quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Palavras escritas em Budapeste/2

 

Para o livro "De mim ficam as Palavras"


Palavras escritas em Budapeste

 

São palavras sem alma ou sofrimento

palavras sem paixão ou desalento.

São palavras sem pão, fome e sem vinho

palavras vazias, sem sal nem condimento.

 

Palavras de marcha atrás, à caranguejo

à peixe de viveiro sem espinhas nem espada.

Palavras a passo de cavalo, de boi manso

sem vida, palavras que não nos dizem nada.

 

Mas há outras, frágeis como um fio de azeite

sem terra, não têm voz nem no turno da noite.

Apesar disso não se pode desistir de escrever

de sobreviver, de despertar, de não adormecer.

 

São palavras de adeus e alguma saudade.

Palavras de insubmissão e de muita dignidade.

- Quase todas as minhas palavras, é verdade

foram escritas em Budapeste, a minha cidade.

 

Por que corres primavera?


Por que corres primavera

para onde vais com tanta pressa?

Acalma-te, vai mais devagar, se não vais chegar 

cedo demais e não vai estar ninguém à tua espera.

Atrasa o passo e desfruta o tempo, os dias por tua conta.

 

Dizia divertido e gozão, deixem-no ficar no inverno 

enchem-no de bebida para falhar os seus jejuns

que dele não fiquem memórias nem vestígios nenhuns.

 

Sim, sabemos bem que para muitos    

a má sorte, a fraqueza, a desgraça de alguns 

é a felicidade maior de outros coitados.

 

Menos caracóis e mais romance.

Menos camarões e muito mais amor.

Menos pistácios e mais passeios de mãos dadas.

Mais namoro, mais ternura e mais alegrias partilhadas.

Vale a pena recomeçar, a primavera está de novo em flor.

 

Uma pegada na alma

 

Diz, se Plutão é conhecido pelo planeta anão

e se Platão é o filósofo que sobe até ao planalto 

e dali se dirige aos velhos gregos de plantão.

Para o ouvir, como passar a ponte para o outro lado?

 

Ele durante a noite, antes do dia acertar o passo

explica paciente a razão por que não é soldado 

convincente, por que se recusa a aceitar o serviço.

Desculpa-se que é preciso saber guardar segredo.

 

Sabes, não suporto, fico doente com esta nova forma 

apática, asséptica, sem emoção nem sentimentos 

de falarmos e trocarmos mensagens entre nós.

Para ser assim é melhor não abrir a boca, não dizer nada.

 

Onde está a liberdade sem filtros das nossas palavras?

Como dizias, a pouco vergonha das nossas conversas?

Depois de ti nada será igual, a malandrice do verbo e narrativa.

Deixaste uma pegada profunda e marcante na minha alma.

 

Quinta-essência

 

Estava virtualmente como agora se diz e é moda 

na apanha da azeitona sem sequer vergar a mola 

sem mãos calejadas que ovelhas não se querem para mato

quando por acaso me cruzei com a quinta-essência.

 

Pareceu-me que não tinha asas, balões de ar quente 

e mais humano que outra coisa, um ar pouco divino.

No salão, para minha surpresa, só vi deus-homens à conversa 

chamaram-me para ser seu parceiro numa cartada de sueca.

 

As deusas, aquela hora do dia, estavam com certeza 

entretidas na sauna e nas águas geladas do limpa inveja.

Descascadas das nozes do ciúme, às escondidas dos sentinelas 

partilhavam o mesmo cigarro e o álbum de fotografias eróticas.

 

Pobre de mim que estava ali por partida do destino 

porque há muito que sonhava escrever em verso

e com a ajuda do deus pagão desenhar em rima

as outras quatro essências civis: terra, água, ar e o fogo.

 

Poder perguntar, deixar em pratos limpos quais os motivos

por que fazem dos vivos, mortos e dos mortos, vivos. 


Kálvin tér (Praça Calvino)


Em Budapeste durante 4 anos, estudante universitário

vivi na residência da rua Ráday que a pé ficava

apenas a dez minutos da Kálvin tér (Praça Calvino).

 

Perto dali quase em frente ao Museu Nacional

havia um alfarrabista que vendia livros estrangeiros

onde comprei algumas preciosidades por tuta-e-meia.

 

Ao lado havia uma férfi fodrász, barbearia para homens

em que os barbeiros eram barbeiras, por acaso muito faladoras.

As redes de cabeleireiras e barbearias ainda eram estatais.

 

Falavam mais do que cortavam, mas trabalhavam bem

e simpáticas nunca se esqueciam do mimo, de aparar

e acertar os pêlos da minha barba mal semeada.

 

Durante aqueles anos o meu corta-cabelo foi a Emese.

Uma senhora cheinha que fumava que se fartava.

Saia de lá sempre com aspecto muito mais decente.

 

Em consonância com o nome da praça

era ali que estava a igreja Reformada Calvinista

da reforma protestante liderada por Joâo Calvino.

 

Que me lembre, a igreja estava sempre fechada.

Só lá entrei muito depois no casamento de uma colega

quando já não morava naquela parte do centro da cidade.

 

A Praça Calvino também era conhecida e ficou famosa

por causa de um quiosque, o primeiro de Budapeste

vendia hot-dogs, hambúrgueres até às tantas da madrugada.

Era um local de culto da juventude e a fila era sempre enorme.

 

Tantas vezes que os meus vizinhos do terceiro piso

os meus amigos cubanos abriam a porta e me diziam

- Vem connosco, vamos comer um perro-caliente.

E lá íamos nós. Mais do que amigos, éramos irmãos.

  

Tens mãos de médico

 

Tens mãos de médico, dizia

mas as tuas não curam doenças 

despertam o melhor que há em mim.

 

Depois do deserto dourado do sonho 

era do mar a laranja mais doce da época 

que fazia do palco e da orquestra a sua casa.

Mas aquando dos aplausos sentia-se perdida 

pois sabia que se seguia a hora da partida. 

 

Não tinha aprendido a ler na pauta 

mas tocava órgão e beijava a flauta 

desafinava um pouco a cantar à capela 

mas a sua graça espontânea era tanta

que ali, o mestre da música era ela.

 

Dos lírios carnudos, na areia dos lábios 

de regresso com um século ou mais de atraso 

não eram de latão fundido, mas de carmim.


Dizia baixinho - Soneto imperfeito

 

Dizia baixinho com um sorriso encantador

sabes, contigo vou-me fazendo ou melhor

vou-me desfazendo e não me importa nada.

É tão bom recomeçar, sentir que sou amada.

 

O primeiro tango foi debaixo da nogueira

com a pulseira da cor da saia no tornozelo

como se fosse apenas uma adolescente

a começar a vida com a arte da sedução.

 

Sentada na esplanada era fogueira acesa

muito mais atraente que qualquer jovem

com metade ou menos da sua idade.

 

A cadeira onde se sentava era uma algibeira

para ter onde se deixar sem ninguém ver

papelinhos enrolados com propostas de festa.


 

Passa-culpas

 

Amigos aceitem esta minha teimosia

filhos permitam-me ser optimista 

com a esperança de sermos a maioria 

e como disse antes, repetir uma vez mais 

- Se o cinismo destes gajos fosse água 

dificilmente se salvariam de morrer afogados.

 

Com esta idade e com esta floresta 

onde muitas vezes caminho e me encontro

saibam que eu não tenho dúvida nenhuma

- O outono é a estação mais bonita do ano.

Já era tempo para uma declaração de amor.

 

Com a pressão da simpatia sobre a submissão sempre submissa 

que fique bem claro, não metas a colher onde não és chamado.

mas vale mais falar do que ficar com ela atravessada, ficar calado.

- O corta-fitas é o momento de glória de alguns artistas menores 

como o passa-culpas é a especialidade maior dos cobardes.

 

Manhã de outono

 

Manhã de outono, MBL naquela época

segundo sei, queria dizer Minha Bela Lua

Mudou-se de Bicicleta para Luanda

Move-se leve feita Borboleta em Lisboa

escolhe e usa a Bonita Lingerie de Milão.

 

- Agora sem medo deixa correr o marfim

e não gastes em vão as palavras, o teu latim

nem te percas nua nas sombras do jardim.

Espera que eu levo um vestido novo de cetim

folgado, confortável e com perfume de alecrim.

 

- Sabes bem, se não nos voltarmos a encontrar

quer dizer, é o sinal vermelho que faz pensar

perguntar se é a dura confirmação do futuro

o lamento que não fomos feitos um para o outro

e que infelizmente este mundo não é o nosso.

Resta-nos as lembranças, as saudades do passado.


Nem de escadote

 

Usava o carro como guarda-chuva 

o lugar certo para arrumar a corneta

e sem se importar com o que diziam os outros

deixava-se ficar a brincar com ela à cabra-cega. 


Era só garganta, nem de escadote lá chegava

às bicas altas e chamativas daquela fonte 

mas por si sabia, tinha de dar corda aos sapatos

e como tinha talento, bebia água e saciava a sede. 


De pensamentos perdidos quando se prepara para a viagem

sem pressas, sentada em frente do espelho de maquilhagem

sozinha, com o dorso transparente e o resto feito bela paisagem

mostram que a liberdade de amar já está arrumada na bagagem.


Bra ou não bra

 

Bra ou não bra é tudo uma questão  

de ver Bracara Augusta por um canudo 

um Brasil que continue a ser irmão  

e uma linda moça minhota de veludo.  

 

Uma vez em visita de trabalho a Braga 

por recomendação amiga de um colega  

pedimos umas papas de sarrabulho  

na companhia de um jarro de vinho verde tinto. 

- Para comer devagar e encher o bandulho.  

 

Minorar os males e multiplicar por muito os bens  

disse Marquês de Pombal, homem forte de Portugal  

que alguém muito mais tarde e espírito empresarial  

completou, ao juntar as armas e exponenciar os feitos. 

- Escreve e apaga, volta a mentir, mas não é original.


Com a barriga a dar horas

 

Com as saias sem princípio e os decotes sem fim 

em pelota nadava de costas como se estivesse vestida

no rio traiçoeiro sem ter tempo para mais nada 

de tocar bandolim ou partilhar com ele o camarim.

 

Do Nicola aos cafés Delta com Bocage pelo meio 

numa rua pouco iluminada na terra do carapau 

àquela hora era um risco um perigo andar sozinho 

podia-se ser atacado por dá cá aquela palha.

 

Chegava da oficina com a barriga a dar horas 

ao restaurante da tia e pedia um prego no pão 

um parafuso panado no prato e facas afiadas

a saudade faz mal à saúde, mas faz bem ao coração.

 

Aprendeu a tocar um grande instrumento de sopro 

mas não lhe ensinaram que não se deve cuspir na sopa.

Depois de uns momentos de com os olhos partir pedra 

sem nada dizer puxamos o carapuço, rimos às gargalhadas 

e para fecharmos a noite pedimos uma última caneca.


Faziam pela vida

 

Faziam pela vida no trabalho de campo

com as sobras que sobravam das colheitas

era assim na charneca e no rabisco

e com o esboço a carvão do seu corpo  

no primeiro rascunho das frias madrugadas.

 

De Espanha nem bons ventos nem bons casamentos 

e assim vamos sacudindo a água suja do capote 

de não assumir as nossas responsabilidades. 

Os outros que avancem e se correr mal que se lixem. 

 

Quanto mais ando por aqui mais me convenço 

- Não se deve falar com a boca cheia 

e muito menos com a cabeça vazia.

 

A casa é minha e a marmelada é tua 

sobre o património restante falamos depois.


As unhas vermelhas do monitor


As unhas vermelhas sobre o rato do monitor 

eram em si uma pequena obra de arte intimista 

que se sentia pronta a abrir-se como uma flor 

e para ser guardada na prateleira da florista 

se o coração se fizesse olhos e mãos de pintor.

 

Na liturgia da paixão e da libertação do espírito

quando não há alternativa nem saída segura

o sorriso é a melhor arma, a melhor metáfora 

contra o lixo, a podre podridão do pensamento. 

Felizmente ainda há muita gente com tomates. 

 

Novas ou velhas, as teorias da conspiração 

são o caminho mais fácil, mais bem vestido 

e mais manipulador para justificar as mentiras 

enganar e esconder os perigos crescentes.  

- A gula insaciável do monstro do totalitarismo.


Chafariz da aldeia e ovos de codorniz

 

Surpreendia a plantação de lama escorregadia 

mesmo em frente ao chafariz da aldeia

onde a juventude gostava de se sujar.

Era a qualquer altura um espetáculo de borla.

 

Ver a perdiz que perdeu as penas na luta

no escândalo picante com o escorpião 

e nas traseiras a recolha dos ovos de codorniz 

para se pôr na sopa, no caldo a ferver.

 

Um ou outro nariz partido por causa da passa

do estalar do verniz entre as claques rivais.

De tal modo que a situação só se acalmou 

com a chegada em boa hora da bela atriz.

 

Chegou com roupas malandras de imperatriz 

ela que da televisão todos sabiam que tinha 

uma pequena cicatriz num sítio intímo 

e secreto, mas que mesmo assim era feliz.

 

Quem me dera que o que escrevo tivesse

algum sentido e de vez em quando despertasse 

em outras pessoas próximas algum interesse.