sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Casa das Rosas



Da ornamentação, da ternura sem ostentação
o amor que em capítulos escreviam
era tão forte como a argamassa delicada

que fazia da humidade, da entrega das bocas
o cola-tudo do livro da memória, do presente
que nenhum deus ou inimigo poderia separar.

Café-aquecido-de-fim-da-estação-das-chuvas
cozinha e fogão, festa e colete de salvação
a casa das rosas que por gosto devasssas.

Especialista reconhecido pelos mercados
de transformar a saudade em noites brancas
sem sombras nem escuridão, sem negaças.

Begónia



Nem harpas de silêncio pétalas e janelas verdes
a magia das palavras que plantando regavam.
A begónia altiva da multiplicação intensa do sonho
que da idade, crescia livre nos subúrbios da cidade.

A avioneta parada no ar à espera do vento sul
carregado de promessas para a próxima primavera.
Cozinheira de avental bordado com desenhos de ramos
como quem dizia: não tenho mais nada sobre a pele.

Tão bom saber e repetir até ao último dia em flor
que deusa intocável a lua nova está escondida
no cacifo individual do banho turco que nas traseiras
faz esquina, com a porta de entrada do nosso amor.

Lírio-de-chuva



Adorava o café do alvor pelo filtro dos teus lábios
calçar os sapatos vestir as calças beijar-te os olhos.
Chegava a praia e entregava-se ao jogo da água fria.
- A saudação das mãos diziam tudo da nossa alegria.

Eram os movimentos cada vez mais lentos
lírio-de-chuva no verão de meses e olhares demorados.
Como eu gostava de espalhar cremes de outrora
pela longitude horizontal pelo sal da tua sombra.

Quero-te no bolso mais pequeno da vida
sem escolha de palavras que sirvam de álibi
na festa ao ar livre, da rosa no chão estendida.
- Todos os vestidos da poesia foram feitos para ti.

Dália vermelha



Licor passeia a sonolência secreta da beleza
pela passadeira da praia, a bela dália vermelha.
Preguiçosa espraiava-se pela marginal da vida
e comigo pelo intenso baixo-relevo do desejo.

Deslumbrante com as palavras perdidas no seu peito.
Os teus olhos de terra castanha marcavam o ritmo
o ritual do fogo que finalmente me levava ao sonho.
Água perfumada figueira a arder. Era a vez do prazer.

No porto próximo da autonomia conquistada do sonho
o vento acentuava a demarcação das colinas
a luz revelava o relevo lunar das praças do teu país.
Voltarei a escrever feliz que foi contigo que adormeci.



PALAVRAS E SINÓNIMOS

Café & Corrimão



”Por isso com teus gestos me vestiste
e aprendi a viver em pleno vento”
Sophia de Mello Breyner Andresen

A fazer tempo à espera da chave da habitação
na praça das delícias depois das promessas do jardim
e da esplanada do prazer no táxi do turismo dos dedos.
- O café que se mistura com o perfume a subir o corrimão.

Maduros e deliciosos gourmet carnudos os teus figos
sobre a mesa da sedimentação do trigo do nosso bagaço.
Foram servidos ao final da noite para repetição do começo.
Artigo definido das palavras. Os substantivos tão meigos.

Moema ou poema Santa Rita arábica ou robusto moído.
A mitologia grega. Colinas de Salomé por debaixo da flor.
A baía das pernas ou o recife suave da vegetação rasteira.
Cabelos ao longo do corpo. Braços espalhados pela cama.

Falcão & Escorpião



”Nunca devemos lamentar que um poeta seja bêbado
devemos lamentar que nem todos os bêbados
sejam poetas”  Oscar Wilde

Faz da minha alma da minha entrega
o espelho difuso da minha submissão
quente o café por mim pronto a ser servido
e bebido lentamente só por ti meu falcão.

O escorpião já estava tatuado no ombro.
No cais da cidade vinda do bar ouvia-se a tua voz .
Nesse momento – era sábado, lembras-te? –
Música? Sei que era tudo o que eu mais queria ouvir.

Dicionários do Amor



O meu corpo foi moldado assim
para estar nas tuas mãos, dizia
sorrindo, enquanto frágil se despia.

Mostrava-se nua de ousadia
como se nos seus olhos estivessem
todos os siléncios das palavras
todas os dicionários do nosso amor.

Dinastia



Caminhos de ovelhas de terra batida
que rodoviária nos conduzia sem pressas
ao itinerário principal das promessas
que íngreme descia quase em vertical
e nos levava ao mar do deslumbramento.

Era em ti que a dinastia se prolongava
na noite a oriente da última obscuridade
no cativante oásis das areias douradas
que humedecidas salivavam o teu corpo.  

Depois de amanhã se saberá como foi
na dança vagabunda do seu vasto ventre
e do pano das surpresas há muito apalavradas.
Chuva apreciadora do menú de coisas boas.

Chuva



”C'est là qu'on s'est connu
Moi qui criait famine
Et toi qui posais nue” La Bohème
Charles Aznavour e Jacques Plante

Os perfumes directamente de Paris
da narrativa as meiguices que sempre quis.

Esqueceram a solitária viúva das sete tetas
que teria sido a gaja mais comida de Roma
e que pelo seu homem nunca mais se molhou à chuva
nem pública se despiu para os outros esfomeados.

O bico entre a flor vermelha transparente
que dádiva seguras entre os dedos
o pêssego descascado para comerem a dois
com o baton profundo dos seus lábios
e aquela mão perdida entre a sua inibição

Um pássaro que voa um silêncio e diz
- não te esqueças, estou aqui para te servir.

Botão em flor



”Nunca teria sido artista se as mulheres
não tivessem seios” Renoir

Sentia-se o rosto de rosa ou de botão em flor.
Estavam pouco discretos os seus seios de verde mar.

Dizem que as moedas com as mãos criam ferrugem
as tuas ao contrário do bolor sem pudor ganham em cor
e do calor despem-se em flor pela encosta do suor.

Da longa mensagem privada meia palavra basta
para se desfazer, se libertar das meias de vidro
e transformar a pele, o musgo em torrão de açúcar
- a frescura do mármore em compota de azevinho.

Esteve de volta do cabelo, dizia-se nua abaixo dos jeans.
Pediu para apertar o colar fechar a boca olhar o céu.
Um chocolate quente espalhado pelo tampo da mesa.
Pernas sedutoras que persistentes cresciam para o vento.

Engenharia da sedução



Ponte resiliente de pedra na engenharia civil da sedução.
A distância concreta a percorrer pela estrada da alegria.
Pavimento de pétalas, pilar resistente que suporta a luz.

Na pintura discreta dos olhos, avenida e viaduto
as muralhas até aos peitos das águas do aqueduto
nas margens escondidas do amor por descobrir
pela zona pedonal das ruas, o acesso livre das mãos.

De prata nunca uma mulher se oferecera dessa maneira
e em troca querer tudo da casa a que julga ter direito
mesmo a simples colher, a velha bandeira a cafeteira.
Diospiro quer começar a celebração do prazer ao ar livre
por debaixo do pessegueiro, à sombra de uma nespereira.

Romãs (luas cheias)



Nas escadas com a saia por um fio
finalmente à chuva a blusa encharcada
molhando-se com o peito todo à mostra
pelos caminhos urbanos até a margem do rio.

Não era fruta de estufa-quente ou arca-fria
nem romãs formatadas em anúncio animado.
Eram duas luas cheias sobre o horizonte
a montante do prédio alto das descobertas.

Junto as escadas por onde se sobe
até à frente norte da sua funda lagoa.
- Na verdade só adormeceram muito tarde
depois de terem provado de tudo um pouco.
Ser tão bom escolher. Encher assim a barriga.

Fotografia & fotografia



”Automne est un deuxième printemps
oú chaque feuille est une fleur” A. Camus

Andar na rua contigo era ter de um só olhar
um só sorriso um abraço um beijo uma só carícia
era ter a fotografia panorama do que foi um dia
do que é o nosso infinito amor. Que vou guardar.

Em d’Orsay não me perdi sem ti
porque distante apesar da ausência
estavas comigo pela minha mão
no fundo arenoso do meu coração.

Demorava-se ao telefone pelas ruas da nossa monografia
Enfeitava-se punha o colar azul que acabara de receber.
Sorrindo retocava de rouge o rosto como só ela sabia fazer.
- Beija-me agora antes que ponha o baton para a fotografia.

Tapete



“ Nada perdura senão a mudança” Heraclito

Dizia nunca antes assim ter estado
tão profundamente casa dentro
como sombra no interior secreto
na rua da alma, no bairro novo da lua.

Longos minutos a refrescar a humedecer
a desenhar pacientemente o tapete persa
do condomínio fechado pelo amanhecer.
- Pincel entre as coxas lisas da tua seda.

Enfeitando as paredes com cascas de maçã
gosto espalhado pela nudez da tua pele.
- Canela, nada se comparava ao milagre
ao perfume do teu café logo pela manhã.

Palavras de outono



”Un baiser légal ne vaut jamais un baiser volé” Maupassant

Era na tua loja da cambraia mais fina
dos azulejos da sede pintados à mão em casa  
onde se escondiam aquelas duas peças de fruta
e não mostravam a rosa vermelha na barriga.

Palavras antigas que ela trocava pelos sinónimos.
Generosa e deslumbrante flor dedicada do tempo
conquistadora ardente dos carinhos de outono
e floresce mais bela todo o ano para o seu homem.

De comboio pela noite na latitude do norte
vindo da boca molhada das areias do desejo
de grão de bico aos pares entre flores carmesim.

E sutiã da mesma cor que seria cor de puta de Paris
se não fosse a imagem mais cativante e mais próxima
a porta aberta desse amor que parecia fugir de nós.

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

PALAVRAS DE MULHER E POESIA

Narrativa nocturna



“Esta inesperada redondez
este perder mi cintura de ánfora
y hacerme tinaja,
es regresar al barro, al sol, a aguacero
y entender cómo germina la semilla
en la humedad caliente de mi tierra.” Daisy Zamora

Foi em busca da narrativa
com a afamada paciência nocturna.
na loja dos tecidos da avó de Platão.

Sabes o meu coração
é assim metade água
e metade de vinho.

Dizia à janela quase nua
com o copo na mão
com um sorriso de linho.

Entre as colinas, intacta a sua mimosa fragrância
deixava no mercado, sem palavras os mais incrédulos
no praça, por detrás das cortinas do nosso abismo.

Papoila de Pedra



“Soy un alma desnuda en estos versos,
alma desnuda que angustiada y sola
va dejando sus pétalos dispersos.

Alma que puede ser una amapola,
que puede ser un lirio, una violeta,
un peñasco, una selva y una ola.” Alfonsina Storni

Laranjas maçãs tangerinas biquinhos e azeitonas.
Vestígios do design interior do seu impetuoso coração.
Foi de autocarro e regressou à boleia de camião.

Sopa de roupa interior com salada e cogumelos.
Anéis e unhas verdes preparadas com palavras
pelas mãos finas de mulher respirando poesia.
- Antes da noite eu faço a bica sem açúcar para ti.

Imaginava-se sefardita a salvo da perseguição
com a sua papoila de pedra e a sua romã de bronze
que agora era avenida na salvação anunciada da praia
no porto outrora livre do mar Egeu. Seria em Salónica?

Mar Egeu



”Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem triste
sou poeta.”  Cecília Meireles

O barqueiro que pela ribeira do seu amor maior
rejeitou Safo e acabou em alface na horta de cidade
lá para os lados do improvável amante do Mar Egeu.

Melhor seria ter-se deixado ficar acácia de jardim
optimizando o saber, adivinhando o sabor a fruta
da Décima Deusa. O gosto secreto da sua bela gruta.

Sem bolsos sem porta moedas nem cartão bancário
resilente o meu sonho eram as trutas dos mercados
em sociedade com a fogueira do teu sorriso enigmático.
A sensualidade do mar profundo dos seus olhos.

Altas montanhas



”Não te deixes destruir…
Ajuntando novas pedras
e construindo novos poemas.” Cora Coralina

Da investigação cuidadosa
pelas mentiras da nossa história
durante tempos sem fim
a terra jurava a pés juntos

que as virgens de azeite
e do sol mais impuro
cultivavam coca e milho
e rapavam os pelos do púbis.

Eram mesetas lisas com muita procura
viviam sobre as altas montanhas
protegidas pelos soldados da sorte
e aluadas todas as noites negras
cantavam nuas ao senhor da casa forte.

Cevada




“El viento y la lluvia me borraron
como a un fuego, como a un poema
escrito en un muro”  Alejandra Pizarnik

Belas e ousadas caminhavam de mãos dadas
pelas ruas da capital do antigo império.
Assumiam sorrindo o seu amor como quem respira
e acredita que cedo ou mais tarde no mundo há futuro.

Procuravam a padaria o pão para as duas
que dissesse não à fome com o sal grosso da vida.
Tudo o que estava tão bem escrito nas luas
na vinha encarnada do vosso coração de cevada.

Fly & kiss me



“Hoy quisiera tus dedos escribiéndome historias en el pelo
y quisiera besos en la espalda
acurrucos
que me dijeras las mas grandes verdades
o las más grandes mentiras
que me dijeras por ejemplo
que soy la mujer mas linda del mundo” Gioconda Belli

Do saltimbanco malabarista no parque distante
na grande cidade da moda, no salto alto italiano
e nas pernas com lingerie de gata borralheira.

Para destaque desaguar directamente na revista
que anunciava publicitando o fly & kiss me there.
Here, mesmo quando não está aqui, está ausente.

A rota quase eterna que ligava a Índia milenar
à cosmopolita e discreta pedra rosada de Petra
e repousava depois merecidamente em Alexandria.

Praça cultural e comercial do mundo de então
Época na qual se eu fosse mercador desonhos
Teria sido feliz e comido contigo azeitonas no pão

Teu trigo




Todo aquí alumbraron tus ojos de diamante;
bebieron en mi copa tus labios de frescura;
y descansó en mi almohada tu cabeza fragante;
me encantó tu descaro y adoré tu locura” Delmira Agustini

Amor que se enfiava nos dedos
nas unhas sem ninguém ver.
Mulher sem nome nocturno
mas o resto tinha tudo à luz do dia.

Não há tecnologia nem design
pedra ou muralha que resista
a tanto rio tanta água tanto olhar.

Porque branca te quero negra
no calor interior do vulcão
e nas cinzas do nosso amor.

Cheira a cavalo cansado
a palha muito revolvida
cheira a sangue e a fruta fresca.

Cheira ao pequeno-almoço
das manhãs de seara-livre
e ao pão torrado do teu trigo.

Jasmim & alecrim



“Si me quieres, quiéreme entera,
no por zonas de luz o sombra…
Si me quieres, quiéreme negra
y blanca. Y gris, y verde, y rubia,
y morena…
Quiéreme dia, quiéreme noche..
Y madrugada en la ventana abierta!”
Dulce María Loynaz Muñoz

Chamava-te bicho-da-seda amoreira e jasmim
o planalto perfeito nos caminhos do mar.
Chamavas-me falcão argumento verbo amar
peixe-espada-livre que um dia poderá ser alecrim.

Quis fazer de surpresa chá das tuas ervas
que precoces tinham ficado verdes das chuvas.
Foi quando de mansinho se abriu a porta
e em silêncio cúmplice ela deixou cair a sua saia.

Escrever e sonhar descascar ervilhas e cozinhar.
No fim, o amor as pedras lisas feitas para rimar.