quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Com a barriga a dar horas

 

Com as saias sem princípio e os decotes sem fim 

em pelota nadava de costas como se estivesse vestida

no rio traiçoeiro sem ter tempo para mais nada 

de tocar bandolim ou partilhar com ele o camarim.

 

Do Nicola aos cafés Delta com Bocage pelo meio 

numa rua pouco iluminada na terra do carapau 

àquela hora era um risco um perigo andar sozinho 

podia-se ser atacado por dá cá aquela palha.

 

Chegava da oficina com a barriga a dar horas 

ao restaurante da tia e pedia um prego no pão 

um parafuso panado no prato e facas afiadas

a saudade faz mal à saúde, mas faz bem ao coração.

 

Aprendeu a tocar um grande instrumento de sopro 

mas não lhe ensinaram que não se deve cuspir na sopa.

Depois de uns momentos de com os olhos partir pedra 

sem nada dizer puxamos o carapuço, rimos às gargalhadas 

e para fecharmos a noite pedimos uma última caneca.


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