Para o livro "De mim ficam as Palavras"
São palavras sem alma ou sofrimento
palavras sem paixão ou desalento.
São palavras sem pão, fome e sem vinho
palavras vazias, sem sal nem condimento.
Palavras de marcha atrás, à caranguejo
à peixe de viveiro sem espinhas nem espada.
Palavras a passo de cavalo, de boi manso
sem vida, palavras que não nos dizem nada.
Mas há outras, frágeis como um fio de azeite
sem terra, não têm voz nem no turno da noite.
Apesar disso não se pode desistir de escrever
de sobreviver, de despertar, de não adormecer.
São palavras de adeus e alguma saudade.
Palavras de insubmissão e de muita dignidade.
- Quase todas as minhas palavras, é verdade
foram escritas em Budapeste, a minha cidade.
Por que corres primavera
para onde vais com tanta pressa?
Acalma-te, vai mais devagar, se não vais chegar
cedo demais e não vai estar ninguém à tua espera.
Atrasa o passo e desfruta o tempo, os dias por tua
conta.
Dizia divertido e gozão, deixem-no ficar no
inverno
enchem-no de bebida para falhar os seus jejuns
que dele não fiquem memórias nem vestígios nenhuns.
Sim, sabemos bem que para muitos
a má sorte, a fraqueza, a desgraça de alguns
é a felicidade maior de outros coitados.
Menos caracóis e mais romance.
Menos camarões e muito mais amor.
Menos pistácios e mais passeios de mãos dadas.
Mais namoro, mais ternura e mais alegrias partilhadas.
Vale a pena recomeçar, a primavera está de novo em flor.
Diz, se Plutão é conhecido pelo planeta anão
e se Platão é o filósofo que sobe até ao planalto
e dali se dirige aos velhos gregos de plantão.
Para o ouvir, como passar a ponte para o outro lado?
Ele durante a noite, antes do dia acertar o passo
explica paciente a razão por que não é soldado
convincente, por que se recusa a aceitar o serviço.
Desculpa-se que é preciso saber guardar segredo.
Sabes, não suporto, fico doente com esta nova forma
apática, asséptica, sem emoção nem sentimentos
de falarmos e trocarmos mensagens entre nós.
Para ser assim é melhor não abrir a boca, não dizer nada.
Onde está a liberdade sem filtros das nossas palavras?
Como dizias, a pouco vergonha das nossas conversas?
Depois de ti nada será igual, a malandrice do verbo e narrativa.
Deixaste uma pegada profunda e marcante na minha alma.
Estava virtualmente como agora se diz e é moda
na apanha da azeitona sem sequer vergar a mola
sem mãos calejadas que ovelhas não se querem para mato
quando por acaso me cruzei com a quinta-essência.
Pareceu-me que não tinha asas, balões de ar
quente
e mais humano que outra coisa, um ar pouco divino.
No salão, para minha surpresa, só vi deus-homens à
conversa
chamaram-me para ser seu parceiro numa cartada de sueca.
As deusas, aquela hora do dia, estavam com certeza
entretidas na sauna e nas águas geladas do limpa inveja.
Descascadas das nozes do ciúme, às escondidas dos
sentinelas
partilhavam o mesmo cigarro e o álbum de fotografias
eróticas.
Pobre de mim que estava ali por partida do destino
porque há muito que sonhava escrever em verso
e com a ajuda do deus pagão desenhar em rima
as outras quatro essências civis: terra, água, ar e o fogo.
Poder perguntar, deixar em pratos limpos quais os motivos
por que fazem dos vivos, mortos e dos mortos, vivos.
Em Budapeste durante 4 anos, estudante universitário
vivi na residência da rua Ráday que a pé ficava
apenas a dez minutos da Kálvin tér (Praça Calvino).
Perto dali quase em frente ao Museu Nacional
havia um alfarrabista que vendia livros estrangeiros
onde comprei algumas preciosidades por tuta-e-meia.
Ao lado havia uma férfi fodrász, barbearia para homens
em que os barbeiros eram barbeiras, por acaso muito
faladoras.
As redes de cabeleireiras e barbearias ainda eram estatais.
Falavam mais do que cortavam, mas trabalhavam bem
e simpáticas nunca se esqueciam do mimo, de aparar
e acertar os pêlos da minha barba mal semeada.
Durante aqueles anos o meu corta-cabelo foi a Emese.
Uma senhora cheinha que fumava que se fartava.
Saia de lá sempre com aspecto muito mais decente.
Em consonância com o nome da praça
era ali que estava a igreja Reformada Calvinista
da reforma protestante liderada por Joâo Calvino.
Que me lembre, a igreja estava sempre fechada.
Só lá entrei muito depois no casamento de uma colega
quando já não morava naquela parte do centro da cidade.
A Praça Calvino também era conhecida e ficou famosa
por causa de um quiosque, o primeiro de Budapeste
vendia hot-dogs, hambúrgueres até às tantas da madrugada.
Era um local de culto da juventude e a fila era sempre
enorme.
Tantas vezes que os meus vizinhos do terceiro piso
os meus amigos cubanos abriam a porta e me diziam
- Vem connosco, vamos comer um perro-caliente.
E lá íamos nós. Mais do que amigos, éramos irmãos.
Tens mãos de médico, dizia
mas as tuas não curam doenças
despertam o melhor que há em mim.
Depois do deserto dourado do sonho
era do mar a laranja mais doce da época
que fazia do palco e da orquestra a sua casa.
Mas aquando dos aplausos sentia-se perdida
pois sabia que se seguia a hora da partida.
Não tinha aprendido a ler na pauta
mas tocava órgão e beijava a flauta.
Desafinava um pouco a cantar à capela
mas a sua graça espontânea era tanta
que ali, o mestre da música era ela.
Dos lírios carnudos, na areia dos lábios
de regresso com um século ou mais de atraso
não eram de latão fundido, eram de carmim.
Dizia baixinho com um sorriso encantador
sabes, contigo vou-me fazendo ou melhor
vou-me desfazendo e não me importa nada.
É tão bom recomeçar, sentir que sou amada.
O primeiro tango foi debaixo da nogueira
com a pulseira da cor da saia no tornozelo
como se fosse apenas uma adolescente
a começar a vida com a arte da sedução.
Sentada na esplanada era fogueira acesa
muito mais atraente que qualquer jovem
com metade ou menos da sua idade.
A cadeira onde se sentava era uma algibeira
para ter onde se deixar sem ninguém ver
papelinhos enrolados com propostas de festa.
Amigos aceitem esta minha teimosia
filhos permitam-me ser optimista
com a esperança de sermos a maioria
e como disse antes, repetir uma vez mais
- Se o cinismo destes gajos fosse água
dificilmente se salvariam de morrer afogados.
Com esta idade e com esta floresta
onde muitas vezes caminho e me encontro
saibam que eu não tenho dúvida nenhuma
- O outono é a estação mais bonita do ano.
Já era tempo para uma declaração de amor.
Com a pressão da simpatia sobre a submissão sempre
submissa
que fique bem claro, não metas a colher onde
não és chamado.
mas vale mais falar do que ficar com ela atravessada, ficar
calado.
- O corta-fitas é o momento de glória de alguns artistas
menores
como o passa-culpas é a especialidade maior dos cobardes.
Manhã de outono, MBL naquela época
segundo sei, queria dizer Minha Bela Lua
Mudou-se de Bicicleta para Luanda
Move-se leve feita Borboleta em Lisboa
escolhe e usa a Bonita Lingerie de Milão.
- Agora sem medo deixa correr o marfim
e não gastes em vão as palavras, o teu latim
nem te percas nua nas sombras do jardim.
Espera que eu levo um vestido novo de cetim
folgado, confortável e com perfume de alecrim.
- Sabes bem, se não nos voltarmos a encontrar
quer dizer, é o sinal vermelho que faz pensar
perguntar se é a dura confirmação do futuro
o lamento que não fomos feitos um para o outro
e que infelizmente este mundo não é o nosso.
Resta-nos as lembranças, as saudades do passado.
Usava o carro como guarda-chuva
o lugar certo para arrumar a corneta
e sem se importar com o que diziam os outros
deixava-se ficar a brincar com ela à cabra-cega.
Era só garganta, nem de escadote lá chegava
às bicas altas e chamativas daquela fonte
mas por si sabia, tinha de dar corda aos sapatos
e como tinha talento, bebia água e saciava a sede.
De pensamentos perdidos quando se prepara para a viagem
sem pressas, sentada em frente do espelho de maquilhagem
sozinha, com o dorso transparente e o resto feito bela
paisagem
mostram que a liberdade de amar já está arrumada na bagagem.
Bra ou não bra é tudo uma questão
de ver Bracara Augusta por um canudo
um Brasil que continue a ser irmão
e uma linda moça minhota de veludo.
Uma vez em visita de trabalho a Braga
por recomendação amiga de um colega
pedimos umas papas de sarrabulho
na companhia de um jarro de vinho verde tinto.
- Para comer devagar e encher o bandulho.
Minorar os males e multiplicar por muito os bens
disse Marquês de Pombal, homem forte de Portugal
que alguém muito mais tarde e espírito empresarial
completou, ao juntar as armas e exponenciar os feitos.
- Escreve e apaga, volta a mentir, mas não é original.
Com as saias sem princípio e os decotes sem fim
em pelota nadava de costas como se estivesse vestida
no rio traiçoeiro sem ter tempo para mais nada
de tocar bandolim ou partilhar com ele o camarim.
Do Nicola aos cafés Delta com Bocage pelo meio
numa rua pouco iluminada na terra do carapau
àquela hora era um risco um perigo andar sozinho
podia-se ser atacado por dá cá aquela palha.
Chegava da oficina com a barriga a dar horas
ao restaurante da tia e pedia um prego no pão
um parafuso panado no prato e facas afiadas
a saudade faz mal à saúde, mas faz bem ao coração.
Aprendeu a tocar um grande instrumento de sopro
mas não lhe ensinaram que não se deve cuspir na sopa.
Depois de uns momentos de com os olhos partir pedra
sem nada dizer puxamos o carapuço, rimos às
gargalhadas
e para fecharmos a noite pedimos uma última caneca.
Faziam pela vida no trabalho de campo
com as sobras que sobravam das colheitas
era assim na charneca e no rabisco
e com o esboço a carvão do seu corpo
no primeiro rascunho das frias madrugadas.
De Espanha nem bons ventos nem bons casamentos
e assim vamos sacudindo a água suja do capote
de não assumir as nossas responsabilidades.
Os outros que avancem e se correr mal que se lixem.
Quanto mais ando por aqui mais me convenço
- Não se deve falar com a boca cheia
e muito menos com a cabeça vazia.
A casa é minha e a marmelada é tua
sobre o património restante falamos depois.
As unhas vermelhas sobre o rato do monitor
eram em si uma pequena obra de arte intimista
que se sentia pronta a abrir-se como uma flor
e para ser guardada na prateleira da florista
se o coração se fizesse olhos e mãos de pintor.
Na liturgia da paixão e da libertação do espírito
quando não há alternativa nem saída segura
o sorriso é a melhor arma, a melhor metáfora
contra o lixo, a podre podridão do pensamento.
Felizmente ainda há muita gente com tomates.
Novas ou velhas, as teorias da conspiração
são o caminho mais fácil, mais bem vestido
e mais manipulador para justificar as mentiras
enganar e esconder os perigos crescentes.
- A gula insaciável do monstro do totalitarismo.
Surpreendia a plantação de lama escorregadia
mesmo em frente ao chafariz da aldeia
onde a juventude gostava de se sujar.
Era a qualquer altura um espetáculo de borla.
Ver a perdiz que perdeu as penas na luta
no escândalo picante com o escorpião
e nas traseiras a recolha dos ovos de codorniz
para se pôr na sopa, no caldo a ferver.
Um ou outro nariz partido por causa da passa
do estalar do verniz entre as claques rivais.
De tal modo que a situação só se acalmou
com a chegada em boa hora da bela atriz.
Chegou com roupas malandras de imperatriz
ela que da televisão todos sabiam que tinha
uma pequena cicatriz num sítio intímo
e secreto, mas que mesmo assim era feliz.
Quem me dera que o que escrevo tivesse
algum sentido e de vez em quando despertasse
em outras pessoas próximas algum interesse.