quinta-feira, 18 de outubro de 2018

DOMINGO




A Ernesto Rodrigues

Da crista do galo a dançar a salsa
que nem um diabo ao sacrista do rapaz
um artista de bola no pé e copo na mão.
Seria agora um bom exemplo de cristão.

De homem grande não ser grande homem.
O sacristão tão humilde na sacristia comia
pão com dentes e tostas de hipermercado
abençoadas pelo bafo a mofo de outros santos.

Foi na primavera gostaria de recordar
esse domingo com a mulher e os filhos
tinha acabado de sair da missa da igreja.

Não teve cuidado foi contra o carro parado
olhou à volta e arrancou rápido e superior.
Pudera acabara de se entregar ao Nosso Senhor.

SÁBADO




Ao Pedro Pinhal

Levantate y mira la montaňa*
limpa varre o passeio em frente
endireita o guiador e enche o pneu
da bicicleta do teu filho pequeno.

Aproveita que é Sábado põe óleo
nas dobradiças das portas que chiam
trocas as lampadas que se fundiram
pregos na dispensa e na marquise.

Levanta-te pela manhã irmão que tens
muito tempo de dormir quando partires
faz coisas vulgares de pessoas comuns
de super homens está o mundo cansado.

Levantate y mira la montaňa*
antes que tapem de vez os olhos de todos.
* Victor Jara in "Plegaria a un labrador"

SONETOS E SONATAS




A Pál Ferenc

Como era possível soneto
cruzar assim as duas pernas
no ferro da cadeira sem costas
dessa maneira e sem medo.

Antes da sonata aos domingos
descer ao vale por entre serras
fronteiras e degustação nas encostas
que nos afastavam dos maus ventos.

Que nos separavam do tempo
e da promoção nocturna das uvas
do privilégio apenas de algumas ruas.

Abertas com o mar portugués ao fundo
na primeira tradução urbana a tua
da boca Pessoa nos lábios do mundo.

LORCA DE GALICIA




Ao Pedro Amendoeira

Foi na cave do armazém das aranhas
que tudo começou do que não ficou.
Havia algumas bem grandes duras e gordas
que nos recebiam de teias abertas
partilhavam o petisco das moscas varejeiras.

Começava assim Chove en Santiago
Meu doce amor escreveu-nos Lorca
ainda antes da chuva antes da morte
depois da Galiza depois do amor.
Antes de Santiago depois da liberdade.

As bruxas vestidas de gargalhadas maduras
não havia noite que não viessem guitarras
ofereciam a todos cigarros e raparigas
Que bom! Entre feitiços as ratinhas peludas.

SPORTING-GLASGOW RANGERS (1971)




A Vitor Damas

Era pela rádio um velho transistor
que o futebol me chegava a casa
hoje na televisão não vejo melhor.

Coração aos pulos os ouvidos colados
a pilhas eterno ecoava na cave na rua
o relato do Sporting força força vamos!

Eu dizia mas dali ninguêm me ouvia
- as regras mudaram são outras *
os penáltis todos nas tuas mãos Damas
aos saltos esquecido era só euforia.

O despertar foi na manhã do outro dia
ao café a torrada ligada a telefonia.
- Porra! Estão a ver afinal eu bem sabia!
tinha sido em vão tanta tanta alegria.

* Estava bem informado. Por comprar A Bola
às segundas e às quintas não comia a sandes do dia.

EM ALMOSTER – TINHA VINDO DE EGER (1998)



Pauta ou puta para Auto-da-Índia não é o mesmo
que se alguêm se engana nem com a melhor lixívia
se limpam as nódoas no layout corporativo
no acto público da acta lavrada no automóvel parado
em operação apoiada pelo corpo de intervenção.

Ó Constança Constança não te chega um marido longe
e a navegar queres logo dois passarões à disposição!

Uma jovem magiar do fim do mundo ainda fresca
com esta vida fora de mão em pouco tempo
e um chulo ribatejano a fazer-se amigo sem ninguêm
com coragem para lhe partir o tabaco dos dentes.

Pauta ou puta a falar tão bem a língua que aprendeu
em pouco tempo muito burro e algum bom gosto
por cima e por baixo de muito cavalo lusitano.

TAXI EM ZAGREB




Em Zagreb familiar meu amor
sem vinhedos eras a água fria
da sede colectiva das rolas
à procura do telhado em nós.

A ousadia de Amesterdão
começou porque inesperadamente
taça de uvas tu decidiste provar.
Na rua o vinho branco era meu.

Em Barcelona na lenta subida
às cepas do monte sei que sabias.
Imaginava que o autocarro eras tu.

E gosto muito de estar no Porto.
Porto é para sentir percorrer a pé
de não beber antes de chegares à noite.

PROPAGANDA MÉDICA




A Eckhardt Balázs

Um charme de don juan entre as enfermeiras
solteiras e divorciadas até que um dia Nossa
Senhora o enganado deu-lhe uma tal maquia
ainda hoje tem um pedaço de orelha a menos.

Um mãos largas agente de propaganda
um senhor de camisa branca entre médicos
clínicos de renome grandes especialistas
congressos mundiais corporate responsability.

Olha olha com a saúde do povo não se brinca
nem com os votos dos eleitores com mais idade
há cacau o estado paga e as gigantes lucram.

Na bolsa filantropia não rima com mercado
mas com gosto poderão patrocinar em parceria
um torneio de ténis com caridade e alquimia.

HOSPITAL SZENT JÁNOS




O meu omelete na linguagem de casa
quer dizer o meu sem-abrigo privado.
Um omelete e até podia dizer gemada
ovo estrelado bife com um ovo a cavalo.

Tenho o meu sem-abrigo particular
no semáforo do Hospital São João
a quem três quatro vezes por semana
dou uns trocos sem lhe tocar na mão.

Umas moedas para ele a seguir ir comprar
um dedo de pão e dois braços de aguardente
de se queimar para melhor suportar a noite.

Com brilho de gato no escuro da escuridão
o meu omelete tem uns olhos tão intensos que
mas cantigas assim só aumentam a confusão.

QUEIJO E ESCUTAR BRETON!




Ao António Faria

Agora troca as voltas à morte ó queijo
manda atentas as secretas à merda
a fingir oferecer maçãs descascadas
baratas compradas à madrasta malvada.

Antes de se perder de calores aí aí!
No ginásio de que não perde um só dia
o espelho dela e teu espelho partido.

Mudar de vida pensava como Rimbaud
a arder no amor sem a fada madrinha saber
dizia de Marx para transformar o mundo
e chegar a tempo de escutar Breton.

Era uma bela descapotável carrocinha
de uma família do norte que se esquecia
porra do azar! Pagar os salários às operárias!

ELÉCTRICO




Movia-se entre os carris como quem estava atrasada
caminhava apressada como quem gostaria já lá estar.

Assumir eléctrico a transgressão de cara levantada
correr o risco de ser apanhada a meio do projecto
ao libertar o coração em vez de correr para o emprego
como fazia todas as manhãs o ano inteiro menos agora.

De véspera com um dia de baixa médica para baixar
peça a peça a roupa toda e subir e descer e voltar a subir
às escondidas com a mansidão intíma à sua espera.

Logo à primeira esqueceu o pudor ignorou a cidade
pois cruzou os olhos o corpo com a igreja matriz
frente à janela com a raíz mais funda do plátano maior.

Queria apenas não ter que usar as escadas ir à farmácia
levantar a receita para o filho e voltar a correr para casa.

D’ORSAY BERTHE E MANET




Não saberia explicar mas só me vinha à cabeça
caminhos-de-ferro a magia da estação d’Orsay
“O tocador de pífaro” “A jovem loira mostrando o peito”.

Com a máquina da verdade e o repúdio das mentiras
que chegou no vagão das mercadorias delicadas
comboio Berthe Morisot sabias que partia de Paris?

Do filme a preto e branco com inimigos e aliados
o telégrafo da ilusão mastigada na pastilha elástica
agarrada à sola do sapato que perdeu o tacão
Edouard à entrada da gare na cabine do revisor.

Com impressão de já ter visto aquele cachecol
aldrabão a vender camas como chefe da estacão
que o dinheiro poupado dava para uma boa salada
meio-frango assado uma cerveja e duas fatias de pão.

METÁFORAS URBANAS




O teu corpo de pedra
é seta redonda de prata
no arco do lado de cá
alongada sobre a vida
e na postura como está!

Merece todas as promessas
as manhãs dos meus olhos
todas as metáforas urbanas.

No silêncio o pior é o resto
na dúvida vamos lá conversar
para saber chegar até ao mar.

Batel como usar a pasteleira
para que possamos embarcar
chegar a tempo e ficar à tua espera.

JARDIM DA REPÚBLICA


Ao Manuel Campilho



Foi calceteiro praça teimosa do povo
do pequeno negócio do quiosque do largo
do jogo da malha no beco preferido dos cães
Feira da Ladra no mercado do piolho.

Jardim enxada de pontas de dois bicos
forquilha de dentes muito amarelos
canteiro amanhado do jardineiro privado
com muitos goivos rosas e amores-perfeitos.

Foi água da inundação premeditada
o poço subversivo tapado na boca
calcário abandonado na fronteira da república
- basalto de ferro e arena de touros falida.

Estádio de futebol com as bancadas cheias.
Foi mensageiro das belas mamas das primas.

AVALIAÇÃO & PROMOÇÃO





Põe um lenço um pano uma colcha preta
mesmo se a traça já iniciou a viagem.

Com cuidado põe sobre o relógio de parede
liberta o cordeiro da prisão do tempo
que em coisas de morte o melhor é prevenir.

Melhor que fugir dela a sete pés primeiro.
Compra um bimotor que saiba aterrar
ao fundo do campo lavrado das cebolas.

Na inflamação da garganta de tanto negar
em silêncio que não se vende por uma sala
só para ela carro telemóvel e mais cartão.

Acabou por ajustar as roupas bem justas
apertar as carnes deixar que as nádegas
comunicassem com os olhos da promoção.

NAVIOS PARADOS




Dizia: são tantos os navios mercantes
no grande porto desse meu sonho
tanta pedra tanto coração afundado
por debaixo dos cascos castanhos.

Navios com guindastes e vidas desfeitas
parados a meio da subida com a visita
do inspector acompanhado pelas comissária
dos direitos das famílias e das minorias.

Quando poderia ir ao hospital para a prova
dos nove mais coisa menos barriga do mês
se foi com ele que ela se meteu na cama.

Dizia: são tão marcantes estes navios parados
na doca da saída colectiva dos marinheiros  
do vinho doce na boca onde de amor se entrega.

FAZER FESTAS A GATOS




Ao António Felizardo

Sobre a calçada em esforço pedala
de dorso inclinado ó máquina que a hora
não é de parar e de fazer festas a gatos!

De perguntar como se sente das pernas
de não responder se sente livre das espinhas
do peixe perigoso do jantar de ontem à noite.

Milena andava com a Estrela de David
ousadia solidária mesmo sem ser judia
ainda antes de encontrar a mulher da sua vida.

Triste época de um tempo ranhoso
que fazia de muitos cúmplices cinzentos
das tardes que na terra precediam o inferno.

Que não rima mas talvez sejado sabor
que se o ar do mundo não enferrujar de vez
se possa acreditar – o futuro será melhor!

NAGY UTAZÁS*




A Presser Gábor

Não não era pele de leopardo da marca registada que o feiticeiro
oferece às jovens outrora virgens e às vezes criadas modelo
que os pais com orgulho trocam por mézinhas e melhor destino
esse sentimento único de fazer parte de uma élite tão restrita
antes das filhas se lançarem na moda e na aventura da fama.

Eram as pernas divinas de uma leoparda de carne e pardal
que ali felizmente não tinha retrovisores olhos à retaguarda
começou a sentir a presença do observador internacional
de olhar atento colado até ao mármore do seu rabo sazonal.

Foi quando desabou de repente uma tempestade tropical
e a fera ficou tão preocupada com o seu pêlo de vitrine
que correu para casa mesmo sem levar a gabardine
mas debaixo do plástico que tinha guardado na limousine
e servido para embrulhar a cómoda comprada no caniçal.

*Grande Viagem. Título da composição
do cantautor e compositor Presser Gábor

SE A VIDA FOSSE A POESIA



Se começar a chover meu amor
cobre-me com o teu corpo dizia
para não ficar de roupa encharcada
molhada até ao mais fundo de mim
por favor põe-te por cima pedia.

Se a minha vida fosse a poesia
com a primavera de seda no bairro
por dentro dos abrigos da cidade
antes de descer às partes mais baixas
única a prioridade do sorriso queria.

Quando parar de chover meu amor
quando cheias as melgas e as lesmas
taparem o sol como nuvens tristes
estarei lá para te sublinhar em flor.

COIMBRA A RIMAR




Tributo aos meus amigos Praxis-Nova

Chegavam do litoral de avionete e às vezes de avião
por detrás do olival e de mota com raminhos de alecrim
à mão juravam cortados atenção com um grande facalhão
e os segredos devassados do rio luzes de farol e farolim.

Formigas adormeciam contentes na pedra do moinho
no porão dedos de cetim nos botões na blusa da laranjeira
nas guitarras bem guardadas e no tabuleiro algum vinho
para oferecer e cantar à inquilina ao coração da hospedeira.

Eram na mercearia o sal da fogueira a corvina bem cozida
com carvão e resina do pinhal a especiaria forte de Coimbra
lavadeira linda a quem se dava compota e se comia em petinga.

Irmão voar é preciso comer o caminho devolver a colher
a capa que ainda tenho como a puseram sobre os meus ombros
comprar o damasqueiro a máquina de lavar para a musa-mulher.

UM PANFLETO COSMOPOLITA




Ao Pedro Patrício

Uma esplanada junto ao rio. Um café uma cerveja
um gelado. A mulher a namorada o colega os amigos.
Em Budapeste. Um sol que na pele queima a sério.
Podia ser em Estocolmo Praga Roma ou Viena.

Pedia-me um panfleto europeu urbano e cosmopolita.
Contra o desemprego anunciado e o medo do futuro.
Contra a inércia e a lentidão. A apatia que é redutora.

Sabe logo manda! Detentor da tecnologia da obediência!
Querias querias batatinhas com enguias! Lampreias caras.
Assumidamente: Não à passividade! Sim à indignação!

Aditamento. Se não queres um adido do nada cuja vida
depende do velhaco bizantino do colérico basílio diz
comigo: Não à liberdade minimalista, à pouca cidadania!

POLÍCIA SINALEIRO




As suas mãos com devaneios de bailarina
habituadas aos refúgios secos das neves
convidavam-me adultas a subir a colina
a deixar-me perder na escuridão das luzes.

No vinagre do vinho húmidas as bocas roxas
do frio falharam o encontro à meses marcado
sabores de gambas frescas e alho picado.

Acima da linha de água no fundo da mina
as pedras que suportavam as sombras do ulmeiro.
Dizem que acabou o tempo de ser polícia sinaleiro.

Porque na paragem do autocarro da saudade
arranjava-se distraída no carvão a arder.
Poesia é decifrar as palavras da cidade
que nos recebe e nos mima de tanto nos querer.


Budapeste e outras terras visitadas  (2009)

É PARA TI A POESIA





“La beauté plaît aux yeux, la douceur charme l'âme.” Voltaire



CONFEITARIA CENTRAL





“Há mulheres que colocam cidades doces”
Herberto Hélder

SE A VERDADE FOSSE VERDE




Se a verdade fosse verde
como as rãs paradas do charco
na noite mal dormida das folhas
seria apenas uma peça de roupa
escondendo sabida quase nada
num só momento de olhar fraterno.

Propaganda involuntária
do abre-latas da amizade
em embalagem reciclada
do sorriso suburbano distante.

Vinha alegre pois claro
em silêncio talvez para disfarçar
trazia duas fatias de pão
em cada palma da mão
cobertas com doce de tomate
e algumas formigas de estimação.

Para de perto desviar a atenção
do frigorífico ao fundo do quintal
dos corpos húmidos no estendal
por detrás da arrecadação.

Porque a peça escolhida
tinha submissa a dimensão merecida
insólita às portas desse amor intenso
nos corredores mais estreitos do prédio.

METÁFORA AMORA




Em idioma que não era seu
confundia remos com ramos
rendas e bordados do interior
com geografia da descontinuidade.

Confundia acessos de auto-estradas
com baías expostas e ilhas salgadas
impacientes à espera do fogareiro aceso
pelo sopro encarnado da boca.

Plátanos e salgueiros clássicos
que iluminam as ruas do bairro
acomodam legumes e ervas-doce
os desvios que levam à cidade.

Por ter um bom emprego graças a deus é feliz
de salto alto mini-saia o colar ao pescoço
parado nos contornos vizinhos dos seios
metáfora amora na terra dos montes claros.

Confundia ramos com romãs abertas
cidades costeiras com ilhéus abandonados
o sal das mãos com limões de estufa.
Petisco da vida para bem dos meus olhos

PELAS ESCADARIAS DOS CORPOS




No início da praia que devia ser vigiada
o espaço timído que já então procurava.
Mineral durante a viagem ferroviária
iniciada ainda da ilusão no século
que precedia o sonho de ser gente.

Olhava via e não acreditava
não sabia se merecia tanto.
Todo aquele latente esplendor
sobre as folhas castanhas
pelas escadarias dos corpos
bandeiras de duros invernos.
Fruta madura para oferecer à luz.

Seria uma égua um cavalo manso
um abrigo partilhado para descansar.
Era o siléncio mais forte do desejo
de aproximar à água aos nossos rostos.
Vestígios de penínsulas e marinheiros fenícios
no interior do fundo do mar abandonado
que sabe-se era em pleno o seu navio

AO FINAL DA TARDE DESSE DIA




Ao final da tarde desse dia
era a ansiedade que se cruzava
e se confundia com a sedução
que chegou do outro lado do rio
da margem oposta á morte.
Do engano que secava os lábios
que confusos despertavam a dor.

A ansiedade vestiu-se de sedução
lenta com movimentos calmos
enquanto a sedução se despia
da ansiedade com a certeza
de fazer bem e de ser tão bom.

A magia tão simples de poder
juntar exactos os trapos os corpos
aos pares como se fossem barro
antes do forno de porcelana fina
que poderia ser da China
se não estivesses tão perto de mim.

A ansiedade original da sedução
ao alcance também dos outros
que guardada cabia numa só mão.
Como uma bússula portuguesa
no caminho comum do desconhecido.

HÁ CIDADES AMENAS




Há cidades amenas
onde as mulheres se mostram
por serem muito ousadas
e midas as vidas prolongam
para nos fazerem felizes.

Há ilhas algumas muito pequenas
onde mulheres se deitam
por cima das pedras e ali
ganham côr e perdem água.
- Vejo a tua tambêm de calcário.

Se a mitologia fosse a vida
tu meu amor digital serias o mito
que perfeito me sossegaria
e me faria perder pela cidade.

Comer os doces sobre a ponte
com os olhos presos ao rio.
Depois embarcar nocturno no navio
e molhar as palavras nas tuas águas.

CONFEITARIA CENTRAL




Côr de chuva às vezes sentado
na intimidade das açucenas claras
cliente ficava como ausente
dos pequenos detalhes urbanos
com os espelhos da barbearia
e os vidros virados para a rua.

Dálias encarnadas a abrirem-se
no contentamento profano
de poderem chegar ao céu
pela escada de mármore
da confeitaria central.

Poderia ser cego surdo ou mudo
mas triste e paspalhão não era.
Sabia o que queria sabia pensar
e dizer com os dedos das mãos
às vezes com a saliva negociar o pecado
até à última petinga no prato.
Comprar o perdão a preço de saldo.

Ela por detrás do balcão
estava no limite da paciência
vendia ovos-moles e pão-de-ló
bolos cremosos e outras guloseimas
e de longe parecia inquieta.

O falatório do povo da cidade
e das freguesias rurais à volta da blusa.
Por debaixo do damasqueiro
O umbigo salente não resistia ao orvalho
daquele analgésico verdadeiro.

COM O CAÍR DA NOITE





Chegava com o caír da noite
abria a porta fechada
e fechava-a com as costas
debruçava-se observava com cuidado
como um médico de serviço.

Fazia tudo para merecer
- e já lá iam uns bons anos -
para prémio receber como prenda
as framboesas roxas côr de purpúra
que sem surpresas ainda cresciam
para regalo madressilva da boca
no gargalo justo da garrafa
bebidas frescas que pediam festa.

Porque dia sim dia não
ensonada que nem cinza morna
que de insonsa nada tinha
não se levantava da cama
sem os braços mecânicos do guindaste
o abraço apertado do operador.

TALVEZ NĂO FOSSEM DOCES




Em bicos dos pés
na persistente bica da fonte
sossegava do fogo
bebendo café amargo.

Contigo quebra-mar da cidade
os frutos secos do arbusto vermelho
provavelmente saberiam
a açucar queimado
que eu sentiria desfazerem-se
com o escorrer da língua
em local de acesso reservado.

As bagas côr de laranja
que à falta de melhor
entre caretas o melro comia
talvez não fossem doces.

Entre a lua e a denúncia afirmava
- são pedras senhora pedras pesadas
da multiplicação da fome
do cansaço paciente dos povos
por debaixo do avental
entre a cinta se bem apertada
e a pele solidária da cobra.

NEM SÓ BACALHAU




Se por acaso este fosse o local
alugado pela vida ao amor diria:
- nem só bacalhau se pesca a norte
lá onde as louras enchem as ruas.
Mais tarde quando lia Andersen
o fato novo do imperador entendi
finalmente as três moças desse país.

Elas lavavam os dentes branquinhos
em cuequinhas e sem sutiã.
Precisei de semanas e de chatice
para acertar com o pincel na cara
e a escova de dentes entrava
mais vezes no nariz que na boca.
- Aí Ai Dinamarca tanta malandrice

Tão perto das mãos sem tocar
assim camaradas tão paradinhas
talvez nunca mais tenha voltado a ver
a pôr em cima estes olhos de papagaio.
Ainda dizem que mais vale um pássaro
na mão que dois sem saber onde pousar!

Nem só de pão de sal ou de vinho
de maçãs assadas se alimenta o amor
tambêm de brincadeiras pequenas
de línguas a gozar fora da boca fechada.

DE REGRESSO À CASA DA CIDADE




De regresso à casa da cidade
depois do júbilo do reencontro
do peixe frito e do chá da manhã
do banho de sol na relva
que orgânico fazia recordar
o almoço impressionista de ontem
qual quadro água ou sensualidade
era de gata a felina surpresa.

Com tudo metido no tempo
de porta aberta ao mundo
dos olhos do fogo até às cinzas
da gata com bigodes de tia
que não acreditava nos olhos
na demência daqueles dois
dizia ao que nós chegámos.

A fava roçava as dobradiças
o pêlo o lacrado do corredor
encostava as patas ao azulejo
a servir de travão de mão
não fosse o vento desalmado
fechar a porta por dentro.

Contra a inércia em movimento
parecia ser a voz da mãe
- já era assim no meu tempo filha
e era tão bom tão bom
quem me dera estar ainda aí
onde há búzios de todas as idades
de todos gostos de todas as cores.

SÃO ILHAS DE PEDRA





“Deitada és uma ilha que percorro”
David Mourão-Ferreira

NA SOMBRA INCOMPLETA DA MÃO




Clara a mão descia segura
de microfone pela encosta
laboriosamente torneada
como se um objecto vitorioso
que se aproxima às escuras
da electricidade verdejante
antes do concerto adiado
sabendo bem o que queria
mas ninguém a entendia.

Talvez um troféu ou um espelho
um fruto reflectido
na secura líquida da água
que refrescante seria farta
se no último sinal não se enganasse
e na ravina caisse desamparada.
Ao fundo caminhava o rio
que para surpresa de muitos
escondia do sol a própria luz
na sombra incompleta da mão.

Ali onde toda a liberdade
provinha apenas de olhares comuns
de festas e carícias vulgares
a mim também a nada sabia.
A mão morena essa repousou tranquila
na palpitação escorregadía
entre as baixas margens do leito.

REGRESSOU À ILHA DE PEDRA




Marítima regressou alongada
com as águas salgadas do Adriático
onde os peixes em cardumes
apreciadores das coisas boas da vida
gostavam de vir nadar para perto da praia.

Regressou à ilha de pedra dura
onde a poesia com odor e paladar
se aloura em rodelas de cebolada
se envolve plasticina de vastidão
e se acomoda à pele mais próxima
da entrada escondida das rosas.
Por vezes de gelatina em repouso
sem estar livre das melhores surpresas.

Regressámos com os pedreiros
ao nosso amor erguido na pedra
no entardecer do planalto tardío
por detrás do véu leve da álgebra
ao sítio onde é costume passar a noite.
Pedra que ainda aqui estará
quando nós já cá não estivermos.

BOCA SALGADA LÁBIOS DE MAR




Boca de mar lábios salgados
que não permitem a livre-circulação
aos abelhudos caranguejos
que provam o vinho para iludir o sono.
Boca salgada que se oferece
como uma concha quase preta
e um búzio meio-cozido a abrir-se.

Beijo comum do mar beijo salgado
que faz bem à saúde e ao coração.
Que acerta no número da sua porta
quando meu amor de pedra
já não sabia das sombras dos lábios
na olaria do sorriso perfeito
que moldavam os meus dedos.

Os mesmos que esmagavam azeitonas
espalhavam o azeite pelo tabuleiro
do peito na travessia das costas
com amoras pretas porque os ventos
e as marés sempre me levaram
exactamente para onde eu queria ir.
Boca salgada lábios de mar.

NO SOPRO DE VIDRO




Quando concentrado no gelo
e no paraquedismo dos sábados
subiram o muro pintado de branco
e nem se queixaram do prego
que deixou um buraco nas calças
e um rasgão de sangue no joelho.

Com evidente coragem me lançei
sem asas diurnas de morcego
sobre o colchão macio de molas.
Sentia-me empurrado pelo medo
pela determinação do mundo.

Que acabariam por te encontrar
seguro de te rodearem de palavras
para me envolver com a tua liberdade
para sempre desde a primeira hora.

Juntar desejos e alguns sonhos
no sopro de vidro da noite
que são apenas os teus lábios finos
vestidos com roupas lavadas
a darem forma ao nosso amor.

PELO TEU CORPO ATÉ ÀS FALÉSIAS




Contador de histórias incompletas
que recolho nos sorrisos dos outros
como fotógrafo de olhar furtivo
na aventura de uma impressão apenas.

Prefiro ler nos teus ombros
interpretar os contornos da penumbra
dizer que é nas descidas acentuadas
pelo teu corpo até às falésias
a costa abrupta e definitiva do prazer
que gosto de me perder de cansaço.

As palavras ficam em silêncio
na margem insegura
que antecede as águas fundas
sobre as quais a cidade eu
e tu estamos suspensos da chuva
nos edíficios que não construímos.

Notícias do cais ao abrigo das vagas
que cedeu com a última tempestade
e se tornou perigoso quaseimune
para o telemóvel da bondade.

HAVIA UM NAVIO PARADO





Havia uma boca de pedra macia
aberta ao sol da erosão
e uma ilha de pedra picada
para provar antes da degustação.

Havia um navio parado
afundeado ao largo
a mover-se sobre si mesmo
a olho nú à distancia
à espera de coisa nenhuma.

Numa ilha feita de nada
dura só rocha só pedra
vinda não se sabe de onde
estrangeira talvez elevada
pela vontade de deus
pelo desejo vulcânico do fogo.

Um momento intenso assim
como o nosso de ontem
faz prolongar a vida
reescrever na pedra aa alegria.
Repousar na paixão.
Aprofundar a poesia.

AO SOL SALGADO DO SAL



Ao sol salgado do sal luminoso
no prolongamento do gozo guardado
detector dissimulado da ferrugem
e dos metais ancestrais do sonho.

Na previsão contígua da meteorologia
no vinagrete desse forte paladar
da paixão vigilante corpo que incendeia
que afaga e que nos faz renascer.

Dissimulada na ondulação do pó
nas águas da recusa e da entrega
nos nós cegos das cordas e das redes
onde peixe vivo é bom ser pescado.

Ali descansa resguardada na esperança
da dança na vida das tuas gargalhadas
vestidas de sal e tu sorridente ao sol
na pele amor de xisto ardente.

A POESIA NÃO ENTENDIA O SILĒNCIO




A poesia não entendia o silêncio
que aquela hora da manhã
deveria estar longe do pão
e da mesa das metáforas
que no armário tinham acabado.

Próximo do comedor dos pássaros
colocado com muita antecedência
debaixo da velha macieira
para quando gelado o inverno
não oferecer alimentos ao povo.

De tanta fome dissimulada tanta sede
não tinham resistência para mais
era o sono inerte sobre o corpo
até aos limites da quinta
do peso dos olhos sobre os lábios
que chuva cedem contentes
à pressão dos serviços postais.

E vida deslizava da dialéctica
como quem nem escondida
sabia caminhar nua na poesia
mas permitia à água potável
na mina de sal no céu do seu corpo
aberto para fazer crescer o desejo
e aumentar intensamente o silêncio do fogo.

BOA GENTE COMO SEMPRE




Quando amanhã como no ano passado
o outono preguiçoso se atrasar
malandro e brincalhão com aquele sorriso
explicar o que só pode não ser verdade.

De ter tropeçado num balde de zinco
tombado no meio das sombras
caído em cheio no barril de carvalho
quase ter morrido afogado
e ainda se sentir um pouco tonto.

Tu vais acreditar como aconteceu
quando a primavera de tão ousada
na acidez do vinagre de Modena
se meteu cuidadosamente
a fundo no meio do teu corpo.

Quase sem dor segundo se sabe
garantindo que só assim
poderia atravessar a ponte.
Para chegar até nós à beira da estrada
a vender ilusões e paises inxistentes
disfarçados de vendedores de melancias.

Certo é que se tu chegares
em primeiro lugar deitas-te e ficas
à espera que o céu desta vez ainda mais baixo
faça que não sabe que as outras árvores
não estão a ver e eu te abrace intensamente
e te transforme em basalto.

Como canta comovido o povo crente
boa gente como sempre
que acredita em tudo e se deixa levar
pelas falas mansas dos cantores.

SĂO ILHAS COM MUITA HISTÓRIA




São ilhas de pedra com muita história
caminhos de acácias e figueiras
os repolhos e os pimentões do mercado de Rovinj
que me fazem lembrar outras paragens
outros momentos de amor, diferentes do nosso.

O mundo finito ou é de deus
ou então não é de ninguêm
seja imperador regente ou regedor
sejam mercadores templários ou salteadores.

Aquele fazer que anda com camelos calmeirões
que vinham horas a fio quilómetros sem fim
não passava de um engano
para aguçar o apetite europeu
em Florença Génova ou Veneza
- se fosse agora eu tambêm queria.

Por essas rotas de seda
que até pêssegos e ameixas traziam
para aumentar a tentação da superfície lisa.

Por debaixo da seda até os sapatos
condiziam com a blusa azul-turquesa
da água mais funda dos teus olhos.
Muito para lá da Turquia
muito para cá do horizonte.

Ilsa mesmo longe de Casablanca
repete assim a preto e branco
esse beijo despedida de todos os beijos.

Do disfarçe e contra-espionagem
da paixão em tempos de guerra
no tempo de Rick não ficar em terra
de voar contigo e nunca mais te deixar
com as lágrimas do mundo nos teus olhos.

PRÓXIMA AVENTURA DIURNA





“Eu escrevo versos ao meio-dia”
António Ramos Rosa

PARA A CIDADE NÃO ADORMECER



Haverá um dia bem sei
em que partirei de vez
e no meu coração quase seco
em mim tu partirás comigo.

Não sei se será logo na manhã
das horas refrescantes da maresia
se será pelas horas quentes
do meio-dia da vida lá fora
ou no interior da casa alugada.

Se será na calmia da noite
depois do trabalho o banho tomado
dos filhos todos na cama
as janelas abertas ao prazer
a falar em voz baixa
para a cidade não adormecer.

Haverá meu amor um dia
mesmo que não queira
em que terei de partir dizer adeus
e na ilusão virás comigo
nos recibos já pagos do sonho
que cresceu nas nossas mãos.
O último, o nosso primeiro património.