sábado, 3 de dezembro de 2016

OUTONO DAS PALAVRAS



A palavra é tudo o que temos. (Samuel Beckett)
”N’étre pas écouté, ce n’est pas une raison pour se taire”. (Victor Hugo)




Pedro Assis Coimbra (2014 - 2016)
 (do projecto: As Palavras Continuam)

1. GEOMETRIA DAS PALAVRAS

1. Tarde de Outono



Durante semanas estive a selecionar. Num dia de inverno
de muito frio lá fora decidi que o que não tinha passado
no exame iria servir de acendalha para o fogão de sala.

Foi assim que quase ¾ das minhas palavras, escritas
entre 1975-1987 desde esse dia rimam com as suas cinzas.
Hoje tenho pena, mas o caminho é andar para a frente.

Caminhava por Paris numa bela tarde de outono
e lembrei-me, pensava na força das palavras,
que de quando em quando me inundam e só sobrevivo
e continuo por aqui porque me deixo ir na corrente.


2. Margens do rio


Dizem que tudo terá começado
na pedra miúda das margens do rio
que acolhia a cidade da migração
– património imparcial da felicidade –
esse desígnio colectivo de realizar o destino.

Sonho que continuou a crescer
no quarto da pensão da sua conspiração.
Cabeça e coração ao alto por favor.
Muito cuidado com a dimensão do sonho!

Ao caminhar pelas ruas do interior da cidade
o seu andar de comércio retalhista de promoção
era embrulhado em pecado o feitiço da inovação.
- Pecador consumindo pacientemente o perdão.


3. Pescar camarão



Pela portaria micro reguladora
de identificação exacta do escritório
preso, o colorido cartão magnético

em rédea curta das calças ajustadas
pendia, milimetricamente do cinto
até ao postigo secreto da sedução.

Não era a malha perfeita de pescar camarão
nem uma carrinha com serviço de caixa-aberta.
Não era mulher de papel azul de 25 linhas
nem a padaria que no forno cozia chouriço no pão.

Comida feita por encomenda e de levar para fora.
Ela deitada na praia com as costas viradas ao céu
sem perigo nenhum de se magoar, a areia era macia
e a cestinha redonda da merenda esperava a sua hora.


4. Cartografia

”O tempo leva tudo, até mesmo a memória” (Virgílio)

No mapa mundi do poder
a geometria privada das águas
trazia até nós as palavras
a narrativa anunciada do anoitecer.

Chegava abrindo a porta toda à luz mediana
que ali fazia lembrar o seu sorriso de filigrana
aquele momento de ternura levantado da lama
o amor de vidro partido pelo triste telegrama.

Descia como quem fica - com a má-fama.
Esticando o corpo - a espaços a alma.
Tropeçando na pedra - caindo na cama.
Um sorriso leve de noite feliz - tão calma.

Cartografia do luto: chegará o dia minha flor
que até o amor mais profundo morrerá de dor.


5. Açafrão e algodão



"Ne te courbe que pour aimer. Si tu meurs, tu aimes encore."
René Char


A ponte muito antiga na aventura da descoberta.
Um aeroporto que ficava no caminho do coração.
A mão deslizando por debaixo da roupa clara.

Recordando imaginava os dois beijos de museu
a primeira viagem de comboio pela capital vizinha
feita de autocarro na voz inesperada duma guitarra.

No transfer para o hotel como as tuas nádegas cediam
aos avanços açafrão dos meus dedos de algodão.
Os teus lábios que foram feitos à medida dos meus.
Foi no domingo à tarde depois de uma noite sem fim.


6. Inspiração



De dia era mulher vestida de sexta-feira
que da degustação sabia a fim-de-semana.
Na hora de se acomodar no sofá e deixar
a água morna do rio subir as margens
inundar a terra limpar a pedra saciar o fogo.

Ninguém se despia como ela, parecia saída de novela
pintada de azul cor de vitral, desenhada na janela.
Para motor estimular, acelerar a circulação do sangue
deitava-se sem pijama e fazia estar a morrer de sono.

Do princípio ao fim do baile, da visita breve da tarde
dá-me alento amor quero-te afável, feita inspiração
enfeitada assim, promessa em botão do nosso jardim.


7. Colinas impressionistas


A estrada sinuosa era a do seu torso
com as linhas curvas muito acentuadas
colinas que pareciam impressionistas.
A obra prima da terra dos meus dedos
a seara feitiço das margaridas do corpo.

No mar, a pedra do sol que estava situada
no meridiano conciso das escadas rolantes
a norte do metropolitano do meu coração.
Ocidente dos teus olhos agora ausentes.

Que bom seria sem pressa degustar
os lábios rosa luar da noite mais bela
da rainha nocturna desse mar por inventar.
- Voltar ali nunca mais se não for com ela.


8. Laranjas



Em tempos de prosa difícil de não se ser triste
das guerras, alimento os teus lábios são o aconchego  
o refúgio que existe para a minha alma em riste.

As laranjas que eu não apanhei
das laranjeiras públicas das avenidas
da primeira noite partilhada da festa.
Nos bolsos trouxe para recordação, as cascas
das tangerinas sumarentas do teu peito.

Bailarina aquela taça de vinho tinto maduro
tinha exactamente, como estava sentada, a forma
os claros contornos do vidro soprado do teu corpo.


9. Geografia e magia



"Plaisir d'amour ne dure qu'un instant
Chagrin d'amour dure toute la vie."
Jean-Pierre Claris de Florian

Imagina que foi em Paris que soube
que pedra o tempo tinha passado
que frio na alma já não contava mais
que a Noite afinal já não seduzia.

A água do rio não fervia no olhar.
A laranja não se descascava à mão.
A papoila que para nós eu inventei
já não se queria destacar da multidão.

Não havia no quarto nada da nossa geografia.
Para ti já não tinha nem um dedo de magia.




2. PALAVRAS PERFUMES E FLORES

1. Mythos & Jasmim



Ali o Mythos bebe-se a copo bem frio
na terra onde inventaram o mito
a mitologia verdadeira
do jasmim do signatário.

A água é servida ao litro
assim que o povo se senta.
O vinho da casa bebe-se com o prazer
que o polvo e as lulas multiplicam.
Era o tempo das palavras perfumes e flores.

Uma bela cidade com praças pequenas
com gatos pretos moinantes e cães vadios
dormindo ao sol antes de se fazerem à vida
com grinaldas brancas e malmequeres na lapela.
Coroas de oliveira para oferecerem às amadas.


2. Rosa Vermelha



Foi no bar da equação da sede no cais do regresso
que se tinha espalhado sobre as mesas corridas
fruto da adesão ao perfume feminino da ficção.

Para identificação decorado a barriga das pernas
à espera dos heróis do povo e outros que não eram
servindo bebidas e outras entradas de boas-vindas.

Despedindo-se no silêncio da noite se despe
do preçário livre em moedas, a rosa como carinho
deixando florida a alma vermelha na roupa que veste.
As curvas húmidas pela alameda do caminho.

Tanto rima tanto mistério tanta blusa de vénus
tanto desejo louco por explodir por se derreter
até roupa nenhuma até Tebas do culto perdido.
O declínio do mito-pecado que povos faz viver.


3. Anis



Era um carro em viagem pelo fundo azul da tarde.
Atento olhava redondas as belas pernas do tabelier.
As coxas lisas, mármore que do sol no vidro arde.
Com as nádegas de couro. A ponte perfeita do prazer.

Umbigo em grão. Sal grosso. Anis a pulseira no pé.
Fonte eterna dos acessórios de veludo. Design de agosto.
A poente, disfarçada de nascente sorria para o café.
Fazia como que estivesse comigo. Preparava o mosto.

Uma mão de dádiva e de entrega absoluta
pela mesa do repasto da sobremesa surpresa
que tinham apalavrado de manhã ao telefone
enquanto da discrição acariciava o microfone.


4. Junquilho



Nesse lugar o sotaque grego do mar
permitia até acreditar no milagre
na liberdade que educava a ser livre

que persistente semeava a diversidade
que iluminava os navios solidários.
Ilusão não passava de conversa de mercador.

Nem tu Atenas sobreviveste à força das armas
às pedras da história inquisidora de sentido único
às poeiras obrigatórias da erosão do ferro.

Hoje junquilho tu-nossa-minha flor
sobeja a dor no que falta em amor
em Lesbos na ilha que foi de Safo
no verão frio da nossa vergonha.


5. Acácias



Os rios gordos das acácias negras do mundo
que de longe nos trazem madrugada fora
que remos de barco nos levam vida dentro.
Sedentos da luz do corpo que o sono ignora.

Escrever na mesa, escrever-te a pão de milho
por entre imagens que ficaram por arrumar
dos nossos pequenos almoços tomados a correr
- que resistem cada dia cada ano cada inverno.

Palavra que a vida não nos deixa adormecer!
- Palavras que nos levam ao fundo do prazer.


6. Casa das Rosas



Da ornamentação, da ternura sem ostentação
o amor que em capítulos escreviam
era tão forte como a argamassa delicada

que fazia da humidade, da entrega das bocas
a cola-tudo do livro da memória, do presente
que nenhum deus ou inimigo poderia separar.

Café-pedra-de-fim-de-estação-das-chuvas
cozinha e fogão, festa e colete de salvação
a casa das rosas que por gosto devasssas.

Especialista reconhecido pelos mercados
de transformar a saudade em noites brancas
sem sombras nem escuridão sem negaças.


7. Begónia



Nem harpas de silêncio pétalas e janelas verdes
a magia das palavras que plantando regavam.
A begónia altiva da multiplicação intensa do sonho
que da idade, crescia livre nos subúrbios da cidade.

A avioneta parada no ar à espera do vento sul
carregado de promessas para a próxima primavera.
Cozinheira de avental bordado com ramos de flores
como quem diz: não tenho mais nada sobre a pele.

Tão bom saber e repetir até ao último dia em flor
que deusa intocável a lua nova está escondida
no cacifo individual do banho turco que nas traseiras
faz esquina, com a porta de entrada do nosso amor.


8. Lírio-de-chuva



Adorava o café do alvor pelo filtro dos teus lábios
calçar os sapatos vestir as calças beijar-te os olhos.
Chegava a praia e entregava-se ao jogo da água fria.
- A saudação das mãos diziam tudo da nossa alegria.

Eram os movimentos cada vez mais lentos
lírio-de-chuva no verão de meses e olhares demorados.
Como eu gostava de espalhar cremes de outrora
pela longitude horizontal pelo sal da tua sombra.

Quero-te no bolso mais pequeno da vida
sem escolha de palavras que sirvam de álibi
na festa ao ar livre, da rosa no chão estendida.
- Todos os vestidos da poesia estão feitos para ti.


9. Dália vermelha



Licor passeia a sonolência secreta da beleza
pela passadeira da praia, a bela dália vermelha.
Preguiçosa espraiava-se pela marginal da vida
e comigo pelo intenso baixo-relevo do desejo.

Deslumbrante com as palavras perdidas no seu peito.
Os teus olhos de terra castanha marcavam o ritmo
o ritual do fogo que finalmente me levava ao sonho.
Água perfumada figueira a arder. Era a vez do prazer.

No porto próximo da autonomia conquistada do sonho
o vento acentuava a demarcação das colinas
a luz revelava o relevo lunar das praças do teu país.
Voltarei a escrever feliz que foi contigo que adormeci.