Eu quero amar com unhas e dentes
e de amor encher as minhas algibeiras.
 
Segunda versão 
Forte a sua cor é como uma linda sinfonia
para cortar uma talhada à medida da boca
deixar os dedos receberem algumas gotas
com sabor à vida que desliza húmida 
pelos lábios entreabertos da sua melancia.
 
Há momentos quando apetece saborear as palavras
como fazemos com um doce ou uma fruta apetitosa
quando o seu gosto ou perfume espalham a tentação.
 
Os desejos e as lembranças dos pensamentos
e como diz em comentário por correio privado
incendeiam e deixam-lhe o corpo em combustão. 



Regressam todos os anos à terra 
 
Regressam todos os anos à terra 
à casa onde nasceram e cresceram.
Felizes lembram juntos outros tempos 
voltam a ser crianças e adolescentes.
 
Reforçam os laços antigos de amizade 
e por vezes começam novos romances 
que ardentes acabam em casamento 
em nada em Lisboa ou no estrangeiro.
 
Gostam de se exibir de mostrar mais do que têm.  
À tarde e à noite vestem as melhores roupas. 
Riem e conversam até às tantas da madrugada.   
 
Na festa entre tanta gente no largo da aldeia 
sentado na esplanada do café em frente 
pediu-lhe com os olhos e por mensagem
para com discrição afastar mais as pernas. 
 
Para que pudesse ainda por uma vez mais   
ver de novo os seus mistérios mais íntimos 
recordar e reviver esses momentos únicos.
 
Recordar o primeiro beijo sôfrego e clandestino 
que iluminou o passeio às escuras da mocidade.  
Os encontros tão esperados do mês de agosto 
e o melhor o mais belo segredo das suas vidas.
 
Que seria de nós gente do povo filhos da terra 
sem a alegria de histórias de amor para contar?



Muguet (lírio-do-vale) de maio
 
Flor singela elegante graciosa perfumada e discreta
ainda que frágil e pequena uma imagem da firmeza.
As flores como as mulheres não se medem aos palmos
nem no número de quantos lhes escrevem salmos.
 
Símbolo da sorte do recomeço de um novo dia lindo
um novo mês e os perfumes do seu jardim por perto.
Com o licor doce da felicidade da festa do regresso
em valioso baixo-relevo de ferro forjado do desejo.
 
Apesar de que tão bem ficam as rosas vermelhas
o tempo é de cultivar lírios-do-vale nos teus lábios.
Povoar de muguet os planaltos e as tuas colinas
guardar as sementes nas tuas planícies protegidas.
 
Tão singela que aqui também se diz flor de pérola
e se oferecem às moças solteiras pela primavera.
Depois escrever no mais alto penedo onde te sentas
Bem-vindo-maio-primeiro-mês-da-flor-mês-do-amor.



Uma manhã mimosa e terna 

Os peitos estavam a menos de um dedo da perfeição 
E sobressaiam redondos por baixo do vestido liso 
Com a luz das areias e o desejo colado ao corpo 
Ainda mais forte e mais intenso que o sal da emoção.
 
Se a paixão não fosse como o sal e não se diluísse na água  
Se as areias não fossem barro sem valor nem designação 
Se amar fora de horas não apagasse as certezas do fogo
Se o amor da falsa fervura não se evaporasse do coração. 
 
Olhavam para o pano de linho ainda preso ao corpo
Olhavam para as mangas curtas da sua nova blusa 
Olhavam para o fino algodão da sua toalha de rosto 
Sabiam do toque que seria uma manhã mimosa e terna.



Deixa-me sem palavras

"E quando houve uma forma só de lábios
erosiva argilosa vigilante
a prolongar o litoral nocturno" Olga Gonçalves

A noite permite fantasias que à luz do do dia
poderiam ser consideradas provocantes.
A noite gosta de decotes, perfumes galantes
audaciosa gosta de ter os homens aos seus pés.

Véus que fazem por nada esconder ou revelar
e se o olhar se atardar em dizer o que sente
os olhos acomodam-se fascinados e quase
se diluem na perfeição pintada dos lábios.

A ousadia do lugar deixa-me sem palavras
momentos de prazer, primeiro as mulheres
mas os homens não se podem lamentar
chegará a sua vez, serão recompensados.

Hoje sem dizer nada a ninguém autorizei-me
a levar comigo essa bela obra de arte nocturna.
Para dizer a verdade que havia eu de dizer se ela
estendeu os braços e perguntou: posso ir contigo?



As Quatro Estações 

Estas palavras que cruzam com a nossa idade 
são para ti, sobre ti, estás lá dentro e há outras. 
Escrever sobre as ondas a minha própria liberdade. 
 
Ouvíamos As Quatro Estações de Vivaldi num dia de verão  
não para inventar ou disfarçar um orgasmo intelectual.  
Porque intensa a música faz bem ao espírito e ao coração.
 
A nossa sorte é estarmos e vivermos num mundo  
maravilhosamente grande e fascinantemente pequeno.  
Recebe meu amor esta flor e um beijo ainda maior.
 
Ao vê-la pensei que era preciso arranjar uma jarra  
se não em pouco tempo iria perder o seu esplendor.  
Encontrei uma que me pareceu perfeita para uma flor.
  
Ela tem a humidade e a luz dessa pequena abertura 
e foi-me dada em troca de apenas um sorriso gratuito.
Entrego-a aos teus olhos, sei que ali irá durar muito. 



Palavras e metáforas
 
Primeira versão 
O mar meigo e o véu aberto de prata azul
de recorte fino dessa brisa que lhes era tão cara
procurava a rosa-flor daquela alma mais a sul.
Acariciava o céu da sua pele de porcelana rara.

Segunda versão 
As ondas meigas da ilha e o luar feito de fios de prata
com as mãos quentes do sol e da paixão vinda do sul
que com meiguice acariciavam suavemente a espuma.
O seu corpo de conchas, de gaivota do doce mar azul.
 
Conclusão 
Ao imaginar e desenhar o edifício principal
de Com as palavras até ao fim 
e com o esboço da nave central
Palavras e as Minha Metáforas 
Mulher com Mar no Olhar 
Caminho e Solidão das Palavras.
 
Quis em mim assumir em primeiro lugar 
a diminuição das palavras e das metáforas
para poder sem filtros repetir até à exaustão
- O mesmo sorriso e os mesmos olhos.
- A mesma boca, lábios e o mesmo olhar. 
A alma talvez mas que faz o poeta do coração?