sábado, 3 de dezembro de 2016

5. Catedral de Siena



Não somos betão nem basalto nem granito 
a arder sem julgamento do inverno ignorado.
Do frio feito cinza fomos nós que resistimos
ao calor sufocante dessa Toscana que pedimos.

Mesmo sem céu público ou com inferno privado
- por vezes é tão fácil acreditar que Deus existe!
Diziamos do lume das pedras em boca pequena
olhando de fora pura a arte, a Catedral de Siena.

Esse sentimento de gente que não mente
gente que sente, citando Dostoiévski livremente.
- Foi a rua que criou o céu. Deus é o resultado 
do trabalho do homem. Assim ousadamente.

Sem medo que o medo menor não compensa.
Depois de visitar a cidadezinha das mil torres
San Gimignano que nos prendeu para sempre.


6. Promessas não cumpridas



Era uma cidade de púrpura proibida
com a porta fechada ao odor do pudor divino.
Era a capital do sol e da lua embriagada 
a dormir na sombra da luminosidade à deriva.

Laocoonte ofício ou sacerdote feito Uffizi 
que descobri de mármore em Florença de granito
as serpentes da justiça fizeram o resto.
- Para que se saiba que saem muito caras
as juras, promessas que não sejam cumpridas.

Parada na periferia delicada do universo
a nostalgia do esquecimento das asas sem voar
janela entreaberta da livraria das ideias vazias.
- Que a sabedoria apoiada pela soldadesca
chega de longe armada, de perto para mandar.


7. Lupanares em Pompeia



Salvé o lucro! A mim o património acumulado.
Depois de Nápoles ainda não esqueci como se dizia
como na pedra se escrevia nesse tempo, casa de putas.
- Lupanares das lobas famintas, dos lobos e dos curas.

Distribuíam senhas por ordem de chegada
por prioridades e direitos previamente adquiridos.
Na recepção a signora - aqui têm para a sua vez.
Mas há sempre um bruto ou resmungão
que explosão dizia - ponha mas é no cu esse cupão.

Sem perder o olhar no horizonte contava a história
do tal que tinha o corno mais duro do antigo testamento
antes ainda de em Pompeia divina se abençoar
a virilidade-olímpica-garanhão do trepa-minas a mamar.
- Até depois do último vulcão continuaram a foder
como se nada de estranho estivesse a acontecer.


8. Jardins de Matisse

”Se os meus dedos pudessem desfolhar a lua” (Lorca)

Sabes esqueci o que queria escrever
mas sei que estava a pensar em ti
em como estavas vestida nesse dia 
distante em que pela primeira vez te vi.

Apanhar o eléctrico e visitar a casa de Chagall
depois mudar de autocarro e de vegetação.
Beijar os teus lábios nos jardins de Matisse
e da insubmissão prolongar a viagem da paixão.

Aberta eras o mapa perfeito da minha vida anterior
que eu tinha deixado esquecido no assento do avião.
Reencontrei depois na fotografia feliz do vencedor
quem agora te cobria o corpo e segurava a tua mão.


9. Phai thai & Bangkok



Arroz para o pequeno-almoço era demais.
Chá de perpétuas roxas contra a queda do cabelo
sabia-me a tofina na garganta de mau cantor
- o chá casca de cebola do país madrugador.
Só da ode não sei se Neruda algum dia visitou.

Sabia-me bem o capim-limão o macarrão
phai thai na hora feito de coisas muito saborosas
que chegavam das aldeias mais próximas.
Gostam dos portugueses os primeiros a chegar.
Gostei da couve-flor no cais do seu olhar.

O guiador à direita e à esquerda o coração
gesticulava sorrindo o taxista de Bangkok
que nos mostrava o milagre perfeito da condução.


10. Amigo P’Nu



Please take of your shoes. Com atenção.
Muito longe de ser até se poderia pensar
na sensualidade nua dos seus ombros
disfarçados no véu pelo erotismo do peito.

Salmão e barracuda diversão e creme de camarão.
Minorias dançam o mundo em grupo fechado
em círculo ao redor da velha árvore da sedução.

Ali há de tudo, mulheres que vão à água vestidas
mães a mostrar a barriga com nádegas a dizer que não.
O desafio do contraditório, a dialéctica da presunção.

Recordar “Feel more taste all” Night Bazaar, Chiang Mai.
Comemorar algures no antigo Sião o aniversário
no ano solar de 2558. Grato, a surpresa organizada
pelo bom amigo thai-portugués P’Nu*. Obrigado.

*Nuno Caldeira da Silva


11. Traição da chuva



Traição da chuva a negação da noite a paixão do vinho.
O oitavo céu da vida, a descida íngreme ao paraíso.
Arquitecto desse corpo que pacientemente projectou.
Sem guarda-chuva o sol brilhava sem piedade nenhuma.

Cabeça de cão folhas de alface portal baixinho.
Mangas de camisa de propósito queimadas à mão.
Passadas a ferro pelo caminho afável do mercado.
Peça ou caçadora, treinada à caça do estrangeiro.

Cuidadosamente atraente lavava-se no alguidar
limpava a roupa da pele mais íntima do seu pão
street food & lamp; laundry para lavar e engomar
com todo o cuidado dos seus dedos de ocasião.

Pequeno sino símbolo do venerado monge irmão
cerimónia sagrada do sol no templo budista da alma.
Uma intensidade no ar. Não queria dizer mais nada.
Apenas ter estado ali de passagem e ter gostado muito.


12. Halal & Kosher



"Prado de las gacelas, refugio para el monje, 
templo para ídolos, Kaaba del peregrino. 
Es tablas de la Tora y libro del Corán. 
Sigo la religión del amor solamente 
a donde sus camellos se encaminan. 
Mi sola fe es amor y mi creencia"  Ibn Arabi:
(Murcia, 28 julio 1165 – Damasco, 16 noviembre 1240)

Ao domingo de manhã depois das missas
bem vestidos levam flores, visitam os mortos
com almoço, como quem dá de comer aos vivos.

Em maré de barriga e leituras de rua, provámos
no sul da Tailândia budista, comida excelente
confeccionada por mulheres da minoria muçulmana
que vive na região. Comida halal garantidamente.

Recordei uma conversa recente de partilha 
e tolerância de uma vivência de Roterdão.
Dizia a mãe do Cairo por telefone ao filho
- se não encontras a comida halal que precisas
vai as lojas kosher, lá de certeza que encontras.


13. Hospedeira & taça de chá



Olhando da cama com um quarto do olho
para as fotos do Elephant Jungle Sanctuary
e o restante para a última viagem a Portugal.

Fruta trazida do teu laranjal
do pomar do bairro da rosa
com a roupa branca no estendal
e o corpo a descoberto na loja.

Acreditem um elefante mesmo não digital
da dignidade tém memória quase eterna.
Um passarão desses grandes de metal
grelhada tém memória de meia-galinha.

A erosão recente da dúvida
pelas areias finas do nosso amor.
Na mercearia gourmet do teu sorriso
a combustão anuncia o nosso destino.

A mesinha curva da hospedeira da wizzair
que mesmo muitos pés acima do solo
sorriso daria para guardar a taça de chá
a chávena de café e ainda sobrava espaço
para arrumar com jeito as mãos na mochila.


14. Bombas & coca-cola



Do lado de cá da fronteira o guarda tinha cara de caso
do lado de lá nem isso, era mais cara de pé ou tornozelo.

Quem casa quer conta e caixa-automática
que o diabo às vezes entra pela pele da janela
vá-se lá saber porquê quando têm a porta aberta.

Pão de milho servido com azeite e sal marinho
e a cerveja batia mais fundo na mesa de azevinho.

Em Belgrado cidade da mulher da roupa branca pensava
a democracia primeiro manda bombas depois coca-cola
ideias em saldo em papel celofane. A mentira propagada.


15. Ester e o Rei da Pérsia



O Rei decidiu mudar de vida e de rainha
e a eleita foi a bela Ester que sendo muito jovem
sabia mais que uma carrada de doutores das leis
que passavam o tempo a comer e a falar do mesmo.

Ai morrem morrem que sou eu que preparo
o veneno da legislação! Não se vão escapar
e os que sobreviverem são trespassados à lança.
- Senhor o meu povo e eu estamos quase a bater asa.

Morde mordes mordia Mordecai e caiu o conspirador!
O amor a paixão misturada com a gratidão eterna
na terra não parou de crescer. Festa, o vinho não faltou
porque os outros ainda não tinham ocupado a Pérsia.

Ester virgem lava-se cuidadosamente sem pressas
sábia sozinha, bem informada tinha a escola toda.
Perfumava-se de mirra de cássia de forma discreta
para ser apresentada ao Rei de todos os persas.


16. Apollonie de Joséphine



A cotovia bisneta da velhinha toda desdentada
por quem a multidão em praça pública rezava
marota fechou a porta mas deixou aberta a janela.
- Quem te viu e quem te vê priminha embalsamada.

Furiosa a serpente pregou uma tal dentada
pobre ninho de pardal da Apollonie de Joséphine
que de tanta tensão tanto homem tanto orgasmo
ficou feita musa-mulher, a melhor escultura de pedra.

Libertárias só falam de sexo quando se pöem por cima.
Até lá discutem a igualdade do cujo e o futuro bio-tomate.
Sem ritmo pedalando a bicicleta querem a luz apagada.
Ele dizia “no creo en brujas, pero que las hay, las hay.”


17. Melancia & Baudelaire



Era a biografia mundana do povo, viajava de metro
por vezes na vertical, na horizontal e vice-versa
sem bigamia proibida feito alfaiate e com muita folia.
O destino era o mesmo, o prazer medido ao decímetro.

Aqueles lábios grossos maduros, a saber a tangerina.
Aqueles cabelos soltos entre as mãos frias do tempo.
Aqueles seios aprisionados pelo vestido da avenida.
Do passeio agora livres pelas carícias fortes do vento.

Muita melancia aberta, amêndoas, muito navio parado.
Muita parceria ousada, maminha de chocolate éclaire.
Regalia e amentolia para abaixo a coisa entrar melhor.
Esteve no vinho, na cama e na poesia de Baudelaire.


18. Courbet & L’Atelier du Peintre


”Entre muitas coisas, tu eras para mim 
uma janela através da qual podia ver as ruas.
Sozinho não o podia fazer” (Kafka)

Dali dizia, perguntem a Courbet a mim não
porque se alguém sabe é ele com certeza
que na origem de um mundo assim, olha-se
não se inventa nem mesmo de pincel na mão.

Muito menos com um bosque tão carregado
e uma relva tão negra. Poder olhar feito corvo 
de novo, bem mais leve no L’Atelier du Peintre
sem pintar a Páscoa, sentar o ovo de Colombo.

É humano escrever: quem tem cu tem medo.
Barca de gata, quem me dera ter o cu que tu tens
com lata dizia sorrindo, peluda de pé na fila ao lado
abrindo os braços com gestos de querer fazer reféns.


19. Vénus du Louvre & Malraux



O primeiro segredo fetiche do mármore
foi confiado à sedutora Vénus du Louvre
que tinha nas suas curvas agora tão próximas
tudo a ver com os olhos da imaginação de Jouffroy.
Mesmo em pedra, tudo a ver contigo, meu amor.

Ela limpava os vidros grossos com precisão
não sei se com os panos do próprio parapeito. 
Sei que os peitos estavam a um palmo da mão
e que sobressaiam lindos de fora da roupa preta
a luz da montra, com o desejo colado ao corpo.

Quem tem frio e sente arrepios, queira por favor
fechar as janelas do corredor. Olha bem velho Malraux
o rabo-museu da bela personagem formatado de mulher.
-”Les artistes inventent le rêve, les femmes l'incarnent."


20. Privatização & braless


Privatização & braless. Sem véu mamas ao léu.
Como se sabe forreta nada por acaso acontece.
Para tanta uva pisada, caiu que nem uma luva
nua ou uma lua cheia antes da coisa do eclipse.

Da cintura para cima apesar do verão topless
têm pouco para mostrar que no peito sai ao pai.
- Tio o que é bom para limpar a boca também serve
para limpar as outras partes, dizia enrolando o tapete.

A privatização do soutien imposta pela nova Europa
associado à escassez crónica do fio, da matéria-prima
deu no orçamento paradigma das maminhas braless.
Sem histeria das coimas no Côte d'Azur a la francesca.


21. Filhas e filhos do povo

”A arte é plágio ou revolução” (Gauguin)

Não é sumo de laranja que os soldados
da Rússia bebem ao pequeno-almoço
dizia-nos com sorriso, muitos anos depois
o membro do governo de um país amigo.

O tempo passa, de barbas brancas costas curvadas
recordava o mel, entre iogurtes e kefir com açúcar
o perfume da primeira tradutora do instituto superior
a professora de russo e a longa viagem de comboio
de Moscovo até Ordzhonikidze (hoje Vladikavkaz).

Os sonhos eram outros e a revolução ainda mais era.
Entre camaradas com fome não se praticava o sexo
nem se fazia amor. Partilhava-se até á última gota
ao arranhão internacionalista, a amizade fraterna
a solidariedade entre as filhas e os filhos do povo.

Pedro Assis Coimbra (2015-2017)